Jatos Particulares e Muita Festa

David Guetta, o maior DJ do mundo, vive entre luxo, famosos e uma noite que parece não acabar nunca

Josh Eells Publicado em 05/01/2012, às 13h22 - Atualizado em 26/01/2012, às 12h21

MOMENTO DE PAZ  Guetta relaxa fazendo um piquenique com uma amiga
KAVA GORNA

A pior coisa quando se voa para Ibiza no jatinho particular de David Guetta é que o teto é muito baixo. Por isso, quando você precisa usar o banheiro depois de duas taças de champanhe, é necessário abaixar a cabeça um pouco para não batê-la na porta. A segunda pior coisa quando se voa nesse jatinho ou, em geral, na vida do DJ é... nada. O avião de Guetta – um Cessna CJ3 bimotor, pilotado por dois alemães sorridentes chamados Thomas e Manuel – voa acima do Mediterrâneo, na tarefa de levá-lo para a Fuck Me I’m Famous, balada semanal que ele comanda em Ibiza durante o verão. É provavelmente a festa dance mais celebrada no mundo – atraindo gente que vai desde Dr. Dre até Jean Paul Gaultier. Há alguns anos, Will.i.am apareceu e Guetta chamou-o para a cabine, para fazer um freestyle; não é exagero dizer que aqueles poucos minutos mudaram o som do pop contemporâneo.

Com poucas exceções notáveis (Daft Punk, Fatboy Slim), a dance music europeia sempre foi uma daquelas coisas que a América do Norte nunca entendeu direito – assim como Roberto Benigni ou o socialismo. Mas, desde que os Black Eyed Peas transformaram a pulsante eurohouse em ouro nas paradas com a insanamente popular “I Gotta Feeling” (que Guetta produziu) e “Boom Boom Pow” (que usava o mesmo sample que Guetta tocou para Will.i.am naquela noite), o pop norte-americano passou a ter uma batida continental. Hoje, é impossível passar cinco minutos ouvindo uma rádio em qualquer lugar das Américas – inclusive no Brasil – sem ouvir uma música que soe como uma produção de Guetta (e muitas delas são mesmo). Os títulos são intencionalmente genéricos e facilmente internacionalizáveis – “When Love Takes Over”, “Little Bad Girl”, “Without You” – mas essa onipresença está transformando Guetta em uma nova entidade: um autêntico DJ pop star.

Criado em Paris, Guetta sempre soube que queria discotecar. “Lembro-me de uma reunião com meus pais e um professor de matemática quando eu tinha 14”, ele diz, entre mordidas em um suflê de framboesa, com a luz do pôr do sol brilhando púrpura através da janela do avião. “Eles disseram: ‘Você está com problemas – não está estudando’. E eu: ‘Quero ser DJ – não preciso ser bom em matemática!’”

Não demorou muito até que conseguisse um emprego tocando em uma balada gay – ele era um rapaz magrelo (e heterossexual) de 17 anos que legalmente não deveria nem estar lá dentro – e, a partir daí, seguiu-se uma lenta e constante jornada até atingir a posição de atração principal em festivais de dance, tocando para 80 mil fãs enlouquecidos. “Sempre tive uma boa conexão com as pessoas”, diz Guetta. “Essa é a coisa mais importante quando você é DJ. Mas o que realmente me fez explodir foi quando criei esse som novo – eletro misturado com o soul urbano. Isso se tornou o novo padrão da música pop norte-americana hoje.”

Guetta fala de seu sucesso de uma maneira natural, afetada, mas sem excessos – o suficiente para não soar como se estivesse se gabando. “Muita gente acha que os franceses são arrogantes. Mas sério: só estamos dizendo a verdade.” Ele também expressa espanto ao pensar como o filho de um professor de sociologia judeu-marroquino acabou em uma reunião com Bono e colaborando com Will.i.am em um projeto para a Nasa. E há coisas como sua recente visita a Atlanta com Akon. “Ele me levou em uma casa de strip chamada Magic City”, diz Guetta. “Eu nem sabia o que ‘fazer chover’ significava. Ele me deu uma pilha de dinheiro” – ele faz um gesto do tamanho de um cofrinho – “e disse: ‘Ok, você tem que jogar o dinheiro para a garota’. E eu disse: ‘Jogar dinheiro para o alto? Isso vai contra toda a minha educação!’ E ele: ‘Yeah – é por isso que fazemos!’”

Quando Guetta chega a Ibiza, uma van o pega ainda na pista de pouso e o leva até a Land Rover que o aguarda. Depois de uma rápida passada em casa para deixar suas malas e tirar um cochilo, ele volta à ativa na Pacha, a fortaleza dos prazeres que serve de lar para a Fuck Me I’m Famous, onde três mil fãs – russos, alemães, espanhóis e suecos, cada um pagando 70 euros pela entrada – formam filas para comprar vodca com soda a 15 euros. Na área VIP, infinitas garrafas de Grey Goose são despejadas nos copos de mesas que chegam a custar 6 mil euros. Os homens são ricos e bronzeados, as mulheres parecem ter mais de 2 metros e são lindas. O banheiro é uma Babel de delícias.


Guetta entra para tocar às 3h45 da manhã. Às 4h30, a esposa e sócia dele, Cathy, deleita a plateia distribuindo bastões brilhantes com as cores do arco-íris e picolés sabor cereja. Às 5h05, três caras em trajes de robô de quase 2,5 metros de altura marcham para apresentar uma dança coreografada com laser e fogo. Às 6h30, Guetta lidera um brinde de champanhe enquanto seu novo single do momento, “Without You”, bomba ao fundo (ele o tocaria duas vezes nessa noite). Paris Hilton se materializa usando um boné de caminhoneiro da Fuck Me I’m Famous e falando empolgadamente sobre como o DJ é um gênio. Finalmente, por volta das 8h, Guetta tira os fones de ouvido, ergue os braços vitoriosos e sai pela porta em direção à Land Rover.

Na tarde seguinte, ele está no pátio de sua propriedade, aconchegantemente encaixada ao pé das colinas da ilha. O jardim é pontuado por palmeiras e cabeças de Buda esculpidas em pedra, e a piscina tem o formato de um crucifixo gigante. É o tipo de lugar que só poderia pertencer a um astro do rock ou a um vilão de James Bond.

De uma porta corrediça de vidro, através de cortinas brancas que esvoaçam com a brisa, vem Bruno, o elegante mordomo de Guetta. Os dois trocam umas poucas palavras em francês, e Bruno ressurge uns poucos minutos depois com saladas. Depois disso, melões e peras fatiadas, seguidas por dois dos maiores pedaços de lula conhecidos pelo homem. “Eu como, tipo, comidas supersaudáveis”, diz Guetta. “Espero que isso seja ok para você.” Ele não fuma ou se droga e raramente bebe, embora admita uma fraqueza por presunto ibérico. “É o melhor do mundo.”

Depois do almoço, fazemos uma caminhada passando por uma cabana e uma escultura de letras prateadas de 2 metros de altura, que formam as palavras “music” e “love”, até chegarmos ao estúdio de Guetta. Grudado em sua escrivaninha há um post-it amarelo com o e-mail de Usher. Sentando-se em sua poltrona de couro marrom, ele abre a pasta e tira o MacBook. Ele está começando a trabalhar no material para o próximo álbum, previsto para 2012. Antes disso, ele passa pelo Brasil em janeiro, para shows em diversas cidades. Mas, no momento, ele está limitando sua produção a trabalhos para amigos, como Usher e 50 Cent. “Só estou fazendo favores no momento”, diz ele.

Não demora muito até que estejamos de volta ao avião, a caminho da próxima apresentação. Thomas vê Guetta colocar seu agasalho. “Está com frio? Quer que esquente o ar?”, diz o piloto. “Talvez um grau mais quente?”, diz Guetta. Um segundo almoço é servido, salada de alga e sushi, e quando o serviço de chá é retirado já estamos na Bélgica. A cidade é Liège, um antigo centro de produção de aço seriamente atingido pelo declínio da indústria. O show é ao ar livre, em uma enorme tenda preparada no meio de um campo. Há 15 mil garotos comendo pannekoeken, uma panqueca local, e bebendo algo chamado Mega Fuel. As garotas vestem trajes nada práticos, tão curtos que seriam capazes de causar um terremoto. Guetta entra no palco usando uma túnica negra com capuz e passa as próximas três horas pulando ao som de 15 mil belgas pirando coletivamente. “Amo minha vida”, Guetta diz mais tarde. “Estou feliz que meus discos estejam vendendo tão bem. Estou feliz em ser o maior DJ do mundo.”