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Durante o tempo em que você levou para ler isto, Paul McCartney acabou de compor uma nova música. O que motiva um beatle à beira dos 70 anos?

Brian Hiatt Publicado em 09/03/2012, às 09h28 - Atualizado em 09/07/2012, às 11h23

Paul McCartney

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No caminho para o trabalho nesta manhã, Paul McCartney teve de esperar algumas pessoas em um cruzamento de faixas para pedestres. Estavam em grupos, de câmeras na mão, bloqueando uma rua ladeada por árvores em Londres. Enquanto McCartney esperava pacientemente em seu carro, nenhum deles olhou na direção dele – os turistas estavam ocupados demais tirando fotos de si mesmos atravessando a famosa Abbey Road. “Já aconteceu comigo algumas vezes”, conta McCartney mais tarde, rindo. “É um momento do qual gosto muito. Há uma metáfora boa e forte ali. Só que há muitas metáforas na minha vida – não as procuro. A vida de um beatle é cheia de metáforas.” Resistindo à tentação de sair do carro e posar com os fãs, ele vai direto para um lugar sagrado, embora com um cheiro distinto de mofo: o Estúdio 2 da Abbey Road.

“Bem-vindo ao meu mundo”, diz McCartney, atravessando as portas duplas nos fundos de uma sala que se parece com um ginásio, com teto alto e retangular. Ele está mastigando um chiclete. “Antigo e moderno. Toda vez que venho aqui, relembro toda a história. É aqui onde tudo aconteceu.”

Os Beatles gravaram a maioria de suas músicas, de “Love Me Do” a “The End”, neste espaço no porão de paredes brancas e nada glamoroso – e foram aprovados em seu teste inicial para a EMI aqui, há quase 50 anos. Apesar de alguns relativamente novos isoladores acústicos e um relógio diferente, pouca coisa mudou. Em um canto, McCartney gritava “Um, dois, três, quatro!” para começar “I Saw Her Standing There”; em outro, martelou um acorde em mi maior em um dos muitos pianos ouvidos no final de “A Day in the Life”. Agora, sem nenhum motivo em particular, ele está tocando bateria. Poucos momentos depois de sua chegada, McCartney corre até o instrumento, pega um par de baquetas e toca algumas batidas rápidas, com bastante chimbau. Soa notavelmente parecida com os Beatles – ou pelo menos com o Wings. Ele aponta para a escada no canto, que leva à sala de controle com janela onde George Martin e os engenheiros trabalhavam. “Era onde os adultos viviam”, diz. “Aquela escada era muito icônica, ficou gravada na memória como um sonho.”

É um dia no final de janeiro e venta muito, mas, mantendo sua eterna juventude aos 69 anos, Paul não está usando uma jaqueta – só um colete preto North Face sobre uma camisa jeans bem passada e enfiada para dentro do jeans escuro. Nos pés, tênis pretos com uma faixa branca: se uma cena de multidão de Os Reis do Iê-Iê-Iê irromper, ele estará pronto para correr. Seu sempre fabuloso cabelo está mais desgrenhado do que de costume e ele parece um pouco pálido hoje – está trabalhando demais. “Isto me traz tantas lembranças que você não imagina”, conta McCartney. “É inacreditável.” Ele aponta para um canto no fundo. “John em pé ali cantando ‘Girl’. ” Ele canta o gancho, imitando a inspiração de Lennon e uma tragada forte em um baseado. “As pessoas acharam que era aquilo – não era! Só gostávamos do sibilar do som. Todas as histórias lendárias que foram criadas não são verdadeiras. Vi um programa sobre os Beatles outro dia, e nos primeiros cinco minutos houve quatro erros. É por isso que não sabemos quem foi Shakespeare, ou o que realmente aconteceu na Batalha de Hastings.”

Como o incidente do cruzamento da Abbey Road sugere, uma sombra mítica de quatro cabeças às vezes ameaça obscurecer Paul McCartney, um ser vivo real – recém-casado, quase bilionário, vegetariano convicto, pai de uma menina de 8 anos (e de quatro adultos), artista que não envelhece e faz shows de três horas, compositor e músico de gravações freneticamente ativo, compositor de balés e sinfonias, cavaleiro do reino. Com seu novo álbum, Kisses on the Bottom, McCartney adiciona “intérprete de standards” à lista – o trabalho é uma coletânea jazzística de músicas pré-rock, com dois novos originais de McCartney. Ele adiou este disco durante anos, em parte porque outras pessoas – de Ringo Starr, em 1970, a Harry Nilsson, em 1973, e Rod Stewart no que parece ser os últimos mil anos – sempre faziam algo semelhante. Também ficou hesitante em reforçar sua imagem dominante de mero baladeiro sentimental, o suposto oposto ao roqueiro cru de John Lennon. “Superei isso”, afirma McCartney. “Se as pessoas ainda não conhecem meu outro lado, é tarde demais.” Mesmo assim, Kisses é algo único. Uma semana antes do lançamento, McCartney já está trabalhando em um novo disco de rock. Até agora, tocou todos os instrumentos sozinho. Baixo, guitarras, teclados e a bateria montada no Estúdio 2 são seus. “O plano era fazer o que estou fazendo agora, que é começar quase imediatamente outro álbum de estúdio para que as pessoas não pensem que acabou, que agora estou no jazz.”


Hoje, ele está gravando uma música chamada “Hosannah” – uma balada acústica que não ficaria deslocada em seu primeiro LP solo, McCartney, de 1970 (no qual também tocou todos os instrumentos). Enquanto coloca os fones de ouvido e vai trabalhar – tirando aquele tom parecido com trompete de seu velho e conhecido baixo Hofner em forma de violino, batendo o pé com a cadência –, é quase difícil escutá-lo com todos os fantasmas flutuando pelo ar. Só que McCartney não vê dessa forma: gosta de trabalhar aqui, e usa o passado o menos possível. “Quanto às coisas flutuando pelo ar, é algo com o qual você convive”, afirma. “Convivo com isso. Quando componho uma música, tenho minhas outras músicas flutuando sobre ela. Acho que assim que você escreve uma música decente é uma maldição. Sempre pensa: ‘Ai, droga, acabei de compor ‘Eleanor Rigby’, como vou superar isso?’ Acho que pensa: ‘Não vou’. Você simplesmente percebe que não vai superar, mas daí compõe ‘Blackbird’. Vai para outra direção ou algo assim. Se tem sorte. Sempre estive ciente desse fenômeno, mas nunca deixei que me bloqueasse.”

Paul McCartney é suficientemente autoconsciente para entender outra ironia: diferentemente de outros artistas de pop e rock que gravaram álbuns de standards, ele foi responsável por tirar o Great American Songbook de cena nos anos 60 (com a ajuda, claro, de Lennon e Bob Dylan). “Notamos que isso acontecia”, diz. “Víamos as pessoas que admirávamos dizendo: ‘Ah, os Beatles estragaram tudo para nós’. O que não era nossa intenção. Só estávamos fazendo algo nosso. Não queríamos arruinar o passado, mas aconteceu dessa forma, e gente como Harold Arlen, que admirávamos muito por ter composto coisas como ‘Somewhere Over the Rainbow’, saiu de moda quando entramos na moda, e não houve mais um pedido tão desesperado por grandes compositores como Leiber e Stoller, porque as pessoas estavam começando a nos copiar e compor suas próprias coisas. Então os Hollies e os Stones começaram a compor, pensando: ‘Até que é uma boa ideia’. Sim, começou uma moda, que tendeu a eliminar, lamentavelmente, alguns de nossos artistas favoritos.”

É o dia seguinte ao da sessão de gravação, e McCartney está de volta ao Estúdio 2, sentado em uma cadeira dobrável perto de uma pequena mesa de madeira, entre os teclados antigos que trouxe. Está comendo um bagel coberto com uma mistura de homus e o condimento britânico Marmite, exercendo o que deve ser o privilégio de um cavaleiro: falar com a boca completamente cheia. Insiste para que eu prove um pouco do homus. “É o melhor do mundo, muito cremoso”, conta, colocando um pouco no canto do prato. “Enfie o dedo ali e prove, vamos!” Obedeço, notando que meu dedo está tremendo levemente: homus de um beatle! McCartney tem pensado sobre a grande influência dos standards pré-rock sobre as composições dos Beatles – ele e Lennon já eram adolescentes quando ouviram Elvis Presley, Little Richard, Chuck Berry e Buddy Holly pela primeira vez. “Crescemos vendo filmes do Fred Astaire e, então, isso foi meio que varrido pelo rock and roll”, diz, mordendo o bagel, “mas ainda temos essa influência. Os Rolling Stones foram influenciados pelo blues e fomos influenciados pelo rock and roll – e blues, até certo ponto – mas também, sem saber, o elemento melódico dos Beatles e alguns dos elementos estruturais vieram do fundo do nosso cérebro, que eram essas coisas antigas que nossos pais cantavam.”

O pai de McCartney, Jim, era um trompetista de jazz que teve uma banda nos anos 20. Também era pianista amador, e algumas das primeiras lembranças musicais de Paul são de ficar deitado no chão ao lado do piano escutando o pai tocar o tipo de música que Paul canta em seu novo álbum. “Não há nenhuma gravação do meu pai”, conta, “mas a câmera da minha alma tem isso registrado. Acho que ele era muito bom, mas não se achava suficientemente bom para ser profissional. As pessoas que contrataram a banda dele obviamente não a achavam muito boa, porque ela sempre tinha de mudar de nome para conseguir outro show.” Mais tarde, o pai fez lobby para que os Beatles fizessem uma cover de “I’ll Build a Stairway to Paradise”, de Gershwin – em vez disso, a banda gravou músicas como “Your Mother Should Know” e “When I’m Sixty-Four”. “Música de vovó”, Lennon chamava – embora McCartney comente que John também gostava das músicas antigas. McCartney gravou Kisses on the Bottom com um produtor veterano de jazz, Tommy LiPuma, que trouxe a pianista Diana Krall para o projeto como diretora musical. McCartney já a conhecia: ele foi ao casamento dela com um antigo colaborador dele, Elvis Costello, “na casa do Elton”. Trabalharam na maior parte do tempo no Capitol Studios, em Los Angeles – onde McCartney cantou em um microfone usado por Frank Sinatra e Nat “King” Cole – e em Nova York, onde McCartney insistiu em ir ao estúdio no dia em que o furacão Irene deveria passar. “O que falta em muitas pessoas que interpretam estas músicas”, diz Diana, “é que elas pensam: ‘Ei, estamos só cantando standards, baby’. E não é isso. É mais profundo. Paul encontra sua própria história nelas.”

Uma das originais de McCartney, “My Valentine”, foi composta para Nancy Shevell, a glamorosa executiva norte-americana de 51 anos com quem ele se casou em outubro. O primeiro verso – “What if it rained / We didn’t care” (E se chovesse / Não nos importaríamos) – vem de algo que ela disse em umas férias no Marrocos. McCartney correu até um piano velho no hotel, onde a música fluiu quase toda de uma só vez. Depois de dois casamentos muito públicos, McCartney hesita em falar sobre o terceiro – mas admite estar com a visão de mundo mais feliz. “É verdade”, afirma, com um leve aceno de cabeça. “Acredito no amor. Os Beatles cantavam sobre ele; cantei sobre ele; todo mundo canta sobre ele. Provavelmente você e sua esposa acreditam nele. É um conceito muito popular! Então encontrar amor depois de um divórcio é ótimo, é muito revigorante. E a Nancy é ótima, é intrigante, interessante, adorável, inteligente, emotiva e todas as coisas que se deseja em uma companheira. É absolutamente linda. É engraçada, é astuta, é ótima, ela tem tudo.” A reação de Nancy Shevell à mais nova canção de amor de McCartney foi discreta. “Ela é um pouco tímida, então só dá um sorriso tímido”, conta. “Mas sei que ela gosta. Não enlouqueceu – ‘Escuta esta, é uma música que ele compôs para mim!’ – mas sei que dá valor.”


Na sala de controle do Estúdio 2, o compositor mais melódico de sua geração está fazendo barulhos seriamente horripilantes. McCartney está girando botões em um gravador de fita antigo, mexendo em um loop de um lick de guitarra que acabou de tocar. Ele o acelera até se tornar um grito ao estilo Yoko, desacelera até que soe como algo modorrento. Aperta “stop” e sorri. “A gente se diverte, não?” Ele está trabalhando com o produtor Ethan Johns – o alto e barbudo filho do produtor e engenheiro de som Glyn Johns, que trabalhou em Let It Be – em possíveis overdubs para “Hosannah”. No canto há um Pro Tools montado, embora Johns também grave em fita analógica. “É suficiente?”, pergunta McCartney depois de mais alguns licks. “Posso continuar o dia inteiro!” Ele deixa de lado sua Les Paul 1957 (“Houve uma época em que eu só tinha uma”, Paul diz quando Johns a admira. “Trocava minhas próprias cordas!”) e pega um microfone. Faz loops em alguns “whoos” reverberantes que soam como um Little Richard fantasmagórico, depois traz Johns para harmonizar alguns “aaahs” e “mmms”. Acelerados ou desacelerados, eles soam como um pesadelo viajante. McCartney ri enquanto desce as escadas, pronto para fazer um overdub de contrabaixo. “Tudo isso e nenhuma droga envolvida!”

Paul McCartney diz que parou com a maconha, depois de muitos anos e alguns flagrantes inconvenientes – mais notavelmente no Japão, onde acabou passando nove dias na cadeia. “Fiz muito, e foi o suficiente”, diz. “Fumei minha cota. Quando se tem filhos pequenos, seu senso de responsabilidade aflora, se você tiver sorte, em algum ponto. Já deu – você simplesmente não acha mais que é necessário.” Ele esperava que a droga já tivesse sido legalizada? “Bom, certamente pedi isso várias vezes”, conta. “Não sei, é uma discussão tão difícil. Sinto que fiz minha parte e, sim, estou um pouco surpreso por ela não estar legalizada. Você conhece o argumento de que se bebidas alcoólicas são legalizadas, por que não isso? E o argumento contra diz que não precisamos de outra [droga legal], mas o argumento contra este último é que, se você tem, não finja que não existe. Não vou julgar como lidar com isso, outra pessoa pode assumir esse papel.”

A atual “leitura de banheiro” de McCartney é Vida, de Keith Richards. Ainda não chegou na parte sobre ele mesmo – e o livro não conseguiu o persuadir a escrever sua própria autobiografia (embora tenha participado da biografia autorizada escrita por Barry Miles, em 1997): “Tenho coisas demais acontecendo para poder me sentar e escrever sobre meu passado. Então, tudo isso acaba comigo dizendo: ‘Não posso me dar ao trabalho’”. Confirma que ele e Richards se tornaram amigos há poucos anos e tiveram ideias para colaborações que, muito provavelmente, nunca se realizarão. “Tivemos algumas ideias muito engraçadas e sempre falei: ‘Sabe, Keith, esta é uma ideia perigosamente boa, é ridícula, quase brilhante’.” McCartney não tem a mesma imagem de fora da lei do rock de Richards. Diferentemente de Lennon, Sir Paul nunca devolveu a medalha de Membro do Império Britânico para protestar e aceitou alegremente o título de cavaleiro em 1997 – Richards ficou furioso quando Mick Jagger recebeu a mesma honraria. “Como alguém em uma banda de rock, você se pergunta: ‘É legal fazer isso?’”, diz McCartney. “Só que vi todos os tipos de homens da classe trabalhadora ficarem orgulhosos em serem homenageados pela rainha. Isso foi mais impressionante do que caras super cool dizendo ‘Nem pensar’. Entendo seu argumento, mas me pareceu um prêmio muito legal concedido por uma senhora muito legal.” Paul ainda está convencido de que Sua Majestade é uma garota muito simpática – e se apresentará no show do Jubileu de Diamante, que marca os 60 anos do reinado dela. “Você tem de ver pela ótica das crianças que cresceram com ela assumindo o trono”, afirma. “Eu me lembro de estar em um ônibus em Liverpool e ouvir um menino gritando ‘O rei morreu!’, como em um filme. De repente, era a vez da princesa Elizabeth, que sempre achamos bem bonitinha. Estávamos na idade certa e ficamos muito impressionados com seu busto! Depois, quando a conhecemos, pensamos ‘Ela é ok, é legal’.”

“Sempre admirei a forma como ela lidou com o imenso cargo que recebeu. Entendo os antimonarquistas, porque é algo incrivelmente à moda antiga, mas digo às pessoas: ‘Quem vai liderar nosso país nas grandes comemorações, abrindo as Olimpíadas: David Cameron? Tony Blair?’ Não tenho tanta certeza.” McCartney pode ser um pouco conservador. Ao conversar sobre a situação do mundo no Estúdio 2, faz uma digressão sobre a dívida governamental que dificilmente viria de outro deus do rock: “Há esta ideia de ‘emprestar para sempre’, e minha teoria, que meu pai me incutiu, era: ‘Não assuma nenhuma dívida com ninguém, jamais. Se um dia precisar de algo, espere até conseguir pagar, depois compre’”. Só que ele não é de direita: McCartney fica estupefato e bravo com quem nega as mudanças climáticas e prefere, de longe, Barack Obama a George W. Bush. Enfureceu os conservadores do canal Fox News quando visitou a Casa Branca em 2010: depois de tocar “Michelle” para a primeira-dama, disse: “É ótimo ter um presidente que saiba o que é uma biblioteca”. Até retirou seu imponente hino pós-11 de setembro “Freedom” de seus shows por causa da Guerra do Iraque. “Quando falei ‘I will fight for the right’ [Vou lutar pelos direitos], quis dizer ‘Vamos superar isso’, mas, infelizmente, logo depois, percebi que seria interpretado como algo mais militarista. Então, não a tocamos.”

Há 20 anos, quando fez 50 anos, McCartney lembra que seu empresário na época tentou convencê-lo a se aposentar. “É o certo a fazer”, ouviu. “Você não quer ir além dos 50, vai ser vergonhoso.” Em junho, McCartney fará 70 anos (“Nunca vou acreditar que tenho 70. Não me importa o que você diz”, afirma. “Há uma célula no meu cérebro que nunca vai acreditar nisso”) e ainda não tem planos de parar de fazer turnês ou gravar. “Você ouve o argumento ‘Abra caminho para os jovens’”, diz. “E pensa: ‘Foda-se, que eles abram o próprio caminho. Se forem melhores do que eu, vão me derrubar’. O Foo Fighters não tem problema, eles são bons. Farão algo próprio. Se você está curtindo, por que fazer outra coisa? E o que faria? Uma resposta boa é: ‘Tirar mais férias’, o que definitivamente é algo a se considerar, mas acho que não é o caso. Amo tanto o que faço que realmente não quero parar. Só estou prestando alguma atenção em como me sinto e, no palco, a sensação é a de sempre. Então, por enquanto, a banda está excelente, estou me divertindo, ainda cantando como antes, não tendo, ainda bem, nenhum tipo de problema, digamos. Se não está quebrado, não conserte.”


O que também ajuda é que o cronograma de turnês dele foi reduzido a períodos mais curtos e intensos nos últimos anos, em grande parte devido ao acordo de guarda compartilhada de Beatrice, a filha de 8 anos. “Não fazemos a grande turnê mundial, não fazemos a coisa sem fim do U2-Stones nem nos cansamos disso”, diz McCartney, que está planejando mais alguns shows ainda para este ano. “O que fazemos agora são eventos e algumas datas. Por causa do acordo de guarda. Só posso fazer isso. No começo, pensamos: ‘Meu Deus, isso vai ser um problema?’ E, na verdade, acabou se tornando uma espécie de bênção.”

Ele consegue se ver fazendo rock aos 80 anos. “Posso imaginar”, afirma. “Se minha imaginação se tornará verdade, não sei. Nos últimos anos, eu me interessei pela guitarra – então há todo tipo de coisinhas que podem ser feitas e te interessam e você diz: ‘Hmm, gostei disso’.” Abordo a ideia de morrer no palco – ele gostaria disso? Ele se encolhe levemente, depois sorri. “Que tipo de pergunta é essa? Devo dizer que não imagino isso. Fazer rock até a idade avançada... o único problema vai ser quando não for mais prazeroso, daí pensaria: ‘É uma boa hora para parar’. Mas é prazeroso demais agora, e compensa. Bom show, cara. Só que sei exatamente o que você quer dizer. Por quanto tempo isto pode continuar...?”

No canto do escritório do estúdio particular de McCartney, no interior da Inglaterra, ele toca riffs de rockabilly em um grande contrabaixo com arremate branco nas bordas. O instrumento viajou muito até aqui: pertencia a Bill Black, baixista original de Elvis Presley. “É ele, cara – pode tocar nele”, convida McCartney. “Tenho uma imagem dele e do meu pequeno baixo Hofner, grande e pequeno. A quantidade de música de que gostamos que foi tocada nesses dois instrumentos...” O baixo foi um presente da falecida esposa, Linda; no outro canto da sala, a luz do começo da tarde brilha através de uma imagem em vitral de B.B. King em êxtase no meio de um solo, adaptada de uma foto que Linda tirou. Perto há uma mesa velha minúscula de madeira – tirada da escola que McCartney e George Harrison frequentaram em Liverpool na mesma época em que Black amarrava aquele contrabaixo no teto de um Lincoln 1951 para fazer uma turnê pelo sul dos Estados Unidos com Presley e Scotty Moore. Próximo da escada há um pedaço de uma casa de shows recém-demolida em Londres onde os Beatles tocaram – McCartney enviou outro pedaço a Ringo no aniversário dele. “Não poderia guardar tudo isso em casa”, conta McCartney. “Homens podem ser acumuladores – não queremos nos livrar de nada. E eu junto coisas dos Beatles, então realmente não quero jogar nada fora.”

Sentado em um sofá amarelo-vivo, perto de um vaso de flores frescas, Paul menciona ficar impressionado com a abertura de George Harrison quanto ao caos psicológico causado pela beatlemania – um tópico frequente no filme que Martin Scorsese fez sobre o guitarrista dos Beatles. “Acho que todos tivemos o trauma que George vocalizou”, diz. “Gostei de ouvir George falar sobre isso, porque está revelando essa coisa. Para mim, é algo que foi mais internalizado, e minha criação me levaria a dizer: ‘É, ok, é um trauma, mas aguente’. É: ‘O que se pode fazer, ficar sentado reclamando? Você simplesmente estava na banda mais famosa do mundo. Queria estar, ela paga bem, você se divertiu muito, houve momentos ruins, então vai fazer o que, focar nos momentos ruins ou simplesmente lidar com isso?’” McCartney já fez terapia, mas não por causa disso. “Já fiz, sim, com divórcios e coisas assim, perder a esposa. Não tem a ver com os Beatles, pode acreditar.”

Enquanto todos os Beatles estavam vivos, a ideia de voltar nunca foi descartada. “Houve conversas sobre retomar os Beatles algumas vezes”, Paul conta casualmente, “mas não foram para a frente, não havia paixão suficiente por trás da ideia. Havia mais paixão em aposentar os Beatles do que em retornar. Todos falávamos, de forma muito convincente: ‘Nosso ciclo se fechou’. O mais importante é que poderia ter dado tão errado que estragaria toda a ideia dos Beatles, tão errado que poderiam falar: ‘Meu Deus, eles não eram nada bons’. Então, as sugestões de volta nunca foram suficientemente convincentes. Eram até boas quando aconteciam – ‘É, isso seria bom’ – mas sempre um de nós não era a favor. E isso era suficiente, porque éramos o máximo de democracia. Se um não gostava de uma música, não a tocávamos. Algumas quase não rolaram. ‘Maxwell’s Silver Hammer’ foi uma delas. ”


Lennon e McCartney se reuniram certa vez em um estúdio de gravação, muito depois da separação dos Beatles: foi em 1974, quando McCartney fez uma visita enquanto Lennon trabalhava em Pussy Cats, com Harry Nilsson, em Los Angeles. Eles tentaram tocar algumas músicas com Nilsson, Stevie Wonder e outros. Como imortalizado no famoso disco pirata A Toot and a Snore in ’74 (que McCartney nunca ouviu), o resultado foi horrendo. “Acredito que não seja muito bom”, admite. Acha a história mais cómica do que trágica: “Estávamos chapados. Não acho que havia alguém naquela sala que não estivesse chapado. Por algum motivo cretino, decidi ir para a bateria. Era só uma festa, sabe. Usar a palavra ‘desorganizado’ é diminuir completamente aquilo. Posso ter feito uma tentativa pífia de restaurar a ordem – ‘Pessoal, vamos pensar em uma música que seria uma boa ideia’ – mas não consigo lembrar se tentei ou não”.

Nesta manhã, no andar de baixo de seu estúdio, Paul McCartney sentou e compôs uma nova música. É o que ele faz. Esteja recém-divorciado ou recém-casado, feliz ou triste, a música chega. “Pensei em algumas coisas ontem à noite, acordei hoje e levei minha filha para a escola. Vim pensando no carro, na volta. Juntei as palavras e simplesmente fiz a melodia enquanto você esperava na cozinha.” Está trabalhando com Mark Ronson hoje – um dos vários produtores que está considerando para o álbum – então decidiu escrever algo adequado. “Mark foi o DJ em nossa festa de casamento, então estou pensando em ‘festa’ – e compus uma música, ‘The Life of a Party Girl’.” Aparentemente, as músicas vêm fácil demais para McCartney, o que pode explicar como as canções no nível Beatles em seu catálogo solo podem conviver com coisas descartáveis como “Let ’Em In”. “Tenho de tomar cuidado para algo simplesmente não sair sem graça demais”, afirma. “Paul Simon trabalha em suas músicas muito mais do que eu, com um primeiro rascunho, segundo, terceiro. Também faço isso, mas não tanto quanto ele. São tipos diferentes de música. Não sei se Arthur ‘Big Boy’ Crudup pensou demais sobre ‘That’s All Right, Mama’. [O poeta Allen] Ginsberg dizia: ‘O primeiro pensamento é o melhor’. Mas depois passava horas editando seu trabalho. Às vezes escrevo uma, olho para ela, tremo e digo: ‘Não gosto disso’.” Mais profundamente, McCartney não sabe bem de onde todas as melodias vêm. Ainda não descobriu como compôs “Yesterday” enquanto dormia. “Não gosto de usar a palavra ‘magia’, porque soa um pouco brega, mas quando sua maior música – que mais de três mil pessoas já gravaram – foi algo com que você sonhou, é muito difícil resistir ao pensamento de que há algo extraterreno ali.” Ele sente que Deus lhe enviou um cheque gordo? “Ou, sem saber, eu mandei a mim mesmo”, diz. “Tenho esta espécie de teoria de que, o tempo todo, estamos colocando em nosso computador informações sobre o mundo, e um dia ele as imprime para nós. Acho que, no caso de ‘Yesterday’, foi uma impressão involuntária. Por outro lado, pode ter sido Deus, não descarto isso.”

Paul McCartney sempre pareceu o beatle menos espiritual (ou o segundo menos – sabe-se lá o que acontecia com Ringo naquela época). Não há “My Sweet Lord” em seu repertório – nem mesmo “Across the Universe”. “Acredito em um espírito, é o melhor termo que consigo usar”, diz. “Acho que há algo maior do que nós, e amo isso, e sou grato a isso, mas, como todo mundo, não consigo defini-lo. Sou feliz não o definindo. Pego partes de todas as religiões – então gosto de muitas coisas que os budistas dizem, que Jesus disse, que Maomé disse.” E, no final, McCartney está convencido de que tudo se resume a uma mensagem muito breve, que ele revela com uma grande seriedade de quem nasceu em Liverpool: “Seja legal e tudo dará certo”, diz. “Essa é a religião do rock and roll.”