Uma Mente Brilhante (e Vazia)

Will Ferrell, o cara mais legal de Hollywood, nos leva a um passeio sem nenhuma ansiedade

Erik Hedegaard | Tradução: Ana Ban Publicado em 11/05/2012, às 17h56 - Atualizado em 18/05/2012, às 13h13

EM FUGA Ferrell captura a atenção de um jovem fã em Nova Orleans

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Ontem à noite, bem na hora em que estava indo dormir, Will Ferrell começou a se preocupar com fantasmas. Tipo: e se agora mesmo um fantasma entrasse flutuando na sala e dissesse “oi”? O que ele deveria responder? E se fosse uma alma hostil? Ficar lá deitado paradinho? Mover-se? Ele estava em uma casa alugada em Nova Orleans. Imediatamente começou a planejar a rota de fuga, mas caiu no sono no meio do raciocínio. Daí, às 5h50, ele acordou, sem nenhum problema ou perturbação devida a qualquer mal-estar ou espírito do mal. Aliás, ele não tinha um único pensamento sequer na cabeça. Seria de se pensar que devia haver 1 milhão de ideias pululando lá dentro. Por exemplo: ele poderia estar refletindo sobre o filme que está fazendo, uma comédia política chamada The Campaign (ainda sem título em português). Ou sobre qualquer um de seus outros empreendimentos: o programa de TV Eastbound & Down, que ele supervisiona; o bem-sucedido site de humor que ele ajudou a fundar, Funny or Die; ou o novo filme, Casa de Mi Padre, uma sátira de novela mexicana, engraçadíssima, feita em espanhol. Não, não é nada disso. “Que nada, não acho que houvesse qualquer coisa”, Farrell diz e parece até um pouco surpreso. E não questiona. É apenas parte de um processo que o permite seguir em frente sem preocupação, sem medo, sem inquietação por causa dos fantasmas da noite anterior. “Eu simplesmente tomo uma decisão e mando ver. Me sinto bem com isso”, ele diz.

Só no site: personagens marcantes de Will Ferrell.

Lá vem ele agora, caminhando pela rua, inclinado para frente, um homem grande com cabeça grande, vestindo terno, sem gravata. Ele para na frente de um restaurante chamado La Petite Grocery. Diz ter ouvido falar que as margaritas aqui são excelentes. Ele entra, é acomodado em uma mesa, não tira o paletó, senta-se ereto, pede a bebida, toma, pede água gelada, pede uma salada, pede o peixe e diz, pensativo: “Não sei dizer onde tive a ideia para Casa de Mi Padre, e não sei dizer quando foi, mas uma lâmpada se acendeu e me colocou em um filme em espanhol com elenco todo latino, e eu mesmo no papel de um tipo de ator latino, sendo que a piada não é o fato de eu falar mal espanhol, mas sim que seria hilário. Acho que eu fiz isso especificamente para suscitar a questão: ‘Por que você fez isso?’ Foi uma das coisas mais malucas que já fiz.” E a bunda dele, que ganhou fama no filme Dias Incríveis? Ela aparece neste filme? Ele assente com vigor. “Eu mostrei a bunda toda em Dias Incríveis, mas esta é a aparição mais longa.” Maquiagem? “Sim, alguém teve a tarefa maravilhosa ou pavorosa de aplicar maquiagem na minha bunda.” Ele prossegue: “Esse tipo de coisa não é nada demais para mim. Na faculdade, tinha um negócio em que a gente saía correndo pelado pela rua das fraternidades e, se alguém me desafiasse, eu ficava bem feliz de fazer.”

É mais ou menos nesse momento que fica claro que Ferrell, 44 anos, não vai ser o tipo de sujeito malucão que você poderia pensar que ele é. Ele não faz careta, não faz discursos apocalípticos, não começa a falar com a voz de George W. Bush de repente, não tira a roupa e sai correndo e não dá nenhuma indicação de que seja ao menos um pouco parecido com seus personagens cinematográficos mais famosos (Ron Burgundy, Frank the Tank, Ricky Bobby etc.) ou com alguém de seus anos no Saturday Night Live. Em todos os aspectos possíveis, ele passa as várias horas seguintes se comportando de acordo com todos os padrões de comportamento aceitáveis, principalmente porque ele é assim. “Bom, é”, ele diz e leva um pedaço de alface com o garfo à boca. “Quando falo com fãs, eu digo: ‘E aí, tudo bem com você?’. E eles literalmente ficam, tipo: ‘Faça alguma coisa! Tem certeza de que é ele? Ele não está fazendo nada!’ É, acho que ficam terrivelmente nada impressionados.”

Isso sem mencionar decepcionados e até um pouco furiosos. Will é um sujeito ótimo, sem dúvida. Todo mundo diz que sim. “Ele tem um dos egos mais estranhamente saudáveis entre todas as pessoas que você vai conhecer na vida”, diz o parceiro de produções cinematográficas dele, Adam McKay. Sem entrar em muitos detalhes, ele é adorado. “Tem algo em Will que é tão completamente americano”, diz Tina Fey, ex-colega de SNL. “Uma versão alta e branca dos Estados Unidos que se costumava ver nos filmes e na TV da década de 70. É como se ele fosse um Jon, de CHIPs, superengraçado. É o [personagem da série M*A*S*H] Trapper John da comédia. Se eu continuar com a descrição, vou me apaixonar por ele.”

E o que faz de Will um símbolo norte-americano tão perfeito é a maneira como os personagens que ele representa são parecidos com os Estados Unidos: são arrogantes, machões e alheios à própria imbecilidade. E, no entanto, aqueles que o conhecem bem dizem que as comparações devem parar por aí porque não existe nele nenhum lado obscuro real, nenhum fardo, nenhuma tristeza como as que atormentam o resto de nós. “Normal” é a palavra comumente usada pra descrevê-lo. E é o que parece enquanto ele está ali sentado, todo agradável e cortês. Mas, bom, Will é um sujeito que vai dormir preocupado com fantasmas e acorda sem nenhum pensamento na cabeça – e será que isso é normal?


Ele foi criado no subúrbio branco californiano 500 e assim, um dia, no mercadinho do bairro, ele enfiou no bolso um maço extra dessas notas. Mas foi só isso. “Eu nunca tinha furtado nada antes”, ele diz com ar solene, “e nunca voltei a fazê-lo.” Na escola, Will não sofreu por falta de popularidade. “No primeiro ano, aprendi a abrir a porta e fazer com que batesse embaixo do pé e depois jogar a cabeça para trás como se tivesse acertado na sua cara, e comecei a fazer isso, e as outras crianças davam risada. A coisa se transformou em uma maneira nova de fazer amigos. Também foi um jeito fácil de conversar com as meninas, de chegar lá e ser engraçado. Também nunca me incomodaram muito. Eu era grande para a minha idade e bem atlético.”

Na verdade, era mais do que bem atlético. Ele jogava futebol americano no time da escola, e era o capitão do time de basquete. Durante todo o ensino médio, ele continuou fazendo os colegas darem risada – usava pijama para ir à aula, falava besteira pelo sistema de alto-falante da escola – e, no último ano, foi eleito “Melhor Personalidade”. Na Universidade do Sul da Califórnia, podia ser visto vestido como o pessoal da manutenção, interrompendo aulas para divertir os amigos. E, é claro, como integrante da fraternidade Delta Tau Delta, ele adorava tirar a roupa e sair correndo pelado. Quando se formou com um diploma em esporte, voltou para a casa da mãe, já que percebeu não gostar de esportes. Então, sem compromisso, fez um curso de improvisação teatral e resolveu seguir nessa direção. “Um dia, eu disse ao meu pai: ‘Estou pensando em tentar a sorte nesta coisa da comédia, o que me aconselha?’ Ele respondeu: ‘Se não fosse baseado em sorte, eu não me preocuparia, porque você tem talento. Apenas saiba que é preciso ter sorte e que se, no fim, você resolver fazer alguma outra coisa, não trate a questão como fracasso. Apenas saiba que é um em um milhão’. Essas palavras tiraram toda a pressão de cima de mim, e eu simplesmente tratei a coisa como se fosse um jogo.”

Em 1991, Will se mudou para Los Angeles e batalhou. “Eu me lembro de ir a um estudo de cena e me falarem: ‘Sinto muito, não estou tentando ser maldoso, mas você não é bom’.” Incansável, ele fez teste para os Groundlings, trupe de comédia de improviso, foi aceito, foi subindo os degraus e, em um ano e meio, estava no SNL, onde se transformou em sucesso tanto junto ao público quanto com os redatores do show. Diferentemente de outros nomes do programa, ele fazia até os menores dos papéis. Se os redatores apresentavam 40 segmentos, Ferrell estaria incluído em 30 deles. Ficou sete anos no elenco. Em 1998, estrelou o primeiro filme, Os Estragos de Sábado à Noite, e foi um fiasco. Parecia que a onda de vitórias tinha chegado ao fim. Mas daí, em 2003, teve a segunda chance e participou de dois sucessos seguidos: primeiro, Dias Incríveis, depois, Um Duende em Nova York, que foram seguidos por mais dois hits, O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy e Ricky Bobby – À Toda Velocidade. Pelo caminho, ele e Adam McKay desenvolveram o personagem arquetípico perfeito para Ferrell. Por um lado, um sujeito todo “cheio de si, com aquela atitude de ‘nós somos os melhores’, mas com falhas terríveis”, define Ferrell. Por outro lado, é capaz de fazer as coisas mais absurdas com a expressão mais séria – “por exemplo, quando ele fez Ron Burgundy”, McKay diz, “e conta a Christina Applegate que São Diego significa ‘vagina de baleia’, não tirando sarro, mas falando sério, daí você se dá conta da loucura que ele falou. Esse é o tipo preferido de risada dele.” Foi esse tipo de risada que transformou Will em um sucesso entre rappers. “Ele é muito mencionado em raps porque fala sobre como a cultura branca é cheia de auto importância e de falta de suingue”, diz McKay. “A todo lugar que vamos, sempre que tem público negro, as pessoas ficam loucas por ele.”

E então Will avança, com apenas alguns vacilos pelo caminho, como o chato A Feiticeira, de 2005. Mas até o maior fracasso dele – o desastroso O Elo Perdido, de 2009 – não o desanima. Em menos de um ano o sucesso já estava de volta, em Os Outros Caras, uma sátira de filmes policiais que rendeu US$ 170 milhões. A atitude de Ferrell sempre foi essa: se este não deu certo, o próximo vai dar com certeza. Como o produtor Lorne Michaels lhe disse: “Você e Steve Martin são eternos otimistas – foram criados no sul da Califórnia, onde sempre faz sol.”

E lá está ele, curtindo sua margarita, enquanto Viveca, a esposa sueca, está em casa, em Los Angeles, cuidando dos filhos do casal (de 7, 5 e 2 anos, loiros de olhos azuis). Se está chovendo em algum lugar no mundo, não saberemos por Will. Mas basta passar algum tempo com ele para que algumas esquisitices venham à tona.


Para começar, Will só transou pela primeira vez aos 21 anos, quando estava no 3º ano da faculdade. De acordo com ele, não foi nada de mais: “Para mim, parecia que foi como tinha de acontecer”. E talvez seja mesmo. Ou talvez seja apenas o modo como as coisas se passam na cabeça dele, outro subproduto fortuito de uma disposição sempre alegre. A mãe dele pensava que aquilo tinha acontecido anos antes, quando ele estava no último ano da escola – ela concluiu que Will tinha ido para a cama com uma colega bastante oferecida: “‘Vou dizer uma coisa para você’, a mãe lhe falou. ‘Se você foi para a cama com esta menina, é melhor meter uma camisinha nesse seu pinto’”. Ferrell dá risada enquanto conta a história. Parece que a mãe dele falava exatamente assim. E ele também é estranho em relação ao guarda-roupa. “Eu faço um revezamento com minhas roupas, de modo que tudo é vestido igualmente. Isso às vezes pode significar camisa preta com short laranja e sapato vermelho, e eu estou cagando para isso, mas a minha mulher fica, tipo: ‘É sério?’.”

E ele realmente tem a atriz Joan Rivers como inimiga. “Em uma revista, ela disse: ‘A gente precisa ter cuidado ao conhecer os ídolos, porque eu conheci aquele Will Ferrell e ele é um cuzão’. Foi daí que veio aquele papo: no Globo de Ouro, um produtor me disse para ir dar um “oi” para Joan enquanto ela conversava com Mike Nichols e Diane Sawyer. Então eu fui, e Joan ficou, tipo: ‘Dá licença, mas você sabe quem está interrompendo?’; e eu respondi, tipo: ‘Sei, são pessoas muito importantes’. Ela achou que eu me portei feito um idiota.” Ele dá de ombros. É assim que as coisas andam quando ele entra de cabeça. Mas, na maior parte do tempo, é um passeio tão sem percalços que chega a enjoar. Não teve nenhuma alguma doença infantil grave? “Não, eu tive bastante sorte.” Vamos lá, falando sério, nenhum tipo de crise adolescente, momentos de autodepreciação? “De jeito nenhum.” Mas e remédio? Toma algum? “Uso óleo de peixe e 81 mg de aspirina todo dia.” Ele sorri. “Oitenta e um. A ciência demonstrou que só 80 não era eficiente.”

Certo. E animais que detesta? (Longa pausa) Finalmente: “Não sei se adoro chihuahuas”. É um fraseado bem cuidadoso, planejado com cuidado para suavizar o golpe de sua opinião. E isso é a cara dele. Ele é Will Ferrell. Ele teve muita sorte. Por que ele deveria dificultar as coisas para você, só porque por acaso você é dono de um chihuahua?