VIDAPOP - O Novo Rock?

Enquanto o rock brasileiro parece dormir, o rap nacional segue evoluindo sem parar

Miguel Sokol Publicado em 11/05/2012, às 17h20

VOZ DO BRASIL Criolo e o rap dominam
JORGE BISPO/DIVULGAÇÃO

Abaixo há dois trechos de letra de música, um rap e um rock, ambos brasileiros, para você adivinhar qual é qual. Preparado?

1 - “Eu mudei por você. Mas não quis sofrer. Por ser tão real pra mim, vou. Aprendo a viver. E num segundo perder. O medo de ser quem eu sou.”

2 - “Jesus perdoou demais, morreu. Lampião confiou demais, morreu. Sou tipo um general que lidera uma tropa vinda do breu. Não confio, nem perdoo, por isso mandaram eu!” Resposta correta: a letra inteligente é a do rap.

Não é à toa que, representado principalmente por Emicida e Criolo, o rap foi o grande destaque da música brasileira no ano passado: as nossas novas bandas de rock são de uma mesmice inacreditável. Quando não são indies tatuados que se escondem atrás de pedais de guitarra cantando em inglês (para se esconder mais ainda), são entusiastas da “cornice” rimada no infinitivo, sem originalidade nem para se batizar. De duas uma: ou as bandas usam números e letras no nome – como CPM 22, NX Zero, CW7 e Hevo84 – ou a inspiração vem do computador – e aí dá-lhe Caps Lock, In Box e Restart... Dois sacos da mesma farinha.

Essa falta de criatividade que começa pelo nome poderia ser facilmente estendida até a gringa, a moda por lá agora é o “the” no meio, estrelando Cage the Elephant, We the Kings, Young the Giant. Mas esqueçamos a gringa, até porque o marasmo já é bem grande por aqui, onde o rap assumiu o lugar do rock, que assumiu o lugar do sertanejo radiofônico, que foi para Portugal de navio. Sim, é isso mesmo: o rap é o novo rock! Lembra que as bandas brasileiras de rock eram originais, divertidas, inovadoras, contestadoras e sedutoras? Bem, talvez você não se lembre, afinal, muito ironicamente, Titãs, Barão Vermelho, Kid Abelha, Paralamas e Legião Urbana completaram – ou estão completando – três décadas neste ano.

Fato é que inovação, originalidade, diversão e contestação agora são atributos do rap. O gênero saiu das quebradas, ganhou jogo de cintura, bom humor e simpatia e faturou até as premiações, mas sem perder a dignidade ou fazer concessões, vide o primeiro Lollapalooza Brasil. Quem encerrou o festival? Arctic Monkeys? No folheto da programação, sim. Na prática, não! O evento foi todo pontual, cronometradinho, mas o Racionais MC’s subiu ao palco mais de meia hora atrasado. E desceu dele 12 minutos depois de a banda do Alex Turner ter se despedido. Como se não fosse o suficiente, os rappers foram os únicos que não liberaram a transmissão do show pela televisão – simplesmente porque não! O que pode ser mais rock and roll do que isso?