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Novas paisagens na janela

Lançando o álbum Horizonte Vertical, Lô Borges fala à Rolling Stone Brasil sobre a família, a eterna admiração pelos Beatles e a possibilidade de uma reunião do Clube da Esquina em 2012

Bruno Raphael Publicado em 24/11/2011, às 15h11 - Atualizado em 09/12/2011, às 13h35

Lô Borges
Pedro David/Divulgação

“Meu tesão na vida é criar coisas que eu mesmo não espero que possa criar. Como compositor, eu acho que isso é tão fundamental quanto beber água.” Aos 59 anos de idade, Lô Borges resume assim a continuidade do mesmo ímpeto criativo que o fez, aos 20 anos, ser coautor de Clube da Esquina, seminal disco de 1972 lançado em parceria com Milton Nascimento. Em entrevista à Rolling Stone Brasil, Borges falou sobre Horizonte Vertical, seu novo álbum, a influência da família, dos Beatles e sobre uma possível reunião do Clube da Esquina para o aniversário de 40 anos do álbum, em 2012.

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Mesmo com diversas canções de décadas atrás com sua assinatura conhecidas pelo público (como "Para Lennon e McCartney", "O Trem Azul" e "Clube da Esquina nº 2"), Lô Borges nunca quis seguir o estereótipo do compositor que se consagra quando jovem e torna o resto de sua carreira uma versão genérica de seu ápice. “Não fiz música só aos 18 anos de idade”, dispara. “A partir da composição inédita é que vem a parceria, o estúdio e o álbum. Se não, você fica sendo aquele cara datado dos anos 70. Eu posso até não acertar, mas não é por falta de procura. Muitas das pessoas da minha geração fazem músicas muito bissextamente. Não tenho nada contra a carreira de ninguém, mas meu temperamento é de buscar coisas novas a cada ano.”

Horizonte Vertical

Essa ideia é reforçada em Horizonte Vertical, que mostra uma faceta de Lô Borges que até os parceiros mais próximos ainda não haviam ouvido, como na música “On Venus”, cantada em inglês e com uma sonoridade espacial. “Lembro que quando mostrei esse álbum pro Milton [Nascimento], na casa dele, ele falou: ‘Esse Lô Borges eu não conhecia!’ [risos]”, conta Lô. “Tem uma canção no meu disco anterior [Harmonia] chamada “Chegado”, que é uma coisa meio Nirvana, sei lá. Eu peguei o violão e fiz uma música meio atonal como canhoto, igual ao Kurt Cobain.”

Outra mudança em Horizonte Vertical é o foco maior em composições ao piano, algo que, segundo Lô Borges, veio naturalmente nas músicas. “O piano e o violão sempre funcionaram muito dentro da minha composição”, observa. “‘Um Girassol da Cor do Seu Cabelo’ e ‘Paisagem da Janela’ eu fiz ao piano, por exemplo. Nesse álbum específico, o piano está presente no meu dia-a-dia. O diferencial mesmo é que eu gravei com dois músicos [Barral e Robinson Mattos], então tive muito tempo para pensar nos detalhes de sonoridade.”

Lô Borges destaca também a família como parte importante do processo de criação do disco. Dedicado ao filho Luca, de 13 anos, o álbum é também uma carta à sua geração. “[Na produção de] todas as músicas que fiz com o Samuel Rosa, que foram cinco (duas entraram no álbum), eu levava meu filho e ele ficava brincando com o do Samuel. Mas meu filho gosta de AC/DC, Guns N’ Roses e Led Zeppelin. Para ele, Lô Borges é um mero detalhe [risos]. O filho do Samuel, que tem 12 anos, já acenou pra mim e falou: ‘Pô, essa harmonia é muito louca, cara!’.”

A música feita nos anos 60 e 70, segundo Lô Borges, tem interessado mais os jovens do que a música contemporânea. “Essa geração está muito interessada, porque se for pegar o que está acontecendo na música brasileira para esse pessoal, digamos que é meio empobrecedora”, opina. “Não vou citar artistas, mas essa música de mídia nunca foi grande coisa, há muitos anos.”

Influência dos Beatles

“Com Beatles e George Martin eu aprendi a cantar, compor e arranjar. Acho que qualquer disco meu vai trazer uma referência beatle”, diz o Lô Borges-fã. Aos 12 anos, as influências do garoto mineiro se resumiam a obras como o disco Chega de Saudade, de João Gilberto, e as harmonias de Tom Jobim. “Comecei pelo mais difícil [risos]”, diverte-se o músico. “Quando surgiram os Beatles, eu fui ver o A Hard Day’s Night [filme lançado em 1964, conhecido no Brasil como Os Reis do Iê-Iê-Iê] no cinema. Entrei e ouvi aquele primeiro acorde [imita o som da guitarra de “A Hard Day’s Night” com a voz], e ali já mudou tudo na minha vida. Costumo dizer que, por mais que eu já conhecesse música brasileira, meu primeiro contato com os Beatles transformou meu DNA rapidamente. Não que eu fique em casa escutando, porque o que eu já escutei deles não preciso escutar nunca mais! [risos]”

Reunião?

Com o disco Clube da Esquina completando 40 anos de existência em 2012, a possibilidade de uma reunião parece depender apenas de Milton Nascimento. “A gente não tem conversado sobre isso”, revela Lô Borges. “Até me encontro com ele de vez em quando, mas essa coisa do Clube da Esquina, como foi ele que nos convidou pra fazer o álbum... qualquer coisa que for acontecer em relação aos 40 anos tem de partir do Milton Nascimento. Ele é o titular da pasta, entendeu? [risos]. Eu só vou ter vontade se o Milton me convidar, caso contrário vou continuar fazendo meus álbuns, pois estou numa fase muito legal. Aliás, caso não ocorra a reunião, eu considero Horizonte Vertical um presente meu aos 40 anos do álbum, para os fãs.”