O Homem Certo na Hora Certa

Exclusivo: no Brasil pela primeira vez, Ringo Starr conta como aprendeu a usar a ajuda de companheiros famosos

Paulo Terron Publicado em 10/11/2011, às 11h04 - Atualizado às 13h28

<b>EMPURRÃO AMIGÁVEL</b> “Meus amigos me mantiveram seguindo em frente”, diz Ringo

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No começo dos anos 70, tudo parecia complicado para os recém-separados Beatles. Enquanto George Harrison buscava redenção pela espiritualidade, John Lennon lutava pela paz mundial e Paul McCartney voltava ao básico para reencontrar sua música, Ringo Starr apenas tentava descobrir seu lugar ao sol – e com isso talvez tenha sido o Fab Four que foi mais longe em termos de experimentação. Country e standards do jazz passaram pelas baquetas do artista até que ele – ironicamente – encontrasse a solução que buscava exatamente no título de uma das faixas que havia cantado nos Beatles alguns anos antes, “With a Little Help from My Friends” (“com uma ajudinha dos meus amigos”).

Em 1970, os Beatles só existiam em teoria. O derradeiro e caótico Let It Be sairia em maio, depois de anos de produção e brigas entre os músicos. Exatamente por isso os Fab Four já pensavam no futuro. Para Ringo, ele veio com Sentimental Journey – uma reunião de standards como “Night and Day” (Cole Porter) e “Dream” (Johnny Mercer) – e também como o primeiro trabalho solo de alguém do quarteto a chegar às lojas, descontando trilhas sonoras e LPs experimentais. Seis meses depois, o baterista lançava Beaucoups of Blues, indo à raiz da música country em um disco gravado em Nashville, coração caipira do sul dos Estados Unidos. “Liverpool, de onde venho, é um porto. Então os caras da marinha mercante traziam a música nova para a cidade”, explica animadamente Ringo Starr, por telefone, de Los Angeles. “E era como se a cidade fosse a capital britânica da música country. De certa forma, também era assim com o rhythm and blues e o blues, porque o pessoal de 18, 19 anos que trabalhava nos barcos trazia os discos.”

Claro, a sonoridade não era estranha ao músico, que havia cantado “Act Naturally” em Help! (a faixa também acabou no lado B do single “Yesterday”), cinco anos antes. O que era apenas uma referência virou um trabalho completo quando a lenda do country Pete Drake surgiu no caminho. “Estávamos trabalhando no All Thing Must Pass, do George Harrison, e o Pete Drake participaria. Mandei o meu carro buscá-lo no aeroporto, em Londres, e havia várias fitas cassetes de country jogadas nele. Naquele tempo ainda eram fitas!”, diz. “Ele me disse: ‘Reparei que você gosta de country’. Eu disse que amava e ele – o Pete Drake! – disse que deveríamos ir para Nashville e gravar um disco.” E assim foi: com o entusiasmo da dupla, Beaucoups nasceu em apenas dois dias. “Encontrávamos cinco canções pela manhã, depois as gravávamos durante a tarde. No dia seguinte, a mesma coisa.” Mais do que uma aventura, o disco foi uma descoberta. A lista de músicos beira as duas dezenas, com gente como D.J. Fontana (baterista de Elvis Presley) e o gaitista Charlie McCoy (Johnny Cash, Bob Dylan), e uma fórmula seria estabelecida. Ringo, a partir dali, sempre contaria com a ajuda de um time de astros da música em seus álbuns.

“Eu estava por todos os lados”, explica o baterista sobre a atuação dele nos selvagens anos 70. “Foi ótimo: eu tinha um escritório que era tipo um ponto de encontro [para os músicos].” Entre os mais próximos estavam o líder do T. Rex, Marc Bolan (que inspirou “Back Off Boogaloo”, até hoje presente no repertório das turnês de Ringo), e o notoriamente festeiro Harry Nilsson. “Quem estivesse em Londres aparecia por lá. Foi ótimo estar cercado por essas pessoas porque, depois de Beaucoups of Blues e Sentimental Journey, consegui fazer o disco Ringo, que me estabeleceu como artista solo.” Na época, 1973, o álbum frequentou as paradas de sucesso britânica e norte-americana, emplacando dois hits: “You’re Sixteen” (com McCartney no baixo) e “Photograph” (com Harrison, coautor, na guitarra). Nos créditos ainda estavam Lennon, membros da The Band, Bolan, Nilsson e crias das gravadoras de soul Stax (o guitarrista Steve Cropper) e Motown (a cantora Martha Reeves). No meio disso tudo, Ringo Starr ainda dirigiu o documentário Born to Boogie, do T. Rex, que também tinha Elton John no elenco. E a relação com o universo do glam rock não parou por aí: os mais atentos podem encontrar um desinteressado Ringo nos bastidores do show Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, de David Bowie, no filme de D.A Pennebaker. Ou seja, o baterista estava por todos os lados mesmo.

As amizades ajudaram na estabilidade da carreira (e certamente na diversão), mas também penderam para o lado dos excessos. E os problemas foram potencializados pela perda de amigos próximos – Bolan morreu em um acidente automobilístico em 1977; Keith Moon (baterista do The Who) se foi no ano seguinte, vítima de overdose; e Lennon foi assassinado em dezembro de 1980. Em uma nova década e com novas regras sobre como se comportar no mundo da música, Ringo se viu envolto por questões judiciais relativas à dissolução da falida Apple (a gravadora e empresa multifuncional dos Beatles) e dependência de drogas e álcool. O ex-beatle só conseguiu se recuperar em 1988, quando se internou em uma clínica de reabilitação, o primeiro passo para tirar a carreira solo do limbo. No ano seguinte estava de volta à música e, pela primeira vez, tinha formado uma banda para se apresentar ao vivo: a All-Starr Band, baseada naquela ideia de juntar talentos variados que impulsionou a carreira dele quase 20 anos antes. “Todos os meus amigos me mantiveram seguindo em frente”, ele diz, “o que mais tarde resultaria na All-Starr Band.” O grupo faz impressionantes sete shows em seis cidades brasileiras ao longo de novembro.

“Muitos dos ‘all-starrs’ eu nem conhecia antes de ensaiarmos!”, ringo explica. “Por exemplo, na formação mais recente, eu conhecia o [cantor e baixista, famoso pelo grupo Mr. Mister] Richard Page, ele tinha passado pela minha casa para dar um ‘oi’. Outros só conheci quando fomos ensaiar. Eu conhecia as músicas e o trabalho deles, é claro. E é por isso que monto essas bandas: elas servem aos músicos e às canções. Então eles precisam ter hits, é necessário que tenham um disco de sucesso nos últimos 20 anos. Antes disso você não pode tocar na All-Starr Band. Faz parte do conceito.” E assim Ringo Starr se vira, sempre com a ajudinha dos amigos.

Tempos fabulosos

Fato curioso: Ringo Starr é o músico que menos errou nas gravações dos Beatles. Em entrevista à Rolling Stone Brasil, ele explica como conseguiu essa distinção e, sem nostalgia, falou sobre momentos-chave do grupo.

“Boys” é uma música que nunca faltou nos seus shows. Por quê? E é verdade que ela foi registrada em um único take no disco Please Please Me?

Em “Boys” eu canto tocando bateria. Eu já fazia isso na época do Rory Storm and the Hurricanes [antes dos Beatles, no começo dos anos 60] e continuo, porque ela é muito divertida de se tocar. E as pessoas reconhecem a minha imagem enquanto a toco. É uma dessas que toco em todos os shows que faço, gosto de cantá-la em qualquer chance que tenho. Amo essa canção, foi fácil para mim gravá-la. Se você olhar para o primeiro disco dos Beatles, fizemos aquilo tudo em 12 horas. Principalmente porque era [o repertório do] nosso show. Tocávamos “Twist and Shout” todos os dias durante um ano, todas as bandas de Liverpool tocavam essa. Conhecíamos muito bem aquelas músicas.

Talvez “Yellow Submarine” seja uma das músicas mais conhecidas da história dos Beatles. Você consegue explicar esse fenômeno?

[Gargalhando] Os rapazes tiveram essa ideia, e era uma faixa bem hippie. Naqueles tempos nós realmente vivíamos num submarino amarelo... Funcionou bem na época e ainda funciona. Como ela tinha uma característica infantil, fui naturalmente escolhido para cantá-la.

Na época do desenho animado Yellow Submarine, vocês tinham ideia do tamanho da empresa que haviam se tornado?

Não, não fazíamos ideia. Com Yellow Submarine só fizemos a música e tivemos pouquíssimo envolvimento com a realização do filme. Quando fomos assisti-lo na estreia, ficamos tão surpresos quanto o resto da plateia. Achamos maravilhoso! Só cantei as faixas e toquei nelas.

Verdade que você não gosta do disco Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band?

Não é verdade, não mesmo. Amo o Sgt. Pepper, mas gosto mais do Álbum Branco, porque nele estávamos nos comportando mais como uma banda de verdade. O Sgt. Pepper é um trabalho brilhante, mas houve muito tempo ocioso [durante a produção]. É isso que sempre digo. Mas nunca falo mal dele, há momentos e performances incríveis ali... Só foi demorado demais para mim.

Sua performance em “A Day in the Life” é um marco. Ontem mesmo eu estava ouvindo e…

[interrompendo] Qual versão você ouviu? A comum ou a remasterizada?

A remasterizada em mono.

Eu amo as versões remasterizadas porque agora dá para ouvir a bateria! Quando gravamos essas faixas, nos anos 60, a tecnologia só permitia que se colocasse certa quantidade de informação em cada música, então o baixo e a bateria eram “apertados” juntos. Com as novas versões, tudo foi destacado. Amo isso!

Segundo registros do estúdio Abbey Road, seus erros durante as gravações dos Beatles foram pouquíssimos. Quase nunca um registro era interrompido porque você havia errado na bateria.

Eu só errei menos! [risos] Isso é compreensível. Veja bem, John e Paul estavam cantando, era mais fácil que eles errassem, entrassem na hora errada ou atingissem uma nota incorreta. Ou talvez apenas não se sentissem bem com a performance deles, aí simplesmente parávamos. É assim que se fazem discos. Fiz umas coisas com o Harry Nilsson e chegamos a fazer mais de 54 tentativas [de gravação] em uma só música. Com os Beatles, eram no máximo 12, normalmente. Eventualmente um ou dois takes. Tem a ver com o processo de gravação da época.

Hoje, o quão diferente é, para você, gravar um disco?

Agora eu mesmo produzo, faço tudo em casa. Acabei de fazer um disco novo, mas vamos falar de Y Not [2010]: fiz a base rítmica toda sozinho, geralmente toco a bateria e gravo antes mesmo de ter composto algo. Aí chamei outros músicos e escrevemos as canções em cima disso. Foi uma forma interessante de se trabalhar, porque normalmente escreve-se a música inteira, aí você vai lá e a grava. Da forma nova, foi como se fosse ao contrário. E achei que funcionou muito bem.

As versões de “I Wanna Be Your Man” (escrita por Lennon e McCartney) dos Beatles e dos Rolling Stones foram lançadas com menos de um mês de diferença entre elas. Foi para competir?

A versão deles era mais... O Mick Jagger estava numa onda de blues. Foi uma daquelas coisas... Nunca achei que o fato de eles terem lançado seria um impedimento. Existem vários casos de faixas que são gravadas por muita gente, não houve um plano meu do tipo: “Agora vamos fazer nossa versão!” Só rolou. Adoro “I Wanna Be Your Man”, ela soa muito engraçada hoje.

Algumas das suas canções mais recentes – “Peace Dream”, “Choose Love” – têm certa ligação com “Give Peace a Chance”, música de John Lennon que você canta nos shows. O que te levou de volta a esse tema?

Essa é a minha mensagem, paz e amor. É algo que começou nos anos 60, era algo que os Beatles promoviam. E é o que eu faço. É simples assim. Então, quando encerramos um show com “With a Little Help from My Friends”, voltamos e tocamos uma miniversão de “Give Peace a Chance”, do John.