Juntos, mas Mais Sozinhos

Depois de um longo silêncio, o Garbage volta independente e com um álbum nada nostálgico

Chris Norris Publicado em 06/07/2012, às 12h21 - Atualizado às 12h21

RECICLADOS Butch Vig, Steve Marker, Shirley Manson, Duke Erikson (da esquerda para a direita)
AUTUMN DE WILDE

Butch Vig, 56 anos, profissional liberal e pai, está sentado na cadeira de comando da oficina de áudio da casa dele, em Los Angeles. “Nunca exibi coisas na minha casa”, diz, apontando encabulado para uma parede cheia de placas de reconhecimento por seu trabalho produzindo Nirvana, Smashing Pumpkins, Green Day, entre muitos outros. “Comecei a colocar isso pela minha filha, porque queria que ela soubesse sobre rock.”

Vig ama produzir grandes bandas de rock – levou para casa seu Grammy mais recente por Wasting Light, do Foo Fighters – mas, em fevereiro de 2011, sua agenda foi repentinamente alterada. “Ela me ligou do nada”, conta. Fazia seis anos desde que Vig tinha trabalhado com Shirley Manson, 45, sua companheira de longa data no Garbage. A banda trouxe, nos anos 90, uma sofisticação atrevida e uma feminilidade inteligente para o primitivismo que tinha se tornado o padrão do rock após o grunge. Os sucessos “Stupid Girl” e “Only Happy When It Rains” colocaram vocais sensuais femininos e problemáticos de Shirley em contraposição à mistura de distorção de rock, batidas de hip-hop e exultação pop, moldada por Vig em conjunto com Duke Erikson e Steve Marker. Shirley, cujas emoções eram tão incendiárias quanto a cor de seu cabelo, construiu ganchos taciturnos a partir de sentimentos ruins.

Depois que o Garbage se separou, em parte pelo desgosto com a pressão para gravar hits, seus membros partiram para responsabilidades adultas: casamento, filhos, pais doentes. Quando Shirley ligou para Vig e propôs que a banda se reunisse, ele ficou intrigado. Ao se encontrarem, relembraram histórias, riram, beberam e esqueceram o jeito rabugento no qual a banda se dispersou em 2005, quando o caos dos downloads ilegais provou ser venenoso para bandas grandes. “Montamos os equipamentos e começamos a tocar.”

Quando acabaram de gravar Not Your Kind of People, o novo álbum, os integrantes do Garbage perceberam o quanto a indústria da música tinha mudado. Pagaram eles mesmos pelo disco e o estão lançando por uma gravadora própria, a Stunvolume. Um dia, enquanto Vig conversava com Dave Grohl, o vocalista do Foo Fighters deu um conselho. “Ele me disse: ‘Você vai ter de entrar no Twitter, Butch Vig’.”

“Ela é um monstro”, diz Marker sobre Shirley, a quem credita a volta do Garbage e considera a principal movimentadora desde o começo. “Não estou chamando os escoceses de toscos, mas eles são descarados e sinceros”, diz Marker. “A Shirley tem uma opinião instantaneamente.” A artista mostra essa franqueza quando diz que foi necessário “um esforço hercúleo para fazermos um disco que pudéssemos apresentar para o mundo”. Por quê? “Porque estamos velhos” (Marker tem 53 anos, e Erikson, 61). “Quando você não é jovem, conhece todos os muros que tem de escalar, e essa consciência é difícil de enfrentar.”

As perguntas óbvias – se o Garbage ainda tem fãs, quem são e se esses admiradores têm tempo de se importar com um disco novo – não a incomodam muito. “Sempre nos sentimos como forasteiros”, diz. “Nunca fomos suficientemente eletrônicos para os fãs de música eletrônica, nem alternativos o suficiente para o pessoal do rock alternativo. E frequentemente nos sentimos um pouco pesarosos por sermos quem éramos.” Só que ela não tem mais sentimentos dúbios. “Este é nosso som, nosso mundo. Faça parte disto ou não. É assim. Danem-se os outros.”