A Volta do Negro em Movimento

Aos 81 anos, ator e músico Tony Tornado retorna aos palcos ao lado do filho

Leonardo Fuhrmann Publicado em 18/10/2011, às 18h21 - Atualizado em 25/11/2011, às 12h27

GROOVE ELÉTRICO “Minha música não foi feita para tocar no violão”, diz Tornado
RAFAEL KENT

Nos últimos 36 anos, Tony Tornado interpretou diversos personagens em novelas, minisséries e outros programas da Rede Globo, além de fazer participações no cinema. Durante esse período, o lado cantor do artista – que chegou a vencer o Festival Internacional da Canção de 1970, com a música “BR-3” – foi deixado de lado. O último disco que ele lançou é de 1972. Mas o silêncio começou a ser quebrado em 2011. Depois de passar 25 anos sem um show próprio, Tornado, 81, voltou aos palcos, realizando até quatro apresentações por mês.

Tornado admite que estava cansado da carreira de cantor. “Estava meio brochado, desculpe a expressão, dom”, explica, com a gíria típica dos anos 70. Às mágoas daquela época, relacionadas a episódios de racismo e problemas com a ditadura militar, se somou a dificuldade de produção dos dias de hoje. Ele considera que a sua banda ideal teria 18 integrantes, mas chegou a um acordo com os produtores para se apresentar com dez músicos. “Queria ter duas baterias no palco, como o James Brown. Minha música não foi feita para tocar no violão, sentado num banquinho”, ele afirma.

A volta de Tornado aos palcos tem uma razão familiar: ele quer resgatar o som que fazia e apresentar ao público seu filho, Lincoln, como sucessor. Também cantor e ator, Lincoln faz backing vocal em algumas canções do pai e apresenta músicas de seu trabalho próprio. “Acho pretensioso falar em passar o bastão, mas acredito que o meu filho pode manter vivo o soul que a gente abrasileirou nos anos 70”, diz.

Tornado leva aos palcos um som que teve a influência do que ele viu quando assistiu a shows de James Brown e Ray Charles no Apollo Theatre, em Nova York, no fim dos anos 60. Mais do que conhecer o soul, Tornado conviveu com os Panteras Negras no auge da luta dos negros dos Estados Unidos por direitos civis.

Do território norte-americano ele voltou com ideais, ritmo e a amizade de Tim Maia, que também havia passado um tempo no país. Mas depois da temporada estrangeira por vontade própria ele se viu compelido a deixar o Brasil por outras razões, na primeira parte dos anos 70. “São histórias que ainda me machucam”, conta Tornado, sem querer entrar em detalhes. Ele esteve na antiga Tchecoslováquia e passou por Angola na época em que a nação lutava pela independência de Portugal. Em homenagem à luta pela libertação, compôs “Manifesto”, parte do seu repertório atual, que também conta com hits como “Podes Crer, Amizade” e “Bochechuda”, música feita para a ex-vedete Wilza Carla.

Sem aparentar a idade, Tornado garante que a boa forma vem dos exercícios constantes durante a maior parte da vida, fruto da formação militar. O cantor foi paraquedista do Exército Brasileiro e integrou as forças de paz que estiveram no Canal de Suez, no Egito. Depois disso começou carreira de cantor na Rádio Mayrink Veiga, com o nome Tony Checker, e integrou o grupo de música e dança folclórica Brasiliana. Para a disposição, ele tem mais uma explicação: “Nunca fui do movimento negro, sempre fui um negro em movimento”.