A Mão por Trás do Trono

George R.R. Martin fala sobre Tyrion, cenas de sexo e o próximo livro de As Crônicas de Gelo e Fogo

Gavin Edwards Publicado em 06/07/2012, às 11h40 - Atualizado às 11h47

REINO DA FANTASIA Martin escreveu os livros que abastecem o seriado Game of Thrones
NICK BRIGGS/HBO

George R.R. Martin, o autor baixinho e corpulento de As Crônicas de Gelo e Fogo, a série épica de romances de fantasia que fornece a matéria-prima para a série Game of Thrones, da HBO, apresenta seu escritório em Santa Fé, Novo México. As paredes ostentam as ilustrações originais das capas de seus livros, com homens fortes com espadas e super-heróis de cores berrantes. As salas são decoradas com vitrines lotadas de cavaleiros em miniatura e outros bonequinhos pintados travando batalhas em dioramas épicos. Há alguns anos, este cidadão de Nova Jersey comprou a casa na frente de sua residência e a converteu em local de trabalho, com vitrais coloridos e uma torre que serve como biblioteca – apesar de a prefeitura só ter dado permissão para que a estrutura tivesse dois andares de altura. Aos 63 anos, Martin tem o entusiasmo de um adolescente meio nerd e o ar distraído de um mago ocupadíssimo. Publicado no ano passado nos Estados Unidos e neste ano no Brasil, A Dança dos Dragões, o quinto na sequência de sete volumes, está há diversas semanas na lista de mais vendidos, e os fãs esperam com impaciência pelo próximo volume. “Comecei a escrever estes livros em 1991”, Martin diz e sacode a cabeça. “Neste intervalo, fiquei bem mais velho – mas os personagens só ganharam um ou dois anos.”

Por que a série começa quase sem magia alguma?

Eu adoro fantasia, mas também amo ficção histórica. Eu queria fazer uma fusão das melhores qualidades de ambas, e isso exige que se tenha muito cuidado com a magia. Eu tenho a maior admiração por J.R.R. Tolkien – e se examinarmos O Senhor dos Anéis, apesar de a Terra Média estar impregnada de uma forte sensação de magia, pouca coisa fica explícita. Gandalf não solta raios dos dedos. Se esse tipo de coisa aparece em todas as páginas, a magia, digamos, perde a magia...

Alguns autores tramam cada página com todo o cuidado; já outros improvisam a coisa toda. Em que ponto desse espectro você se encontra?

Eu tenho nomes para estes tipos de escritores: eu os chamo de arquitetos e de jardineiros. O arquiteto, antes de cravar um prego em uma tábua, tem todas as plantas e sabe como a casa vai ser e por onde os canos vão passar. Depois, temos os jardineiros, que cavam um buraco e plantam uma semente e a regam – às vezes com o próprio sangue – e algo aparece. Eles sabem o que plantaram, mas mesmo assim há muitas surpresas. Bom, mas é raro encontrar um autor que seja um arquiteto puro ou um jardineiro puro; eu estou bem mais próximo de um jardineiro. Eu sei qual é o fim definitivo da série e eu sei qual é o destino de todos os personagens principais, mas há muitos personagens menores e outros detalhes que vou encontrando ao longo do caminho. Para mim, tanto como leitor quanto como escritor, o mais importante é a viagem, não o destino final.

Game of Thrones: as dez maiores diferenças entre livro e série.

Cada capítulo apresenta o ponto de vista de um personagem diferente. Isso faz com que a maior parte deles pareça mais simpático – mas nem todos.

Nós todos temos razões para as coisas que fazemos, até mesmo para as coisas que aparentemente são malignas. Elas às vezes se baseiam em princípios equivocados ou em egoísmo inato ou em compulsões psicológicas, mas ainda assim são razões. Algumas das minhas primeiras histórias de ficção científica tratavam do tema da telepatia: se nós pudéssemos ler a mente uns dos outros, será que isso levaria ao amor e à compreensão universal ou à repulsa universal?

Seus livros também têm elementos de terror – os leitores vivem apavorados com a noção de que qualquer personagem pode morrer a qualquer momento.

A noção de que ninguém está a salvo existe porque esta é uma história de guerra. Eu mesmo sempre fui contrário à guerra – eu nunca fui mandado para a guerra, mas tive amigos que foram para o Vietnã e que falaram sobre suas experiências. Uma das coisas fundamentais que aprendi com eles é que no Vietnã não importava se você fosse o melhor atirador ou se fosse o cara capaz de fazer o maior número de flexões de braço. Qualquer um podia ser morto a qualquer momento.

Qual foi a inspiração para criar Tyrion Lannister, o anão por trás das tramoias?

Eu escrevi um livro com Lisa Tuttle, em 1981, chamado Windhaven, e nele há um comentário paralelo em que um dos personagens está falando sobre visitar alguma ilha distante e diz: “Tem um anão; é o homem mais feio que eu conheço, mas também é o mais inteligente”. Por algum motivo, fiquei com isso na cabeça, e quando comecei a escrever Crônicas lá estava ele. Tyrion cravou as garras em mim e se tornou um dos personagens mais fundamentais, que realmente fizeram a série avançar.

Tyrion e Daenerys estão entre as invenções mais vigorosas.

Eles estão entre os personagens que fazem mais sucesso, apesar de eu achar que os dois com aceitação mais ampla sejam Jon Snow e Arya. Cada personagem tem seus fãs e seus detratores, algo que considero como enorme elogio. Nós nos sentimos assim em relação a pessoas reais: alguém gosta delas, outros se irritam com elas e outros ainda acham que são umas trouxas. Quando se cria um personagem fictício que todo mundo adora, ou que todo mundo odeia, você provavelmente criou um pedaço de papelão.


Você achava que Game of Thrones iria fazer tanto sucesso na TV?

Meus livros foram escritos, praticamente, para não ser filmados. Eu os escrevi no final de uma década em Hollywood, onde sempre me diziam que os meus roteiros eram ótimos, mas eram caros demais... será que dava para colocar menos personagens? Será que essa batalha poderia ser um duelo? Não era um processo que eu apreciava. Por isso, quando retornei à prosa, disse: “Bom, não preciso mais me preocupar com o orçamento”. Eu simplesmente escrevi estes romances da maneira mais grandiosa que a minha imaginação permitia, sem nunca sonhar que um dia seriam filmados. Agora, David Benioff e Dan Weiss [os criadores da série da HBO] é que precisam lidar com esta tremenda dor de cabeça. Eu não.

Quanto você já avançou no próximo livro, The Winds of Winter (Os Ventos do Inverno)?

Não tanto quanto eu gostaria de ter avançado. Vai ser mais um livro de 1.500 páginas, e eu só escrevi umas 200. Ainda tenho muito pela frente.

Você se preocupa com a possibilidade de a série de TV alcançar os livros?

Eu não diria que me preocupo. Tenho uma boa vantagem. Mas volte a fazer essa pergunta daqui a um ano – talvez a resposta seja diferente! Tenho vários outros projetos que estou dando conta; preciso tirar tudo da frente para poder me concentrar nos livros. Preciso aprender a dizer não quando alguém me pede um conto ou um prefácio. Na semana passada, fiquei o tempo todo escrevendo apresentações para três livros distintos. A verdade é que eu escrevo devagar, independentemente do que esteja fazendo, seja um épico de fantasia gigantesco, seja um prefácio. “São só mil palavras, você consegue matar em uma tarde.” Não, não consigo – passo três dias suando em cima daquilo.

Qual foi o momento em que você percebeu que não precisava mais se preocupar com dinheiro?

Não sei dizer com certeza se esse momento já chegou. Por ter tido uma infância pobre como a minha, um menino de conjunto habitacional popular de Bayonne, Nova Jersey, eu sempre tenho consciência de como o dinheiro pode ir embora. Na época em que vendi The Armageddon Rag [um livro de mistério e assassinato com tema de rock and roll, de 1983] , demorei mais ou menos um ano para escrever e recebi US$ 100 mil por ele. E, quando isso aconteceu, eu disse a mim mesmo: “Agora eu ganho US$ 100 mil por ano”, e isso foi um erro enorme. Comprei uma casa e um carro novo, e daí o livro não vendeu nada. Precisamos refinanciar a casa, e eu pensei: “Como é que eu vou conseguir pagar?” Então, cada vez que eu recebo um cheque, penso: “E se este for o último cheque que eu vou receber na vida?”

Se algum dia for, houve muitos outros cheques que vieram antes.

Eu fui escritor a vida toda – eu costumava vender histórias escritas à mão para os outros meninos do conjunto habitacional popular. Vendi a minha primeira história para uma revista profissional em 1971. Passei a escrever em tempo integral em 1979 e tenho me virado bastante bem. Assim como qualquer escritor, tive anos bons e anos ruins, mas houve muito mais sucessos do que fracassos. Mas, nos últimos dois anos, eu me transformei em um escritor-celebridade, e isto é diferente de ser um escritor de sucesso. Sou reconhecido em restaurantes e aeroportos e fico surpreso toda vez que isso acontece. Isso normalmente não acontece com escritores. Cormac Mc-Carthy mora aqui em Santa Fé, e eu não faço a menor ideia de qual da cara dele. Pode ser o fulano atrás de mim na fila do supermercado e eu nem vou saber.

Algumas pessoas criticam a quantidade de sexo no seriado – mas os seus livros têm bastante sexo. Você chega a ter algum incômodo com isso?

Recebo cartas relativas a isso com bastante regularidade. É o aspecto pudico natural aos norte-americanos. Você pode escrever a descrição mais detalhada e mais vívida de um machado penetrando um crânio e ninguém diz absolutamente nada para reclamar disso. Mas, se escreve uma descrição igualmente detalhada a respeito de um pênis penetrando uma vagina, recebe cartas de gente dizendo que nunca mais vai ler o que você escreve. Mas que diabo é isso? Um pénis penetrando uma vagina traz muito mais alegria para o mundo do que um machado penetrando um crânio.

Como são os seus hábitos diários de escrita?

Nos meus melhores dias de trabalho, que não ocorrem com muita frequência, eu perco toda a noção de tempo e espaço. Caio na minha cadeira de manhã e, quando ergo os olhos, está escuro lá fora e as minhas costas doem. Sabe, às vezes eu penso sobre a razão da ficção, e sobre como aquilo de que nos lembramos se torna parte da nossa vida. Tenho algumas fotos da minha classe da 3ª série; eu reconheço a mim mesmo e a uns poucos bons amigos. Mas quem diabos são aquelas outras crianças? Eu não me lembro do nome delas. Eu estava vivo em todos os dias da minha infância, mas a maior parte dessas lembranças desapareceu. Por ter sido criado em Bayonne, o meu mundo tinha cinco quarteirões de extensão. A minha casa ficava em First Street [Rua Número 1] e a minha escola ficava em Fifth Street [Rua Número 5]. Mas a minha imaginação desejava um mundo muito maior. Então eu lia a respeito de planetas distantes e da Roma antiga e de Xangai e de Gotham City.

E isso tudo tornou você um escritor melhor?

Eu nunca vi a luz verde no final do cais de Daisy nas festas no gramado de Gatsby. Mas, depois de ler O Grande Gatsby de F. Scott Fitzgerald, aquele mundo me pareceu mais real do que coisas que eu de fato vivi. Se somos a soma das nossas experiências, como acredito que sejamos, então os livros são uma parte mais importante da minha vida do que a minha vida de fato. É isso que eu tento fazer com a minha própria ficção: encher as histórias com pessoas imaginárias que vão se tornar mais reais para os meus leitores do que as pessoas que fazem parte de sua vida.