O rock argentino pré-guerra

Edgardo Martolio Publicado em 28/05/2012, às 12h14 - Atualizado às 12h31

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A guerra que fez o rock: o conflito sangrento nas Ilhas Malvinas alterou para sempre a vida dos argentinos e, por consequência, transformou em definitivo a música de protesto do país.

Estoy muy solo y triste acá en este mundo abandonado;/

tengo una idea y es la de irme al lugar que yo más quiera;/

me falta algo para ir, pues caminando yo no puedo;/

construiré una balsa y me iré a naufragar...

1966 - La Balsa (Tanguito y Litto Nebbia) - primeiro tema reconhecido como rock argentino, gravado pela banda Los Gatos Salvajes

Antes de qualquer guerra ou ditadura, já existia um pré-rock argentino, claro – assim como havia o uruguaio, o australiano, o japonês –, resultado do sucesso internacional iniciado por um tal Elvis Presley, e que os Beatles e outras bandas de língua inglesa deram sequência com suas sonoras baterias e atraentes guitarras elétricas.

Em 1966, um golpe militar na Argentina empossou o General Juan Carlos Onganía e os ritmos musicais necessitaram se adaptar um pouco por lá. Assim como aconteceu mais tarde no Chile, com Augusto Pinochet, na Bolívia, com Hugo Banzer, no Peru, com Velasco Alvarado e, obviamente, antes de todos eles, no Brasil, com Castelo Branco (1964).

Enquanto isso, aqui, os Novos Baianos mudavam os ritmos da Jovem Guarda inicial, aquela de Roberto e Erasmo Carlos, Wanderléa, Vanusa, Ronnie Von, Rosemary, Wanderley Cardoso e tantos outros que cantavam “Biquíni Amarelo” e “Namoradinha de um Amigo Meu” e todo aquele Iê-Iê-Iê que causava furor em um país prestes a trocar seus sonhos em preto e branco pelas cores da telinha. Eram tempos de mudança. Nascia um novo mapa-múndi. O ainda incipiente pop se mostrava em suas diversas formas. No hemisfério Norte com os hippies; no Sul com as ditaduras militares. Lá a revolução sexual, aqui a pureza do amor.

Nessa Argentina dos anos 1960, havia um movimento parecido com a Jovem Guarda, talvez até mais naïf, chamado El Club del Clan, também nascido a partir de um programa de televisão. As novas vozes surgiam aí: Palito Ortega, Jolly Land, Johnny Tedesco, Violeta Rivas, Leo Dan. La Nueva Ola desembarcava definitivamente na América do Sul, misturando o local com o estrangeiro, com mais cara de twist do que de rock norte-americano propriamente dito. Enquanto isso, no Brasil, surgia o Tropicalismo.

Paralelamente, no Uruguai apareciam Los Iracundos, Claudia conquistava a Colômbia, Los Pasteles Verdes o Peru e, no Chile, o destaque eram Los Angeles Negros. A música nunca mais seria a mesma. Mas, como Roberto Carlos no Brasil, na época todos eles cantavam o amor. Eram os românticos modernos com movimentos menos suaves e uma intenção muito mais sexy que a de seus antecessores. Em Buenos Aires, Sandro foi seu expoente máximo e também o melhor retrato de Elvis que a Argentina já teve.

Logo, no Brasil, Caetano e Gil intelectualizaram a Tropicália de Gal Costa, Nara Leão, Os Mutantes e Tom Zé. Enquanto ambos estavam no exílio em Londres, outro conterrâneo deles modificava completamente a MPB: Raul Seixas, após se desmembrar de “suas Panteras”. Na Argentina, aos poucos surgiam novos compositores que cantavam dissimuladamente o que a imprensa não podia falar. Era o fim do El Club del Clan. Os ventos mudavam rápido. A efervescência musical era total.

Nascimento

Terminam os anos 1960 e nasce o primeiro rock argentino “de verdade”. Pappo Napolitano, morto em 2005 em um acidente de motocicleta, é o maior representante desse momento, com a banda Pappo’s Blues. Ainda que tenha sido definido como “pesado” na época, o tom underground não era realmente político: ele se ocupava do cotidiano urbano, dos problemas das periferias marginalizadas, assuntos que comovem, mas não revolucionam. Esse rock, no fundo, era mais estético que ativista.

O momento coincide com o fim de grupos pioneiros (Katunga) e a reclusão de solistas irreverentes (Emilio Molinari). Por decantação, prevalece o psicodélico e o folk com ar de blues importado. Mais uma vez se prioriza o estético. O comportamental supera o ideológico. Woodstock derrota Sierra Maestra.

De qualquer maneira, são anos de grande êxito para a revista Pelo – que era uma espécie de Rolling Stone de lá naquele tempo – e de prestígio para o novo festival Buenos Aires Rock, que em 1970 crava sua primeira edição. Com o lema “Hasta que se ponga el sol”, o evento teve participantes como Billy Bond y La Pesada (“Tontos”), Arco Iris (“Hombre”), Vox Dei (“Jeremias Pies de Plomo”), Pescado Rabioso (“Despiertate Nena”), Sui Géneris (“Canción para Mi Muerte”) e outros menos consagrados, como Gabriela (“Campesina del Sol”), Orion’s Beethoven (“Nirmanakaya”) e Color Humano (“Larga Vida al Sol”). Entre parênteses, suas canções mais aplaudidas, todas elas mais sentimentais do que rebeldes. Dois anos mais tarde, o festival foi exibido nos cinemas.

Em 1973, Alejandro Agustín Lanusse, outro general na presidência argentina, casa sua filha com um desses cantores no apogeu da carreira, Roberto Rimoldi Fraga, e devolve a democracia ao país. É quando Juan Domingo Perón retorna de seu longo exílio de 18 anos iludindo a juventude subversiva, que troca as guitarras por fuzis. Batizados com os nomes Montoneros, ERP (Ejercito Revolucionario del Pueblo) e outras siglas de facções menos significativas, ele sequestravam, roubavam e matavam alegando supostas reivindicações sociais.

Che Guevara revive no coração de todos, mas morre Perón, e sua viúva Isabelita assume a presidência e aprofunda o caos. Seu homem forte, o ministro-confidente José López Rega, assistente e bruxo de Perón no exílio espanhol criou a Triple A, que fazia terrorismo de Estado. Uma loucura. Assim, grandes nomes do rock local, como Lito Nebia e “El Flaco” Spinetta ficam mornos, adormecidos ou entoando antigos sucessos como “Muchacha Ojos de Papel”, porque esse caos solicitava uma mudança que não podia ser realizada através de acordes musicais.

Ditadura

Os cidadãos pediam, aos gritos, o regresso dos militares – e eles voltaram à cena. O golpe de estado do dia 24 de março de 1976 empossou o general Videla, o almirante Massera e o brigadeiro Agosti, uma junta que representava as três forças armadas no comando da Argentina, que inaugurava sua época mais trágica. Tudo sob um manto de silêncio, primeiro ignorante, depois farsante, da população (a imprensa é parte dela). A música toda perdeu importância. O rock mais ainda. Mas sempre havia exceções: liderada por Charly Garcia, em 1978 nasceu a ilustre banda Seru Giran (chamada de Beatles argentinos), que tem alguma coisa criativa a dizer em meio ao congelamento musical interno do período. Por rara coincidência, em 12 de junho desse mesmo ano, num teatro do West End londrino, estreou o musical Evita: Don't Cry for me Argentina. Em 1982, apenas um mês antes da guerra com os ingleses, Seru Giran se consagrou com sua versão de “No llores por mi Argentina”. Os nomes, as datas, os argentinos e os ingleses começaram a se cruzar e a se encontrar como um prenúncio do conflito das Malvinas.

No país, só se começou a saber alguma coisa concreta dos desaparecidos no início dos anos 1980 quando surgiram novos expoentes do rock de protesto, mas nada muito visível, só para “entendidos”. E esse gérmen foi fundamental para o que viria depois. Nesse intervalo – no qual se transformaram em memória Los Gatos, Manal e Los Abuelos de La Nada – reapareceu Pappo (o Raul Seixas argentino?) e fundou o Riff, grupo precursor do heavy metal sul-americano. Em paralelo, no Brasil, os grandes sucessos era Ney Matogrosso e principalmente Rita Lee (com “Lança Perfume” e “Baila Comigo”), enquanto Roberto Carlos, Caetano, Maria Bethânia, Milton Nascimento, Chico Buarque, Gal Costa e Gilberto Gil começaram a caminhar para se converter nas lendas que hoje são.

Na Argentina, o tempo mostrou que, no governo, os militares não eram melhores que Isabelita e seu bruxo. A economia, mais uma vez, empobreceu a sempre orgulhosa classe média. O período chamado de “deme dos”, ou seja, “me dá dois” (porque o dólar barato permitia viajar a Miami e comprar dois televisores, dois videocassetes, dois de tudo o que fosse) tinha acabado e isso incomodava o povo. José Martínez de Hoz, ministro da economia, tinha caído em desgraça e os militares precisavam inventar algo, porque a euforia da Copa do Mundo de 1978 já pertencia ao passado. Era necessária outra anestesia... não se sabia muito, mas se suspeitava de tudo. Inventou-se a Guerra das Malvinas. Seu final, de trágica derrota, reavivou as cinzas do rock.