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Feridas Curadas pela Música

Mais recente edição do Jazz & Heritage Festival juntou superstars e mostrou a recuperação de Nova Orleans

Paulo Cavalcanti Publicado em 19/06/2012, às 17h14 - Atualizado às 17h14

ROCK, COUNTRY E JAZZ O onipresente Trombone Shorty;

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Tem alguém hoje que estava aqui em 2006? Nova Orleans está cheia de fantasmas. Eles são o suficiente para assustar o resto da nação.” Depois de dizer isso, Bruce Springsteen e a E Street Band atacaram com uma poderosa versão para “My City of Ruins”, que o músico originalmente escreveu para Astbury Park, em Nova Jersey, mas que poderia se aplicar à cidade onde se apresentava. Foi um momento de intensa emoção em um domingo de sol forte, que castigou as 65 mil pessoas presentes no Fair Grounds Race Course, na 42a edição do New Orleans Jazz & Heritage Festival.

O festival, um dos mais tradicionais dos Estados Unidos, tornou-se um dos focos de resistência e de reconstrução da cidade depois que o furacão Katrina devastou Nova Orleans em Agosto de 2005. Em 2012, o evento ocorreu em dois finais de semana, do final de abril ao começo de maio, e teve nomes como Bruce Springsteen, The Eagles, Tom Petty & The Heartbreakers, The Beach Boys, Foo Fighters, My Morning Jacket, Al Green e muitos outros. Segundo a organização, mais de 450 mil pessoas passaram pelo festival. O Heritage já conseguiu ultrapassar o tradicional carnaval local, o Mardi Grass, que ocorre em fevereiro, como o principal evento de Nova Orleans.

À frente da organização do Heritage está o veterano produtor Quint Davis: “Este ano marcou uma virada para a gente. Foram dois finais de semana incríveis, com tempo excelente e a presença de muita gente de toda parte dos Estados Unidos e do resto do mundo. Todos estavam lá para presenciar o que a cidade tem de melhor: a música, a culinária e a hospitalidade”. E segue: “O negócio voltou a prosperar. Eu me lembro das ruas destruídas, dos carros empilhados, todo aquele caos e sofrimento. Agora os hotéis estão novamente lotados, as pessoas estão circulando como nunca pelo French Quarter [o local onde se concentram as casas noturnas de música], já foram abertos mais de 200 novos restaurantes desde 2005. Agora chamamos a cidade de ‘Nova’ Nova Orleans”.

Davis sabe que a participação de nomes de peso é primordial para o êxito do festival. “Foi muito importante ter o Bruce Springsteen de novo”, conta. “Ele esteve conosco em 2006, quando tivemos a primeira edição pós-Katrina, quando, acima de tudo, era preciso recuperar o moral. Este ano nós também conseguimos trazer o Eagles – há 15 anos estávamos negociando para tê-los aqui. E ainda tivemos os Beach Boys comemorando seus 50 anos. São bandas e artistas que representam o melhor da cultura dos Estados Unidos. Mas eles são convidados especiais: muito do público comparece para assistir às bandas de rock e acaba conhecendo os filhos musicais de Nova Orleans, que estão nos palcos dedicados ao jazz, cajun, blues, gospel, zydeco e todas as manifestações musicais da Louisiana.”

Nomes importantes da música local – como o veterano Dr. John e o novato Troy “Trombone Shorty” Andrews – foram “arroz de festa” e, além de shows individuais, marcaram presença em apresentações de outros artistas. Shorty, por exemplo, tocou com Galactic, Dave Koz, Preservation Hall e outros. A imagem dele também ilustrou um dos pôsteres do Heritage. O trombonista afirma que isso não passa de lição de casa. “Em Nova Orleans, existe união e integração”, conta. “Hoje temos também [a série] Tremé sendo exibida no mundo todo divulgando nossa cultura. É como estar de novo no centro de tudo.”