Confissões de uma Mente Suja

O que há embaixo da cama de George Clooney? Este e outros segredos do homem mais cool de Hollywood

Erik Hedegaard Publicado em 05/01/2012, às 11h28 - Atualizado às 15h50

SELVAGEM?  Clooney, 50 anos, ainda curtindo a vida adoidado

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Algum astro do cinema já foi mais perfeito do que George Clooney? Olhe para ele agora, sentado em sua casa em Hollywood Hills, usando calças brancas, meias brancas, botas marrons impecáveis, camisa polo azul elegante, com olhos sonhadores castanhos em tom de chocolate, ombros largos, uma linha reta de dentes brancos (mas não demais), cabelos embranquecendo dignamente, pernas cruzadas com confiança, o sorriso fácil e uma aura de certeza e calma. Ele está falando sobre uma coisa ou outra – talvez sobre o fracasso dos políticos contemporâneos (“Estamos vivendo em uma época na qual somos tão malditamente polarizados que é loucura”), talvez sobre as atrocidades em Darfur, talvez até um pouco sobre seus dois últimos filmes, ambos indicados ao Globo de Ouro: um drama político chamado Tudo pelo Poder (“Não é para todos, mas não me importa. Não preciso ser mais famoso e o fizemos por US$ 12 milhões, então qualquer lucro que vier é bom”) e um drama familiar sombriamente divertido chamado Os Descendentes (“Vou ficar chocado se não for indicado para Melhor Filme. É bom nesse nível”). Clooney está certo sobre isso e deve receber uma indicação para Melhor Ator também, mas a verdade, no entanto, é que é incrivelmente difícil ouvir qualquer coisa acima da estridência do quanto perfeito tudo é, tanto ele quanto toda a sua órbita. A casa dele, por exemplo, não é só uma casa; é um reino em estilo Tudor inglês, com quadras de tênis e de basquete, piscina com um bar dentro, cascatas, uma churrasqueira em aço inox (“Faço um cordeiro incrível! Sou mestre na grelha!”), uma sala de projeção em 3D e um taco de beisebol do Louisville Slugger, modelo C271, escondido embaixo da cama na suíte principal, para Clooney se defender se alguém um dia invadir sua mansão (nunca aconteceu). Também há sua magnífica villa do século 18 no Lago Como, na Itália, onde amigos famosos gostam de se reunir para subir no muro e pular no lago (“Consegui que Charlie Rose fizesse isso há algumas semanas, depois de nadar com Marisa Tomei e Evan Rachel Wood”). E também há as namoradas, sempre lindas, de pernas longas (“Sempre gostei de pernas”) e, quando tudo acaba, elas sempre se vão sem reclamações ou comentários desagradáveis em público.

E aqui está ele, sentado, descansando, alisando as calças e dizendo: “Acho que um dos maiores enganos a meu respeito é a ideia de que vivo minha vida da maneira que as pessoas imaginam, com bebidas e festas o tempo todo. Pensam na minha vida em termos de alguns excessos que não existem. As coisas na verdade são bem simples”. Exemplo: como o dia desta entrevista começou? “Vejamos”, ele diz. “Acordei às 7h30 com meu cachorro na porta do quarto. Einstein. Veio de um abrigo, seu nome deveria ser Jackpot. Bom, vesti o roupão, desci e dei comida para o cachorro. Escovei os dentes e fiz xixi – conseguir fazer isso simultaneamente seria algo muito bom, mas se eu fizesse ficaria com pasta de dente no saco. Depois tomei um banho, pedalei bastante na ergométrica e tomei outro banho. Então um médico veio para uns exames que faço a cada seis meses. Tirou sangue, muito sangue, e também mediu minha pressão, que estava muito baixa, aliás, 9 por 6.”

Claro que estava baixa. Como poderia ser diferente? O visual, o dinheiro, a fama, o charme, as mulheres, sua simples decência, o médico que atende em casa – seja o que for, ele tem, e agora a pressão baixa também. Não é justo. Simplesmente não é justo que tudo aconteça com uma só pessoa. E o resto de nós? No entanto, ele deve, no mínimo, ter pago um preço por isso. E deve ter sido muito alto.


O tempo todo ele é comparado com os maiores – Steve McQueen, Cary Grant, Gregory Peck – e as teorias sobre eles são infinitas. É o Último Verdadeiro Astro do Cinema. É o Último Americano. É o solteirão convicto pregador de peças de Hollywood e seu embaixador grisalho mais poderoso. Está entre os poucos que conseguem fazer comédia (E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?; O Amor Custa Caro), ação (Três Reis; Mar em Fúria), drama (Amor sem Escalas; Michael Clayton), narração (O Fantástico Sr. Raposo), filmes de serviço público (Syriana; Boa Noite e Boa Sorte), filmes para se sentir bem (a trilogia de Onze Homens) e mal (Um Homem Misterioso), e também dar o salto de muito trabalho na TV (cinco temporadas de Plantão Médico) para filmes, enquanto sobreviveu a diversos fracassos (Batman & Robin; Um Dia Especial). Além disso, é conhecido como o rei das conversas e sinônimo de classe. Para a esquerda, é uma espécie de anjo; para a direita, está mais para um idiota. Com certeza é alguém com quem se pode contar. “Uma qualidade que realmente o diferencia”, diz Steven Soderbergh, que o dirigiu em seis filmes, “é que só escolhe brigas com pessoas tão poderosas quanto ele, e isso é raro nesta indústria”. São todas essas coisas diferentes, mas o único elemento unificador que se ouve constantemente sobre George Clooney é que ele é sempre ele mesmo. O Clooney que você vê nos filmes é o mesmo Clooney sobre o qual lê, é o mesmo Clooney que vai a Darfur, é o mesmo Clooney que está sentado aqui agora mesmo dizendo: “Realmente sou bem o que as pessoas presumem”. Não há separação, e ele não esconde praticamente nada.

Quer saber se ele, beberrão famoso, tem um problema com a bebida? Jogando a nobre cabeça para a frente, ele tem o prazer de responder a essa pergunta. “Não sou muito de beber sozinho, mas bebo bastante”, responde. “Gosto de beber. Passei por fases nas quais bebia demais e tive de dizer: ‘Ok, já tive muitas ressacas consecutivas e preciso desacelerar um pouco’. A última vez em que me joguei na bebida foi depois de machucar o pescoço enquanto filmava Syriana. Beber bastante facilitava muito lidar com a dor e, por uns bons três meses, fiquei muito bêbado todas as noites.”

Quer voltar alguns anos e discutir as circunstâncias de seu primeiro orgasmo? Sem problema; na verdade, ele se empolga. “Acredito que foi quando estava escalando uma corda, quando tinha 6 ou 7 anos”, conta, com a voz subindo de tom. “Quer dizer, nada saiu, mas todos os outros elementos estavam lá. Lembro que cheguei ao topo da corda, fiquei pendurado lá e pensei: ‘Meu Deus, a sensação é ótima!’”

Quer saber se Max, o porco vietnamita de manchas pretas do qual Clooney foi dono e amou por 18 anos, dividia a cama com ele? Pode perguntar. “Dividiu sim, por um bom tempo, até ficar gordo demais.”

Quer saber se ele está namorando no momento? Bem, na verdade ele não vai responder essa. “Posso ter uma namorada, mas nunca vou falar sobre isso. É uma coisa que guardo comigo.” E digamos que você faça um tour pela casa que termine nos quartos, onde, na alcova de se vestir, ele mantém dezenas de camisas brancas protegidas por uma porta de vidro como se fossem um vinho raro. E que depois de olhar embaixo da cama e encontrar o taco de beisebol, você queira saber se há algo interessante no criado-mudo; o que ele gentilmente dirá enquanto o acompanha é “provavelmente não”, o que só pode significar que provavelmente sim. Mas, exceto por essas poucas coisas, ele está mais do que disposto a se abrir, como sempre esteve. Ao mesmo tempo, no entanto, isso não significa que absolutamente tudo está livre. Ele não mantém segredos, mas algumas partes de sua vida nunca foram realmente examinadas – seu período de George raivoso, por exemplo, nos anos 90. A carreira estava indo bem, mas ele estava com raiva. Ficava bravo com outros motoristas na rua, “malditos idiotas”, e abaixava a janela para gritar “Babacas!”. Quebrava tacos de golfe e os jogava no lago. Esmigalhava sua raquete de tênis. Tinha acessos de ciúme – “acessos terríveis nos quais você fica passando de carro pelo prédio da namorada [pensando]: ‘Sei que ela está com outro cara!’”. Ofendido por um conhecido, escreveu uma carta que tinha palavras como “chupa-pau” e “tremendo babaca”. E tudo isso não foi em consequência por nada como, digamos, seu desgosto de longa data com caras metidos a valentões, o que levou ao infame incidente no qual partiu para cima do abusivo diretor David O. Russell durante as filmagens de Três Reis, em 1999, e teve de ser fisicamente arrastado dali. Essa é uma raiva justificável – a outra não era.

“Não sou assim há muitos anos”, diz Clooney hoje, “mas é, houve esse período. Queria entender um pouco de onde veio tudo aquilo, mas quem é que sabe, certo?” Bom, ninguém se não ele, mas ele não é uma pessoa naturalmente dada à introspecção. Um dia, por exemplo, peço para que complete algumas frases.

“Claro”, ele responde. “Manda.”

Tenho...

“50 anos.”

É divertido ficar sonhando com...

“Cabo San Lucas.”

Acho que meu pai raramente...

“Me decepciona.”

Masturbação é...

“Crucial!”

Quando me olho no espelho...

“Fecho um olho.”

Minha consciência me incomoda...

“Só à noite e durante o dia.”

Meus amigos não sabem que tenho medo de...

“Meus amigos.”

Viu como ele é, todo rápido e desviando do assunto?

Será que dava para ele não ser assim?

O que gosto menos nas mulheres...

Ele abre a boca, mas nada sai. Então, diz: “Não há nada além de respostas rápidas”.

Que tal dizer “é que todas querem se casar”?

Ele franze a testa. “Mas isso não é verdade, e não é o que gosto menos nas mulheres.”

Então, o que é?

“Não sei. Nunca pensei muito nisso. Dá para argumentar que você me encurralou dizendo: ‘Não faça o que você faz’. Eu diria que você roubou todas as minhas ferramentas.” Ele parece agitado, não gosta mais da brincadeira, mas tudo bem, porque Clooney não é uma pessoa que se queira ver sem palavras. É algo que simplesmente parece errado, como algum tipo de violação cósmica da maneira como as coisas devem ser.

Meu nome é... E o mundo está...

Ele sorri. Consegue aguentar essa. “Meu nome é George e o mundo está com problemas”, responde. “Posso te dar o nome de 40 zonas quentes no mundo agora, não apenas fisicamente violentas, mas financeiramente violentas também.” E ele sai, de volta à sua zona de segurança.

Um dia, quando Clooney tinha 14 anos, estava comendo com a família em uma lanchonete Frisch’s Big Boy em sua cidade natal, em Ohio, quando tomou um gole de leite que lentamente começou a sair do lado de sua boca. Era o início da paralisia de Bell, uma forma de paralisia facial. Sua irmã, Adelia, tinha tido e havia se recuperado, e agora era a vez dele. Seu rosto ficou formigando, a língua adormeceu e um olho não fechava. Era calouro no ensino médio. Os colegas o chamavam de Cloon-dog, porque seu rosto ficou caído como o de um basset-hound. Não era bonito de se ver. Para complicar, seu pai, Nick, era apresentador do jornal da TV local e de um talk-show matutino.

“Você tem de lembrar que no microcosmo de Cincinnati, Ohio, até o norte do Kentucky, meu pai era uma grande estrela, ainda é. Então, isso fez com que eu e minha irmã ficássemos muito visíveis. Todos nos conheciam, falavam sobre nós. Se fazia 15 pontos em um jogo de basquete, o jornal noticiava: ‘O filho de Nick Clooney marcou 15 pontos’. Era muito esquisito ser observado daquela forma, todos olhando para nós e, de repente, seu rosto fica caído. Meu pai sempre dizia: ‘Vai passar, você vai ficar bem, consegue aguentar isso’. Mas era algo complicado, daí você desenvolve uma personalidade melhor e aprende a fazer piada com isso.”

Em outras palavras, ele começou a atuar.

Naquela época, às vezes a família tinha dinheiro, às vezes não. Sua mãe, Nina, ex-rainha da beleza, sabia usar uma tesoura e, para economizar dinheiro, fazia as roupas de George e cortava seu cabelo, quase sempre em estilo tigelinha. O pai era rigoroso. No entanto, isso não desacelerou muito George. Ele se metia em encrencas, ficava de castigo e fazia tudo de novo. Quando o pai contava uma piada indecente em um jantar, mas não conseguia criar coragem para dizer a frase suja, o filho imediatamente aproveitava a ocasião. “Eu dizia: ‘Por causa das tetas dela!’, ou algo idiota, e todos explodiam de rir, com meu pai me chutando embaixo da mesa. Mas, olha só, mesmo aos 6 anos eu entendia o que fazia as pessoas darem risada.”

Perdeu a virgindade aos 16 anos (“novo, muito novo, novo demais”). Sendo católico, sabia que a masturbação era pecado, mas, percebendo que mesmo assim era “crucial!”, seguia em frente. Depois, para se absolver, enchia os sapatos de pedrinhas e pulava de cima de seu beliche em cima deles, só percebendo algum tempo depois que se masturbar não era o pior de todos os pecados possíveis. “Se você olhar a lista dos dez maiores pecados, não está listado lá especificamente. Quer dizer, em geral não há nada sobre ‘Não deverás mexer em seu pinto’.”

Na escola, as notas eram boas e ele era um atleta de destaque no basquete e no beisebol. Aos 17 anos, fez um teste para o Cincinnati Reds, ficou assustado com um arremesso de 130 km/h que tinha sua cabeça como alvo e abandonou o sonho de se profissionalizar. Em vez disso, foi para a faculdade, Northern Kentucky University, para estudar jornalismo e enlouqueceu, bebendo, correndo atrás de mulheres, cabulando aulas e eventualmente abandonando o curso. Voltou para casa, fazia bicos e até cortava tabaco para viver (“um trabalho miserável”), até o dia em que sua tia, a grande cantora Rosemary Clooney, já falecida, e seu marido, o ator José Ferrer, perguntaram se George queria um papel pequeno em um filme sobre cavalos de corrida (And They’re Off! ) que Ferrer estava filmando ali perto. Ele se animou e soube imediatamente o que queria fazer da vida – algo, na verdade, que já fazia nos seus dias de comediante de jantares e paralisia de Bell.

Era 1982. Rapidamente, enfiou US$ 300 no bolso, botou as malas em seu Monte Carlo caindo aos pedaços e escutou educadamente o pai lhe dizer que ele não tinha as qualidades necessárias para ser ator. “Falei todos os clichês que consegui”, relembra Nick Clooney. “Disse: ‘Volte para a escola, George’. Mesmo depois de chegar à Califórnia, falávamos ao telefone e eu dizia: ‘Por que você não volta para casa? Pagamos a faculdade, você terá algo para te apoiar’. Fiquei falando isso até o dia em que ele interrompeu meus apelos e falou: ‘Pai, quer saber? Se eu tiver algo em que me apoiar, sabe o que vou fazer? Vou ficar lá encostado!’. Isso me deteve. Nunca mais falei nada.”

Clooney viajou acampando no carro até Hollywood; badalava como louco, principalmente com bebida, alguma cocaína e muitos sedativos Quaalude (“Achava a melhor droga já inventada!”); foi para testes nas quais, como a maioria dos atores, sua performance era humilde, de chapéu na mão; conseguiu alguns papéis, Sunset Beat, Street Hawk, Combat High, coisas insignificantes; viu o tio alcoólatra homônimo, tio George, morrer de câncer de pulmão, murmurando ‘Que desperdício’ enquanto definhava; decidiu na mesma hora que, se a morte era inevitável, viveria sob os próprios termos; conseguiu um papel recorrente em Vivendo e Aprendendo; às vezes ia para testes com um cachorro como acessório, levando os profissionais de elenco a se perguntar “Mas que diabos?”.

No início dos anos 90, ganhava US$ 400 mil por ano aparecendo regularmente em programas de TV esquecíveis. Um bom dinheiro, mas não necessariamente com trabalho que gerasse uma carreira. Em 1994, foi convidado para um papel no piloto de um seriado médico por uma mixaria. Aceitou a mixaria e, logo, o ibope de Plantão Médico atingiu a marca de 40 milhões de telespectadores. Ele era um superastro da TV. Então, em 1998, Soderbergh o dirigiu em Irresistível Paixão, coestrelando Jennifer Lopez. “Na época, ambos sabíamos que estávamos tendo nossa chance e, se estragássemos tudo, já era”, conta Soderbergh. “Mas, embora o filme não tenha ido bem, foi um sucesso criativo, e não dá para olhar para George nele e não pensar: ‘Ok, esse cara é um astro do cinema’.” Logo, tornou-se muito mais – virou o Último Verdadeiro Astro do Cinema, o Último Americano, etc.

No entanto, a coisa mais importante a se saber sobre o passado de Clooney é que, desde o início, os pais o criaram para se comportar de uma certa maneira, especialmente nas muitas aparições públicas em que seu pai era a atração principal.

“Minha irmã e eu nunca gostamos muito daquilo”, diz Clooney. “Você tinha de estar ligado, ‘era a hora do show’. Você tem a exigência de entreter. Aos 7 anos, eu tinha de subir ao palco e dizer algo. Éramos uma família do entretenimento, minha mãe e eu fazíamos comerciais no programa do meu pai. Toda a família era como um grupo de teatro. E algumas vezes, quando eu preferiria ficar com os amigos e jogar beisebol e minha irmã só queria ler, meus pais ficavam silenciosamente chateados, e tínhamos essas longas viagens de carro até um evento. Mas, assim que saíamos do carro, era show business, baby. Você ficava aceso. Gritavam ‘Ei, ei! e respondíamos ‘Olá!, e toda a família sorria, voltávamos para o carro e ninguém falava mais nada.”

Boas maneiras também eram consideradas importantes. “À mesa”, ele conta, “era ‘Não mastigue de boca aberta, só comece a comer quando todos estiverem prontos, não apoie os cotovelos na mesa’. É engraçado. Ainda lembro algumas dessas regras.” Ele faz uma pausa. “Lembro que meu pai estava de bobeira uma vez, estávamos em um jogo do Reds, coloquei mostarda demais no cachorro-quente e ele disse: ‘Não exagera, você vai ter um enfarte’. Até hoje, quando ponho mostarda no cachorro-quente, penso: ‘Oh-oh, melhor eu me cuidar. Não quero ter um enfarte’.”

Tudo isso explica muito o tipo de homem que Clooney se tornou. É o mais refinado dos astros do cinema, nenhum fio de cabelo fora do lugar. E ele também é perfeito de muitas outras formas, não vamos esquecer.

Entre suas ex-namoradas: Dedee Pfeiffer (irmã de Michelle), Kelly Preston (com quem comprou seu amado porco, Max), Talia Balsam (esposa, de 1989 a 1993), Karen Duffy (atriz, lindas maçãs do rosto), Celine Balitran (estudante de direito francesa, 1996-1999), Krista Allen (atriz, dois rompimentos com Clooney, em 2004 e 2006), Lisa Snowdon (modelo, durou cinco anos, belo decote), Sarah Larson (garçonete de Las Vegas, 2008), Lucy Wolvert (garçonete inglesa), Elisabetta Canalis (modelo italiana e ex-participante do Dancing With the Stars). E, agora, há Stacy Keibler, 32 anos, lutadora profissional que começou a publicar no Twitter coisas como “Estou no céu” e “Não parei de sorrir o dia inteiro”.

É de se pensar que Clooney botaria um freio nesse tipo de coisa, mas não.

“Ela pode fazer o que quiser”, afirma. “Raramente digo a alguém o que deveria estar fazendo de sua vida.”

Então, ele não tem regras para as namoradas?

Dá uma fungada. “Não. Nenhuma regra. Nenhuma conversa séria. Nada.”

Um dia irá se casar?

Mais fungadas. “Respondi a essa pergunta em 1997, pouco depois do meu divórcio, e não falei realmente sobre isso desde então. É uma daquelas coisas, como muitas na vida, que são escolhidas e repetidas e feitas para parecer notícia nova.”

Einstein se enrola perto de Clooney no sofá. Ele acaricia sua cabeça. Escolheu este cocker spaniel em particular por três motivos: tinha sido maltratado, precisava de uma vida melhor e já era domesticado. “Sou péssimo para treinar. Tive dois buldogues antes que se sentavam no chão na minha frente e faziam cocô. Nunca fui bom em bater em cachorros nem nada do tipo.” Nos momentos seguintes, ele faz um acréscimo considerável à sua lista de perfeições. Por exemplo, a palavra “Johnson” [gíria em inglês para pênis] sempre o faz rir. “Sempre. ‘Mostrou a ela seu Johnson e ela foi embora’. Dá para dizer uma coisa dessas no meio de várias pessoas ou tarde da noite na TV.” Peidar também, especialmente quando está com os amigos. “Achamos uma das coisas mais engraçadas da história da humanidade. Até a ideia de peidar me faz rir. Dizer a palavra ‘peidar’ me faz rir. Tenho o aplicativo iFart no meu telefone. Tenho almofadas de pum com controle remoto. Peidos. Para mim, não há nada mais engraçado.”

O que mais entra na lista? Ele dizer: “Sou o homem menos metrossexual que você vai conhecer. Nunca fiz as unhas das mãos nem dos pés e corto meu próprio cabelo”. Ele dizer: “Em dia de premiação, posso jogar basquete, ir tomar um banho e vestir um smoking – e sair em 15 minutos”. Ele ser tão confortável consigo mesmo que, em sua companhia, também te deixa à vontade. Quando sorri, você sorri, e sorri bastante, porque ele diz muitas coisas sobre as quais vale à pena sorrir.

Gosta de dormir de conchinha? Responde com a cabeça que sim. “A não ser que esteja comendo.” Sorri.

Ele é incrivelmente alfa, também, mas de um jeito bom. Digamos que você brinque de dar tapas nas mãos dele. Instantaneamente, ele assume a posição de quem bate primeiro. Bate com uma velocidade enervante – mas nunca forte a ponto de machucar, só para avisar. E, quando você finalmente consegue sua vez, ele percebe sua falta de coordenação e discretamente te deixa bater algumas vezes. Legal. Na verdade, tudo é muito bom, mas essa própria grandeza enjoa um pouco e te leva a perguntar se ele nunca teve de pagar um preço horrível por isso tudo.

Com certeza ele sofreu, e mais dolorosamente depois de machucar as costas enquanto filmava Syriana e começou a vazar fluido espinhal pelo nariz. “Cheguei a um ponto no qual pensei: ‘Não posso existir assim. Não posso realmente viver’. Estava deitado em uma cama de hospital com soro na veia, incapaz de me mexer, tendo essas dores de cabeça com as quais você sente que está tendo um derrame, e por um período curto, de três semanas, comecei a pensar: ‘Talvez eu tenha de fazer algo drástico sobre isso’. Você começa a pensar que não quer deixar sujeira para os outros, então vai para a garagem, entra no carro e dá a partida. Parece a melhor forma de fazer isso, mas nunca achei que chegaria a esse ponto. Olha, eu estava em um ponto no qual tentava descobrir como sobreviver”. A cirurgia ajudou, mas ele ainda tem dores de cabeça até hoje, embora não tão fortes.

E, claro, há a perda da privacidade do astro de cinema, que Clooney diz ser o que mais o incomoda em ser uma celebridade. Mas, realmente, tem de haver mais coisas.

Um dia, Clooney está em seu escritório fazendo o que faz de melhor: sendo perfeito. Digamos que você está voltando do banheiro, onde pensou em lavar as mãos, mas não lavou. Ele te vê e a primeira coisa que diz é: “Espero que tenha lavado as mãos”. Como isso é possível? Há câmeras escondidas no banheiro? Como poderia saber que você não lavou? Provavelmente porque, como com tudo o mais, ele tem a verdade divina.

Mas então a discussão começa a girar em torno de medos irracionais e se ele já teve algum. Cruza as pernas. “Quando era novo”, ele lembra, “tinha esse medo muito irracional de que poderia fazer qualquer coisa. Meu pai e eu subíamos uma ponte, a 60 metros do chão, e eu pensava: ‘Posso pular daqui. Posso dar um passo para a frente e tudo acabaria’. E, quando isso entra em sua cabeça, é só no que você consegue pensar.” Clooney faz uma pausa, muda de posição e continua. “Em um sentido mais prático, quando tinha 12 anos, eu comandava o teleprompter para meu pai quando ele estava lendo as notícias ao vivo e ficava pensando: ‘Posso simplesmente pular na frente da câmera agora e falar “Foda, foda, foda!” e ninguém poderá fazer nada sobre isso’. E virou tudo em que conseguia pensar e tive de me segurar para não levar isso adiante. Então, isso virou uma coisa que eu tinha com tudo. Poderia me levantar na igreja e gritar obscenidades, poderia simplesmente me levantar e fazer isso agora mesmo. E as paredes desabariam e todo o mundo ruiria.”

Aí está, simplesmente assim. Porque George Clooney é do jeito que é e esse é o preço que teve de pagar. Quando o destino do mundo está em seus ombros, a perfeição é seu próprio preço. É como a coisa de a mostarda render um enfarte: não é verdade, claro, mas em algum lugar, bem lá no fundo, a crença persiste. Ele pode ter tido aquele período raivoso, mas não durou porque não poderia, porque, se tivesse durado, o mundo ruiria, e ele seria o responsável. Que homem ótimo é este George Clooney. O mundo está com problemas, mas não tema – ele está trabalhando e cuidando de todos nós.