Eu, Eu Mesmo & Noel

Birgit Fuss Publicado em 17/10/2011, às 18h41 - Atualizado em 02/05/2012, às 20h27

Noel Gallagher fala sobre o fim do Oasis, do vício em compor e sobre não sentir falta nenhuma da convivência com o irmão e desafeto, Liam

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O homem que escreveu os maiores sucessos do Oasis está de volta aos palcos, com um projeto solo em que fez tudo do jeito que sempre quis: Noel Gallagher fala sobre o fim do Oasis, do vício em compor e sobre não sentir falta nenhuma da convivência com o irmão e desafeto, Liam

Noel Gallagher entra no refinado hotel Landmark, em Londres, usando uma jaqueta de couro surrado e calça jeans velha. Ele não se deu ao trabalho de passar a camisa para comparecer às entrevistas que dará hoje. Há 15 anos, o Oasis quebrava tudo, mas hoje Noel apenas pede um cappuccino e se senta bem comportado. O cenário parece ser o de sempre: Noel fala de um novo álbum, do mesmo jeito que tem feito a cada três anos da última década. Em seu escritório, que fica logo na esquina, ainda há pôsteres de turnê do Oasis e discos de ouro nas paredes dos banheiros. O tempo parece paralisado. Mas, desde 28 de agosto de 2009, nada é como costumava ser.

O selo de Noel hoje se chama Sour Mash, e o álbum que vai ser lançado no dia 17 de outubro é Noel Gallagher’s High Flying Birds. O Oasis – a maior banda do britpop das últimas décadas – virou história. Em uma entrevista coletiva em julho, Noel explicou de uma vez por todas como a separação final de seu irmão mais novo, Liam, ocorreu – para que não precisasse repetir a história novamente. Primeiro, o vocalista jogou uma ameixa (!) nele, depois o atacou com uma guitarra. Foi aí que o irmão mais velho, que já tinha se transformado em um sujeito bem pacífico, achou que havia chegado ao limite. Ele foi embora. Não revidou as ações de Liam, apenas foi para o carro. Ficou lá sentado por cinco minutos e então declarou o fim do Oasis.

Você pode até pensar que é esperteza Noel pintar um quadro de si mesmo como o irmão mais velho sábio que não agüentava mais as agressões constantes. Mas essa pode muito bem ser a verdade. Liam seguiu em frente e formou o Beady Eye (que toca no Brasil em novembro, no festival Planeta Terra) com os outros integrantes do Oasis e lançou o álbum Different Gear, Still Speeding em fevereiro, enquanto o outro Gallagher ficou na dele. Noel primeiro precisou achar novos músicos, depois gravou um álbum em Los Angeles. Nas entrelinhas, dá para sentir que ele ficou magoado pelo fato de os outros integrantes do Oasis não terem tomado seu partido. Andy Bell, o baixista, só ficou olhando para os sapatos enquanto Liam enlouquecia. Fora isso, Noel não tem absolutamente nada de ruim a dizer a respeito do Beady Eye.

O ambiente já é conhecido: mesmo escritório, mesmo hotel para entrevista, mesmo empresário. Você nunca pensou em mudar tudo depois do fim do Oasis?

Não! Por quê? Eu já tenho bastante coisa para dar conta com a banda nova. Não preciso de um empresário novo nem nada do tipo. Estes são meus amigos. Aliás, estou com as mesmas pessoas há quase 20 anos. Eu detesto mudanças. Eu sou teimoso, e sou antiquado. Algumas pessoas gostam de mudanças, mas eu não sou assim. Uso a mesma calça jeans durante dez anos, até que ela se desintegre. Tenho o mesmo corte de cabelo há anos. Eu não sou uma dessas pessoas que mudam o visual ou o jeito de encarar a vida o tempo todo.

Quanto mais se usa uma roupa, mais confortável ela fica.

Exatamente! Mudança é uma merda. Mudança é ótima quando se é novo, não é quando se é velho.

Por que você permaneceu tão discreto por tanto tempo? Não tinha vontade de gritar: ‘Estou preparando um projeto novo!’?

Não. Porque eu não me sinto inseguro. Eu sabia que isto iria acontecer. O nosso empresário é o mesmo, e os últimos meses foram para o Beady Eye. Os próximos serão para o High Flying Birds. Não adianta nada fazer duas coisas ao mesmo tempo. E eu não estava lá parado, só pensando: “Preciso dizer ao mundo que sou brilhante”. Estou cagando, de verdade. Eu estava fazendo um disco. Não preciso informar ao mundo todo o que eu estou fazendo. Um pouco de mistério é bom.

Antes de entrar em estúdio, você passou um ano mudando de casa e teve mais um filho. Esse tipo de coisa realmente preenche os seus dias?

Quando eu tiro dois anos de folga, não coloco o violão no estojo, escondo embaixo da cama e nunca mais olho para ele. Eu componho o tempo todo. E, quando digo o tempo todo, não quer dizer que eu escreva todos os dias, mas toco violão em casa todos os dias. Todos os dias eu dedilho um pouco e alguma coisa sai. Daí, vou fazer uma música. Pode demorar uma semana, pode demorar três meses ou um ano, mas eu estou sempre escrevendo. Então, apesar de eu ter mudado de casa, de ter me casado, de ter um filho e tudo o mais, eu continuei trabalhando.


Quando chegou na hora de escolher músicos para tocar com você, o que foi mais importante: habilidade ou personalidade?

[Risos] Bom, eu não pedi para ninguém se juntar a mim. Eu meio que fiquei esperando as pessoas pedirem. Eu poderia ter ligado para uma centena de bandas e roubar um guitarrista daqui, um baixista dali e assim por diante. Mas isso não é muito simpático, sabe como é? Então, eu pensei: só vou ficar esperando até falarem comigo. E as pessoas que ligaram são todas amigas, eu as conheço há muito tempo. Algumas, há 15 anos.

Então, quem está na banda são as pessoas que não tiveram medo de lhe pedir?

É, se você quiser colocar as coisas desse modo. Mas eu não sou assim tão assustador. Simplesmente não fiz nenhuma audição... Nós não parecemos uma banda, só somos um monte de caras juntos. Mas, bom, The High Flying Birds sou eu, não é uma banda. Talvez, daqui a alguns anos, uma formação se estabeleça, e daí não vai mais ser Noel Gallagher’s High Flying Birds, mas apenas High Flying Birds. Vai saber.

Ou só Noel Gallagher.

Não. Isso seria um pouco chato, não acha? De todo modo, eu toquei a maior parte dos instrumentos no álbum, tirando a bateria e o teclado. O resto todo eu toquei. Com o tempo, pode ser que eu tenha uma formação que é uma “banda banda” de verdade, mas não vou correr atrás disso nem sair à caça. Se acontecer, aconteceu – maravilha. Senão, sempre tem o bom e velho eu para tocar violão. Ainda sou capaz de fazer isso. Posso sentar em um banquinho, só eu e o meu violão, na frente de mil pessoas, e para mim está bom. Ou posso estar em uma banda e tocar guitarra como quando eu estava no Oasis, e para mim está bom. Tudo bem, eu não me animo tanto em ser o líder de uma banda, não sei bem se vou gostar disso. Mas não me sinto inseguro em relação a isso. Provavelmente vai ser bom. E o disco é bom, e isso é o principal.

Qual deve ser o tamanho do som criado por um único indivíduo?

Cada vez que componho uma música, toco no meu violão. E, quando estou no estúdio, tento fazer com que soe o melhor possível. Eu sei que as minhas músicas têm refrãos monstruosos, e posso tocar todas elas no meu violão, e vão soar com a mesma força. Acho que, se fosse só eu e o violão, as pessoas iam querer ouvir ainda mais. Mas eu gosto de coisas que soam grandiosas. Cinemáticas. Visuais.

Foi por isso que você voltou a trabalhar com Dave Sardy como produtor?

Nós nos conhecemos e realmente nos damos bem. Ele é um bom amigo. Ele gosta do que eu faço. E quando você trabalha com uma pessoa que gosta do que você faz, então ela se esforça ao máximo. Eu gosto das ideias de Dave, ele é engraçado e mora em Los Angeles, então preciso ir para lá para gravar. Em resumo: ele é bom pra caralho no que faz. Eu não me vejo sem fazer outro álbum com ele. Ele me deixa à vontade. Eu fui o coprodutor, fiz boa parte do trabalho na Inglaterra, por conta própria. Mas é necessário alguém que entre no meio para dizer o que está ótimo e o que não está. Porque, para ser bem sincero, se eu ficar aqui batendo na mesa com uma colher e cantando “Everybody’s on the Run”, eu vou achar fantástico, porque é a minha música. “Caralho, é demais!” É preciso alguém para recuar um passo e olhar de longe.

Você mencionou Los Angeles...

Eu adoro esse lugar! Eu odiei, de verdade, na primeira vez que estive lá. Era como se houvesse alguém dizendo “shhh!” o tempo todo. Eu pensei: “Caralho, vá se foder!” Assim que completei 35 anos, eu pensei: “Ah! Entendi!” Agora eu gosto de ficar quieto. Eu gosto de “shhh!” E acho que, quanto mais velho fico, mais concordo com o estilo de vida e com o sol e com as palmeiras, ao passo que, quando estava na casa dos 20, preferia Nova York muito mais. Eu consigo me enxergar morando em Los Angeles em algum momento da vida. E as pessoas são tão simpáticas. E elas adoram os ingleses! Nada pode substituir a história que temos na Europa. O prédio mais velho dos Estados Unidos tem uns 50 anos, porra. Mas, deixando tudo isso de lado... Eu poderia morar lá.


Você também gostou de ficar longe de Londres e das grandes expectativas?

É engraçado: com a internet, você na verdade nunca fica longe de lugar nenhum. Antes da internet, eu podia ir para os Estados Unidos e passar três meses sem ver nenhum jornal. A gente confiava no que nos diziam. Agora, é fácil descobrir o que está acontecendo no seu país, então você nunca está longe de verdade. Eu não senti falta do clima, porque o clima é uma merda! Mas quando eu preciso trabalhar, eu preciso trabalhar, e não sou muito sentimental a respeito das coisas. Eu não sinto saudade de casa. Entre turnês ou projetos, eu me asseguro de reservar tempo livre suficiente para fazer as coisas que preciso – ter bebês, mudar de casa, casar. Então, quando termino tudo, estou pronto para voltar ao trabalho.

Mas acho que é mais fácil circular pelos Estados Unidos...

É diferente, porque eu posso circular em Londres, mas em Los Angeles a gente precisa de carro. E eu não sei dirigir. Então eu meio que fico parado nas esquinas, pensando: “Caralho, e agora?”

Eu estava pensando no fato de as pessoas o reconhecerem na rua.

Não muito. Não me reconhecem nem em Londres. Quando eu sair daqui hoje, vou caminhando até a estação para pegar o metrô. Vou passar 15 minutos no metrô, vou até o outro lado de Londres e ninguém vai me reconhecer.

Está de brincadeira? Você anda de metrô?

Ando, sim. Quer ver o meu bilhete? Eu não dirijo, e é mais fácil andar de transporte público. O máximo que acontece é alguém pensar: “Hum... esse é o... não, não pode ser...” E se alguém chega e diz: “Você é o Noel Gallagher?” É só responder: “Não. Não”. E a pessoa olha e pensa: “Não é mesmo?” E você só diz: “Não”. E a pessoa vai embora.

Eu não ia conseguir ficar com o rosto impassível.

Mas você não é Noel Gallagher!

Noel dá risada alto, e obviamente ele tem razão. Só existe um Noel Gallagher, e sua reputação sempre o precede. Bem, a estreia solo dele não é exatamente uma estreia propriamente dita. É apenas uma continuação de suas composições com meios diferentes. Mas é o primeiro álbum, depois de anos, somente com faixas compostas por Noel. Algumas pessoas o acusaram de guardar suas melhores ideias para si durante muito tempo, mas ele não quer nem escutar as críticas: “Eu não estava planejando nada disso. Sempre tentei fazer com que o Oasis fosse o melhor possível. Mas, no Oasis, havia três outros compositores. Se me deixassem escrever todas as músicas dos álbuns, como eu costumava fazer antes, então algumas destas canções estariam nos últimos álbuns do Oasis”. Pelo menos duas, quer dizer: “Stop the Clocks” e “(I Wanna Live in a Dream in My) Record Machine”. Uma banda é um compromisso, Noel afirma, e ele estava disposto a cumprir o acordo. Ainda assim, ele sempre compôs mais do que as cinco faixas que emplacou nos últimos álbuns do Oasis – cerca de 30. “Mas é preciso entender que eu estava dando músicas para outra pessoa cantar, então tinha a ver com o que ele era capaz de fazer. E, para ser bem sincero, Liam não seria capaz de cantar ‘The Death of You and Me’. Ou ‘If I Had a Gun’. Ou ‘What a Life’. É simples assim.”

Analisar as próprias músicas não é o passatempo preferido de Noel Gallagher. A única coisa que Noel sabia era que o primeiro single não podia ser um sucesso clássico: “Todo mundo sempre volta fazendo estardalhaço. Todo mundo sempre quer esfregar na sua cara o primeiro single. Eu pensei com os meus botões: ‘Não, eu vou voltar dizendo ‘shhhh, escute isto aqui!’ e quando ‘The Death of You and Me’ chegar ao rádio, entre uma porra de um rock do Foo Fighters e a merda da Lady Gaga, as pessoas vão parar para escutar. Porque é tranquilo e suave. E as pessoas vão pensar: ‘Uau, trompetes!’”

Em relação às letras, o que o inspira hoje em dia?

Preciso dizer que, durante muito tempo – basicamente, desde o fim de Morning Glory [1995] até o início de Don’t Believe the Truth [2005] –, eu não tinha muito sobre que escrever. Em Standing on the Shoulder of Giants [2000], algumas letras são ótimas porque vieram de um lugar de verdade em que tudo ao redor estava desmoronando: a Creation Records, meu casamento, a banda, eu estava largando as drogas, blá-bla-blá. Isso foi bom. As letras são boas, as melodias não são muito boas, mas mesmo assim... Tirando isso, eu não tinha nada sobre o que escrever. Então, com Don’t Believe the Truth, eu conheci a minha mulher, me apaixonei e senti como é isso novamente. Então... não estou escrevendo sobre eu e ela, mas sim sobre a ideia do amor juvenil. É a mesma coisa com Definitely Maybe [1994]: nós não queremos estar aqui, queremos estar em outro lugar. O tema deste álbum de agora é o seguinte: começa com “Everybody’s on the Run” e alguém que diz “vamos sair daqui, porra, vamos embora”. E então é uma jornada: você depara com “(Stranded on) The Wrong Beach” quando chega ao lugar que achava que seria fantástico, mas não é. E percebe que talvez o lugar em que você estava antes, para começo de conversa, na verdade era muito legal. E é sobre isso que “Stop the Clocks” fala: simplesmente dar uma reviravolta total na vida e voltar para o lugar de onde saiu. É por isso que no fim – com toda a loucura – dá para visualizar tudo voltando para trás, e então “Everybody’s on the Run” entra de novo. É meio que um conceito. Um pouco parecido com Dark Side of the Moon [risos].


É o álbum mais visual que eu já fiz. Essa é outra coisa esquisita, nunca fiz isso antes: quando entrei em estúdio, não tinha nenhuma letra. Estavam todas aqui [aponta para a cabeça]. Eu tinha composto todas, mas não tinha anotado em lugar nenhum. Só me lembrava delas. Tomei isso como sinal de que deveriam ser boas! Quando finalmente as escrevi, quando precisei mandar para o escritório por questões legais, eu percebi que cada um dos versos era bem visual, cada frase era como uma cena de um filme. Eu fiquei tipo: “Caralho. Eu estou assistindo a TV ou é ela que está assistindo a mim? Foi isso mesmo que eu cantei? Incrível, do caralho!” Essas letras vêm de um lugar de verdade.

Parece haver uma urgência neste álbum que ficou faltando nos últimos trabalhos do Oasis.

Bom, eu posso fazer o que eu quiser com estas músicas. Mas, quando se está em uma banda, você sempre precisa deixar outra pessoa tocar o baixo ou algo assim. Agora, eu posso tocar tudo. Com o Oasis, eu escrevia uma música, eu escrevia a letra e eu tocava uma guitarra. Maravilha, eu adorava pra caralho, ainda queria estar naquela banda. Mas, aqui, eu escrevi a música e a letra, eu posso cantar e posso entregar a história e a emoção, e posso tocar as guitarras e também o baixo. Posso elaborar um quadro melhor. Você é casada?

Sou.

Então, quando se é casado, é igual a estar em uma banda. Quando se é casado, quem decora a casa? A mulher. Mas, quando se está solteiro, você decora a sua casa. Pode fazer do jeito que quiser. Agora, a casa em que eu moro é linda pra caralho, mas eu gostaria de colocar mais aparelhos de TV nela. E coisas de menino. Então, para mim, este álbum é igual a um apartamento de solteiro: tudo que eu sempre quis fazer, eu fiz. O baixo é tão barulhento quanto eu quis que fosse. Os vocais são tranquilos, não gosto de vocais barulhentos. E tem uma faixa no estilo disco. E uma faixa que soa como se tivesse sido gravada em Nova Orleans, tudo no mesmo álbum. E não preciso explicar nada a ninguém.

Ao longo do caminho, Noel Gallagher também gravou outro álbum, com a dupla de eletrônica Amorphous Androgynous, previsto para 2012. Noel não está disposto a revelar o título por enquanto, mas explica a ideia por trás do projeto: ele tinha 38 músicas quando começou a gravar sua estreia solo. Sua intenção era lançar dois álbuns agora com um monte de faixas-bônus e lados B – e depois os próximos álbuns teriam de ser completamente novos. Não iria sobrar nada, não haveria nada a ser reciclado. Ele escreveu algumas músicas desde que terminou High Flying Birds, mas fica contente por não haver mais canções velhas largadas por aí. “Nunca dá para seguir em frente de verdade, você fica recorrendo ao passado. Pode ser um passo de camicase, porque talvez eu nunca mais escreva dez músicas ótimas. Mas eu pensei: ‘Que se dane, eu já tive sucesso no Oasis, já tive toda essa merda’. E é como eu disse: não sou inseguro. Se eu nunca mais gravar um disco depois deste, não ligo. Mas não acho que vai ser assim. Talvez eu não faça outro tão bom quanto este. Isto é certeza. Álbuns como este não acontecem assim com tanta frequência para mim.”

Mas como vai ser o álbum com o Amorphous? Vai soar como Noel, claro. Ele canta e toca, mas para isso teve que se acostumar com a ética de trabalho bizarra de Gaz Cobain, a mente por trás do Amorphous. Um exemplo: ele pegou o vocal de “Soldier Boys and Jesus Freaks”, desprezou todo o resto e fez Noel recomeçar do zero. Agora a faixa tem oito minutos em vez de três e meio. “Não é dance music, não é eletrônico. É só a maior viagem”, Noel diz.

Quando você escreve músicas em casa, as crianças não atrapalham?

Ah, atrapalham, sim, o tempo todo. Caralho, eu tenho três filhos! Não dá para trancar a porta, eles me encontram de qualquer jeito. Eu já tive estúdio em casa mais de uma vez, mas acho que é contraproducente. Eu percebia que nunca fazia nada, só ficava enrolando. Eu gosto de aproveitar um momento aqui e ali, penso: “Ah, são só dez minutos, vou tocar um pouco de violão, ver se sai alguma coisa”. Eu sei na hora se algo é ótimo. Dá para transformar uma música mais ou menos em uma boa música. Quando fica maravilhosa, é inspiração de mil por cento. Ou vem ou não vem.


Como você avalia o Oasis neste momento?

O Oasis é um período de muito orgulho na minha vida. Algo que nunca vou voltar a conquistar. E não olho para trás com tristeza. Eu fiz parte de uma das maiores bandas de todos os tempos. Uma das melhores bandas de todos os tempos. Foi maravilhoso. Eu me diverti muito. Pronto, a vida é assim.

Não tem arrependimentos?

Eu gostaria de ter tirado uns dois anos de férias depois [dos shows] de Knebworth [com o Oasis, em 1996, para 250 mil pessoas]. Mas é só isso, mesmo.

Quando nós nos encontramos pela primeira vez, em 2008, eu achava que o Oasis já tinha passado da hora de terminar.

[Risos e suspiros] Eu também, preciso dizer, eu também. Eu não via o meu futuro em nenhum outro lugar, absolutamente. Nunca pensei, nem por uma porra de um minuto, que eu estaria aqui sentado com você, falando de um álbum chamado Noel Gallagher’s High Flying Birds. Nem era um sonho meu, não era nem uma ideia. Mas o que aconteceu, aconteceu. Foi tipo: ‘Caralho, estou saindo’. Era simplesmente irritação demais para mim. E pronto, é só uma dessas coisas da vida.

Naquele momento, em 2009, você já estava pensando no que fazer a seguir?

Eu tinha certeza de que não ia pegar um avião e voltar para casa e entrar de férias. Não tenho a intenção de ser falso nem sarcástico a respeito disso, mas é sério: foi assim. De todo modo, cada vez que eu chegava ao fim de uma turnê do Oasis, nunca havia planos para um álbum novo. Se eu pudesse fazer de novo... Bom, eu simplesmente fiquei cinco minutos sentado no meu carro e pensei: ‘Ah, ele que se foda’. Se eu pudesse fazer o relógio andar para trás agora, eu teria ficado dez minutos no carro, teria voltado, feito o show e o show seguinte, e daí teria ido embora. E, na minha cabeça, depois disso, nós todos poderíamos fazer nossas próprias coisas, e daí... [Pensa] Em 2015, Morning Glory faz 20 anos. Na minha cabeça, já nos vi voltando na ocasião, com um álbum novo, tocando Morning Glory inteiro em estádios no mundo todo, seria a maior coisa que já aconteceu [Limpa a garganta]. Agora, não vai acontecer.

Você se sente seguro como vocalista hoje em dia?

Eu não me vejo como um grande cantor. Eu não sou um grande guitarrista. Eu não sou um grande nada. Falando sério! Mas eu sou bom em várias coisas diferentes. Tem meia dúzia de coisas em que eu sou bom. Quando eu junto todas elas, forma algo que é bom de verdade. No estúdio, eu não penso em como estou cantando. Só canto as músicas que compus. Não quero me colocar no mesmo patamar dessas duas pessoas, mas alguém diz que Bob Dylan é um grande cantor? Não. Alguém diz que Neil Young é um grande cantor? Às vezes. Então, pronto. Eu sou um compositor que canta as próprias músicas, ponto final. Eu olho para o quadro todo. Nunca fiquei no estúdio, pensando: ‘Ah, vou mostrar para essas pessoas’. Eu não sou assim. Não sou assim tão inseguro, porque não acho que tenha algo a provar.

Então você não pensa em revanche, como muita gente anda dizendo?

Eu entendo isso, é uma grande história. Em toda entrevista que dei, é “isto contra o Beady Eye”. Eles são uma banda de rock, se dedicam ao rock and roll – se é que uma coisa dessas existe. E eu sou eu. Não existe competição. As minhas músicas são mais importantes do que isso. Mais importantes do que competição ou vingança ou lugar nas paradas ou qualquer uma dessas merdas. Eu reconheço que, algumas vezes, ao longo dos anos, a posição na parada foi mais importante. Foi aí que a minha composição provavelmente sofreu um pouco, porque eu estava um tanto preocupado demais. Agora, não estou preocupado.


E provavelmente não precisa se preocupar. Você anunciou alguns shows e os ingressos se esgotaram em seis minutos...

É, mas preciso ser honesto: não são shows grandes, são para umas 1.500 pessoas. Falando sério, eu já dei umas festas que tinham mais gente que isso, não vamos nos animar tanto por enquanto. Eu só espero que as pessoas não cheguem para ver um show. Porque não tem show nenhum. Não é igual ao Oasis. Não há luzes piscando nem um cantor que fica lá parado. Eu espero, do fundo do coração, que as músicas sejam suficientes para conduzir a noite até o fim. Se não, então a turnê vai ser bem curta.

Mas esse provavelmente não é o cenário dos seus sonhos.

A única coisa que eu sei que vai acontecer é o seguinte: depois mais ou menos da 12ª apresentação, eu vou estar no camarim suado, fumando um cigarro, e vou estar pensando que “eu sou melhor do que Elvis. Acho que eu sou tão bom quanto Bob Dylan e Neil Young e Elvis, todos fundidos em um. Eu sou brilhante pra caralho”. Ou vou falar assim: “Isto aqui é uma merda, eu odeio esta porra, não aguento mais, quero ir para casa”. É isto que vai acontecer. Vamos ver.

Não tem meio-termo?

Por favor, não queira que eu simplesmente fique aqui sentado e diga: “Tudo bem. Eu não me importo”. Que se foda, isso não faz o menor sentido. Mas o problema é o seguinte: a única coisa que pode me servir de comparação é a banda de onde eu vim. Mas não posso comparar com isso, porque era uma banda de rock única, de grandes estádios. A vantagem que eu tenho é: eu posso tocar “Wonderwall” e “Don’t Look Back in Anger”. Só isso, mais nada. Sempre vai ter uma parte da noite em que, se tudo estiver dando errado, eu posso tocar quatro músicas que são clássicos. Qualquer outra vantagem que você possa pensar que eu tenho será negada pelo fato de que estou tocando com um bando de caras com quem nunca toquei antes. Sabe, no Oasis, nós tocamos juntos durante 20 anos. Nós éramos capazes de fazer a maior merda banal soar maravilhosa, porque todos sabíamos o que os outros estavam fazendo. Nós éramos capazes de fazer covers de músicas que não tínhamos o direito de tocar, como “My Generation” ou “I Am the Walrus”, e as transformávamos em algo nosso.

Já houve algum momento em que você pensou em parar com tudo, completamente?

Depois de cada turnê do Oasis. Mas, daí, seis ou oito meses se passavam e eu compunha alguma coisa ou saía para ver um show de uma banda e pensava: “É, é legal pra caralho, vamos lá fazer alguma coisa”. Eu poderia me aposentar, mas para quê? O que eu faria depois? Ia compor para Adele ou Robbie Williams? Eu sou viciado em escrever música. E, depois que escrevo um monte de músicas, gosto de ir para o estúdio. E daí, quando gasto todo o dinheiro na gravação, sinto que preciso sair para tentar recuperar o dinheiro.

Você não sente saudade do seu irmão? Não do cantor, mas do familiar?

[Longo silêncio. Ele se ajeita na cadeira e cruza os braços. ] Não exatamente. Sou uma pessoa muito fechada. Vamos deixar assim: tenho seis amigos no mundo todo, e, para mim, isso basta. É suficiente. E estou pensando em me livrar de um deles... Não penso sobre o assunto. Eu tenho família. Tenho três filhos e mulher. Para mim, isso basta.

Onde você se vê daqui a cinco anos?

Em 2016? Provavelmente em algum lugar ainda no meio da promoção do 20º aniversário de Morning Glory. Não com o Oasis, devo completar. É uma pergunta difícil de responder. Porque, se alguém tivesse me perguntado isso há cinco anos – acredito que alguém me perguntou isso há cinco anos –, tenho certeza de que eu falaria: “Eu estaria recomeçando tudo mais uma vez aos 44 anos. E teria comprado o meu primeiro computador”.

Normalmente, você não parece ter problemas para encontrar respostas.

Às vezes isso me mete em confusão. Eu ainda não dominei o termo “sem comentários”. Eu sempre tenho que dizer alguma coisa. Não sei por quê. Faz com que o trabalho seja mais fácil. Eu sou capaz de formar uma opinião instantaneamente, falar para você e então ser criticado por causa dela na imprensa britânica. Mas, tudo bem, eu não ligo. Como um astro do rock, ou seja lá qual for o termo, você é obrigado a dizer algo. Senão, vá embora, nós não precisamos de você. É por isso que amamos Morrissey, ou Paul Weller, ou John Lydon: eles têm algo a dizer. Não fique apenas sentado em um sofá, sendo educado e chato. Seja você mesmo.