Levando a Sério

Sem pegadinhas, Sérgio Mallandro abre a privacidade e celebra 30 anos ininterruptos de vida de gaiato

Paulo Cavalcanti Publicado em 12/04/2012, às 18h28 - Atualizado às 18h42

VELOZ E ALOPRADO Mallandro tira uma onda da vida on the road

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Leia abaixo um trecho da matéria publicada na edição 67 da Rolling Stone Brasil, abril/2012

Como capturar uma bomba atômica explodindo? Como fazer com que o Jack in the Box não pule da caixa? Como fazer o Serginho Mallandro parar quieto? Difícil, porque ele é assim 24 horas ao dia: hiperativo, uma fábrica de “glu-glu”, “yeah, yeahs” e “rá!”, “o capeta em forma de guri”, como ele mesmo tanto já cantou. Embora aos 56 anos, pelo menos em termos cronológicos, ele já não seja mais um guri.

Hoje, o cidadão Sérgio Neiva Cavalcanti, nascido no Rio de Janeiro em 1956, parece não mais existir de verdade. “Um dia, tive que ir a uma audiência e o cara anunciou: ‘Sérgio Neiva Cavalcanti’. Fiquei parado, pensando: ‘Puxa, nunca me chamam’. Depois me toquei que estavam falando comigo!”, confessa o dono do nome.

Tratando-se de Sérgio Mallandro, não é questão exatamente de “ame ou odeie”. Embora alguns o ignorem, taxando-o de um personagem da “baixa cultura”, ele é considerado uma presença benigna que faz parte da memória afetiva do público. Mallandro, que já participou de inúmeras festas no estilo “trash 80” como convidado, hoje se encontra catalogado ao lado de nomes como Chaves, ThunderCats, He-Man e outras relíquias da cultura pop de 25 anos atrás. A diferença é que ele não pretende ser peça de nostalgia e ainda se encontra em plena atividade. Mesmo sem mudar sua essência, o ex-apresentador da Oradukapeta, jurado do Show de Calouros e criador da “Porta dos Desesperados” e da “Pegadinha do Mallandro” se reinventou, sempre surgindo com uma maluquice para se manter na mídia e não decepcionar os convertidos. Trabalho não falta: Sérgio Mallandro se ocupa como patrono de faculdades e universitários, é participante ativo de programas populares (esteve em A Fazenda 3 recentemente), é requisitado em eventos corporativos e atrai público com seu show de stand-up.

Assista ao making of da seção de fotos com Sérgio Mallandro.

E tem o reality show. Desde o início do mês, o programa Vida de Mallandro acompanha a rotina do humorista no Rio de Janeiro. Meu encontro com Mallandro, porém, se dá em São Paulo, onde também possui residência, na região da classe média alta de Vila Mariana. Sem problemas: Sérgio Mallandro é Sérgio Mallandro em qualquer lugar do planeta.

No apartamento aconchegante, com paredes brancas e certa aura espiritual, nada de esquisitices. Mallandro morou por muito tempo em São Paulo e transita com desenvoltura nas duas cidades. “A casa do Rio tem cinco andares e ainda estou reformando. Vivo indo e voltando”, diz. “Fui para o Rio para fazer uma temporada de dois meses com meu espetáculo e fiquei dois anos. Lá o lance é diurno, tem montanha, esporte, o povo na praia. Já São Paulo tem milhares de opções, restaurantes, bares cheios, festas e baladas. Sou um cara dividido: no Rio, sou Fluminense; aqui, sou Corinthians.”


Sobre o reality show exibido no canal Multishow às quintas-feiras, o protagonista é didático: “Na minha casa moram a minha ex-esposa, a Mary Mallandro, e o meu filho mais velho, o Sergio Tadeu. A Mary ainda toma conta dos meus negócios e a gente vive batendo de frente, mas na boa. Eu tenho dois filhos que moram na Inglaterra, o caçula, Edgard, e a Stefanie, que são do meu segundo casamento. Eles voltaram por uns tempos para participar. O programa mostra minhas namoradas, eu visitando a creche, saindo pra balada, na praia, é uma bagunça geral. Mas também mostra um pouco o meu lado sério que é meu trabalho. Mas eu trabalho me divertindo”.

Tal qual um Forrest Gump lado B, Sérgio Mallandro esteve em contato com os principais nomes da televisão popular brasileira nos últimos 30 anos. A entrada no meio artístico aconteceu por acaso. “Eu não era artista. Era um cara que fingia ser surfista, mas não surfava nadinha. Só usava a prancha pra azarar as gatas. Curtia lutar jiu-jítsu e jogar futebol”, ele conta. Apesar de afirmar que “tem uma memória ruim”, Mallandro se lembra de tudo. Não é detalhista nem parte para grandes digressões filosóficas, mas relata a linha de tempo pessoal com fluidez. “No começo dos anos 80, eu era amigo do André de Biase. Ele e os amigos tinham um projeto de um filme, que se tornou O Menino do Rio. Ele me apresentou ao diretor Antonio Calmon e fiz uma participação. Quando acabou a filmagem, vi que eu era artista.”

Paralelamente, Mallandro participou do “Cidade contra Cidade”, quadro clássico do Programa Silvio Santos. “Levei a Xuxa, na época apenas Maria da Graça, que era Miss Objetivo“, ele conta, sem perder o fôlego. “Era uma gincana Rio contra São Paulo. Eu tinha que levar três mulheres bonitas, uma mulata, uma morena e uma loira. A mulata era a Solange Couto, que trabalhava com o Sargentelli. Levei também minha namorada, chamada Jaqueline. Eu ainda fazia faculdade de comunicação, fiz três anos, mas desisti, aí fiz o curso do [teatro] Tablado.”

Foi em Povo na TV, programa sensacionalista dos anos 80 apresentado pelo veterano Hilton Franco, que Mallandro se assumiu como figura fácil na televisão. “Era ao vivo, aprendi muito. A gente ficava das 13h as 18h30, sem truque, sem gravação. Tinha coisa triste, alegria, maluquice”, diz. Quando o programa acabou, Mallandro já valia ouro. Logo tornou-se discípulo de Silvio Santos e por muitos anos foi um dos jurados do Show de Calouros, onde protagonizou momentos impagáveis, como uma guerra de ovos com o patrão apresentador. Sempre atilado, chegou a sabatinar o então candidato a presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 1989, perguntando ao político sobre seus interesses etílicos (“o senhor gosta de pinga com cambuci?”), se ele faria algo por seus “amigos metaleiros” (“metalúrgicos”, corrigiu Silvio) e por que ele exibia aquela “voz de pato rouco”.

“O que falar do Silvio?”, Mallandro gargalha. “Foi como fazer uma faculdade. Eu poderia até pagar para trabalhar com ele, mas eu ainda era pago! A gente fazia uma dupla daquelas!”

Mallandro não para quieto, mas mora em uma rua tranquila – não por coincidência, uma rota de autoescola. Ao rodar a vizinhança em uma BMW conversível e em uma motocicleta Kawasaki, realizando a completa mise-in-scène de Mallandro, repleta de poses, caretas e ruídos, a performance não passa despercebida: os candidatos a motorista, incrédulos, não escondem as gargalhadas (será que pensavam estar em alguma pegadinha?). Naturalmente, tudo fica ainda mais esdrúxulo quando Mallandro aciona o “Beijo do Macaco” no CD player do carro (que ele espera ser seu próximo hit). De volta ao apartamento, entre um gole e outro de chá branco sabor lichia, um Mallandro comportado recorda “Vem Fazer Glu-Glu”, compacto simples de 1982 que vendeu um milhão de cópias e lhe rendeu seus principais bordões. “Quando eu lancei essa música... ah, o povo era surdo naquela época. Fiz a música para uma aeromoça quando peguei a ponte aérea. Não sabia o que falar, inventei: ‘Vem fazer glu-glu, mon amour, I love you’. Essas coisas meio sem sentido.” Foi justamente esse período que marcou a onipresença da chancela Mallandro. “Tinha a revistinha do Mallandro, o tênis do Mallandro, cheguei a ter um circo que rodava o Brasil inteiro onde eu me fantasiava de super-herói, fazia mágica. Foi aí que finalmente ganhei meu programa próprio no SBT.”


O tal programa foi a Oradukapeta. “Ah, esse ficou na memória da criançada”, sorri. Nele, o showman apresentava o quadro “A Porta dos Desesperados”, se travestia do goleiro Mallandrovisky e bancava o Super-Mallandro. A concorrente Globo se sentiu incomodada a ponto de convidar Mallandro a mudar de emissora. Na rede carioca, contou com uma madrinha de peso: a antiga amiga de pré-fama Xuxa Meneghel, que o ajudou a se adaptar na emissora carioca. A fase global talvez não tenha sido tão anárquica e criativa como os tempos de SBT, mas foi essencial para Mallandro se tornar um profissional melhor e mais aplicado, como ele próprio reconhece, enumerando: “Fiz o Show do Mallandro, aí me colocaram aos sábados para substituir o Chacrinha, uma tarefa impossível. Mas era legal mesmo assim. A gente inventou umas maluquices, explodíamos os calouros. Entrou o futebol no sábado à tarde, fui fazer programa de manhã. Substituí a Xuxa algumas vezes. E ainda tive o privilégio de trabalhar com o Chico Anysio na Escolinha do Professor Raimundo” . Ao lado de Xuxa, Mallandro fez o campeão de bilheteria Lua de Cristal, e, com as Paquitas, filmou Sonho de Verão (ambos em 1990). No ano seguinte, protagonizou o cult trash Inspetor Faustão e o Mallandro, até hoje hit da Sessão da Tarde. Deixou a Globo em 1993 e voltou para o SBT, onde ficou até a metade daquela década. Quando saiu da emissora que o revelou, parecia ter esgotado as possibilidades. Acabou seguindo o caminho lógico da carreira de um artista popular, que é se virar em emissoras consideradas menores. Um orçamento pequeno e menos visibilidade podem possibilitar saídas criativas. Mais solto do que na épocada Globo, Mallandro voltou com força às suas raízes anárquicas e se consagrou de vez como um midas trash, guinada que ele credita à fidelidade do público.

“As crianças que me acompanhavam nos anos 80 estavam crescendo e achei que dava para fazer algo para elas”, ele reflete. “Foi assim que surgiram as pegadinhas e as mallandrinhas – os carinhas gostam de ver mulher bonita com pouca roupa. Na CNT Gazeta, que era uma emissora pequena, consegui 19 pontos de audiência. Felizmente, tudo o que eu fiz na TV deu certo. Sempre fui ousado, arrisco mesmo!”

Um aparelho de televisão afixado à parede exibe cenas de um Sérgio Mallandro mais jovem, de outras eras. “Estou assistindo minhas antigas fitas de vídeo para passar para o DVD, tenho medo de estragar”, ele explica. Quando Pedro de Lara surge na tela, em cena do antigo Show de Calouros, o anfitrião presta atenção, em silêncio. “Pô, o Pedrão. Esse era um grande cara, engraçado, amigo. Eu olho essas imagens e vejo que fazia tudo com muita dedicação, amor e bom humor. Olho os cenários, o esforço da produção e me lembro do trabalhão que dava e valorizo quem trabalhou comigo.”

Hoje, ele não precisa necessariamente ter um programa na TV. Basta ser Sérgio Mallandro que os convites surgem. Céticos em relação à sua figura entregaram a toalha em 2007 quando o curta-metragem Ópera do Mallandro, dirigido por André Moraes, tornou-se hit na internet. Nele, um garoto precisa escrever uma redação e recorre às memórias dos anos 80. Mallandro e suas idiossincrasias são o ponto que amarra tudo. Com participação de Wagner Moura, Taís Araújo e com sucessos do astro interpretados por Caetano Veloso, Jair Oliveira e outros, a produção não deixa dúvida de que o veterano Sérgio Neiva Cavalcanti ainda tinha moral no pedaço.

E com a onda da stand-up comedy em alta, o herói não quis ficar atrás. Para explicar, mais um monólogo se segue. “Meu espetáculo, Sérgio Mallandro sem Censura, não tem palavrão ou nada que a família não possa ver. Pensam que fico só no ‘rá’ e ‘yeah yeah’. Na verdade, eu explico a origem de tudo em apenas cinco minutos. Falo da minha infância, da minha trajetória, do meu começo com o Silvio, das histórias com Xuxa, Faustão, Jorge Ben Jor”, explica. “Fui expulso de quatro colégios, sempre por interromper o professor. Lembro o tempo em que minha mãe casou com um general, minha adolescência foi como se eu estivesse servindo o exército em casa. Outra coisa bacana foi o lance com os universitários. Começou no Largo São Francisco. Fui a convite dos futuros advogados. Estava com medo, pensei: ‘Vão fazer um monte de perguntas estranhas’. Aí, cheguei fui recebido assim: ‘Hey, hey, Serginho é nosso rei’. Falavam: ‘Esse cara é nosso ícone’. E aí comecei a entender o que eu significava para eles.”


Em uma das cenas mais emblemáticas do primeiro capítulo de Vida de Mallandro, o protagonista retorna para casa cambaleando após uma noite pesada. Sérgio não esconde que ainda é baladeiro, mas garante que a farra tem limite. “Eu já saí muito. Não bebo, não fumo, nunca usei drogas. As pessoas ficam impressionadas. Digo: ‘Não preciso, só andei com maluco’”, afirma. “Sempre tive medo. Se eu cheirar já era, imagina! Falo pra caramba, então ninguém iria me aguentar mesmo. Se tomo umas cinco cervejas, fico bêbado.”

Chega a hora de obrigar o gaiato-mor da televisão brasileira deixar declarações para a posteridade. Qual é o sentido da vida? E o que significa a morte? A resposta vem imediata e em tom grave – mas não muito. “A vida para mim é um parque de diversões. Numa hora você está na montanha-russa, em outra no carrossel, em outra no bate-bate. Aí você está no trem fantasma, que é a parte ruim da vida, que é a morte e a doença. Mas sempre tem uma saída. Quando eu morrer, o cemitério vai estar fazendo ‘glu glu’, ‘yeah, yeah’. Vão falar que eu, em vez de abrir a Porta dos Desesperados, acabei abrindo a Porta do Inferno. Vai ser só risos e zoação pra cima de mim.”

Mallandro pode até fazer esforço, mas não consegue falar sério. “Eu vou estar presente em tudo o que é bagulho por aí”, ele decreta. “Vou deixar meus seguidores. Esse lance de ‘glu glu’ e ‘yeah yeah’ vai ser eterno!”