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Especial Mulher: Rainha da Sucata

Diva improvável, Gaby Amarantos aproveita a atual onda de sucesso e garante que está só começando

Bruna Veloso Publicado em 09/03/2012, às 12h27 - Atualizado em 20/03/2012, às 18h29

NOVO FEMINISMO  “A questão de a mulher deixar de ser mulher me incomoda”

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Leia abaixo trecho da matéria publicada na edição de março da Rolling Stone Brasil, nas bancas a partir de 12/3

No camarim, Gaby Amarantos faz ruídos estranhos com a boca. Sentada no braço de um sofá, no andar subterrâneo de uma pequena casa noturna em São Paulo, ela cumprimenta em voz baixa quem passa pela sala escura – havia acabado de sair de uma gripe –, sem deixar de se concentrar nos exercícios vocais. Próximo a ela, no chão, há um copo de plástico meio cheio de água, virado para baixo sobre um prato – uma mandinga para fazer cessar a constante chuva que insiste em cair antes de mais uma apresentação.

A rotina é exaustiva: há meses, Gabriela Amaral dos Santos pula de estado em estado, em uma bateria de shows e de intermináveis participações em programas de televisão (Domingão do Faustão, De Frente com Gabi, Muito Mais, entre diversos outros). Em um primeiro momento, ela se mostra cansada – poucas palavras, poucos sorrisos – mas, gradativamente, o semblante muda. Os integrantes da banda de apoio chegam ao camarim e relembram viagens e pessoas que conheceram na estrada. A Gaby que parece descontraída e debochada na TV aos poucos começa a surgir. Mas não se pode comparar esta com a persona dela no palco: quando a paraense de 33 anos se coloca à frente de um microfone, nada parece ficar imune. A mandinga funciona, a chuva paulistana dá uma trégua e a casa está cheia. Gaby Amarantos está pronta para mais uma etapa de sua missão – levar a música do Pará e o orgulho de ser brega a todos os cantos do país e, quem sabe, mundo afora.

Vídeo: assista ao making of da sessão de fotos com Gaby Amarantos

"Eu sabia que uma hora isso ia acontecer", ela diz sobre o sucesso, convicta. “Estou colhendo os frutos de um processo que tem 30 anos. Eu não sofro preconceitos, quem sofreu de verdade foi o Fernando Mendes, o Odair José, o Reginaldo Rossi, o Wando.” Para Gaby, que canta desde os 15 anos, toda a atenção que tem recebido é muito mais do que simplesmente uma questão pessoal. “Esses artistas já amaciaram a coisa para eu poder passar mais tranquila, e poder fazer com que as pessoas realmente se joguem no brega. O paraense é muito livre, e quem é do sul está começando a ver isso, sem se preocupar se vão colocar na coluna social no outro dia.”

Gaby Amarantos caminha como uma equilibrista profissional em uma corda bamba imaginária, que tem de um lado o povo – de onde ela veio – e do outro a elite, que agora olha para ela com respeito. Diferentemente do Calypso, outro fenômeno popular da música paraense, Gaby atinge o público jovem, que se refere – ou se referia – com preconceito aos ditos artistas bregas. É cool ir a um show de Gaby Amarantos em uma casa de shows indie da capital paulista; é cool cantar a viciante “Xirley” nas principais baladas gays da cidade. Mas isso não foi mero acontecimento de mercado: Gaby é uma profissional dedicada e com objetivos claros, e assim tem sido desde sempre.

Criada no bairro do Jurunas, periferia de Belém, ela diz ter lidado desde cedo com dificuldades que ajudaram a formatar quem é hoje. “Quando o meu pai trabalhava, ele perdeu o único emprego que teve, em um banco, porque chegou à gerência. Ele é negro e não admitiam que negro fosse gerente”, lembra. “Ele ganhava relativamente bem. Mas tinha a família dele, que éramos nós, mais a mãe e 13 irmãos para sustentar. A minha mãe...”, ela para por um segundo antes de continuar. “Ela é uma mulher que chegou a usar as cuecas do meu pai porque não tinha condições de comprar calcinhas!”

Morando em uma quitinete de madeira quando criança, Gaby dormia na mesma cama de casal que os pais, o irmão mais novo e a irmã recém-nascida, e ajudava a mãe, dona Elza, a lavar roupa para fora; aos 8, quando a família montou uma pequena loja de roupas, ela cuidava dos irmãos mais novos, de 6 e 4 anos. “Mamãe deixava a comida meio que pronta e eu esquentava. Às vezes, eu passava o bife e queimava tudo. Eles hoje brincam, dizendo que a gente comeu muita comida queimada por minha causa”, conta, sorrindo. “Eu me lembro disso com tanta saudade. Com tanto amor.”


Jurunas ainda é a casa da cantora – hoje, um prédio de três andares, onde mora com toda a família –, e ela não tem intenção de sair de lá. Embora passe mais tempo fora, fazendo shows e ganhando o suficiente para se estabelecer em qualquer cidade do país, deixar Belém está fora de cogitação. Tanto que, no segundo semestre de 2012, Gaby, ao lado da sócia Priscilla Brasil, dará início a uma escola de tecnobrega para crianças e adolescentes no bairro.

“Vai se chamar Tatatum, por causa da batida”, explica. Ficar em Jurunas não é só uma forma de ajudar o lugar onde nasceu, mas também um meio para Gaby não se esquecer de quem é: a artista que se apresenta em festas para a classe AAA, mas que também grava um DVD na rua, como fez recentemente em um projeto do diretor francês Vincent Moon (que já trabalhou com Arcade Fire, R.E.M. e outros). A cantora que se apresenta no Faustão é a mesma que passava horas em festas de aparelhagem no Pará, com um pendrive na mão, tentando convencer os DJs a tocar as músicas da antiga banda dela, a Tecno Show, formada em 2002; a mesma que costurava as próprias roupas e que pintava os olhos com papel crepom.

Semanas depois do show em São Paulo, antes das 10h da manhã, Gaby está de pé no saguão do prédio onde está hospedada, na casa de uma amiga. Ela usa óculos escuros estilo aviador: pela primeira vez em sete noites, conseguiu ter uma boa noite de sono – a cantora diz ser ansiosa e hiperativa. “Às vezes, quando estou muito assim, tomo um remédio para conseguir dormir, porque preciso descansar”, conta, justificando-se em seguida. “É por precisar de verdade. É um turbilhão de coisas que você tem de resolver, sempre tem uma coisa nova surgindo. Eu não consigo ficar parada, não consigo ficar quieta.” Gaby aproveita essa energia para surfar a onda de atenção que tem recebido e divulgar seu trabalho de forma incessante. Durante nosso encontro, três outros jornalistas ligaram diretamente no celular dela; no caminho para a Rede TV!, onde gravaria uma participação no programa de Hebe Camargo, durante a maquiagem nos estúdios e enquanto aguardava para entrar no programa, foram mais quatro entrevistas por telefone.

Já montada para encontrar Hebe (vestido com estampa de onça do estilista André Lima), a cantora permanece na coxia, assistindo à gravação em silêncio. Ela costuma ficar nervosa antes de programas em rede nacional, mas nada que abale sua performance. Ao lado da veterana apresentadora, Gaby, em vez do selinho, lhe dá um singelo tapa nas nádegas. E sai feliz, porém apressada. Trinta minutos depois, está dentro de uma van rumo ao SBT para gravar o programa Astros. A noite ainda iria longe: gravando até depois das 22h, ela saiu para jantar com os jurados do programa – Carlos Eduardo Miranda, um deles, é diretor musical de Treme, o primeiro disco “formal” de Gaby Amarantos, previsto para abril (ela já lançou outros com a banda Tecno Show no mercado dos camelôs paraenses).

Tudo é tão corrido que há dias em que mal há tempo para comer. Até ir para a emissora de Silvio Santos, ela tinha no estômago uma barra de cereais e um sanduíche de queijo e tomate, do tamanho da metade de um punho. “Talvez por causa da ansiedade, eu tenha o apetite forte. Sinto muita fome, tomo medicamentos naturais para controlar, para eu poder me alimentar melhor.” Ela já foi bulímica e, embora hoje seja praticamente a síntese da segurança (bem articulada, não titubeia ao responder nenhuma pergunta), diz já ter sofrido profundamente com baixa autoestima, por ser “desacreditada tanto da vida quanto das pessoas”.

Gabriela “sempre, sempre dizia” que nunca seria mãe. E foi justamente a maternidade que provocou a maior guinada na sua vida. “A gravidez foi um negócio muito incrível, porque me tornou um ser humano mais maduro, mais positivo. Me transformou em alguém que pode enfrentar qualquer situação, mesmo eu já tendo passado por muitas coisas”, define a cantora, que não teve apoio do pai de seu filho, um amigo com quem teve um breve relacionamento. Mesmo na carreira, Gaby enxerga a chegada de Davi como um divisor de águas: menos de um mês após o parto, ela subiu ao palco do festival Rec-Beat, em Recife, quando nasceu o apelido “Beyoncé do Pará”.


“Ele ainda é um bebê, tem só 3 anos, mas me fez um ser humano tão tranquilo, que se ama tanto...”, ela brada, entusiasmada. “Eu tive que fazer as pessoas me notarem, me perceberem. Pensei: ‘Só vão me notar a partir do momento em que não conseguirem mais me ignorar’. Foi uma frase assim, cara: as pessoas vão ter que me notar!” E é difícil não percebê-la: o figurino é extravagante (agora que há dinheiro para investir na moda, ela recheia o guarda-roupa com modelos luminosos de LED e fibra ótica, em um profusão infinita de cores); a cintura fina, que termina em um largo e avantajado quadril, se faz notar por onde passa. E há a voz: no palco, ela realmente se comporta como a maior estrela do tecnobrega.

Curiosamente, Davi é outro dos motivos para que ela não queira deixar a periferia paraense. “Eu acredito que essa base familiar que fez tanto a mim e a meus irmãos não nos envolvermos com drogas é o que vai fazer com que ele também siga o nosso caminho. Quero que cresça na periferia, porque quero que cresça sem preconceito. Que seja uma criança livre, desfrute das manifestações culturais e humanitárias que desfrutei para que se torne um ser humano que possa contribuir com alguma coisa para a sociedade.”

Católica, Gaby incorpora simpatias (como a feita para passar a chuva) e elementos de outras religiões à sua crença. Não fuma, diz só beber em comemorações e prega a independência como mulher, mas abomina posturas feministas mais ferrenhas. “Tem algumas coisas que me incomodam: essa questão da mulher deixar de ser mulher. Eu prego talvez um novo tipo de feminismo. Acho que essa feminista militante, que está aí de camiseta, sem batom, só reivindicando, não é o meu perfil”, diz. “Essa coisa da mulher e o mercado de trabalho é um passo superimportante, mas a mulher não pode se esquecer de ser mulher. De se permitir galanteios, porque tem um momento que o homem vai estar ali, que ele vai te pegar, que ele vai te tomar pra ele, e você tem de permitir. Acho que é isso que está faltando. As mulheres estão ficando muito duras.”

Os preparativos para a sessão de fotos começam às 9h da manhã. Gaby dormiu cerca de três horas depois da noitada com a equipe de Astros, e ainda teria pela frente um editorial de maquiagem e os preparativos para o Baile de Fantasia e Gala da Vogue. De novo, nem parece a persona festeira que se mostra às câmeras: ela está, sim, cansada, mas não nega fôlego para os compromissos.

“Eu já tenho que me preparar para quando vier uma resposta negativa”, ela afirma, sobre a possibilidade de todo o frenesi ao seu redor desaparecer futuramente. “Se vierem críticas negativas eu já estou acostumada, já tenho uma ‘oquinha’ de índia aqui dentro [aponta para o peito]. Porque essa coisa da crítica positiva é agora – a minha vida inteira foi [a crítica] me jogando pedra, me jogando cocô.”


Lidar com a imprensa tem sido a tarefa mais difícil – Gaby diz que ver suas declarações distorcidas é das coisas que mais a tiram do sério. Sessões de terapia fazem parte dos planos para ajudar a lidar com o turbilhão da fama. “Outros amigos já tinham sugerido, com o primeiro estouro dessa coisa da ‘Beyoncé do Pará’. Pensei: ‘Terapia é coisa pra doido’. Esses preconceitos que a gente tem”, relembra. “Mas quem dera todo mundo pudesse fazer. É primordial poder me conhecer melhor para enfrentar as coisas novas que vêm pela frente, os novos desafios.” O ano de 2012 não será como nenhum outro ano da vida de Gaby Amarantos: além da onipresença na mídia, uma das músicas da cantora estará na abertura da próxima novela das 7 da Globo, que se passará no universo da música da periferia (ela inclusive deu um workshop para o elenco, que conta com Taís Araújo, Claudia Abreu e Leandra Leal).

Uma conversa com Gaby Amarantos traz a sensação de que o improvável pode se tornar possível. E embora esteja há meses com a carreira em estado de crescimento, ela não parece se contentar com o que já tem – e ensina seu modus operandi para chegar mais longe. “Eu sempre soube que você precisa pensar positivo, tem que acreditar”, filosofa . “Só que existe uma parada: isso tem que ser verdade. Você não vai fazer isso só por fazer. Isso realmente tem que estar no seu coração.”