Mais Hubert

Leia aqui a íntegra da entrevista com o humorista, entrevistado no P&R; da edição 64, janeiro/2012, da Rolling Stone Brasil

Stella Rodrigues Publicado em 06/01/2012, às 18h18 - Atualizado às 18h26

ESCRACHADO  Humor de duplo sentido de Hubert se renovará em 2012
Divulgação

Leia abaixo a íntegra da entrevista com o humorista Hubert, entrevistado no P&R da edição 64, janeiro/2012, da Rolling Stone Brasil. Ele fala sobre a volta à TV do grupo Casseta & Planeta, a respeito do filme As Aventuras de Agamenon, o Repórter, que estreia nesta sexta, 6, e do humor no Brasil.

O mockumentary tem bastante espaço nos Estados Unidos, mas ainda é incipiente no Brasil. Pareceu lógico contar a vida de um jornalista de mentira com um documentário de mentira?

Acontece o seguinte: esse filme não é um documentário de mentira. Ele é uma comédia e em alguns pedaços ele utiliza a técnica do documentário. Mas ele não é um documentário. Ele tem cenas de ficção. Aliás, tem muito mais cenas de ficção do que cenas de documentário. E usa essa forma de documentário pra contar alguns pedaços da história do Agamenon, mas não é um falso documentário. Ele é uma comédia verdadeira.

Uma comédia verdadeira que mistura fatos reais.

Exatamente. Na verdade, a gente não quis fazer um documentário, a gente quis fazer uma comédia utilizando, misturando as linguagens, às vezes, fazendo cenas, às vezes fazendo cenas dramáticas, às vezes apresentando um cine-jornal, às vezes aparecendo um depoimento de uma pessoa. Mas ele não é um documentário. Ele é um filme de ficção. Ele é muito mais um filme de ficção do que um falso documentário, um mockumentary.

O humor brasileiro tem estado em alta. Uma crítica freqüente é que ele fica muito baseado em “peito, bunda e pum”. Você se sente assim compelido a fazer algum tipo de defesa quando você ouve essa afirmação?

Isso não é verdade. Não é nem no nosso caso, nem no caso dos outros. Eu acho que o humor brasileiro é um humor até rico, porque ele tem vários tipos, vários comediantes, vários tipos de humoristas, cada um de um gênero diferente. E eles todos convivem e todos têm o seu mercado. Todos têm o seu público, entendeu? Eu não acho que o humor brasileiro sofra desse problema de piada de pum. Acho que é outra coisa: o humor brasileiro têm vários tipos de estilo e também de pessoas que estão fazendo. Pessoas que já estão na estrada há muito tempo como a gente, pessoas que estão surgindo agora, pessoas antigas, mais antigas que a gente até e que continuam trabalhando. Esse filme, o Agamenon, foi uma maneira de reunir num filme só, gerações diferentes de humor. Você vê que tem eu e o Marcelo (Madureira) que somos do Casseta & Planeta, tem o Marcelo Adnet que é da MTV, tem também o Robson Nunes que faz o papel de Ronaldinho no filme, que é mais jovem ainda que o Adnet. Temos o Miele que está há mais cinquenta anos no show business, uma lenda viva do show business, enfim, esse filme também é uma maneira de mostrar que o humor brasileiro tem muita coisa a oferecer.

Falando nisso, a ideia de dividir o mesmo papel com o Marcelo Adnet no filme tem um tom meio piegas de passar a tocha do humor para frente?

[Risos] Passar a tocha é meio... passar o bastão? A gente não consegue sair dessas piadas de duplo sentido. O que acontece é o seguinte. De verdade, não é questão de passar o bastão nem nada, nós somos fãs do Adnet, Já há bastante tempo, antes mesmo de ele trabalhar na televisão. Já conhecíamos o trabalho dele, é um sujeito da geração nova, é um dos maiores talentos, senão o maior e eu sou super fã dele e a gente resolveu convidá-lo para o filme e ele aceitou entusiasmado, porque ele também é fã da gente. Casseta & Planeta é uma referência dele. O Adnet não fez o filme e foi embora, ele participou muito nas leituras, deu sugestões, acrescentou coisas na hora de filmar, enfim, ele bateu muita bola com a gente na hora de fazer esse filme. A gente criou coisas junto com ele também deu seu toque final lá no personagem. Não é bem essa questão de passar o bastão, mesmo porque eu não vou passar o bastão no Adnet, ele é casado com a Dani Calabresa. Não vai pegar bem passar o bastão no Adnet. Foi, na verdade, porque a gente é fã dele. E foi ótimo ele ter feito o filme, ele deu um grande às Aventuras de Agamenon, o Repórter.

Ele mexe muito no texto porque ele está acostumado a escrever o próprio texto?

Ele fez o texto que a gente escreveu e ele acrescentou coisas que ele achava legal, conversando com a gente, mudando uma coisinha ou outra. Porque o Adnet, apesar de ter essa, de ser um cara conhecido pelo improviso, é um cara muito disciplinado. Porque o Agamenon estava sendo feito por duas pessoas, tinha que ter uma unidade de interpretação, de personalidade. A gente tentou juntos fazer um personagem bem neurótico.

Tem algum tipo de tique, alguma coisa assim, que vocês combinaram?

Combinamos. O Agamenon é um jornalista sem escrúpulos, mau caráter, ele assume isso, é o único jornalista que assume isso no Brasil, a gente achou que o Agamenon deveria ser um sujeito muito neurótico. Então, a gente combinou que faríamos um Agamenon meio desconfiado, olhando pros lados, sempre achando que a polícia vai chegar, que vai ser preso, um sujeito muito neurótico, com uns tiques nervosos. Isso deu uma espécie de igualada na nossa interpretação. O filme vai até a metade com ele, depois segue comigo, então a gente achou que tinha que ter essa unidade. Outra coisa que ajudou nessa construção do personagem foi a questão da caracterização. A gente procurou uma pessoa mais jovem pra fazer o Agamenon mais jovem, porque não fica bem uma pessoa da minha idade fazendo o papel de jovem, fica estranho. Ao mesmo tempo, o Adnet fazendo o papel de velho, por melhor que seja a maquiagem, não fica bom, fica parecendo falso. Então, a gente chamou o Adnet pra fazer o Agamenon mais jovem e a partir de um determinado momento, que é quando ele está vendo a explosão da bomba atômica, em Hiroshima, no Japão, no final da Segunda Guerra Mundial, aí a gente tem um efeito e a cara dele se transforma em mim.

A censura é algo que parece ter regredido em um monte de coisas, no sentido de que agora você pode agora você pode ouvir palavrão na novela, pode ter cena de sexo, um monte de coisa que antes era tabu. Ao mesmo tempo, o humor, em algum sentido, parece ter regredido. Sente que há um patrulhamento com a comédia?

Eu acho o seguinte: eu acho que, por um lado, existe uma pressão maior, quando você faz uma piada e digamos, aquilo é referente a um determinado grupo, o que acontece hoje em dia é que esses grupos tendem a reclamar e tem também a Internet onde as pessoas, antigamente que não gostavam de uma coisa, elas nem se manifestavam, mas hoje em dia, todo mundo que não goste de um negócio tem um canal pra falar o que bem entender, de forma contundente, porque é virtual, ninguém vê mesmo, não é cara a cara, e, enfim. Quando você faz uma piada, digamos, uma piada sobre mulher, existe uma pressão de grupos para aquela piada não seja feita. Ou reclamando daquele determinado conteúdo, dizendo que é preconceito. Isso é uma coisa que tem, antigamente tinha menos, e eu acho que vai ter cada vez mais. Mas, por outro lado, se você reparar bem, se você pegar um sitcom que é feito no Brasil hoje e pegar um sitcom que era feito no Brasil há 30, 40 anos atrás, você vai ver que hoje em dia, apesar de toda essa coisa do politicamente correto, existe uma liberdade muito maior de você falar de certos temas, certos temas que eram tabus hoje são abordados de uma forma ou de outra na televisão, enfim, eu acho que não houve regressão, eu acho que existe mais reclamação hoje em dia, do que existia antigamente. Mas existe, por outro lado, uma liberdade maior de você criar, até porque a sociedade aceita isso de uma forma melhor.

Chegou a ver o trailer de The Dictator, com o Sacha Baron Cohen?

Não, mas adoro o Sacha, acho genial.

Dá para ver no trailer que é um humor diferente, no sentido que parece menos preocupado em não ofender, talvez. É porque é outro tipo de produção, outro tipo de público, outra cultura? O que você acha?

Olha, eu acho que não é por causa disso não. É por causa do estilo dele. O Sacha Baron Cohen é um estilo muito incisivo. Ele, inclusive tem essa coisa de fazer a interação do personagem fictício com a realidade. Então, ele investe muito nisso e é muito ousado nas coisas que ele faz. Eu acho que se deve mais ao estilo dele do que ao fato de ser de outro país ou de outra cultura. Ele vai fundo mesmo no negócio. É mais por causa disso. Você vê que, ao mesmo tempo, eles convivem com uma série de comédias românticas, que são filmes bobinhos, caretas, e tudo na mesma época. Por aí você vê.

Depois de anos imitando o Fernando Henrique Cardoso, lá estava ele no filme. Como foi a participação dele e dos outros convidados?

Eu já tinha umas outras vezes sido apresentado ao presidente e ele sempre gostou, elogiou essa imitação e eu já sabia que ele gostava. Todas as pessoas que participaram do filme, desde os depoimentos, Caetano, Jô, todas essas pessoas, elas participaram na faixa, entendeu? Tipo 0800, foi “de grátis”, todo mundo participou porque gosta do Agamenon, é fã da coluna do Agamenon e fizeram isso numa boa e mostraram que têm um grande senso de humor. É o caso do [Pedro] Bial, por exemplo, o Bial aparece no filme se ridicularizando. Ele manda matar o Agamenon, ele vira um assassino, contrata um matador de aluguel, então ele mostrou com isso que ele não se leva à sério, que isso é um bom sinal, não se levar à sério é um sinal de inteligência. Quando o humorista começa a se levar muito à sério, achar que é importante, que tem que falar o que as pessoas têm que fazer, começa a perder a graça e depois começa a perder o emprego [gargalha].

É um filme que não subestima o espectador. Fizemos filme da nossa cabeça, é um personagem meu e do Marcelo Madureira já há muitos anos e a gente falou: "não, a gente tem que ser fiel ao espírito do Agamenon e botar pra quebrar. Fazer um filme bem bacana!

Voltando ao FHC, ele agora é mais artista do que político: fez o documentário Quebrando o Tabu, fez o filme, está defendendo a maconha... Dá para dizer que ele é um de vocês agora?

As pessoas o chamam de THC, em vez de FHC! Ele ficou de levar uma marofa pra gente mas até agora não apareceu.

Promessa de político?

Exatamente, com político não dá pra gente contar.

O Casseta & Planeta voltará à televisão no ano que vem. O que vai mudar?

Vamos ter um programa que vai se chamar, em vez de Casseta & Planeta, Casseta & Planeta Vai Fundo, é um programa temático, que vai falar a cada semana de um assunto diferente. É um programa mais ligado à rua, ao povo fala, entrevista. Também assumimos uma nova função, porque antigamente a gente só escrevia e atuava. O programa era dirigido pelo José Lavigne, era direção geral, foi sempre assim. Ele montava o programa e a gente assistia depois, conversava, dizia se gostava, mas era mais responsabilidade dele. Agora não, agora nós estamos assumindo a direção geral do programa, através do Claudio Manuel e que representa o grupo, e a produção. Nossa responsabilidade com o produto cresceu muito mais. Vamos interromper a nossa parceria com a Maria Paula, estamos chamando para o programa a Miá Mello, que trabalhava no Legendários, achamos que ela vai arrebentar no programa. Outra pessoa que nós também vamos usar é a Maria Melilo, que foi do Big Brother.Para não ter aquela coisa de "substituíram a Maria Paula por não sei quem", nós estamos botando duas mulheres pra ocupar esse lugar, já que a Maria Paula é insubstituível. Estamos inaugurando uma nova fase na carreira e um novo formato na Globo. Vai começar em abril, para em junho, volta em outubro e acaba no final do ano. Começamos a gravar em fevereiro.

Chegaram a dizer que o grupo acabou e tudo...

Não, não, na verdade, quando a gente declarou que a gente estava dando uma parada, não que a gente estivesse saindo da televisão ou que o grupo tivesse acabado. A gente deixou isso bem claro, mas como a notícia vai passando, as pessoas ficam meio na dúvida. E a gente também passou o ano inteiro discutindo, escrevendo e trabalhando no próximo projeto. Então, às vezes, as pessoas ligavam pra gente e diziam: o que está acontecendo? O que vocês vão fazer? A gente não sabia porque a gente estava criando naquele momento. Agora a gente escreveu, a coisa está sendo produzida. Evidentemente que alguma coisa nova vai ser acrescentada, principalmente essa parte de atualidades, mas o programa vai vir totalmente diferente do que era. Só vem com o mesmo espírito de porco. A gente está satisfeito com o resultado e o público vai gostar muito porque vai ser um programa com a qualidade bem alta.

Você já está há mais de 30 anos nessa carreira, certo?

Eu trabalho desde os 17 anos em humor. Eu comecei a ser cartunista no Pasquim, depois eu fiz o Planeta Diário, depois o Casseta e Planeta, depois fizemos shows, fomos pra televisão fazer o programa Casseta e Planeta, ao mesmo tempo estive escrevendo a coluna do Agamenon no O Globo, enfim é uma carreira de mais de trinta... deixa eu ver, pra mim, mais de 35 anos, como humorista. Como Casseta & Planeta não, uns 20 anos mais ou menos.

Vocês fazem um tipo de humor que nesse tempo todo sofreu um monte mutação.

Exatamente, o mundo mudou muito nesse período de tempo. Quando a gente começou na televisão era bem diferente. Não tinham tantas emissoras concorrente como tem hoje com a Globo. Enfim, era uma realidade toda diferente, não existia internet. Eu acho que a gente viu muita coisa acontecer, o mundo mudou muito nesse espaço de tempo. A relação com o entretenimento do espectador mudo muito, então a gente foi tentando acompanhar essas mudanças e a gente está presente aí. Temos uma presença boa em redes sociais, a gente tem uns projetos individuais, de cada um de nós, que a gente acha que é uma coisa legal porque areja a cabeça, você trabalha com novas pessoas. Me sinto privilegiado de poder transformar essas minhas ideias de humor em realidade. É isso, vamos continuar, até a gente ficar velhinho desdentado, a gente está lá: mama, meu netinho! Segura na minha bengala e balança.

Vão fazer a mesma piada, mas vão mudar os objetos fálicos!

[Gargalha] Exatamente.

Apesar de o humor ter mudado muito desde que você começou, em especial neste último ano. Mudou muito e ficou muito em voga, para o bem e para o mal.

O humor é uma coisa, você vê que no Brasil, o Brasil como futebol, como música, eu acho que o Brasil é um país que sempre deu valor para os seus humoristas. Não é nem a gente que tem essa carreira de 20 anos, o Jô Soares continua em atividade até hoje, o Chico Anísio que estava até há bem pouco tempo trabalhando. Enfim, são caras que tiveram uma carreira genial, na época deles eles também arrebentavam. E você vê essa nova geração chegando, o Adnet, o pessoal do Pânico, outras pessoas também que eu não estou me lembrando agora, você vê que o mercado para o humor cresceu e antigamente, era difícil você ter repercussão do teu trabalho se você não estivesse na Globo. Hoje, você pode trabalhar na Band e ter repercussão do teu trabalho. Tem um mercado.

A maior transformação que vi no humor no Brasil nos últimos tempos é que ele cresceu muito e está na moda, é legal. Tem clubes de comédia, tem muita comédia sendo feita no cinema, tem muito sitcom na televisão, os programas têm se renovado.

Ele tem virado caso de polícia com uma certa frequência...

Tem esse tipo de humor que é aquele humor que procura chocar, falar mal de pessoas famosas e dizer que, sei lá, tem esse tipo de humor, tem gente que gosta, não é muito o meu estilo, apesar de achar que o humor não pode ser bunda mole, o humor não pode ser bonzinho, eu acho que tem esse estilo de humor, tem gente que tem uma preocupação de ser politicamente incorreto muito grande. Mas, é o tal negócio, cada um tem o seu estilo, tem gente que gosta e eu não posso fazer nada. Eu sou de um outro estilo, eu acho que o humor é uma criação, ele é uma elaboração que você faz da realidade, e eu acho que ele reflete a personalidade e a cabeça do cara que fez aquela piada. Esse é meu estilo, o estilo do pessoal do Casseta, é nosso estilo, enfim, mas cada um tem o seu estilo e todo mundo está aí. Se tem público pra tudo isso, tudo bem.

Tem muita gente que começa a entrar com ação, justiça, processo. Muitas pessoas fazem essas coisas até para um questão de... pra ganhar dinheiro. Não é nem por uma questão moral ou porque se sentiu ofendido. Agora, por outro lado, o sujeito que se sentiu ofendido com uma piada tem todo o direito de reclamar e processar o cara que fez a piada. Se você fez o negócio, você tem que arcar com as consequências do que você fez. Não ficar dizendo: ah, não era isso que eu queria dizer, pedindo desculpas depois. Se você faz a piada, tem que ser macho e assumir, quer dizer, se o cara se assumir, aí que ele não é macho, não sei.