Tragédia na Serra

Em 2011, as chuvas impiedosas causaram destruição na região serrana do Rio de Janeiro e geraram imagens que ficarão para sempre na memória do país. Um ano e muitas promessas depois, a situação de risco insiste em permanecer

Fernando Gabeira Publicado em 13/02/2012, às 12h10

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O ano passou rápido. as imagens ficaram na cabeça. Foi em fevereiro de 2011. Subimos a região serrana do Rio de Janeiro em um dia nublado. Ligamos o rádio e os locutores só falavam naquilo: um temporal destruiu bairros inteiros, bombeiros procuram os mortos. O clima de emergência estava no ar. Helicópteros mergulhavam e saíam das nuvens em missão de resgate. Carros de polícia, caminhões carregados de água mineral, barreiras caídas – o clima era de desastre.

Mas ninguém poderia imaginar o tamanho do desastre: 894 mortos, ruas riscadas do mapa, famílias desfeitas e, no ar, o cheiro dos destroços molhados e dos corpos esperando enterro em morgues improvisados. Como foi possível tudo isso? Por que não estávamos preparados? Quais lições vamos aprender com a tragédia? As perguntas se sucediam, mas não era um bom momento para elas.

À medida que subia para o ponto mais atingido de Teresópolis – o bairro de Campo Grande –, eu cruzava com as famílias batendo em retirada, com as poucas coisas que salvaram, cachorros e gatos de estimação. Carregavam o que podiam, inclusive a angústia de escolher o que salvar. Abraçada a um poodle, a mulher o mostrava orgulhosamente. Mas a voz do marido, alguns metros atrás, era implacável:

“O cachorro que estava velho e cego você deixou para trás.”

Naqueles primeiros momentos, ainda havia o risco de novas chuvas. Só usavam máscaras os parentes que iam reconhecer corpos, os funcionários e os voluntários no IML. Um caminhão frigorífico de uma peixaria foi colocado na porta para recolher os corpos excedentes. Nem todos os moradores isolados estavam a salvo. Às vezes, o mau tempo mantinha os helicópteros no solo. Equipes de TV encontraram uma grávida em trabalho de parto. E a trouxeram, perguntando com insistência, ao microfone, se estava se sentindo bem, se era menino ou menina. Mas nem todos foram ajudados. Um homem retirou o corpo do próprio filho dos escombros, conservou-o em uma geladeira, improvisou um caixão e o enterrou.

Havia, então, dois obstáculos: os novos temporais e os boatos sobre arrastões e rompimento de represas que não ocorreram. Em Friburgo, um repórter de TV perguntava às autoridades o que fazer: “Fugir ou subir no prédio mais alto?” A resposta: “Não sabemos, pode ser que os prédios desabem também”. Mas o medo real era de um novo temporal. Alcancei para o bairro de Campo Grande, quando todos o abandonavam, e passei algumas horas examinando os escombros. No caminho, vi carros cobertos de lama, piscinas invadidas pelo barro, portões soltos na rua, uma igreja isolada pelos escombros. Mas o que impressionava era olhar para cima e ver a quantidade e o tamanho das pedras que rolaram da montanha. Cheguei andando ao bairro destruído. Nosso Gol ficou no caminho, incapaz de vencer os obstáculos – pedras, buracos, inundações. Lá em cima, vi algo parecido com o fim do mundo. Não havia quase nada em pé. O interior das casas estava revirado. Algumas pessoas vasculhavam os escombros. As nuvens tornaram-se ameaçadoras e os helicópteros passavam apressados. Alguém disse: “Olha a chuva aí!”

Com a chuva batendo forte, descemos rapidamente. Voltaria muitas vezes, ao longo do ano para entender o que passou e o que estava sendo feito para atenuar a dor daquelas pessoas. Era uma promessa.


Os primeiros dias após uma tragédia são os mais difíceis. Muitos corpos não foram encontrados. O anúncio de que o governo disporia de até R$ 700 milhões para os reparos tranquilizou a opinião pública. E alguns heróis que não tiveram espaço no auge da crise apareciam agora, como o cachorro Caramelo, que ficou durante muito tempo ao lado do túmulo da dona, Cristina Maria da Silva. Especialistas explicaram o feito de Caramelo. Era capaz de identificar sua dona, embaixo da terra, porque um cachorro tem 200 milhões de células olfativas contra 50 milhões dos seres humanos.

Passada a fase inicial, a poeira e a culpa dominaram a cena. Os moradores de Friburgo, que, antes, só usavam máscaras ao reconhecer os mortos, andavam mascarados pelas ruas. Os estoques se esgotaram rapidamente. A culpa estava sendo investigada. Como foi possível que estivessem ocupadas mais de 700 encostas escorregadias na serra fluminense? Como os rios chegaram a ser entulhados ao longo desse período? Técnicos do Crea (Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura) vieram à região para mapear as encostas perigosas e concluir o mesmo que a CPI da Assembleia concluiu: não foi uma tragédia natural, mas o resultado de um longo período de ocupações irregulares. Outra pergunta importante: por que não houve uma advertência antes do temporal? Ele foi o resultado da associação da frente fria com a chamada “zona de convergência” – nuvens que se estendem do Norte do país até o litoral do Sudeste.

O Brasil ainda não estava preparado para prever. Desde 2005, a cidade de Petrópolis, uma das mais atingidas, está montando um sistema de 19 estações meteorológicas. Foram investidos R$ 550 mil, mas a prefeitura não tinha os R$ 900 mil ainda necessários para a conclusão da montagem. A previsão falhou. Outro mecanismo que costuma ser acionado nessas horas: comunicados urgentes aos prefeitos de áreas que podem ser atingidas. O governo federal afirma que mandou mensagens. Perderam-se nas gavetas da burocracia.

Os holofotes se apagam, os jornalistas desarmam suas tendas e o observador comum acha que tudo voltou ao normal. Mas é exatamente aí que ocorrem as grandes dificuldades. As verbas que o governo anuncia no momento da tragédia quase nunca expressam a realidade. Demoram a sair e, assim mesmo, só uma pequena fração do prometido chega aos necessitados. Passado o primeiro mês, 10 mil pessoas continuavam desabrigadas na serra fluminense. Sete mil famílias foram cadastradas para receber o aluguel social durante 12 meses. Mas nem todas conseguiram. O aluguel social é de R$ 400. Como conseguir casas a esse preço? O primeiro movimento, típico de mercado: os aluguéis sobem com o aumento da procura.

No Vale do Cuiabá, em Itaipava, onde o rio Santo Antônio arrastou muitas casas e barracos, não havia solução no horizonte. A maioria trabalha em pousadas de luxo ou nos haras da região. Não há casas para se alugar. Os moradores modestos teriam abrigo se saíssem de lá, mas perderiam o emprego.

Poeira, escombros, dificuldade de alojar as pessoas – no princípio de março de 2011, os moradores de Teresópolis e Friburgo perceberam que havia algo de errado. Falava-se em milhões de reais, mas não conseguiam ver nenhuma melhoria em seu cotidiano. Foi aí que surgiu a primeira manifestação. O local escolhido foi a praia de Copacabana. A forma de luta para as circunstâncias visava principalmente a televisão: cruzes foram enterradas na areia da praia para lembrar os mortos. O movimento em Teresópolis visava diretamente o prefeito Jorge Mário Sedlaceck. Durante vários meses, ele foi acusado de ter desviado o dinheiro destinado às vítimas das enchentes. Na época, era membro do PT, mas o próprio partido achou um jeito de afastá-lo, por discordar de sua atuação.


Em Friburgo, o clima era de realismo mágico. As obras de recuperação e todas as medidas anunciadas também não andavam. O prefeito, Heródoto de Melo (PSC), 83 anos, sumiu. Conta-se na cidade que ele resolveu fazer uma visita à Suíça, sofreu uma queda, voltou, mas nunca mais apareceu em público. Não há entrevistas, fotos ou boletins médicos. As especulações sobre seu destino são variadas. Teria morrido? Perdeu a lucidez? Com idade avançada, decidiu escapar das responsabilidades de reconstruir a cidade? Essas perguntas jamais foram respondidas, porque o vice-prefeito, Demerval Barbosa Neto (PT do B), assumiu o posto para, meses depois, ser derrubado por corrupção.

Com menos um ano da tragédia, o saldo era este: dois prefeitos das cidades mais atingidas perderam seus mandatos, acusados de corrupção, desviando o dinheiro destinado às obras. Essas derrocadas dos prefeitos contaram com o Ministério Público e o Tribunal de Contas, órgãos que fiscalizam o uso do dinheiro. Mas foram, na verdade, impulsionadas por movimentos dos próprios moradores. Assim que terminou a fase dos primeiros protestos, tanto em Teresópolis como em Friburgo, surgiu uma pressão sobre os vereadores para que fizessem uma CPI. No caso de Teresópolis, o movimento obteve um êxito quando os vereadores decidiram afastar o prefeito por 90 dias para apurar sua atuação. Ele nunca mais voltou, pois ao final do prazo foi cassado por unanimidade. Já em Friburgo, um movimento de jovens organizado a partir da internet, intitulado “Absurdo”, trabalhou para que fosse criada uma CPI independente da influência do prefeito. A tática era encher o plenário no dia da decisão: conseguiram. A eficácia se deveu ao fato de os manifestantes conhecerem os vereadores, sabendo quem seria independente ou não.

Esse conhecimento da situação dos vereadores foi importante também em Teresópolis. Em uma das sessões em que o prefeito foi afastado, vi como a população vaiava ou aplaudia seus representantes – e esses pareciam saber muito bem por que estavam sendo vaiados ou aplaudidos. Não existia essa “nebulosa” que envolve os movimentos do Congresso em Brasília, com deputados e senadores desconhecidos nacionalmente.

Com 2011 consumido em lutas contra a corrupção e também à espera de verbas que não apareceram, a serra fluminense vê-se novamente diante de um novo verão, só que desta vez muito mais vulnerável por causa dos destroços, rios fora do leito habitual, pontes destruídas. Cálculos da Emop (Empresa de Obras Públicas) indicam que 770 encostas precisam de obras de contenção e que o volume necessário para recuperar tudo pode chegar a R$ 3 bilhões.

Desamparada pelo governo, a população fez o possível para recuperar suas cidades. No distrito de Córrego Dantas, em Friburgo, as próprias vítimas iniciaram a limpeza para que o bairro se tornasse de novo habitável. Em janeiro de 2012, porém, já foram atingidos de novo. No distrito de Vieira, em Teresópolis, os moradores foram mais longe. Foi criado um grupo de voluntários que levanta dinheiro e constrói as casas populares, sem esperar pelo governo. Com R$ 10 mil, eles constroem uma casa ainda sem todos os acabamentos. Os novos moradores se encarregam do restante. No dia em que os visitei, a primeira da fila para receber a casa, construída por mutirão, era a faxineira de uma escola primária. Abandonada pelo marido, Aparecida da Silva cuida de cinco filhos e de um vizinho inválido. Seu barraco foi destruído e foi possível improvisar um banheiro para que seguissem morando ali, enquanto esperavam por uma casa. Há muitas dificuldades para rastrear o dinheiro que veio para as enchentes. O governo federal teria enviado R$ 75 milhões ao estado do Rio, mas não se sabe exatamente como o montante foi gasto. Em outubro último, foi aprovado também um empréstimo internacional de R$ 100 milhões, sendo que o dinheiro não se destinaria todo à reconstrução de casas e pontes e à limpeza dos destroços.


Dois setores da economia precisam ser recuperados rapidamente para que a serra fluminense consiga respirar: o turismo e a agricultura, sobretudo a plantação de verduras para a região metropolitana do Rio, segundo mercado do país.

Foi ou não resultado do aquecimento global? Esse debate apareceu logo após a tragédia na serra fluminense em 2011 e tem aparecido em quase todos os lugares do planeta atingidos por acontecimentos semelhantes. Em 1967, houve um desastre de grandes proporções na Serra das Araras (RJ) e ainda nem se falava em aquecimento global. No caso dos eventos do ano passado, o problema central foi uma chuva de 279 mm que ocorreu praticamente em uma só noite, enquanto muitos dos moradores ainda dormiam.

O debate sobre a origem da chuva se assemelha um pouco com o debate sobre o chamado “primeiro furacão brasileiro”, ocorrido há alguns anos em Santa Catarina. Em março de 2004, na sala de emergência instalada no gabinete do governador Luiz Henrique (PMDB), discutia-se a definição do fenômeno. Como nunca havia ocorrido evento semelhante no Brasil, as dúvidas apareciam: furacão ou ciclone? Para a Nasa, mais bem informada, era um furacão. Felizmente, a emergência acabou com a discussão: a partir de certa velocidade dos vento – e lá eram de 120 km por hora –, não importava se o fenômeno era um ciclone ou furacão. Era preciso fazer alguma coisa. No mínimo, sair da frente.

Naquela noite, percebi o despreparo em dois setores: o da previsão e o da emergência. Grande parte das informações vinha do exterior e não tínhamos um sistema de radares adequado para aquele litoral. O mais importante foi perceber que, depois de tantos furacões, havia uma experiência de resistir ao desastre. Certas medidas, se programadas com antecedência e, às vezes, ensaiadas, como no Japão, podem salvar vidas. Uma delas é ter uma lista de moradores que não podem se mover por conta própria, retirando-os em primeiro lugar. Apesar das regras serem formuladas também nos Estados Unidos, elas foram esquecidas na passagem do furacão Katrina por Nova Orleans: durante a tragédia, em 2005, um abrigo de idosos submergiu, matando seus ocupantes.

O cientista Jeffrey Masters, do site Weather Underground, afirmou ao jornal The New York Times que, em 30 anos de experiências, nunca viu tantos fatos extremos como os registrados pelo planeta em 2011. O ano passado começou com a tragédia na serra fluminense, passou pelo terremoto com tsunami no Japão, pelas cheias na Tailândia e se encerrou com uma tempestade tropical que matou 1.500 pessoas nas Filipinas. Assim como foi com o furacão de Santa Catarina, não importa tanto se o acontecimento é ou não resultado do aquecimento global: é preciso se preparar.

Apenas os muitos céticos dissociam tais fatos das mudanças climáticas. Nos últimos anos, eles produziram 28 milhões de refugiados ambientais no planeta. A vantagem de associar esses fenómenos ao aquecimento global é também a permissão de utilizar a verba do Fundo Verde, aprovado na Conferência de Durban, que se destina a ajudar os países mais pobres a se adaptarem às consequências do aumento da temperatura da Terra.


O debate sobre desastres e as mudanças climáticas teve consequências negativas nos Estados Unidos. A NOAA (Administração dos Oceanos e da Atmosfera) pretendia se reformular para estudar melhor a incidência dos tufões e outros desastres naturais no país. Mesmo sem custar mais dinheiro, a reformulação foi bloqueada pelos políticos republicanos, que temiam que o presidente Barack Obama a usasse “para fazer propaganda do aquecimento”.

O Brasil, por sua vez, despertou com grande atraso para a nova realidade somente após a tragédia na serra fluminense. O Ministério da Ciência criou um centro de monitoramento e alerta de desastres naturais, o Cemaden, que funcionará no Inpe e será dirigido pelo cientista Leonardo Fuck. A escolha de Fuck e a contratação de 75 técnicos ainda não bastam para fazer o centro funcionar: isso só acontecerá, plenamente, em 2013. A vantagem de o Cemaden operar de dentro do Inpe é também a existência de um supercomputador, o Tupã, nome indígena que significa trovão, um emissário dos deuses. Será preciso investimento e cooperação internacional. Os laços com outros organismos estão sendo trabalhados: no caso brasileiro, já houve um acordo com o Planetary Skin Institute.

Ainda assim, em uma audiência pública no Senado, Aloizio Mercadante, então ministro da Ciência e Tecnologia, admitiu que muita gente iria morrer nesse e nos próximos verões no Brasil. Foi uma declaração franca e próxima da realidade. O próprio Cemaden não vai resolver os grandes problemas, exceto o de produzir informações de qualidade. Enquanto se monta o trabalho científico, os principais fatores de produção de tragédia no Brasil continuam operando.

Um deles é o fator político. Atingido pelas enchentes de 2011, o Rio de Janeiro descobriu que recebeu menos de 1% das verbas destinadas à prevenção de desastres naturais. Mais de 50% dos recursos foram anteriormente canalizados para a Bahia, porque o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, iria disputar o governo daquele estado em 2010. Já em 2011, o atual ministro Fernando Bezerra destinou 90% das verbas de prevenção para seu próprio estado, Pernambuco. E saiu de férias durante o período de chuvas. Ele também é candidato ao governo em 2014.

As ocupações de encosta em vários pontos do Brasil começam com algumas famílias e, quando crescem, atraem também candidatos que se dispõem a lutar pela permanência das populações nos locais, em troca de votos. Nem sempre os favores políticos se voltam para os pobres, abstraindo o perigo que correm em encostas instáveis. Às vezes, são voltados para os mais ricos, como aconteceu no início de 2010, em Ilha Grande (RJ), onde a pousada Sankai foi soterrada. O desastre em questão aconteceu em uma área de proteção ambiental, cujas normas foram flexibilizadas para atender a proprietários influentes.

Mas não são apenas os fatores políticos que enfraquecem a defesa do Brasil contra desastres climáticos. Há também um grande peso na resistência cultural. Esquece-se rapidamente a tragédia e há um certo desprezo pela simulação. Há alguns anos, tenta-se no Brasil instituir a disciplina Defesa Civil nos currículos escolares. Somente Brasília a adotou e, recentemente, Petrópolis, onde a ideia ainda não saiu do papel. O objetivo é preparar as crianças para que orientem os pais e se interessem pelo tema desde o início de sua vida escolar.


Há casos de comunidades brasileiras que se preparam. Visitei uma delas, em São Gonçalo (RJ), formada por ex-marinheiros e suboficiais da Marinha. Após muitas inundações, os moradores já conhecem os pontos frágeis do bairro, sabem onde moram as pessoas com dificuldades de locomoção e principalmente onde guardar os barcos. Ao longo de toda a serra fluminense, ocorreram exercícios de simulação visando a preparação para as chuvas de 2012. Mas são movimentos embrionários.

Porém, simular um comportamento coletivo nem sempre pode ser de grande ajuda, como pude observar nas enchentes ocorridas no ano passado em Trizidela do Vale (MA). A cidade foi muitas vezes inundada porque foi construída à margem do rio Mearim. A única saída é reconstruí-la em um lugar seguro, transferindo seus 39 mil habitantes.

Cientistas que estudam o aquecimento global não esperam que as mudanças climáticas tragam apenas temporais e tufões. Acredita-se também que o nível dos mares pode subir até 65 centímetros, já no meio deste século, o que coloca em risco inúmeras cidades litorâneas brasileiras. Mesmo antes da previsão dos cientistas, cidades pernambucanas como Recife, Jaboatão e Paulista já estão perdendo a batalha. A Praia de Boa Viagem, em Recife, já encolheu de forma visível nos últimos anos; em Paulista, o mar arrebentou a calçada litorânea; em Jaboatão, alguns condomínios já cederam terreno para o mar.

Em termos de preparação e reparos, o Brasil não vencerá a disciplina dos japoneses. Mas terá que se aproximar da experiência de povos que já viveram grandes desastres. É uma tarefa gigantesca que deveria unir não apenas os que acreditam nas mudanças climáticas. É preciso incluir também os incrédulos, convencendo-os com o célebre verso de Bob Dylan: “Alguma coisa está acontecendo, Mr. Jones, e você não sabe o que é”.