Pulse

Especial Hollywood - Homem de visão

Como um dos últimos artesãos do cinema moderno, Ridley Scott continua a fazer somente os filmes que tem vontade e do jeito que bem entende

Pablo Miyazawa Publicado em 19/06/2012, às 11h30 - Atualizado às 11h31

CONDUÇÃO Prometheus, a nave que dá nome ao filme.

Ver Galeria
(2 imagens)

Responsável por alguns dos longas-metragens mais icônicos dos últimos 35 anos – Blade Runner: O Caçador de Androides, Gladiador, Thelma & Louise, Falcão Negro em Perigo, e a lista segue –, o cineasta britânico Ridley Scott jamais dirigiu uma continuação. Prometheus (estreia em 15 de junho), baseado no universo da franquia Alien, talvez seja o mais próximo disso. Apesar de uma notável abordagem de cunho filosófico, o filme remonta à ambientação sufocante e à imprevisibilidade ansiosa de thrillers espaciais aos moldes de Alien, O Oitavo Passageiro (1979) – até hoje, aliás, considerada a grande obra-prima de Scott. Prometheus conta a saga de uma equipe de exploradores que embarca em uma longa jornada na busca por respostas sobre as origens extraterrestres da humanidade. É Ridley Scott até a medula – a precisão de detalhes, as imagens exuberantes, o clima pessimista, a sensação de que uma tragédia é iminente. Prestes a completar 75 anos, o diretor ainda tem munição para mais um projeto polêmico: uma investida na franquia Blade Runner. “Será em um universo diferente, mas ainda sob a bandeira Blade Runner”, revela.

Como descrever Prometheus para alguém que jamais assistiu a um de seus filmes?

Oh, meu Deus. Bem, acho que há perguntas constantes que todos fazem. “Como surgimos, como fomos criados, existe um deus ou seres superiores?” É isso. E daí evolui para outras questões que vão se desenrolando.

Mas é preciso ser fã da franquia Alien para absorver Prometheus por completo? Você recomenda que se veja o filme de 1979 antes?

Não. Ele é completamente independente. Digo, não se pode confiar no fato de alguém já tê-lo assistido. É impossível contar com isso, então tinha de ser algo independente. Mas ele evolui. A conexão existe. Se você nunca viu Alien, tudo vai lhe parecer novinho em folha. Se você o assistiu, então as coisas começam a se encaixar lá pelos 12 minutos finais.

Tecnicamente falando, quais foram os principais desafios deste filme?

Na verdade, não houve muita coisa. Você acaba ficando experiente, se tornando bom naquilo. Acho que o principal desafio foi aquele que é sempre o mais difícil nesse caso: o roteiro. É a coisa mais complicada de dominar, capturar, definir. Depois que se consegue colocar tudo no filme, o restante se desenvolve facilmente.

A tecnologia evolui tão rápido que é impossível não pensar como as coisas que antigamente eram difíceis de se realizar são hoje tão simples...

Esse é o perigo.

O perigo?

O perigo de se poder fazer qualquer coisa sem nem ao menos ter uma boa história para sustentar. Isso acontece muito em filmes – são apoiados por bons efeitos especiais, mas não têm história nenhuma.

Após tantos anos explorando esse segmento, e apesar de já ter feito todo tipo de filme, o que ainda o fascina sobre a ficção científica?

Bem, tudo ainda depende de um bom roteiro, de uma boa ideia, de uma grande história. Mas acho que é o fato de que, na ficção cientifica, vale tudo. Dito isso, é preciso tomar cuidado, porque você pode acabar fazendo bobagem. E pelo fato de valer tudo, e atualmente a evolução ser tão veloz, hoje estamos limitados apenas pelo o que sabemos. E essa limitação muda diariamente – aliás, o que a gente sabe muda diariamente. A explosão de informações se acelera no exato momento em que conversamos [risos].


O roteiro de Prometheus foi mantido em segredo para evitar vazamentos. Quando você fez Alien, esse tipo de questão não era problema, ou nem existia. Como você compara filmar antes e hoje, especialmente longas que se baseiam tanto em segredos e detalhes?

Na verdade, é tudo muito simples. Atualmente, as pessoas precisam assinar um documento antes de começar a produção de um filme, para manter a discrição. Além disso, ninguém pode usar celulares nos sets de filmagem, qualquer um com uma câmera (e que não deveria estar lá) é interrogado e colocado para fora, tem seguranças nas portas... Não é grande coisa. E no caso do Alien original, ninguém sabia pra valer o que eu estava fazendo. Ninguém se importava. Foi só depois que o filme saiu que as pessoas começaram a prestar atenção.

A internet complica quando se quer guardar segredos, mas, por outro lado, não poderia facilitar a vida do cineasta? Acha que o falatório online ajuda a fazer um filme melhor?

Bom, não acho que faz um filme melhor. Não tem nada a ver com isso. Acho que [a internet] faz a informação ser divulgada de um jeito melhor e mais rápido, mas às vezes você não quer divulgar muita informação tão antecipadamente. A questão é como controlar – e é algo difícil, é preciso tomar cuidado. Porque atualmente parece não haver códigos de condutas ou padrões – pode-se falar o que quiser no jornalismo de internet, mesmo quando é algo impreciso. Tivemos recentemente isso na Inglaterra, nos julgamentos das grandes corporações que grampearam telefones. Esse abuso de não ter a informação correta e de divulgar coisas sem qualquer forma de retribuição me parece algo ridículo.

É ruim saber o que pensam ou esperam sobre seus projetos? Como lidar com a pressão? Ou não há pressão, porque você simplesmente está lá fazendo suas coisas e não se importa?

Eu faço minhas coisas [risos]. Eu tenho de fazer meu trabalho. Porque, no fim das contas, a única coisa com a qual se deve se importar é com o que você mesmo achou do projeto. Se estou feliz com o que fiz, acho que preciso me lembrar disso. E seguir em frente.

Há um declínio no interesse pelo espaço. Os investimentos são menores, a NASA está em baixa e os filmes do gênero são raros. A situação afeta o modo como os cineastas trabalham? Ou a ideia geral – aliens, naves – jamais mudará no imaginário popular?

Ah, essas são coisas que sempre estarão por aí. Acho que, porque somos genuinamente curiosos, queremos muito crer que não estamos sozinhos. Precisamos acreditar que não estamos sós, que há alguma coisa lá. Eu acho que o movimento geral nos anos recentes, dez, 15 anos, tem sido para aceitar o fato de que não somos os únicos. Pensar que somos a única forma de vida nesta galáxia é uma bobagem. Tem de haver. Tem de existir algo mais.

É difícil acreditar nesse tipo de coisa?

Acho que é tudo completamente lógico, de verdade. Pode ser que a gente nunca chegue a eles, pode ser que a gente nunca os veja, mas a única coisa que nos limita é onde estamos agora. Eu já conversei com cientistas sobre a ideia da relatividade – ou seja, velocidade da luz, tempo e distância. E eles me disseram: “É tudo possível, é tudo factual e matemático”. Eles nunca dizem “não”. Mas podemos alcançar isso? Essa é outra questão. E, novamente, somos limitados pelo que sabemos no momento.

Era seu sonho de criança trabalhar com filmes sobre o espaço? Quais eram as inspirações antes de começar essa carreira?

Quando era adolescente, jamais havia pensado que dirigiria um filme. Acho que eu até era obcecado por cinema como muitas crianças são, mas a cota do que eu podia assistir na época estava limitada ao que era exibido na sala local – apenas filmes grandes e populares de Hollywood, nada de filmes alternativos. Foi só quando fui para Londres que enfim pude apreciar todo tipo de cinema.

Seu primeiro filme, Os Duelistas, foi feito quando você já tinha quase 40 anos.

Eu tinha 39 quando fiz e 40 quando foi lançado.

Olhando agora, acha que foi uma boa idade para começar? Qual o momento em que se sentiu confiante em sua visão de diretor?

Eu já era um diretor de comerciais bem-sucedido aos 26 anos. Isso me fez viajar pelo mundo, eu estava sempre em Nova York, tinha um escritório em Londres... Na época em que fiz Os Duelistas, eu já era um homem de negócios. Francamente, a maturidade que havia alcançado filmando publicidade naquela idade ajudou muito. E eu já tinha feito TV ao vivo, dirigido programas. É por isso que fazer o filme foi uma experiência tão fácil e agradável. Eu já estava ligado em como as coisas funcionavam, tinha uma espécie de intuição para o negócio. Nada parecia muito novo. Era como se eu já estivesse pronto.