Ainda Louco

Charlie Sheen pode ter deixado o “tiger blood” e voltado à TV, mas não está totalmente abstêmio. Uma semana intensa com o último selvagem de Hollywood

Erik Hedegaard | Tradução: Ligia Fonseca Publicado em 05/07/2012, às 12h14 - Atualizado em 18/07/2012, às 19h56

Charlie Sheen

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Charlie Sheen é capaz de se meter em mais encrencas do que qualquer outra pessoa. No último ano, ele... bom, com certeza você já sabe de tudo: as vociferações contra o ex-chefe, Chuck Lorre, criador de Two and a Half Men (“aquele sociopata maluco barato”), o desfile das mulheres que moravam com ele (uma estrela pornô e uma ex-babá), a retirada de seus filhos de casa, ordenada pelo tribunal, seu vocabulário lunático (“feiticeiros assassinos do Vaticano”, “tiger blood”, “winning!”, “quebrando pedras de 7 gramas”), o processo de US$ 100 milhões por violação de contrato contra a Warner Bros. e Lorre (cuja série lhe rendeu US$ 25 milhões, com mais por vir), a turnê My Violent Torpedo of Truth/ Defeat Is Not an Option (ou Meu Violento Torpedo da Verdade/ A Derrota não é uma Opção, que, aliás, provou ser o contrário – era um tanto ruim), e por aí vai. Em junho do ano passado, ele finalmente se esgotou e ficou quieto, aparecendo apenas para fazer algum comentário sobre Two and a Half Men e saindo de um show do Guns N’ Roses parecendo bêbado, para não dizer acabado. Em outras palavras, recentemente vem sendo um bom garoto.

Galeria: as fases de Charlie Sheen.

Só que, esta noite, neste exato momento, Sheen está contemplando problemas mais uma vez. Ele está em uma churrascaria da moda em Hollywood chamada Boa, comendo com gosto seu tartare de atum tostado. Uma garota de 20 e poucos anos se aproxima. Diz que seu nome é Erica e que acabou de ser rejeitada em um teste para o papel de filha de 15 anos dele em Anger Management, novo seriado de Sheen no canal FX. Ela faz bico. Cabelo escuro, saia curta, blusa muito justa. Vira um pouco de lado, exibindo o perfil. “Falaram: ‘Você foi perfeita, mas seu corpo não é o de uma garota de 15 anos’.”

Crítica: Charlie Sheen leva sua imagem para a reabilitação em Anger Management.

Sheen, de 46 anos, inclina-se, enxuga os lábios com o guardanapo e diz: “Bom, não sou especialista em fisiologia, mas tenho de concordar com eles”.

Então, do nada, o jogo começa. Logo, eles estarão perambulando no pátio externo, fumando. Ele pergunta: “Você é casada, noiva? Como não nos conhecemos antes? Como vamos fazer para que esta não seja a última vez em que nos vemos?” Então, grava o telefone dela no celular. É bem espetacular como acontece. Os olhos dele estão vivos e brilhantes. Ele é determinado sem ser agressivo. A aspereza de sua voz o faz parecer um brigão de bar, mas sua energia é tranquila, calorosa, amistosa, divertida. Há como não gostar?

Vídeo: assista ao making of da sessão de fotos com Charlie Sheen.

“É uma das garotas mais lindas que vi em muito tempo – de chorar de linda”, diz, transbordando de emoção poética. “Alguém como ela só deveria existir aos domingos. Você viu as toneladas de fofura empilhadas sobre a beleza dela? Cara, tenho de sair mais. Aquilo foi sexy pra caramba.” Relaxando, ele continua: “As pessoas acham que uma garota chega e eu fico: ‘Tá, que seja’. Não. Sou como um pirralho de 9 anos sentado com o amigo, dizendo ‘Deus do céu!’”, ele afirma. “Este é o Charlie Sheen que ninguém conhece. Não sou um maldito esquisito. Não crio caos, confusão, desordem. Quer dizer, fiz isso por um tempo, mas nunca foi parte do plano. Só estava tentando manter as coisas de pé enquanto elas desmoronavam.”

Um pouco depois, ele envia uma mensagem de texto para Erica, sugerindo um reencontro em breve, mas, na verdade, ela não está fadada a se tornar o problema da noite. Nem as três ou quatro doses de tequila que Sheen vira tão facilmente.

Em vez disso, esta noite, o problema é um dos dentes de ouro na boca do ator – especificamente o número 12, na arcada superior esquerda, um pré-molar que quebrou com uma batata frita e foi substituído por ouro. Parece ridículo, mas o FX exigiu que, toda vez que Charlie Sheen aparecer em público, o dente de ouro precisa ser camuflado com tinta. Aparentemente, não gostam do que isso faz à aparência dele, talvez achem que o faz parecer do gueto. Ele suspira. “Um ano atrás, eu teria dito: ‘Dane-se, é meu dente!’ Mas por que ser o canalha? Qual é o motivo? Mostrar pra eles? Mostrar pra eles o quê? De qualquer forma, isso se tornou um grande problema, então falo: ‘Ok, vocês têm o direito’. ”

Só que, claro, Charlie sendo Charlie, esse dente não foi pintado hoje e, quando sorri, é incrivelmente brilhante. Há muitos paparazzi do lado de fora esperando que ele apareça. Sheen faz uma pausa, respira fundo. Poderia ser pior. Ele poderia estar na cadeia ou (supostamente) lutando com uma garota no Plaza Hotel ou jogando dinheiro para uma stripper. Muito pior. “Eu me esqueci de pintar meu dente, só isso.” Ele vai embora pela porta dos fundos e entra em um carro que o espera, evitando os fotógrafos, evitando conflito, mostrando um lado mais maduro de si: o Charlie Sheen que ninguém conhece, tentando fazer a coisa certa pela primeira vez em sua vida, e esperando conseguir.


Tem sido uma jornada louca praticamente desde o primeiro dia. Charlie nasceu em 3 de setembro de 1965, filho de Janet e Martin Sheen, em um hospital em Nova York, e nem tinha saído totalmente do canal vaginal quando o primeiro problema surgiu. O médico, Irwin Chabon, notou que o cordão umbilical estava pressionado contra o nariz de Charlie, sufocando-o. “Espere!”, pediu Chabon, e Janet parou de empurrar, o que lhe deu tempo para cortar o cordão. “Agora!”, gritou, e Janet empurrou com toda a força. “Charlie saiu voando, e era um bebê muito azul”, lembra Martin, que então era um jovem ator desconhecido. “Nem um som saía dele, nem uma respiração, nada. Ele não se mexia.” O doutor Chabon pegou o bebê pelos pés, segurou e começou a bater nele. “O que há de errado?”, perguntou Martin. “Não está nada bem, garoto.” Martin pensou que Charlie ia morrer e pediu para que fosse batizado. Então, conta o pai, “o médico bateu em Charlie mais uma vez e ele começou a gritar, e não parou desde então”.

Dezenove anos mais tarde, Charlie Sheen conseguiu seu primeiro papel importante no cinema, em Amanhecer Violento, um filme de 1984 em que adolescentes combatem comunistas. Dois anos depois, fez um tipo vagabundo que era excelente em pegar garotas em Curtindo a Vida Adoidado. Só que realmente se destacou quando Oliver Stone o escalou para dois dos filmes mais incendiários da década, como um jovem soldado louco para atirar no Vietnã em Platoon, vencedor do Oscar em 1986, e como o ambicioso protegido de Gordon Gekko em Wall Street - Poder e Cobiça (1987). As críticas foram altamente positivas, os filmes foram importantes e ele estava destinado a estrelar em um terceito longa de Stone.

Só que as coisas descarrilaram rapidamente. Primeiro, Stone o trocou sem cerimônias por Tom Cruise no papel principal em Nascido em 4 de Julho, e as escolhas subsequentes de Charlie – comédias como Major League e Top Gang! - Ases Muito Loucos e filmes de ação como Comando Imbatível – não fizeram nada para aumentar sua reputação de ator sério. Além disso, houve a vida pessoal de Sheen. Naquela época, com três anos de carreira, a reputação de baladeiro já estava bem estabelecida. Ele dirigia um Porsche preto de US$ 60 mil, carregava um calhamaço de papel com nomes de mulheres, numeradas de 1 a 25 – algumas com estrelas, como uma crítica de filme, outras com anotações trazendo palavras como “seios”, “Jacuzzi” e “animadora de torcida”. Também tinha várias armas e adorava atirar com elas no oceano, e pensava muito sobre dinheiro, tendo concluído, como afirmou em 1987, que “dinheiro é energia, cara. Ele move as coisas”.

Era coisa de doido até para os padrões de Hollywood – e só piorou. Em 1990, sua então noiva Kelly Preston pegou uma calça dele no banheiro e dela caiu um minúsculo revólver calibre 22. A arma foi ao chão e disparou uma bala na privada, que ricocheteou um pedaço de porcelana no braço de Kelly; no entanto, a história contada em público era a de que Sheen tinha dado um tiro no braço dela, que por isso o deixou rapidamente e se casou com John Travolta. Alguns anos depois, quando namorava a modelo Donna Peele, Sheen foi testemunha no julgamento da cafetina Heidi Fleiss, de Hollywood, e admitiu ser um grande consumidor, tendo gasto US$ 53 mil com os serviços dela. Mesmo assim, Donna se casou com ele pouco depois, em uma união que durou menos de um ano. “Você compra um carro ruim, ele quebra”, ele disse na época. Em 1998, a carreira de Sheen tinha fracassado. Nesse mesmo ano, o ator teve uma overdose de cocaína, foi hospitalizado e entrou na reabilitação. “Rezem por Charlie, rezem pelo meu menino. Seus apetites o metem em encrenca, mas ele tem um bom coração”, pediu o pai, Martin.

“Quando Charlie está sóbrio, é doce, gentil, amoroso, generoso”, contou a atriz pornô e ex-namorada Ginger Lynn. “Quando está bebendo e se drogando, perde o controle.”

No entanto, em 2000, ele fez uma virada na carreira, substituindo o cada vez mais instável Michael J. Fox no seriado Spin City por duas temporadas e tornando o programa um sucesso ainda maior do que já era. Em seguida, em 2003, entrou em Two and a Half Men – no papel de Charlie Harper, uma versão de si mesmo, sempre com camisa de boliche, bafo de bebida e uma mulher na cama –, que lhe rendeu um salário recorde de US$ 2 milhões por episódio. Agora, está tentando voltar mais uma vez, em Anger Management. A série se baseia no filme Tratamento de Choque, de 2003, com Adam Sandler e Jack Nicholson, e tem Sheen no papel de um ex-jogador de beisebol cujos problemas com a raiva o levam a se tornar terapeuta. Se Anger Management conquistar o público, muito provavelmente não será por sua qualidade, mas sim pelo imenso charme e atração do ator na tela da TV. Como Men comprovou, sem Sheen não há graça, independentemente de seu substituto, Ashton Kutcher, assinar para mais uma temporada (fraca) ou não. Ainda que esteja buscando aprumar a carreira, durante todo esse tempo, Sheen não tentou nenhuma vez acertar sua vida particular da maneira convencional. O resultado tem sido várias temporadas na reabilitação, mais dois casamentos fracassados (com Denise Richards, de 2002 a 2005, e com a atriz Brooke Mueller, de 2008 a 2010), diversos problemas com a lei, feiticeiros jogando maldições e outras maluquices.

Ainda assim, tudo está bem calmo no mundo dele ultimamente. Hoje, passa a maior parte do tempo trabalhando no seriado, o qual tem um interesse anormalmente grande em transformar em sucesso. O salário inicial pode não ser tão grande quanto em Men, mas ele tem participação nos lucros, e se tudo for bem – se a encomenda inicial de dez episódios atingir um determinado índice de audiência, o canal FX é obrigado a comprar mais 90 episódios, garantindo a transmissão na TV aberta – Charlie deverá ganhar até US$ 200 milhões ao longo do tempo, o que é um “monte de energia que move as coisas”.


No momento, ele está em casa, fumando, tomando café e tentando explicar os porquês e motivos do Maior Piti de Charlie Sheen de Todos os Tempos. O lugar tem estilo moderno, muito clean e tranquilo, com bom gosto. Tem alguns itens de colecionador de beisebol à mostra, junto a uma espada de samurai, um imponente telescópio Meade LX200-ACF, uma grande jukebox antiga e uma pintura enorme de seu pai com Marlon Brando em Apocalypse Now, com o fundo em vermelho. Só há bagunça nas portas da geladeira – muitas fotos de seus filhos, junto com suvenires embalados e etiquetados de diversas noites pela cidade: um charuto fumado por Ray Lewis, um maço vazio de cigarros de Sean Penn, uma caneta que Russell Brand usou para dar autógrafos.

No lado de fora, no pátio que dá para a piscina, Sheen acende outro Marlboro vermelho (“Fumo 40 por dia – não, 30”) e fala sem parar, de um jeito muito interessante, com sua voz grossa e rouca. O primeiro assunto em pauta, claro, é Chuck Lorre, a causa aproximada do piti. “Não consigo me controlar com relação a esse cara, desculpe”, diz, parecendo que não quer realmente se controlar. “Ele é um bosta . Um bosta! A boa notícia é que não está mais sujando meu sapato.” Seu principal problema com Lorre (entre milhões) foi que este se recusou a escrever mais episódios quando, surpresa, Sheen encerrou antes do esperado, em 2011, uma temporada na reabilitação ordenada pelo seriado [aconteceu em casa, que Denise Richards apelidou de Sober Valley Lodge (Alojamento no Vale da Sobriedade), no período recorde de duas semanas]. A decisão de Lorre não apenas custou muito dinheiro a Sheen, mas também ao restante do elenco e da equipe de Men. Portanto, o ator partiu para o ataque, mas nada explicou o que o fez agir daquela maneira. Todos pensaram em drogas, devido a seu longo histórico de abuso, especialmente de cocaína, “quebrando pedras de 7 gramas, porque é assim que eu faço”, e coisas do tipo. Só que ele insiste que não houve nada de drogas – fez vários exames na época, todos com resultados negativos. “Charlie fumava como uma chaminé, mas fora isso, nada de bebida nem drogas”, afirma Bree Olson, atriz pornô e ex-deusa de Sheen. “Ele só estava com muita raiva, e não tinha medo de mostrar isso.”

Então, se não foi por drogas nem doença mental, o que foi aquilo? Charlie responde provocando: “Não acho que tenha sido só o seriado. Foi excesso de tentativas de agradar as pessoas, pausas insuficientes ao longo de 30 anos, que se formaram em uma liberação concentrada parecida com um tsunami”. Ele joga as mãos para o céu e suspira.

“Não passei por uma avaliação psicológica para ver o que estava por trás de todo o episódio”, continua, “mas, por um período de umas duas semanas naquela época, fui a pessoa mais famosa do mundo! Por isso que teve tanta ressonância e tração cósmica maluca. Claramente, um homem é demitido, seus relacionamentos estão indo para o saco, sai em uma maldita turnê, não está ‘vencendo’ nada nisso. Quer dizer, como um cara que está obviamente na areia movediça considera aquilo uma vitória? Eu estava totalmente em negação. ‘Winning’. Maluquice.” Ele para, pensa nisso, talvez esperando que seus pensamentos sobre a questão se esclareçam. Depois de um tempo, quando isso não acontece, diz: “Ai, cara, o que é minha vida? Nem sei. A boa notícia é que foi empolgante pra caramba, estar na crista daquela onda enquanto ela se formava. Emocionante, mas, é, parece que algumas marolas chegaram à praia”. Pausa. “Seja lá o que isso signifique.”

O pai o define. “É uma pessoa extraordinária, mas com muitos defeitos, como todos nós. Só que vou te contar uma coisa: ele nunca mentiu para sair de uma situação. Aguenta o tranco. Fez isso a vida inteira. Sua honestidade é impressionante.”

Charlie Sheen, cujo nome do meio é Irwin, em homenagem ao médico que salvou a vida dele, passou a adolescência morando em Malibu e frequentou a escola Santa Monica High, onde era um arremessador de destaque e fez filmes em Super-8 com seu irmão Emilio, Sean Penn e Rob Lowe, entre outros. Só que eles eram mais velhos do que Charlie, e, quando se tornaram atores e ficaram conhecidos como o Brat Pack, tudo o que podia fazer era observar de fora. “Tinha muito ciúme. Queria me matar”, conta. “Eles conseguiam todas as garotas, todos os jantares, todas as drogas, todos os mimos. Disse a mim mesmo: ‘Vou eclipsar todos’. Estava determinado a ter mais do que tinham e de forma mais consistente.”

Seus pais lhe deram uma BMW quando tinha 16 anos, e isso, junto com suas inclinações naturais, abriu um mundo totalmente novo de problemas. Uma vez, ficou chapado no carro e dormiu, sendo acordado por um policial que logo encontrou toda a maconha, cachimbos e papéis de enrolar cigarros de Charlie, além de um canivete que levava preso ao tornozelo e um belo porrete gravado em marfim – só foi salvo da cadeia graças à amizade da mãe com um juiz. Um ano depois, foi detido por fraude no cartão de crédito. No último ano do ensino médio, ficou tão bravo com uma professora que fez uma bola de papel. “Acertei bem no meio da testa dela... e, no meio da minha raiva, disse que ela tinha sorte por eu ainda não a ter matado.” A escola considerou o ocorrido uma ameaça de morte e o expulsou. Isso aconteceu três semanas antes da formatura. Ele nunca recebeu um diploma. Em outras palavras, hoje Charlie Sheen é quem sempre foi.


Sendo assim, consumiu cada coisa aproveitável que existe para consumir: toneladas de pílulas, toneladas de bebida, toneladas de cocaína, carros, armas, relógios, muitos sabores de geleia (atualmente à mostra: marmelada, pêra, pêssego, gengibre, amora), café que pinga da máquina e tem de receber uma colher extra de café instantâneo em pó, suvenires de beisebol, obras de arte, bilhetes de loteria (compra o equivalente a US$ 4 mil por semana) – seja o que for, em um momento ou outro, ele tentou se preencher com aquilo. Na adolescência, ganhou o apelido de Machine, como em Ma-Sheen. “A questão era ser o último sobrevivente. Todo mundo tinha buscado proteção e eu ficava lá sentado, dizendo: ‘Qual é, a festa ainda não acabou!’ ”

Só que, um dia, a festa vai acabar, e o que será dele então?

“Charlie é um grande mistério para mim da mesma forma que sou comigo mesmo, sem explicação possível”, diz Martin. “Vai ser preciso um milagre, mas a hora dele ainda chegará. Quando entender o quanto é amado e começar a se amar, tudo mudará.” As palavras de um pai, cheias de esperança, cheias de dúvida e cheias de temor por seu menino.

Ele perdeu a virgindade aos 15 anos com uma prostituta de Las Vegas chamada Candy, uma ruiva lindíssima, enquanto Martin dormia no quarto de hotel ao lado. Roubou o cartão de crédito do pai para pagar pela experiência, e também bancou a do primo Joey, da mesma idade. “Falei para o Joey: ‘Olha, este é o cartão de crédito do meu pai, você vai em segundo’. Ele ficou empolgado, não estava nem aí. Lembro que foi a melhor noite da minha vida. Só que, duas semanas depois, meu pai quis saber sobre uma tal de Friendly Introductions LLC, Las Vegas, que aparecia na fatura. Expliquei. Sua única preocupação foi saber se eu não tinha confundido aquilo com amor.” Pausa. “Ainda estou tentando processar essa.”

E assim foi ao longo dos anos, com prostitutas, atrizes pornô e a ocasional boa moça com quem quer se casar, casa, e talvez até tenha alguns filhos antes de perceber, mais uma vez, que precisa processar um pouco mais, que realmente é um homem poliamoroso. “Olha, há mulheres diferentes para sentimentos diferentes”, afirma. “Com algumas você gosta de fumar maconha, com outras, de beber, assistir a um filme, outras trazem uma amiga, e mais algumas, como as atrizes pornô, são um pouco mais loucas e perigosas. Não sei por que gosto disso. Acho que faz as coisas parecerem mais épicas. O que quero dizer é que é possível ter sentimentos por mulheres diferentes ao mesmo tempo.”

Infelizmente, às vezes esses sentimentos ficaram violentos, com Sheen tendo ataques imensos de fúria – como quando supostamente disse uma vez a Denise Richards: “Espero que você morra, vadia”; supostamente ameaçou esfaquear Brooke Mueller e, em 2010, supostamente tentou sufocar a namorada, atriz pornô, durante aquela infame crise no Plaza Hotel, em Nova York. Mesmo assim, o apelo de Sheen é tanto que nenhum desses incidentes o prejudicou por muito tempo. O público ainda o ama e as mulheres ainda o amam, como sempre fizeram. “Quando era cliente”, conta Heidi Fleiss, “toda garota que eu mandava se apaixonava por ele. Só diziam coisas boas, de ser charmoso e generoso a ser bem dotado, um ótimo amante. Tudo nele era bom.”

“É engraçado”, diz Sheen. “Uma garota tem de ter um belo rosto, mas gosto mais das bonitinhas do que das lindas. Natalie Portman, linda. Mila Kunis, bonitinha. Muito bonitinha. Não a conheço, mas sou fã. Gosto de pés femininos. Já deixei de sair com garotas por causa dos pés delas, o comprimento de alguns dedos e o formato de algumas coisas. Joanete é horrível. O segundo dedo ser longo demais? Horrível também.”

Novamente, mais do Sheen que ninguém conhece.


Ele afirma que foi médium a vida inteira: “Tipo, sei quem está ligando quando o telefone toca, na maioria das vezes, e isso é esquisito”. Diz que meio que acredita em extraterrestres: “Quer dizer, aquelas luzes em Phoenix em 1997 – dez mil pessoas viram uma aeronave do tamanho de dez cargueiros durante quatro horas”. Faz uma pausa, parece se divertir. “Bom, na verdade, sabe em que acredito? Acredito que é mais divertido simplesmente acreditar, cara.”

Quando você tenta ter uma discussão significativa com ele sobre sua vida interior, vê que é praticamente impossível. Você sente que está buscando algo?

“Sim, claro, claro”, diz um pouco levemente demais.

“Só que não sei o que é. Sinto que vou encontrar um guia mágico um dia que meio que vai estabelecer isso para mim.”

Se o pai dele estivesse aqui, estaria dizendo ao filho: “Bom, Charlie, você tem de ser seu próprio guia mágico, não sabia disso?” Só que Charlie está sozinho agora e só ouve a própria voz.

Uma noite, ele sai para encontrar a ex-mulher, Denise Richards, que mora a 20 minutos de carro da casa dele, e as duas filhas, Sam, 8 anos, e Lola, 7. Eles se casaram em 2002 e se separaram três anos depois, quando Sheen começou a jogar muito, frequentar sites pornô, abusar de pílulas e agir de modo “muito volátil”, de acordo com Denise, que também disse que, uma vez, o ator pintou as palavras “o dia mais idiota da minha vida” na foto do casamento deles com tinta spray. Até um ano atrás, eles não se suportavam, mas, pelo bem das filhas, resolveram se entender e agora saem e tiram férias juntos, com Denise recentemente filmando uma participação especial em Anger Management. À noite, ela nunca desliga o telefone, caso Charlie se meta em alguma encrenca e precise de sua ajuda. “Ele é mais um filho meu”, gosta de dizer, afetuosamente.

Dentro da casa superluxuosa em estilo italiano, Sheen fala tranquilamente com Sam e Lola, que são absurdamente fofas e tímidas, e então Denise entra, usando um vestido longo de verão, com o perfume do mar. Eles se cumprimentam com um beijo, trocam elogios, sentam-se para jantar (nuggets de frango, o preferido das meninas, preparados por Irv, pai de Denise, que perdeu a esposa há três anos e agora vive com a filha) e rezam (Charlie começa: “Obrigado, Senhor, ahnnn...” e Denise tem de terminar). Depois, as meninas se preparam para dormir, enquanto Charlie vai para o pátio, nos fundos, para fumar e aproveitar o ar fresco da noite. “Meu Deus, isto é bom”, brada. “Sereno, cara. Puxa.”

Denise sai e diz: “Eu e ele somos melhores amigos agora. Confidentes. Ele me conta tudo. Viajamos juntos e as meninas o idolatram”.

Charlie se inclina para a frente, exalando fumaça, falando com a voz rouca: “E dormimos em quartos separados. Todo mundo vai querer saber isso também”.

O rosto dela parece um pouco envergonhado, o que não a deixa menos bonita, mas sim um pouco mais estressada. “Ele não tem filtros quando fala. Não era assim quando nos casamos.”

“Chato”, comenta Charlie.

“Ele não era chato. Estava sóbrio havia três anos e era muito humilde, charmoso, honesto e um grande homem.”

“E chato. Chato!”


Denise se cansou disso. Dá ao ex um olhar duro e pede licença para ir pegar mais vinho.

Sheen a vê sair. “Ela é ótima, não é? É ótima, cara. Ainda está incrivelmente linda, não é verdade?” Dá uma risada. “Fico chateado”, continua. “Quer dizer, você sabe para onde a mente vai, certo? É duro viajar com ela às vezes. Não quero que as meninas nos flagrem, sabe? E há um monte de coisas para explicar. Não que não possamos trancar a porta, mas sabe como é. Não é simples assim. Eu quero? Claro! Ela quer? Não sei.”

É uma coisa um tanto impensada de dizer, mas Sheen, como sempre, não consegue se controlar. O jeito que a mente dele vagueia é a única maneira em que seus pensamentos se tornam palavras.

Denise volta com a garrafa e oferece mais a Sheen, que recusa. Está quase totalmente sóbrio. Eles começam a falar sobre o Grande Piti, e quanto mais falam sobre isso, mais cigarros Sheen fuma.

“Sei que parece terrível”, começa Denise, “mas realmente esperava que ele estivesse usando drogas, porque pelo menos haveria uma explicação. Achei que ele tinha perdido a cabeça, chegado a um ponto sem volta. Foi triste. Fiquei de coração partido”.

“Só que houve muitas risadas”, diz ele baixinho. “E não foi triste. Muito daquilo foi coberto por vitória.”

Denise olha para ele. “Eu teria lidado um pouco diferente com aquilo, Chuckles. Você precisa ser superior, porque, por um lado, você – ”

“Faço todo o sentido – ”

“Não!”, diz ela, rispidamente. “Viu só? Você não está arrependido do seu comportamento. Acha que lidou com as coisas do jeito certo!”

Charlie ajeita a postura e se inclina em direção a Denise. “Só que quem bateu em quem como um tambor? Bati na Warner Bros. como um tambor ou foi o contrário? A grana toda que eles me devem! Que não iam me pagar depois de me demitir! Todo o meu dinheiro! Quem bateu em quem? Hein?”

“Mas o que você ganhou com isso?”

“Meu dinheiro!”

Ela suspira, profundamente frustrada. “Você teria ganhado o processo de qualquer forma.”

Sheen inclina a cabeça. Dá para ver que luta para entender o que Denise está dizendo. Dá para ver que ele está tentando compreender, tentando descobrir como andar em uma linha um pouco mais reta, mas, por enquanto, tudo está um pouco além dele, talvez porque se comporte da mesma maneira há tanto tempo em relação a dinheiro, bebida, drogas, mulheres, o dente de ouro que deveria estar pintado e a gritaria que ainda não parou. Pelo menos ele está tentando, e se isso conta para alguma coisa, então em algum lugar um guia mágico deve estar dando um sorriso esta noite.