O Chaz da Questão

Chastity, a filha de Cher, era mulher. Hoje, mudou de sexo e responde pelo nome Chaz. Quantos desafios ele deverá superar antes de se tornar um homem?

Erik Hedegaard Publicado em 07/02/2012, às 17h57 - Atualizado em 28/02/2012, às 17h31

EM ABERTO  Chaz Bono cresceu – e mudou – em público

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Como se sabe, chaz bono, 42 anos, passou por algumas mudanças nos últimos tempos. Começou a vida como uma menina chamada Chastity, filha única dos cantores Cher e Sonny Bono; participou do programa de TV deles, em meados da década de 70, como uma menininha fofa com cachinhos loiros, acenando para o público; revelou-se lésbica em 1995; reconsiderou sua identidade sexual alguns anos mais tarde; começou a fazer tratamentos com testosterona para se transformar em um rapaz; fez uma mastectomia para remover os seios; começou a levantar peso; é capaz de erguer hoje 12 kg em cada mão; passou a andar sem camisa sempre que queria, porque, caramba, agora era homem e podia; foi escalado para o programa de TV Dancing with the Stars; recebeu vários apelidos como “Bola de Basquete”, “Pinguim” e “Ewok”; foi mandado embora do programa depois de seis semanas; permaneceu sendo notícia quando Stephen, o filho transexual de Warren Beatty, o chamou de misógino e, depois, quando pediu em casamento a namorada, Jennifer Elia, 36 anos (e, claro, quando o casal se separou, em dezembro). Estar no meio disso tudo faria a cabeça de qualquer um rodar. O que o público não sabe, no entanto, é que, desde que Dancing terminou, Chaz anda examinando suas finanças, somando créditos e débitos, e tem bastante certeza de que em breve vai ter dinheiro para comprar um pênis só dele.

No momento, Chaz está em uma churrascaria chamada The Grill, no Hollywood Boulevard, em Los Angeles. Ele é um sujeito grande e simpático, tem a cabeça grande e um sorriso reluzente, do tipo que alegra a sala toda. Essa é uma das coisas que fazem com que ele tenha tanto sucesso em um programa como o Dancing with the Stars. Ele irradia simpatia. O outro aspecto, claro, é o fator de curiosidade inegável que o sujeito tem e que atrai o público. Falando sério, quais seriam as possibilidades de o rebento de Sonny e Cher ser transexual? Sonny e Cher: de hits como “I Got You Babe” e “The Beat Goes On”, a dupla com jeitão hippie do final dos anos 60, início dos 70, que produzia pop agradável para as massas. O casal era um em um milhão, então como é que os dois puderam ter um filho que era aquele um, entre as uma em cada quinhentas crianças (de acordo com um estudo, pelo menos) que nascem transexuais por ano? A partir da perspectiva deles, tinha de ser uma loucura. Mas, bom, Sonny nunca precisou lidar com a questão, já que morreu em um acidente de esqui, em 1998, muito antes da transição de Chaz. Não que ele fosse se incomodar; sempre ficava do lado de Chaz, não se importou com o fato de ele não querer vestir roupa de menina e detestar qualquer coisa cheia de babados, não se abalou com o fato de que o esporte preferido de Chaz fosse o boxe, não ligou quando a filha se revelou lésbica e provavelmente não teria se importado com o fato de “Chas” ter escrito seu nome durante toda a infância como “Chaz”, além de sempre ter se referido a ele mesmo como menino. Sonny era assim. A mãe, por outro lado, brigou com a filha a cada passo.

“Desde que me entendo por gente, sempre pareceu que a minha mãe queria que eu tivesse mais aparência de menina, e que agisse mais como tal”, Chaz escreve no livro Transition: The Story of How I Became a Man (Transição: A História de Como Eu Me Transformei em Homem). “Ela deixava bem claro que não gostava do meu estilo masculino nem da minha preferência apenas por amigos meninos.” Cher queria que Chaz se vestisse de menininha e ficasse feliz com seu quarto cor-de-rosa, com colcha, capas de almofada e tapete felpudo da mesma cor. Na verdade, ela nunca deu sequer uma bronca em Chaz; o principal era que ela não entendia como a menina era diferente e, como resultado, às vezes achava mais fácil ignorá-la e deixar sua criação a cargo de uma babá chamada Harriet, que acabou se revelando uma mulher violenta. Mais recentemente, no entanto, Cher tem sido bastante explícita no que diz respeito ao apoio por Chaz. A decisão dele de participar de Dancing perante críticas acaloradas da rede de TV Fox News e de outros bobões de mente fechada fez com que Cher escrevesse no Twitter: “Foi preciso coragem para fazer isso. Ele tem meu apoio em tudo o que escolher fazer”. No particular, por outro lado, parece que ela ainda não conseguiu aceitar completamente a coisa toda de Chastity ter se transformado em Chaz. E, não, Cher não fala sobre o assunto (apesar dos muitos pedidos). “É”, diz Chaz, “ela não se sente 100% à vontade. Para ela, é um processo. Se ela leu o meu livro? Acho que não. Não perguntei. Eu tentei ser o mais bondoso possível, mas o livro é muito honesto.”

Já em relação a si mesmo, Chaz diz que nunca se sentiu melhor. Já não se entorpece com analgésicos e álcool e já não passa dias e dias seguidos imerso em um videogame, apesar de ainda gostar de jogar. Ele também parou de fumar; e foi uma provação e tanto, até ficar sabendo de uma possibilidade assustadora caso continuasse. “Do jeito que eu fiz a minha cirurgia da parte de cima”, diz, “os mamilos são extraídos e, com os mamilos velhos, fazem mamilos masculinos. Eles são totalmente reformatados, digamos assim, e depois enxertados no mesmo lugar. Então, é um enxerto, e os enxertos nem sempre saram, e daí um transexual que a minha namorada conheceu disse:

‘Eu conheço gente que fumava e que os mamilos caíram’. Quando ela me contou isso, foi todo o incentivo de que eu precisava. Parei de uma hora pra outra.” E agora, para fazer a combinação mais completa de sua aparência com a maneira como ele sempre se sentiu, Chaz está ocupado em guardar dinheiro para comprar um pênis. Na verdade, ele nunca falou muito sobre essa questão. Quando alguém toca no assunto, ele costuma dar risada e dizer: “Gosto de manter minhas partes íntimas assim”. Mas, agora, por que não?

“Eu poderia fazer uma faloplastia, que constrói o falo a partir de um doador de órgãos para o seu corpo”, ele explica de maneira bem direta, “mas estou mais inclinado a uma metoidioplastia. É um procedimento que usa aquilo que você já tem lá embaixo” – ele está falando do clitóris – “que ficou maior por causa da testosterona. O resultado é um falo menor do que com a faloplastia, mas é totalmente funcional, fica ereto, e a sensibilidade toda está lá.” Antes que ele possa dizer qualquer outra palavra, a garçonete chega: “Posso anotar os pedidos, rapazes?” Chaz escolhe o filé-mignon com cebola frita para acompanhar. Ele está sorrindo – provavelmente porque ela disse “rapazes”. Isso ainda é novidade.


Mas, voltando ao pênis. Ele sabe o tamanho que vai ter?

Chaz franze a testa. “Sabe, na verdade, não. Quer dizer, eu nunca vi um ereto. Então, é difícil dizer. Mas, sabe como é, mole, uns 7 centímetros e meio, e cresce bastante. Não sei qual é a média de diferença de tamanho.” Ele faz uma pausa. “Eu tive uma relação heterossexual bem típica, e isso fez com que alguns militantes da comunidade gay pensassem que eu estava reforçando os estereótipos ou sei lá o quê. Mas, bom, acho que Jen não queria que eu fizesse a parte de baixo, mas ela entende a minha necessidade.” Ele dá de ombros. “Mas é preciso entender que, para mim, a transformação da vida já aconteceu.”

Então, a cirurgia na parte de baixo só seria a cereja em cima do...? “Exatamente. Sabe, os homens são capazes de se concentrar demais no pênis. Mas um cara que se machuca e perde o pênis continua sendo homem. E, como eu disse, não é o caso de eu ter me sentido mulher antes. É até vergonhoso admitir isso – eu cheguei a conhecer algumas dessas pessoas –, mas, quando era criança, eu me lembro de pensar que Jamie Lee Curtis era a coisa mais gostosa que eu já tinha visto. Jacqueline Bisset, Rachel Ward também, e Kelly LeBrock, em Mulher Nota 1000.” A comida chega. Chaz manda ver. “Quer dizer, a testosterona mudou as coisas, com toda certeza”, ele prossegue. “Para dar um exemplo, eu perdi quase totalmente a capacidade de ter mais do que um orgasmo por vez. Isso não acontece mais. Mas os que eu sinto são mais intensos. E daí, no meu primeiro ano, eu passava muito tempo na frente do espelho, flexionando os músculos e procurando pelos. É igual a passar pela segunda puberdade. Agora eu tenho pelo no queixo, pelo na barriga, e meio que está começando a crescer nas axilas e no peito. Na verdade, tenho mais pelo nas costas do que no peito. Esperei a vida toda para poder ter pelo. Mas nunca achei que teria pelos nas costas. Mas o que fazer, não é mesmo?”

De fato. Mas vamos voltar a falar sobre o tal pênis. Quanto vai custar?

“Depende. Há várias maneiras de fazer a cirurgia, desde muito básico até mais e mais opcionais. É igual a um carro.” Igual a um carro? “Bom, quer dizer, para resumir a cirurgia que eu quero fazer, eu gostaria de fazer implante testicular e tudo o mais, e quero ser capaz de urinar por ele. Quer dizer, não é tão grave ter que sentar, mas o assento de privada de alguns banheiros masculinos é nojento. O médico que eu quero usar fica em Belgrado. Vai ser um pouco mais barato lá. Provavelmente US$ 25 mil, talvez US$ 45 mil. Para falar a verdade, não sei.” Mais tarde, um garçom leva os pratos embora. “Posso oferecer mais alguma coisa, senhores?”

“Não, está ótimo”, Chaz diz. E, mais uma vez, sorri.

Ele anda com uma BMW empoeirada, bagunçada e meio velha. É um bom motorista, conservador, pega leve no acelerador, não passa no sinal amarelo. Enquanto Hollywood desfila pela janela, Chaz diz que a mãe não o ajuda do ponto de vista financeiro no momento. “Já ajudou, quando houve algum problema ou questão, mas não, eu não gosto de pegar dinheiro da minha mãe, assim como de qualquer outra pessoa. Ser capaz de me sustentar é importante para mim.” Ele também diz que, no futuro, gostaria de trabalhar como ator. “Eu consigo me ver como um dos caras de Os Sopranos ou algo assim. Ou um policial. Qualquer coisa desse tipo.” Ele prossegue para dizer que vai dar continuidade a seu trabalho em nome da comunidade transgênera. “Durante um bom tempo, eu me senti mal por causa de todas as coisas que eu perdi por nunca ter sido um rapaz no auge do vigor físico. Mas percebi: ‘Não, não foi uma maldição. Era para ser assim’. Eu fui colocado na Terra nesta família de fama incrível, e daí eu sou transexual, e por causa dessa experiência de vida espero poder informar as pessoas.”

E é isso: o passado, o presente e o futuro de Chaz estão mapeados. No momento, o único fato desconhecido é por que ele e a namorada, Jennifer, terminaram o relacionamento. “Não haverá mais declarações”, um porta-voz informou em dezembro. Mas, alguns meses antes de isso acontecer, em uma noite comum de sexta-feira, o casal deu uma demonstração de que as coisas talvez não estivessem indo assim tão bem. Chaz acabara de chegar em casa, uma construção pequena, mas bacana, em estilo mediterrâneo, com piscina e chalé para visitas que ele usa para guardar sua bateria e sua coleção de facas. Lá dentro, foi recebido por cinco gatos (todos eles da raça mexicana rara sphynx, que não tem pelos) e por Jen, usando jeans e camiseta, muito magra e muito bonitinha, com cabelo escuro comprido, à espera dele com as mãos na cintura. Ela estava em pé perto da cozinha, com os lábios apertados, a testa franzida, olhando para a sala de estar, onde havia um sofá marrom. Ela obviamente tinha algo em mente. “Querida?”, Chaz disse. “O que foi?”

“Eu sei que você vai fazer algo...”

“Eu vou jogar videogame.”

“Eu vou me livrar deste sofá. Logo. Prefiro ficar sem sofá aqui a ter de olhar para isso aí. Eu detesto. Ele quebra a sala de um jeito errado. O feng shui não está certo. Até Denise me disse isso hoje.”

“Denise é especialista em feng shui?”

“Não, mas é verdade.”

“Ela é produtora de televisão. Olhe, nós não vamos ficar sem sofá. Não, querida. Baby. Eu não vou chegar em casa e... Deixe ele aí, só isso.”


Jennifer suspira e se afasta. No ano passado, ela declarou: “Os hormônios mudam as pessoas, e ele está nivelado agora. Houve um período em que eles pareciam estar meio que à flor da pele. A testosterona era, tipo, machismo de verdade, e foi difícil lidar com isso”. E, pela aparência das coisas, talvez ainda seja. “Tudo bem”, ela disse naquele dia. “Vá se divertir.”

Chaz explica: “Quando nós nos conhecemos, ela estava sem beber e eu estava sem beber, e ela está sem beber agora. Mas foi difícil para ela, teve idas e vindas. Para mim, essa é a coisa mais difícil de conciliar. Quer dizer, ela é uma dessas pessoas que podem começar a beber e parar de uma hora para outra se quiser. Eu, apesar de ter parado há sete anos, cheguei a um ponto tão completamente horrível e nojento que ainda está muito fresco na minha memória, e para mim está bem claro que nunca quero voltar.”

Depois disso, ele pega um game chamado Rage e coloca no aparelho. O sujeito na tela é um homem de verdade, com aparência bem abrutalhada e um monte de bandidos brandindo armas em seu encalço. Chaz, olhando através dos olhos do sujeito tosco, começa a atirar feito louco. Jen enfia a cabeça pela abertura da porta. “Certo, eu vou tomar um banho agora.” Chaz nem olha na direção dela. “Ah, tudo bem, pode ir.” Ela sai. Ela volta. Ele diz a ela: “Este jogo é bom, querida”. Ela cruza os braços. “É militante demais.” “Como assim, ‘militante’?”, ele rebate. “Nojento e violento”, ela instiga. Ele derruba um bandido com um tiro de espingarda, transformando a cabeça dele em uma névoa ensanguentada e a ignora. Ele não tenta explicar a atracão que o game causa. Demoraria demais. Mas, bom, como se explica uma coisa dessas? Em meados de dezembro, os dois já estarão separados. Mas, por enquanto, Chaz apenas segue atirando – blam, blam, blam e blam.