Explorando a Dualidade e a Emoção

Claudia Leitte faz show íntimo em Salvador, mas deve voltar à grandiosidade dos estádios ainda neste ano

Paulo Terron Publicado em 05/01/2012, às 12h49 - Atualizado às 15h17

PALCO DIVIDIDO  Claudia Leitte gravou o show Negalora no Teatro Castro Alves, em Salvador,

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Apesar da banda esgotada com as muitas horas de ensaio e da hora avançada (os relógios já marcam mais de 2h, madrugada adentro, no calor de dezembro), Claudia Leitte pede com carinho aos companheiros: “Só mais três?” E com jeitinho consegue ensaiar mais cinco músicas. No dia seguinte ela gravaria – e estrearia – o espetáculo Negalora. Mais do que um show, o evento é um confessionário para a cantora, misturando canções inéditas a composições que ela acredita conduzirem uma história. “Eu queria que o show falasse das minhas raízes”, explica Claudia, no dia seguinte à gravação. “Às vezes acho que é estranho para as pessoas verem assim – branquinha, loirinha – e depois me verem dançando, cantando, de uma forma que me é muito natural. O [Carlinhos] Brown sempre disse que eu era preta por dentro. ‘Você é muito preta, véio!’, ele diz.”

A ideia surgiu informalmente, em uma viagem de férias para a Califórnia. Inicialmente, Claudia queria se apresentar apenas com o acompanhamento de cordas – só que o conceito evoluiu até chegar ao formato final, com 14 músicos de apoio no palco a arrecadação das entradas sendo revertida para um hospital local. O espetáculo deixou de ser intimista, mas continuou íntimo, baseado na ideia central de dualidade. “Quando eu era pequena, minha família perdeu tudo o que tinha e fui morar em um bairro muito simples, mas minha mãe sempre batalhou muito e estudei em uma escola muito boa”, explica a carioca, que foi criada em Salvador. “Cresci entre esses dois mundos. Não tinha como eu ser outra coisa, sabe? Agora eu tinha de contar essa história. Eu sou a neguinha que brincava na rua, mas sou a menina da escola também.”

Durante o show na Bahia, as memórias familiares levaram a artista às lágrimas durante uma emocionante performance de “Você Existe em Mim” (composição de Carlinhos Brown, também arranjador do show, com Josh Groban). “Cantar um negócio desses na frente da minha mãe há menos de dois meses da morte da minha avó... Eu tinha de olhar e ver se ela estava bem”, ela conta. “Eu sentia que tinha tristeza, mas também havia uma felicidade ali.”

O próximo passo, depois da tradicional maratona de Carnaval, é levar o novo formato de show a pelo menos oito cidades brasileiras. Depois, mais perto do segundo semestre, deve ser feita a gravação da segunda parte do projeto de DVD duplo da cantora (ainda sem previsão de lançamento): um dos discos terá Negalora, mas o outro deve ser registrado em uma apresentação de estádio (o local exato ainda não foi definido, mas Claudia aponta uma preferência: “Vi vários shows no Morumbi e senti uma coisa especial. Eu queria fazer lá”).

O que os fãs não devem esperar para breve é um novo trabalho de estúdio, o sucessor de As Máscaras (2010). “Não quero gravar agora”, ela diz. “Acho que a chegada do iTunes vai ajudar muito nisso porque fazíamos um disco de 14 faixas e o consumo daquilo era muito rápido. Então, é melhor ir fazendo umas faixas soltas, um disco ao vivo.” Nesse ritmo, ela já liberou gratuitamente em seu site oficial músicas novas como “Samba” (com Ricky Martin), “Locomotion Batucada” e “Preto”. “Vou soltando antes, mas devem entrar no repertório dos DVDs ao vivo, então elas já me obrigam a estar um pouco no estúdio e viajar ali dentro”, finaliza.