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"Hoje, o MMA é o esporte que mais exige do atleta", diz Junior "Cigano" dos Santos

Em visita à redação da Rolling Stone Brasil, o lutador fala sobre treinamentos, música e futuro dentro do octógono

Pablo Miyazawa Publicado em 12/12/2011, às 12h36 - Atualizado às 13h02

Júnior Cigano
Divulgação

O MMA (sigla para “mixed martial arts”) é ou não o esporte número 2 do Brasil? A resposta é um sonoro “sim”, pelo menos na opinião dos atletas locais. Um dos que levantam a bandeira em favor da popularização das lutas é o catarinense Junior "Cigano" dos Santos, 27 anos, atual campeão mundial dos pesos pesados da liga UFC. Em 13 de novembro, Cigano venceu a luta contra o norte-americano Cain Velásquez em pouco mais de um minuto e se sagrou o segundo campeão brasileiro da categoria (o primeiro foi Rodrigo Minotauro, em 2008). Dias após o evento – o primeiro transmitido pela televisão aberta (no Brasil pela Globo, com narração de Galvão Bueno) –, Cigano visitou a redação da Rolling Stone Brasil, com o cinturão a tiracolo, para falar sobre treinamentos, música e futuro dentro do octógono.

Vídeo: Cigano no Estúdio RS

Você se lembra o que passou pela sua cabeça assim que o juiz encerrou a luta?

Foi uma sensação de muita felicidade. Tipo um alívio. Foi, mais ou menos, o que eu senti na minha primeira luta de MMA. É meio indescritível, só vivendo mesmo o momento. Mas, foi uma coisa... Na hora em que vi ele caindo, quase que não acreditei, de tão rápido. Tanto que eu até demorei pra chegar na situação e acabar com a luta.

A popularidade dessa luta, e até mesmo a transmissão comandada pelo Galvão Bueno, servem para coroar o tamanho que o MMA tem hoje no Brasil. Lutadores gostam de falar que o MMA já é o esporte número 2 do Brasil atualmente – atrás apenas do futebol. O que mais está favorecendo o aumento dessa popularidade?

Lá fora o esporte sempre foi uma potência, cresceu muito nos Estados Unidos, tanto que o público que vai assistir são famílias mesmo, crianças, senhores, senhoras. Aqui no Brasil, de repente, acho que foi muito devido ao Anderson Silva. Eu acho que tudo o que ele fez – ser um recordista, manter o cinturão, com lutas excelentes, ser polêmico também... Foi esse crescimento que ele teve no mundo do MMA que trouxe a atenção para o Brasil. Porque a gente tem tantos bons lutadores aqui também, como o Minotauro, o Wanderlei Silva, o José Aldo, que também é campeão, e muitos outros. Mas o “embaixador” da situação que o Brasil está vivendo hoje foi o Anderson Silva.

O Anderson Silva é carismático e as lutas são quase folclóricas. Faz parte do MMA essa coisa quase teatral de declarações polêmicas e rivalidades?

Eu conheço o Anderson. Não posso dizer bem, claro, [porque] pra conhecer bem tem que ser alguém da família dele. Mas conheço ele um pouco, e posso dizer que nem é o Anderson que cria essas polêmicas. São os adversários dele que vêm sempre com alguma novidade, maluquice, como foi o desafio que o Vitor [Belfort] fez. É claro que faz parte da estratégia, às vezes, você ser polêmico, falar umas besteiras para deixar o cara nervoso. Mas com o Anderson a gente já viu que não funciona. Ele responde à altura, o que eu acho que é uma estratégia também, e na hora da luta ele mostra porque chamam ele de o “número um pound-for-pound do mundo”.

Sem essas polêmicas, você acha que o MMA perde impacto? O esporte precisa desse tipo de coisa para se tornar popular?

Acredito que não. Eu não gosto desse tipo de polêmica. Acho que tem que mostrar dentro do octógono. Tanto que nessa minha luta com o Velásquez, a gente não falou muita besteira – aliás, nenhuma, só focamos na luta mesmo. Mas acho que o cara tem que se sentir bem. Se ele se sente bem sendo polêmico e provocando o adversário, falando algumas coisas, como a gente tem o exemplo do Chael Sonnen agora... ele tomou o Brasil como inimigo, eu não sei o porquê, talvez por causa até mesmo do Anderson. Falou até de mim agora, da minha vitória do cinturão. É o estilo dele, é o que ele acha que funciona para ele, então acho válido. Quanto a popularizar o esporte, eu acho que ajuda um pouco. As pessoas gostam de ver uma confusãozinha [risos]. Mas vocês nunca vão ver uma coisa dessas vinda de mim. Não é muito o meu estilo. Meu foco é a luta.

Os lutadores do MMA são atualmente aqueles que são convidados para festas, estão nos programas de auditório, saem nos sites de fofocas. Isso era inimaginável no Brasil há uns dois anos. Vocês são celebridades. Como lidam com isso?

Inimaginável há até pouco tempo, menos de dois anos. Realmente, o esporte está numa evolução tremenda e isso me deixa muito feliz, principalmente por ter feito parte do primeiro evento em TV aberta no mundo, tanto nos Estados Unidos, quanto aqui e no Canadá. Eu... não me vejo como um famoso. Quer dizer, não caiu muito a ficha ainda, não sei se vai piorar, provavelmente vai. Mas eu gosto que as pessoas reconheçam meu trabalho e estou gostando muito do que está acontecendo. Estou tendo uma semana bastante ocupada, várias entrevistas, programas, e acho que isso faz parte. O mais difícil foi, com certeza, ganhar o cinturão. Agora o que vier com isso eu dou um jeito e tiro de letra [risos].


Você acha que a percepção geral de que o MMA é meramente um esporte violento um dia vai acabar? Antigamente, o boxe era o esporte de elite, bem aceito. O MMA por muito tempo carregou a fama de ser um esporte de mau gosto porque tem sangue; hoje, ele é transmitido pela televisão. O mundo irá se acostumar e aceitar, eventualmente?

Já está aceitando. Só te corrigindo, o esporte não é violento. Violência é muito diferente. A gente [lutadores] tem que ser agressivo. Agora, violência é completamente diferente do que a gente faz lá dentro. Nós somos preparados, treinamos a vida toda pra fazer aquilo. Somos muito agressivos, o esporte exige isso. Já está dominando o mundo e concordo que já é o segundo no Brasil, só perde para o futebol – e acho que vai continuar perdendo, porque o futebol aqui é tremendo, grande demais. Mas o que importa é que as pessoas estão vendo o quão legal é o esporte e o quanto os lutadores se dedicam. Porque hoje, o MMA é o esporte que mais exige do atleta. Para ter um resultado, precisa se dedicar 100%. Não tem esse negócio de perder noite, beber direto por aí. Você vai chegar lá e vai apanhar, não vai conseguir um bom resultado. Precisa de dedicação para se tornar um bom lutador.

As primeiras lutas do UFC transmitidas no Brasil eram bem diferentes das atuais. Os lutadores sangravam mais, havia golpes baixos, a luta era mais feia. O esporte também estaria mudando para atrair o interesse do público?

Com certeza, nem só pelo interesse do público, mas para proteger os atletas. Quando começou, realmente valia tudo e era sem luvas, então os cortes aconteciam com mais frequência. Hoje a gente tem um esporte muito bem regulamentado, com regras bem rígidas. Há um tempo valia chutar a cabeça do indivíduo no chão, joelhada no chão na cabeça... Hoje, já não vale mais. É essa a evolução do esporte: ficar cada vez melhor e mais bonito, para o público e para proteger a integridade física dos atletas.

Há algum tipo de conselho válido para quem projeta uma carreira de lutador de MMA?

O importante é ouvir. Buscar pessoas boas. Você não vai a um lugar nenhum sozinho. Precisa de pessoas boas ao seu redor, então tem que confiar. E como se encontra essas pessoas? Buscando treinadores, academias para treinar e aprender bem antes de querer lutar, porque hoje o nível está altíssimo. Quanto mais o esporte evolui, mais dificuldade os atletas vêm enfrentando. Como conselho, eu gosto de dizer uma frase que mudou o meu jeito de ver tudo. Não sei quem colocou na academia do [treinador Luiz] Dórea um papelzinho, escrito: "A vitória só chega quando se perde o medo da derrota". Eu lia aquela frase e pensava: "Deve ser pra mim". Você tem que ousar, tentar. Quando nada se faz, nada muda. Tem de acreditar também. E se não deu certo uma vez, uma hora vai dar. E se não der na outra, na outra vai dar.

Muitos atletas comentam que a música é um combustível para qualquer treinamento físico. Tem algum gênero ou artista que fazem diferença para você?

Música é complicado. Eu normalmente não ouço música, porque o Dórea está ali em cima, falando com a gente o tempo todo. Às vezes rola uma musiquinha em um treino mais tranquilo, depende do dia. Eu gosto de muitos tipos - a música do Rocky Balboa, que é a que uso para entrar na luta [cantarola], eu gosto muito. Quando entrei no UFC, eu falei dessa música e o [presidente do UFC] Dana White comentou: "Mas essa música todo mundo já usou, é ruim, venha com alguma coisa nova". Daí eu mandei o meu manager falar pra ele que quando eu ouvia a música, a minha mão direita tremia. Daí, ele falou: “Então deixa a música do menino, porque se a mão treme...” [risos] É isso, gosto de tudo, de rock'n'roll a sertanejo. Depende do momento que estou vivendo.

Qual é a duração da vida útil de um lutador e como isso se aplica a você?

Se for pra escolher, eu quero ser um Randy Couture [lutador veterano de 48 anos] da vida, porque eu amo lutar. Eu acho que não tem coisa no mundo que me deixa mais feliz do que fazer o que eu faço. E principalmente agora, sendo campeão [risos]. O que espero pra minha vida é continuar sendo lutador por muito e muito tempo. Tenho 27 anos, então eu espero ter pelo menos uns 15 anos a mais de carreira pela frente, porque é um esporte maravilhoso que me proporcionou coisas que eu nem nos melhores sonhos eu sonhava. Sou daquela opinião: quanto mais você alcança os seus sonhos, mais longe chega, e maiores os sonhos ficam. E é assim que eu sou. Conquistei esse cinturão agora e sei que novos desafios estão por vir, que vão me motivar muito ainda. E quero estar pronto para todos eles.