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Entrevista: James Hetfield

Prestes a estrear um festival próprio e com um filme 3D em produção, o Metallica não pensa em parar

David Fricke/ Tradução: Ana Ban Publicado em 15/06/2012, às 11h41 - Atualizado às 11h49

James Hetfield
Peter Yang

É uma ocasião histórica. Em uma tarde, em um estúdio em São Francisco, o Metallica está ensaiando. O repertório, pela primeira vez, é a íntegra do maior álbum da banda, Metallica (de 1991, mais conhecido como “Álbum Preto”). O quarteto toca as músicas em sequência, mas de trás para a frente: começando pelo final, a mal-humorada “The Struggle Within”, e finalizando com a abertura, a exuberante “Enter Sandman”.

“Não está escrito em lugar nenhum que, se você toca um álbum na íntegra, tem que ser na ordem certa”, argumenta o baterista Lars Ulrich. Ele, o vocalista-guitarrista James Hetfield, o guitarrista Kirk Hammett e o baixista Robert Trujillo irão apresentar o “Álbum Preto” no festival particular do Metallica, o Orion Music + More, que acontece em 23 e 24 de junho em Atlantic City (Nova Jersey). No evento, a banda também irá revisitar o clássico Ride the Lightning, de 1984 – outro feito inédito.

Esta, aliás, será uma fase cheia de primeiras vezes na carreira do Metallica. Uma sequência de oito shows no México apresentará um palco novo e extravagante que compõe o filme 3D que a banda está desenvolvendo com o cineasta Nimród Antal. E, com o Orion, o Metallica entra para valer no movimentado mercado dos festivais musicais. Todos na banda tiveram influência sobre a programação. Ulrich programou uma mostra de cinema, enquanto Hammett será o anfitrião da Kirk’s Crypt, dedicada a objetos relacionados a filmes de terror. “Faça um festival, faça um filme – tudo é bacana demais”, diz Ulrich. “A variedade é o tempero da vida.”

Leia abaixo entrevista com James Hetfield:

Quando o Metallica tocou as músicas antigas nos shows de comemoração aos 30 anos da banda, em dezembro passado, você chegou a reconhecer-se mais novo e mais cheio de raiva naquelas letras? Hoje você é um homem diferente do que era quando compôs “Of Wolf and Man”.

Ou “Dyers Eve”, que é desprezo puro. [Faz uma pausa] Olho para as imagens antigas e vejo uma pessoa feliz – sorrindo, brincando, falando grosserias na hora errada, meio insuportável, mas feliz. Mas, atrás de portas fechadas, havia uma pessoa solitária, feia, cheia de ódio. Agradeço a Deus por aquelas músicas. Há uma parte romântica daquele tempo de que eu sinto falta. Eu olho para aquelas fotos e quero ser aquilo de novo. Daí, olho para a minha relação com a banda, com os meus amigos e, principalmente, com a minha família, e penso: “Eu não teria nada disso se fosse aquela pessoa”.

Como você escreve letras raivosas, agora que toda aquela raiva ficou para trás?

Pergunte para a minha mulher por que eu fico puto e tenho vontade de arrebentar o carro. Tudo continua ali. Eu preferia que não continuasse. Mas por que fugir? Basta compreender. Tirar proveito. Quando eu me sinto assim, pego caneta e papel. Pego a guitarra. Começo a trabalhar. Porque não foi embora. Minha família preferia que tivesse ido. Mas não foi.

Leia entrevista com Lars Ulrich.

Você tem técnicas mentais ou emocionais para cuidar disso?

Obviamente, as reuniões dos 12 passos. Meditação. Oração. Tudo isso me ajuda a saber que as coisas que eu sinto vêm de algum lugar e por algum motivo. Tenho de compreender meu ciclo: sentir insegurança, usar minha raiva para provar quem eu sou e conseguir o que eu quero, depois ficar deprimido. E daí retornar à insegurança. É um ciclo, bem parecido com beber. A história me diz que isso não vai durar para sempre. Mas, quando estou assim, fico assim.

Como estão as composições para o novo álbum?

Eu tenho apenas 846 riffs.

Esse número é para valer?

Pelo iTunes dá para ver quantos se tem. E isso não inclui coisas que inventamos em passagens de som ou aqui no estúdio. Você liga um amplificador. De repente, inventa um riff. “Cara, você ouviu isso?” Não dá para fugir de ser gravado aqui. Mas Lars, o tesoureiro do Metallica, tem obsessão por analisar cada pedra, não deixar uma sobre a outra: “Isso aqui pode ficar ótimo!” É, pode mesmo. Mas já tenho uma ideia nova. Essa é a cilada. Tem um riff fantástico que escrevi há cinco anos. Mas será que ele ainda funciona? Não se preocupe, algo melhor vai aparecer.

Será que há muitas distrações – turnê, festival, filme – que o afastam da missão primordial de...

...Escrever canções? Com certeza. Nesta semana, tenho entrevistas, sessões de fotos, gravação de vídeos. Eu adoraria sentar e compor um álbum sem ter que pensar nas outras coisas.

O que você acha dos filmes em 3D? Eu fico preocupado quando escuto essa palavra.

Você pensa na Pixar. Você pensa em algo artificial. A nossa intenção é fazer algo insano, que vai deixar as pessoas fora de si. Eu também quero que tenha enredo. Quero que este seja um filme tipo cult. É meio bobo ficar falando em profundidade quando eu ainda nem sei no que isso vai dar.

De quem foi a ideia?

Do [coempresário do Metallica] Peter Mensch. Veio da ideia de capturar as melhores coisas das turnês passadas. Muita gente não viu a cena da destruição [da turnê... And Justice for All], nem o Snakepit [na turnê Metallica]. Colocar tudo isso em um best of. E então, por que não filmar em 3D?

Vocês têm orçamento?

Temos. É surreal. Basicamente, é tudo que economizamos na vida. Mas não sabemos o que diabos estamos fazendo. Mas sabemos que queremos tentar.

Fico surpreso que queiram fazer outro filme depois do documentário Some Kind of Monster...

Talvez outro de nós vá para a reabilitação desta vez [risos]. “Rehab” – em 3D!