Memórias de Elvis

Músicos e parceiros musicais do Rei do Rock dão detalhes sobre o megashow comemorativo que em breve será visto pelo público brasileiro

Paulo Cavalcanti Publicado em 11/05/2012, às 17h52

VIA SATÉLITE Elvis, em 1973, no show Aloha from Hawaii trajando o icônico macacão American Eagle

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Pouca gente sabe quem foi Al Dvorin. o promotor de shows e locutor foi responsável por eternizar uma das frases mais icônicas da cultura pop: “Elvis has left the bulding” (Elvis saiu do prédio). Dvorin usava a frase para avisar os fãs presentes nos shows de Elvis que ele já havia ido embora. Portanto, não haveria bis e assim ele também não atenderia ninguém. Poucos meses antes de serem completados 35 anos da morte de Elvis, é irônico pensar que ele nunca realmente “deixou o prédio”.

Elvis nunca saiu em uma turnê mundial. Ele só se apresentou uma vez fora do território norte-americano: foram cinco shows em três cidades do Canadá, em 1957. Nos anos 70, quando voltou aos palcos, choveram propostas para ele cantar fora da América do Norte. Mas os motivos de Elvis nunca ter aceitado são vários e até hoje envoltos em polêmica. Alguns autores afirmam que isso aconteceu pelo fato de o Coronel Tom Parker, empresário do cantor, ser um imigrante ilegal que não queria correr o risco de se meter em problemas com a imigração dos Estados Unidos. Outros fatores eram mais mundanos. Elvis, uma criatura do hábito, supostamente não se interessava em fazer viagens longas. Em 1973, para saciar a sede dos fãs mundiais, Elvis foi o astro do milionário show Aloha from Havaii, transmitido diretamente das Ilhas do Pacífico via satélite para boa parte do planeta e assistido por quase um bilhão de pessoas. Até a sua morte, em 16 de agosto de 1977, Elvis seguiu se apresentando em Las Vegas e em outras partes dos Estados Unidos, mas os fãs do resto do mundo tinham de se contentar com os vídeos e discos.

Em 16 de agosto de 1997, no Coliseu do Centro-Sul, em Memphis (Tennessee), exatamente 20 anos após a sua morte, Elvis retornava aos palcos. Bem, se obviamente ele não estava lá em carne e osso, pelo menos sua voz e imagens, sim. Elvis – The Concert (mais tarde renomeado Elvis Presley in Concert) usava tecnologia de ponta para trazer o Rei do Rock de volta. Telões gigantescos de altíssima definição mostravam imagens de Elvis, basicamente retiradas dos filmes Comeback Special (1968), Elvis É Assim (1970), Elvis Triunfal (1972) e Aloha from Havaii. Os produtores utilizaram as trilhas de áudio original e isolaram a voz de Elvis. No palco, para fazer o acompanhamento, estava presente a maioria dos músicos e vocalistas que acompanharam Elvis em suas turnês nos anos 70. A TCB Band, como era chamado esse grupo de músicos e vocalistas que cercavam o Rei, foi reunida após 20 anos para trazer de volta a magia e emoção da música do Rei. De anos para cá, os telões se tornaram parte integral de qualquer megaconcerto de rock e de música popular e, assim que a imagem gigantesca de Elvis se materializava no palco, a ilusão se tornava realidade.

Elvis Presley in Concert seguiu com muito sucesso pelos Estados Unidos e também por outros países. O show realizado no Pyramid Coliseum, em Memphis, em 2002, foi gravado e se transformou no DVD Elvis Lives. Neste ano, o projeto foi reativado e passou por vários locais da Europa, como França, Suíça, Alemanha e Inglaterra. Em outubro, os brasileiros vão ter a chance de assistir a Elvis Presley in Concert. O espetáculo chega para apresentações em Brasília (dia 6, no Ginásio Nilson Nelson), em São Paulo (dia 9, no Ginásio do Ibirapuera) e no Rio de Janeiro (dia 11, em local ainda a ser confirmado).

O homem que teve a responsabilidade de fazer este novo show acontecer se chama Stig Edgren. Direto ao ponto, ele detalha como surgiu o projeto: “Eu fui contatado, em 1997, pelos representantes de Graceland para produzir um concerto de duas horas como se Elvis ainda estivesse vivo. Trabalhei meses olhando o material gravado para selecionar as canções. Meu foco era: se ele estivesse vivo, como eu produziria seu show? Era preciso dar à audiência o sentimento de uma experiência inesquecível – algo que eles pudessem sentir, não apenas a sensação de estarem olhando para um telão. Era preciso se envolver com a energia e o poder da performance ao vivo de Elvis”.

“Nosso slogan era: se você nunca viu Elvis ao vivo, é o mais perto que vai chegar’”, Edgren continua. “Outro desafio era trazer de volta a TCB Band, que há 20 anos não tocava junta. Foi um triunfo para mim juntar esse pessoal de novo no palco. Nos ensaios conseguimos refinar tudo e chegar ao estágio final. Quando vi os músicos e cantores interagindo junto à imagem de Elvis pela primeira vez em 20 anos, as lágrimas caíram. O projeto é um orgulho para mim. Não é apenas uma aula de história para quem nunca viu Elvis, mas é um documento do incrível talento do maior artista do século 20”.


Edgren, que já organizou eventos envolvendo o papa e presidentes dos Estados Unidos, diz que nada se compara à emoção do universo de Elvis. “O público também é um espetáculo à parte. Todas as vezes que vejo o show, me surpreendo com como tocamos a audiência”, ele afirma. “Eles choram, cantam, lembram de sua juventude e dão as mãos para se tornar parte da experiência. Eu não sei como explicar isso, mas nós tocamos a vida de todas as pessoas presentes nas arenas e nos auditórios, sejam elas fãs de Elvis ou não”, finaliza.

O maestro Joe Guercio foi uma das peças-chave na construção do som de Elvis Presley e no sucesso de Elvis Presley in Concert. Nova-iorquino, ele era diretor musical do International Hotel e começou a trabalhar com Elvis no verão de 1970, quando o cantor estreou mais uma temporada em Las Vegas, a terceira desde que tinha voltado aos palcos em 1969. A ocasião serviu para a filmagem do documentário-concerto Elvis É Assim. Elvis e Guercio se entrosaram tão bem que o maestro foi com ele para a estrada e continuou ao lado do cantor até a sua morte. Se muita gente acha que a fase final de Elvis é “o som de Las Vegas”, então parte dos méritos deve ir para Guercio. Ele, ao lado do pianista Glen D. Hardin, criou os arranjos dramáticos das apresentações. Guercio também teve a ideia de usar “Also Sprach Zarathustra” (de Richard Strauss, tema do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço) para abrir os shows do Rei. Ao longo da carreira, o maestro também trabalhou com Barbra Streisand, Diana Ross, Gladys Knight, Steve Lawrence, Natalie Cole e muitos outros. “Foi uma grande emoção encontrar novamente o pessoal em 1997, depois de 20 anos afastado”, Guercio recorda sobre o começo do projeto. “Os arranjos são os mesmos dos velhos tempos. O espetáculo tem um pouco de tudo. Tem Elvis cantando grandes hits, rock e baladas. Mas é a parte gospel que deixa todo mundo emocionado”, diz.

Ele volta no tempo para falar de como começou a trabalhar com Elvis: “Eu recebi um recado de um representante do Coronel Parker para participar do projeto Elvis É Assim. Eu nunca tinha encontrado Elvis antes, mas ele me conquistou logo de cara. Já senti isso logo nos primeiros ensaios. Ocorreu tudo bem, uma parte dos arranjos já tinha sido criada pelo Glen D. Hardin, o novo pianista que tinha sido incorporado à banda. Mas aos poucos nós redefinimos a sonoridade, acrescentando às orquestrações vários elementos que reforçavam a grandiosidade da voz e da imagem de Elvis. Isso foi muito importante a partir do momento em que Elvis passou a se apresentar em locais maiores, como auditórios e até ginásios”. Essa abordagem grandiosa foi necessária quando ocorreu o Aloha from Hawaii, que muitos acham até hoje a mais icônica apresentação de Elvis. “Nós estávamos fazendo história”, fala Guercio. “Um show daquele tamanho, visto por tanta gente. Não poderia haver erros. Foi uma enorme responsabilidade.” Ao longo dos anos, Guercio e Elvis mantiveram uma relação de forte amizade. Ele lembra que os últimos anos do cantor não foram fáceis, mas o Rei se sentia bem quando sabia que iria encarar a plateia. “Nós sabíamos que sua condição não era das melhores, mas na estrada Elvis relaxava e procurava deixar de lado seus problemas e dar o melhor de si ao público.”

Mesmo se nunca tivesse tocado com Elvis Presley, James Burton já seria considerado uma lenda. O músico, que foi recentemente escolhido pela Rolling Stone como o 19º maior guitarrista de todos os tempos, foi um dos primeiros heróis da guitarra do rock. Aos 16, foi tocar com Ricky Nelson e logo se destacou com seus solos incendiários que juntavam rockabilly, swamp, blues e todo o espectro da música sulista executado em sua Fender Telecaster. Com os anos, se tornou uma das maiores influências de nomes como Keith Richards, John Fogerty e George Harrison. Ao mesmo tempo que trabalhava com Nelson, ainda era um dos músicos de estúdio mais requisitados dos anos 60.

Em meados de 1968, Burton ficou surpreso quando um dia recebeu uma ligação de uma pessoa que dizia ser Elvis Presley. E era ele mesmo. Diretamente de seu escritório na Lousiana, estado onde nasceu, Burton recorda esse momento decisivo de sua carreira: “Elvis queria que eu participasse do especial dele para a NBC, o Comeback Special. Eu não pude aceitar, já que nos dias da gravação eu tinha sessões para um álbum de Frank Sinatra. Elvis compreendeu e mesmo assim passamos horas no telefone falando de várias coisas. Ele me contou como gostava do The Adventures of Ozzie and Harriett, programa estrelado pelo Ricky Nelson, do qual eu participava. Também falou que não perdia um episódio de Shindig! . Naturalmente, conversamos muito sobre música. No final, quando desligamos, ele prometeu que nos falaríamos novamente. Foi o que aconteceu no ano seguinte, quando ele ligou para me convidar para participar de uma banda que estava montando para tocar em Las Vegas. Dessa vez, minha resposta foi ‘sim’”.


Burton estava pronto quando Elvis voltou aos palcos em agosto de 1969. Mas, quando Elvis foi para a estrada e começou a cruzar os Estados Unidos, o guitarrista se viu em um dilema. Teve de abandonar parte do lucrativo trabalho de músico de estúdio, mas diz que não se arrepende. “Eu não pude dizer ‘não’ para o Elvis. Nossa banda era muito coesa e todo mundo se divertia tanto. Foi ótimo, consegui tocar com ele e estive em todos os grandes momentos até o fim de sua vida. Aí, foi uma questão de acertar a minha agenda. Ainda sinto falta dele. No show que fazemos agora, quando surge a voz de Elvis com a frase ‘Play it, James’ (toque, James), eu automaticamente olho para os lados para ver onde ele está.”

O tecladista da primeira temporada de Elvis em Las Vegas, em 1969, se chamava Larry Muhoberac. Quando o cantor retornou para a cidade, em 1970, ele já tinha uma nova pessoa para o posto – o texano Glen D. Hardin, dono de um currículo de respeito: ele havia feito parte da segunda formação do The Crickets, a banda original de Buddy Holly e, além de muito trabalho de estúdio, também tocou na banda do programa Shindig!, ao lado de James Burton.

Elvis conhecia o trabalho de Hardin e quis tê-lo por perto para usar seus talentos como pianista e arranjador. Burton deu uma forcinha. “O núcleo de músicos de Elvis era gente do sul dos Estados Unidos e que tinha trabalhado em Nova York e em Hollywood. Eu me encaixava nesse padrão”, recorda Hardin. “Na nova temporada, Elvis queria causar ainda mais impacto. Quando começamos a ensaiar a versão da banda para ‘Let It Be Me’, achei que poderíamos criar coisas novas. Foi o que fizemos com ‘I Just Can’t Help Believing’, ‘The Wonder of You’, ‘Bridge Over Troubled Water’ e outras.”

De tantas canções que tocou com Elvis, Hardin tem a sua favorita. “Todos os shows encerravam com ‘Can’t Help Falling in Love with You’. Eu criei o arranjo e a introdução de piano. Logo que os fãs ouvem as primeiras notas já sabem que o show iria terminar – era hora de se despedir de Elvis. Mas eu vejo a canção como algo muito maior do que isso. Até hoje é uma carta de amor à sua legião de fãs”, diz.

O texano Ronnie Tutt era um adolescente em 1955, quando viu Elvis Presley pela primeira vez na vida. Tutt fazia parte de uma banda local e Elvis era apenas um jovem artista desconhecido que estava começando a carreira. Ele, na verdade, achou o cantor “meio punk”, principalmente depois que arrebentou as cordas de uma guitarra que foi emprestada a ele. Elvis e Tutt não se falaram nessa ocasião. Exatamente 14 anos depois, Tutt finalmente conheceu Elvis. Melhor do que isso, foi trabalhar com ele. “Eu era músico de estúdio em Memphis. A produção de Elvis estava montando uma banda para seu retorno aos palcos”, conta. “Estavam testando bateristas, mas não ficaram satisfeitos com ninguém. O tecladista Larry Muhoberac, que já estava na banda, era meu amigo e me indicou. Fiz o teste, acho que fui o último a ser ouvido. Elvis esteve muito envolvido com a seleção dos músicos. Ele esperava muito da seção rítmica, queria um som musculoso, funky, cheio de groove.”

Antes de encerrar a entrevista, Tutt conta uma história que define sua experiência com Elvis Presley e que também reflete os sentimentos de quem se importa com a música do cantor: “Sabe, antes de voltar agora para casa, eu estava em um shopping de Nashville com a minha esposa. Já estávamos saindo quando passamos por uma loja que do nada começou a tocar uma canção de Elvis. Minha esposa olhou para mim e falou: ‘Está vendo? Ele nunca vai te deixar’”.