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Entrevista RS: Eddie Murphy

Depois de anos de silêncio, um dos comediantes mais influentes do mundo se abre sobre o passado, o presente e o futuro

Brian Hiatt Publicado em 09/12/2011, às 13h17 - Atualizado em 26/12/2011, às 14h45

Depois de anos de silêncio, um dos comediantes mais influentes do mundo se abre sobre o passado, o presente e o futuro

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É glorioso ouvir Eddie Murphy dizer “fuck” [foda-se] novamente. Poucas pessoas pronunciaram melhor essa palavra – e aqui, no porão da mansão de mármore que ele construiu em um penhasco em Beverly Hills, ela sai de seus lábios com uma frequência suficiente para fazer Shrek corar. “Qual é, filho da puta”, grita ele sobre as batidas de “Hot Pants”, de James Brown, que saem do equipamento de som.

O filho da puta em questão é uma bola de boliche, que está rolando por uma das duas pistas do espaço que Murphy mantém ali, junto com um fliperama cheio de jogos e uma espécie de “sala de clube” com iluminação azul, inspirada por uma área semelhante na casa de seu novo amigo, o cineasta Brett Ratner. Em um canto, sob um teclado elétrico, está o icônico quadro Sugar Shack, de Ernie Barnes – como visto na capa de I Want You, de Marvin Gaye, e nos créditos de abertura de Good Times. É, obviamente, o original.

A bola de Murphy desvia para o lado, deixando alguns pinos em pé. Ele joga os braços musculosos para cima em uma agonia exagerada: “Cuzão!” Versões em desenho animado dos pinos aparecem nas telas de placar acima. Enquanto me derrota por duas rodadas seguidas (atingindo 156 pontos na segunda vez), Murphy canta alto junto com a música, dança balançando os quadris e faz sua imitação da era Saturday Night Live do característico “Unh!” de Brown.

É muito claro que, mesmo aos 50 anos, mesmo depois de uma longa série de papéis que descreve como “coisas de família, homens de terno com o cabelo perfeito”, a essência delirante de Eddie Murphy permanece intacta. Seu papel como um ladrão malandro em seu filme mais recente, Roubo nas Alturas, dirigido por Ratner, é uma afirmação semelhante – em uma exibição inicial, o público caiu na gargalhada quando ele simplesmente disse: “Cala a boca, vagabunda”. “Não faço um cara das ruas, trabalhador, há anos”, ele afirma. “Então talvez seja algo do tipo: ‘Uau, não lembrava que ele conseguia fazer isso’.”

Quando Murphy aparece pela primeira vez hoje, sentado em um sofá de vime voltado para uma TV gigante em uma varanda atrás de sua casa, ele parece reservado, cuidadoso, com os olhos protegidos por óculos de sol de aro preto. Dentro da casa, fotos de seus muitos filhos estão organizadas em uma prateleira, perto de um balcão de bar que exibe vários prêmios, além de fotos dele com Muhammad Ali e Barack Obama.

Esta é a primeira grande entrevista de Murphy na mídia impressa em muitos anos, então sua cautela é compreensível: ele conta, meio de brincadeira, meio a sério, que quando posou para sua última capa de revista, imprimiram sua foto sorridente sob a manchete “Eddie não é nada”. Está vestindo uma camiseta cinza com logotipo LiveStrong na frente, calça jeans preta, um relógio incrustado de diamantes e um anel de brilhantes não muito menor do que uma bola de golfe. Os sapatos são de couro preto polido, mas ele os troca por tênis de corrida pretos brilhantes para jogar boliche. Inicialmente, só assistimos à TV por um tempo enquanto ele bebe refrigerante Dr. Brown’s – a cobertura ao vivo do julgamento de Conrad Murray, o médico de Michael Jackson; alguns minutos do filme Cassino; um episódio de Good Times que Murphy imediatamente reconhece como aquele em que acham que há comida para cachorro na almôndega da velhinha. “Era tão fácil naquela época”, suspira, enquanto as risadas enlatadas ecoam.

Murphy tem suas muitas TVs ligadas em um arquivo de sua coleção de DVDs, que ele parece ter memorizado – e me mostra uma boa parte dele ao longo do dia: algumas apresentações de Sly Stone, incluindo uma na qual tocou com Richard Pryor na bateria; um show no Festival de Jazz de Montreux, em 1993, com Murphy liderando sua própria banda de funk; uma aparição de Joe Tex no programa Soul Train (com Murphy imitando seu “I Gotcha” como uma “canção de estupro”); um trailer falso montado por Ratner para um possível filme no estilo This is Spinal Tap chamado Soul Soul Soul, estrelando Murphy como um cantor de soul veterano que constantemente reclama de ser imitado por outros artistas.

Depois de jogarmos boliche, vamos para uma pequena sala de estar onde ficamos boa parte da entrevista, expulsando sua namorada jovem e estonteante, que estava assistindo a Noivo Neurótico, Noiva Nervosa na TV. Em uma mesa de centro está o livro de fotos The Beatles: 365 Days, uma revista Life com John Lennon na capa e um livro ou dois sobre Elvis Presley. Murphy não apresenta a namorada, mas ela sorri para nós, perguntando: “Quem ganhou?” “Quem você acha?”, ele responde, acrescentando rapidamente: “Ele foi bem” (Não fui).

Você tinha uma frase ótima sobre o show business: “Só se nasce uma vez nesta indústria, mas é possível morrer várias vezes”.

Eu disse isso? Você pode morrer várias vezes, mas faço filmes há tanto tempo que agora é só um conjunto da obra. Se um filme seu fracassa, e daí? E se um filme seu faz sucesso, é “e daí?” também, vamos para o próximo. Se faço alguma coisa e morro por causa disso, pelo menos me arrisquei. Há essa caixinha na qual atores afrodescententes têm de trabalhar, em primeiro lugar, e consegui sair dela. Poderia ter feito vários filmes em que continuaria sendo Axel Foley ou Reggie Hammond, mas não quis fazer a mesma coisa o tempo todo. De vez em quando, você se arrebenta, mas faz parte.


Quando sua carreira atingiu os primeiros obstáculos no final dos anos 80, as pessoas pareciam ávidas em dizer que você estava acabado.

Você tem de lembrar que não havia hip-hop naquela época, ou o hip-hop ainda era novidade, e durante anos fui o detonador. Qualquer um que quisesse desabafar, era eu. Ouvi muita merda que não era justa. A raiz disso era racista. Se eu te incomodava de algum jeito, no cerne havia alguma porcaria racista: “Olha esse negro arrogante, dois polegares beeeeeem para baixo” [risos]. Mas também não ajudei. Não fui humilde: “Fodam-se todos, chupem meu pau, filhos da puta!”

O Professor Aloprado foi uma grande reviravolta em 1996. Como isso aconteceu?

Alguns filmes meus não deram certo. As pessoas diziam: “O Eddie não é bom”. Então pensava: “Não sou bom? Vou te mostrar o que posso fazer. Farei algo em que interpreto muitos personagens diferentes”. É uma viagem, parece que a cada cinco ou seis anos você tem de fazer algo para lembrar às pessoas de que elas gostam de você. Então, recebe várias ofertas, porque esteve em um filme de sucesso, e alguns dos filmes podem ser uma porcaria, mas te dão tanto dinheiro que não dá para dizer não. Isso acontece muito nesta cidade. Só que o problema quando você faz esses filmes por muito dinheiro é que, na TV, mostram para sempre o seu sucesso bem ao lado do seu fracasso.

Ainda é possível alguém te oferecer dinheiro suficiente para você topar fazer um filme ruim?

Seria mais difícil – não me prostituo mais tão facilmente. Não penso em dinheiro, mas ainda sou do Brooklyn. Então, daqui a alguns meses, você me verá em uma coletiva de imprensa: “Sim, vamos filmar Santo Homem 2. Mal posso esperar – é uma verdadeira montanha-russa sobre o triunfo do espírito humano. Quando estávamos rodando o primeiro filme, eu sabia que tínhamos algo especial” [risos].

Pouco antes de O Professor Aloprado, você rodou Um Vampiro no Brooklyn. Como foi?

A única forma de conseguir fazer O Professor Aloprado e sair do meu contrato com a Paramount era rodando Um Vampiro no Brooklyn. Mas sabe o que arruinou esse filme? A peruca. Cheguei com aquela peruca longa e as pessoas disseram: “Ah, cai fora daqui! Que diabos é isso?” [risos] São as pequenas coisas. Como uma das minhas filhas mais novas, Bella, que tinha 8 anos e nunca havia visto O Rapto do Menino Dourado, mas, assim que começou, ela perguntou: “Espera, você vai ficar com esse chapéu o filme inteiro?” Respondi: “Sim...” Ela retrucou: “Não dá para assistir ao filme, esse chapéu é horrível!” [risos].

O que o Eddie de 20 e poucos anos pensaria de todos os filmes para a família que você fez?

O rapaz de 27 anos teria perguntado o que estou fazendo em Dr. Dolittle? Não. Ou nos filmes do Shrek? Não. Mas, sabe, o Eddie de 27 e o de 48 anos pensariam “Por que estou em um filme como Imagine Só?” Esse não tinha chance nas bilheterias.

Então o período de família acabou?

É, acho que não vou fazer muitos filmes de família por um tempo. Não tenho nenhum interesse nisso agora. Não há exatamente um mapa, mas estou tentando fazer coisas ousadas, e só quero fazer o que realmente quero fazer, caso contrário fico feliz de sentar aqui e tocar guitarra o dia inteiro. Sempre digo às pessoas que sou um cavalheiro do lazer semiaposentado, e às vezes trabalho um pouco para romper o tédio.

Sua ideia original para Roubo nas Alturas teria sido um filme muito diferente: um elenco estrelado de comediantes negros fazendo ladrões incompetentes tentando roubar a Trump Tower.

Verdade, eu queria chamar todos os irmãos engraçados – eu, Chris Tucker, Dave Chappelle, Chris Rock, Martin Lawrence e Tracy Morgan – e fazer um filme com todos eles, como em Os Donos da Noite. Ainda quero fazer algo do tipo. Tenho uma ideia chamada “O Fim de Semana Maluco de Jamal e Tyrell e Omar e Brick e Michael”, sobre um grupo de caras que é abduzido a caminho das lutas. Estou escrevendo isso agora.

Quando você começou a se sentir livre?

Há dez anos, eu pensava: “Ainda tenho de mostrar, provar, fazer as pessoas verem...” Agora, não dou a mínima para o que pensam.

O que te libertou?

Ficar mais velho, cara. Fiz 50 anos em abril. Sei que este é um negócio no qual o sucesso é a exceção, não a regra. Não há nada que se possa dizer – mesmo se você não gosta de mim, tem de aceitar, estou nessa há 30 anos. Acho que o Stallone disse: “Você não permanece 25 anos nesta indústria sendo ruim”.

Você lê críticas?

Lembro que, quando Um Tira da Pesada foi lançado, fizeram críticas horríveis... na época, eu escutava e ficava aborrecido. Agora, não escuto nada. Não leio jornal há 20 anos. Não olho para o computador nem nada. Você tem de ter um filtro para as coisas.

Não há o perigo de se sentir em um vácuo?

Não me sinto em um vácuo. Estou relaxando, e você fica sabendo das coisas realmente importantes. É da besteira do dia a dia que eu não preciso. Não assisto a nada disso. Não sei como. O computador é uma viagem para mim. Eu entro em uma sala e todos estão no computador ou no telefone. Não faço nada disso.

Você pelo menos tem celular?

Quando me divorciei, saí e estava conversando com uma garota, e disse: “Me dá seu telefone”. E ela respondeu: “Ok”. Falei: “Vou pegar um papel e uma caneta”. Ela disse: “Que bonitinho, você quer fazer isso à moda antiga”. “Do que você está falando?” Todos tinham celular, então comprei um e agora sei como mandar textos e fotos, mas não preciso me conectar com ninguém. Não preciso estar no Facebook.

Houve uma grande pressão para se fazer Um Tira da Pesada 4. O que aconteceu?

Não vai rolar. O que estou tentando fazer com Um Tira da Pesada agora é produzir um seriado de TV mostrando o filho do Axel Foley, e Axel agora é o chefe de polícia em Detroit. Eu faria o piloto, apareceria aqui e ali. Nenhum dos roteiros para o filme era certo, ficavam requentando coisas velhas. Tudo errado. Ficavam tentando forçar uma premissa, e você tem de forçar algo, é porque não deveria fazer.

E o que aconteceu com sua risada característica?

Não rio mais daquele jeito, por algum motivo não sai. É estranho mudar algo tão natural, mas ela começou como uma risada verdadeira, então se transformou em pessoas rindo porque achavam minha risada engraçada, e depois houve algumas vezes nas quais ri porque sabia que isso faria as pessoas rirem. Ficou estranho. As pessoas vinham e me pediam: “Faz aquela risada”. Ou, se você ri, alguém vira para trás e pergunta: “Eddie?” Eu simplesmente parei de fazer.

Mas você escrevia seus próprios diálogos nos filmes dos anos 80, certo?

Desde o início, tento fazer os diálogos fluírem confortavelmente. Sempre fiz isso para que parecessem mais autênticos.

Você chegou a ter alguns problemas com o pessoal do programa Saturday Night Live.

Verdade, porque foram maldosos comigo no Saturday Night Live algumas vezes depois que saí do programa. Disseram algumas merdas. Houve aquele esquete do David Spade [no qual Spade mostrou uma imagem de Murphy na época de Um Vampiro no Brooklyn e disse: “Olhem, crianças, uma estrela cadente” ]. Reclamei disso, que se tornou parte do folclore. O que realmente me irritou na época é que era uma piada sobre minha carreira. Falei: “Qual é, cara, uma coisa é vocês fazerem piada sobre algum filme meu, mas minha carreira? Sou um de vocês. Quantas pessoas saíram desse programa e cuja carreira fracassou, e ficam falando merda sobre mim?”. A gente sabe que toda piada tem de passar por todos os produtores e, no fim, Lorne ou outra pessoa diz: [imitando Lorne Michaels] “Ok, tudo bem fazer essa piada sobre a carreira...” Eu me senti muito mal com isso durante anos, mas agora passou. Não iria a retrospectivas, mas não deixo isso se prolongar. Vi o David Spade há uns quatro anos. O Chris Rock perguntou: “Vocês ainda se odeiam?” E respondi “Não odeio o David Spade, não tenho nada contra ele”.

Você ainda é o maior astro a sair do programa.

Mas só porque o John Belushi está morto. Belushi é como o Spanky da série Os Batutinhas. Acho que isso faz de mim o Stymie, mas tudo bem: vou ser o Stymie. Pense em todas as pessoas que saíram daquele programa. Aposto que você consegue descobrir o valor bruto de quem saiu do Saturday Night Live para o cinema – eu, Adam Sandler, Will Ferrell, Mike Myers, Bill Murray, Dan Aykroyd. Aposto que dá uns US$ 15 bilhões. Não é coincidência – esse programa é como Harvard para um ator de comédia. Quando se sai do programa e se entra na indústria do cinema, é como se mover em câmera lenta por alguns anos. Você trabalha como um louco em uma panela de pressão, depois começa a fazer filmes, sentadinho em seu trailer.

Você falou sobre fazer comédia stand-up novamente. Como isso se daria agora?

Se eu voltar aos palcos, farei um show realmente bom para todos – uma hora e meia de stand-up e uns 40 minutos da porcaria da minha banda, mas não sei. Antigamente, você andava pela casa, dizia algo engraçado e pensava “Vou para o clube testar essa piada hoje à noite”. Isso ainda acontece, mas faz muito tempo. Não sou mais aquele cara com roupa de couro. O mais difícil para os comediantes hoje é encontrar a sua maldita voz.

Por que você desistiu?

Parou de ser divertido. No começo, era divertido, depois ficou polêmico. Sempre que eu fazia algo, havia protestos, reações negativas. Pensei que simplesmente deveria fazer filmes. Não tenho de lidar com essa merda. Muito tempo se passou e, quando percebi, já não fazia isso há 100 anos.

Um jovem Eddie Murphy despontando agora jamais usaria a palavra “bichona” [faggot] como você costumava fazer.

Muitas coisas não são mais feitas. Hoje em dia, os comediantes dizem algo ofensivo e têm de pedir desculpas a todos. Como você escreve uma cena e vai para um clube quando todos têm câmeras, você diz algo ofensivo, isso vai para o YouTube e você tem de pedir desculpas a todos? Como pensar em alguma coisa?

Só que havia uma parte imensa da sua apresentação que não era polêmica. Do caminhão de sorvete à velhinha caindo da escada: “Ai, meu Deus, Jesus, me ajuda!”

A velhinha que caiu da escada, hoje em dia, se eu fizesse isso, todas as senhorinhas que caíram de escadas estariam do lado de fora: [imita uma idosa] “Caí da escada e não foi engraçado. Fiquei deitada lá durante horas! Isso é errado e ele deve ser impedido! [balança o dedo] Não, não, não” [risos].

Muitas pessoas acharam que você foi roubado no Oscar por Dreamgirls – Em Busca de um Sonho, em 2007.

Bom, sabe, para deixar registrado, Jeffrey Katzenberg disse algo maravilhoso: “Ganhar um Oscar é mais arte do que ciência”. Todas essas outras coisas entram em jogo com um Oscar, e a performance do Alan Arkin em Pequena Miss Sunshine é digna de Oscar, é ótima. Simplesmente foi assim que aconteceu. Ele é ator há muito tempo, o homem tem uns 70 anos. Entendi completamente e foi tudo bem. Não pensei: “Mas que merda?”

Então você não foi embora de repente?

Depois, as pessoas falavam: “Ele está chateado”. E eu respondia: “Não estava chateado!” O que aconteceu foi que, depois que perdi, estava tranquilo, sentado ao lado do pai da Beyoncé, e ele se inclinou, agarrou meu braço e disse: [voz solene] “Haverá outras vezes”. Então, você sente Spielberg sobre seu ombro falando: “Não tem problema, cara”. Depois Clint Eastwood se aproxima: “Ei, rapaz...” Então pensei: “Não vai ser esta noite!” [imita, levantando-se] Não tive amargura nenhuma. É outro motivo pelo qual quis apresentar a cerimônia – para mostrar que estou bem com isso [dias depois, Murphy anunciou que havia desistido de apresentar o Oscar].

Dreamgirls pode ter sido a primeira vez em que você foi levado a sério como músico.

Bom, nunca parei de gravar músicas – simplesmente parei de lançá-las, porque, quando você vê atores cantando, é como: “Ei, não venha aqui na minha seção de música, fique ali. Não faça suas merdas de ator aqui”.

Já pensou em dar as músicas a outros artistas?

Raphael Saadiq é um amigo, e há uma música que ele gostou e queria gravar, e pareceu estranho. É minha música! Se ele fizesse sucesso com ela e dissesse às pessoas “Eddie Murphy que compôs”, diriam: “Não brinca”. Daqui a 100 anos, quando eu estiver morto, elas vasculharão tudo. Se você teve impacto suficiente como artista, vasculham tudo, querem saber de tudo, cada pedaço de papel em que desenhou. Todas essas músicas estão documentadas. Além disso, não quero parecer um ator-cantor estranho – “Uau, nem conhecíamos esse desgraçado, ele podia fazer tudo isso também”.

Quando você filmou Dreamgirls, isso te fez pensar que deveria ter feito mais filmes desafiadores?

Fiz coisas mais desafiadoras do que esse filme. Se você não tivesse acompanhado o que eu fazia com música e outras coisas, Dreamgirls parece que veio do nada. Pareceu um desafio, mas na verdade não foi.

Mas há uma crítica que diz que você não se pressiona o suficiente. É verdade?

Nunca vou dizer: “Quero este papel porque é um desafio. Posso não conseguir interpretá-lo bem, e é por isso que estou empolgado com ele”. Alguém ficar de fora, falando “Eles precisam se pressionar”, isso é muito ridículo. Eu me pressionar? Já tenho uma carreira, esta é a cereja do bolo. Eu já mais do que me diferenciei na indústria do cinema.

Sua infância foi estável, exceto na época em que sua mãe ficou doente e você foi para um lar adotivo. Seu irmão Charlie descreve a senhorita Jenkins, que dirigia o lar, como um personagem de Charles Dickens.

Ela batia em Charlie, não em mim. Eu era pequeno.

Ele disse que ninguém podia assistir à TV dela. Não era essa a que você assistia?

Não, na casa da senhorita Jenkins ela dizia que a TV estava quebrada e, tarde da noite, nós a escutávamos assistindo ao Tonight Show e pensávamos: “A TV funciona, a vagabunda está mentindo...” Éramos pequenos, mas xingávamos como adultos. Criancinhas dizendo: “Aquele filho da puta me contou...” Lembro que dizia “Aquela vagabunda está mentindo!” quando era pequeno. O período com a senhorita Jenkins durou cerca de um ano e meio, e eu era tão novinho, tenho certeza de que muitas coisas ruins aconteciam. Meus pais se separaram quando eu tinha 3 anos, minha mãe foi parar no hospital com tuberculose quando tinha 4, e fomos morar com a senhorita Jenkins. Depois, saímos e meu pai foi assassinado. Até meus 8 anos, todo ano havia algo traumático. Tudo isso deve estar reprimido.

Seu irmão escreveu detalhadamente sobre o assassinato do seu pai. Ele se recorda disso mais do que você?

Não conheço toda a logística por trás disso. Sei o que aconteceu, mais ou menos, sei que era ele e uma garota. Nunca fui atrás de tudo o que aconteceu, o que houve.

Você e Charlie tinham muito em comum?

Éramos tão diferentes que as pessoas nos viam e perguntavam: “Vocês são irmãos? Não sabia disso”. O Charlie participou de gangues, e mesmo agora ele é extraultramacho – piranha, pitbulls, machadinhas, machados, facões. É faixa-preta de caratê. Minha vida na escola foi fácil porque os garotos sabiam que eu era irmão dele, ninguém mexia comigo. “Você não mexe com o Eddie, o irmão dele te mata.” Charlie era um cara muito durão.

Você conhecia bem o Michael Jackson. O que pensa da tragédia de sua morte? Houve muitas semelhanças com a de Elvis Presley, que é um artista você sempre adorou.

Michael estava na mesma posição de Elvis, o maior astro do mundo... como posso descrever? É como se você não fosse uma pessoa, sua humanidade está comprometida. As coisas com as quais todos têm de lidar, pegue isso e amplifique por mil – é onde Michael e Elvis estão. É uma loucura em volta deles o tempo todo. Na superfície, você parece ter tudo no lugar certo e, por trás das cenas, está se desintegrando completamente. Michael foi o primeiro artista que pulou para dentro da tela e se tornou parte dela, em que todo momento fazia parte do show. Quem consegue corresponder a isso?

Quando você o viu pela última vez?

Na última vez em que vi Michael, estava construindo esta casa e me hospedava na esquina, e ele veio uma noite com o Prince – o Prince dele, não o cantor. Acho que o Blanket era bebê, ou o Blanket ou a Paris era bebê, e ele veio com as crianças, relaxou por um minuto. Foi bom. Havia uma pessoa normal ali. Michael, ele era muito mais normal do que se imagina. Não estava na terra do nunca de Neverland alheio ao mundo que girava em volta dele. O problema eram as drogas.

Você já teve de defender seu amor por Elvis a afrodescendentes que acham que ele era racista?

O grande mito na comunidade afrodescendente era que ele falou que a única coisa que os negros poderiam fazer por ele era engraxar seus sapatos e comprar seus discos. As pessoas gostavam dele quando jovens e depois disseram “Não gosto mais dele porque disse isso”, e eu falei “Ele nunca disse aquilo”. A verdade é que, no passado distante, nas imagens em preto e branco, todos são racistas, cada estrela que você vê, cada estrela que você amava era uma espécie de racista declarado, tudo isso, mas você as adora. Olhe o trabalho deles! E não dá para culpá-las – era a época.

Michael, Elvis, Beatles, Bruce Lee, Muhammad Ali, Bob Marley e Marilyn Monroe tinham algo diferente de todos. Simplesmente são algo além. Você pode pegar o Bruce Lee e colocá-lo junto de mil outros asiáticos e seus olhos vão diretamente para Bruce Lee. Muhammad Ali, um mar de negros, seu olhar vai diretamente para ele. Qualquer que seja “o” fator, eles têm mais disso do que qualquer um.

Você não bebe nada – basicamente bebeu uma noite em sua vida toda? É verdade?

Sabe, quando bebi... a noite em que briguei com John Landis no set de Um Príncipe em Nova York, voltei para casa e o Arsenio me embebedou. E fiquei bêbado na minha lua-de-mel, quando bebi três taças de champanhe. Sou horrível... não vomito se bebo, mas não consigo beber. É por isso que pareço ter 35 anos, não bebo e não fico estressado.

Nenhuma droga? Não fumou maconha, nada?

Fiz tudo isso, mas não sou de beber. Acho que só experimentei maconha com uns 29, 30 anos.

Passou pela fase da cocaína?

Nunca, jamais cheirei cocaína. Nem entrei em contato com ela fisicamente.

Esse é um feito e tanto para quem conviveu com o elenco de Saturday Night Live e com Rick James.

Quando eu tinha 18 anos, estava no bar de blues com Belushi e Robin Williams, todo mundo festejando, e eu disse “Não”. De vez em quando, penso nesse momento também, porque estava com aquelas pessoas, era fácil festejar, e como tudo teria mudado. Sei que, se tivesse mexido com isso, teria entrado de cabeça. Seria mencionado em milhões de manchetes.

Woody Allen tem uma frase: “Em vez de viver nos corações e mentes de outras pessoas, prefiro viver em meu apartamento”. É um consolo saber que uma parte de seu trabalho continuará vivendo depois de você morrer?

[Risos] Amo Woody Allen. É um consolo? Todo o período de documentar o trabalho de um artista, filmes, gravações, tudo isso tem 100 anos, no máximo. É muito novo. Beethoven e os outros filhos da puta não conseguiram nem ouvir a própria obra, sabe o quanto era difícil encontrar um filho da puta com um violino que funcionasse naquela época. E a obra dele atravessou gerações. A tecnologia permitiu tocar essas coisas para sempre, mas a realidade é que tudo isso vira pó, tudo é temporário. Não importa o que você faça, se ficar por aqui tempo suficiente, acabará babando e se sujando todo, e nem se lembrará do que fez. Vi este documentário sobre Ronald Reagan, e foi algo “uau”. Dizem que ele entrou em casa trazendo uma Casa Branca de brinquedo que havia tirado de um aquário e falou: “Não sei o que estou fazendo com isto, mas sei que tem algo a ver comigo”. Tinha até se esquecido de que foi presidente. Independentemente do que você faça, tudo vai virar uma bobagem. Em 200 anos, tudo é poeira, e em 300 anos não é nada, e em mil anos é como se você nunca tivesse estado aqui. Mas se você tiver muita, muita sorte, se fizer algo realmente especial, pode permanecer por mais tempo.

Você teve de pagar o enterro do comediante Redd Foxx. É um pesadelo seu, ficar pobre assim?

Nunca tive horror a coisas desse tipo. Se alguém fizer algo ruim contra mim, vou para a rua, não para o tribunal, alguém vai se foder. Nem consigo imaginar, mas estou com a mesma pessoa há anos, o cara que cuida dos meus negócios faz tudo certinho, cuidou de mim, então quando eu ficar velho, ninguém terá que se preocupar com “É, cara, Eddie Murphy está morto e ninguém vai enterrá-lo, ele está lá no jardim”. Tenho alguns fundos para enterro [risos]. Cremação, na verdade.

É mesmo? Por quê?

Ser enterrado é assustador, não acha? Na terra... uma pedra em cima de você, seu nome na pedra, você está lá embaixo, em decomposição... é assustador.

Sua religião permite a cremação?

Que religião? Fui batizado na Igreja Católica, mas não quero ter religião. Tenho valores e crenças do cristianismo.

As pessoas pensavam que não se deve cremar para poder sair do túmulo quando Jesus retornar.

Não faz sentido, você não sabe como fica naquele caixão! Daí você volta e pensa: “Não fui cremado, Senhor, aqui estou”. Só que sua aparência está horrível [risos]. Você tem de dizer a Jesus seu nome. “Sou eu, Senhor, Eddie!” E Ele pensa: “Quem diabos é esse cara?”

O que quer que façam com suas cinzas?

Em um mundo ideal, uma mulher linda espalharia minhas cinzas. “Ai, é tão triste”, e eu teria 100 anos, será uma garota linda, e as pessoas vão sussurrar: “Ela era jovem demais para ficar com ele”, enquanto ela espalha as cinzas. É só me espalhar em um líquido qualquer, um belo oceano, e siga em frente.