Os arrependimentos de John Mayer

A boca aberta quase acabou com a carreira dele. Agora, em sua primeira grande entrevista em dois anos, ele afirma que é um novo homem

Josh Eells | Tradução: J.M. Trevisan Publicado em 06/07/2012, às 11h56 - Atualizado às 11h56

DEBAIXO DO CÉU Mayer em sua nova propriedade em Montana

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Se você é um astro do rock relativamente lesado querendo mostrar para o mundo que está recomeçando do zero, não há muitos lugares melhores que Paradise Valley. O canto absurdamente pitoresco de Montana, próximo ao Parque Nacional de Yellowstone, é o lugar que tem sido a segunda casa de John Mayer, que trocou os paparazzi e os serviços de quarto por uma cabana de pedra e madeira em uma área de 15 acres aos pés do rio Yellowstone, com uma Land Rover na entrada e um estúdio de gravação no alto de uma colina. Em uma tarde de sábado, Mayer está parado em sua nova cozinha, fazendo um sanduíche de manteiga de amendoim, usando uma camisa azul de flanela, jeans cuidadosamente gastos e botas mocassim elaboradas por um designer japonês. Ele comprou a casa de um pintor local e ainda está em processo de mudança. No quarto principal, roupas transbordam de uma mala ainda meio feita. Mayer circula com a barba por fazer e um corte de cabelo que afastaria qualquer mulher. Esta é sua primeira entrevista desde o começo de 2010, quando tanto a Rolling Stone quanto a Playboy publicaram entrevistas desastrosas com ele. Nesta última, o cantor chamou sua ex-namorada Jessica Simpson de “napalm sexual”, brincou dizendo que tinha um “pau branco supremacista” e abusou da palavra “nigger”, um termo politicamente incorreto. Foi tachado de misógino, racista, narcisista e, não pela primeira vez, babaca. No show posterior ao incidente, pediu desculpas no palco, por cinco minutos. “Desisto desse jogo da mídia”, disse. Ele leva nossa entrevista quase como uma sessão de terapia – reclinando a cabeça em um travesseiro no sofá, como se estivesse literalmente no divã – e pausa para analisar como suas respostas irão soar para o público, ao mesmo tempo plenamente consciente e inconsciente de si mesmo. Algumas vezes, como quando o assunto das entrevistas de 2010 vem à tona, ele se vira totalmente, olhando as vacas ordenhadas do outro lado do rio ou para a própria água correndo veloz. “Está tudo mudando”, diz, “o tempo todo.”

Primeiro, como encontrou este lugar?

Fiz uma viagem com uns amigos, e paramos aqui para pescar. Adorei e liguei para o número de uma agente imobiliária na contracapa de uma revista, e passei algumas palavras chave para ela – “anos 70, Neil Young, guitarra velha, balanço, refúgio”. Ela me mostrou essa cabana.

E você fica aqui em tempo integral?

Ainda tenho meu apartamento em Nova York. Saí de lá no fim de março – o vídeo de “Shadow Days” foi feito nessa viagem. Minhas coisas estavam na parte de trás daquele caminhão ali.

Do que você gosta aqui?

É só uma questão de não estar mais naquele mundo. Não estar em Los Angeles, Nova York. Você pode ter o que eu chamo de mente natural. Tenho alguma janelas que são fechadas aqui, por assim dizer. Por exemplo, nada de TMZ. Quando entro nesta casa, o que quero é apenas existir.

Faz tempo que não ouvimos você. É sua primeira entrevista em mais de dois anos.

Eu estava esgotado. Me fechei. Para ser sincero, quero continuar fechado. Mas chega um ponto em que a única coisa que você está fazendo é sentir pena de si mesmo e fugir.

Falando em fugir – vamos voltar ao inverno de 2009-2010. Como era a sua cabeça?

Acho que se resume ao fato de que eu tinha parado de apreciar o ar rarefeito que eu respirava por ser um artista que significava muito para as pessoas. Eu tinha virado um escroto. O mundo das celebridades é emocionalmente muito convidativo e difícil de se recusar, e eu mergulhei nisso mais e mais. Você é mais durão e é justamente quando está próximo de desabar. Sua adrenalina dispara e você diz “Manda ver”, e nessa hora você está a 30 segundos de se transformar em uma bola de lágrimas.

Lembra o que passou pela sua cabeça enquanto dava aquelas entrevistas?

Era uma performance minha para mim mesmo. Se havia um elefante na sala incomodando, eu queria domá-lo e dar uma volta nele. Mas o que aconteceu foi que as pessoas olharam e disseram “Olha aquele idiota em cima do elefante”. Lembro que durante a entrevista para a Rolling Stone eu estava paranoico, pensando: “Sei o que você está tentando fazer comigo, mas não vou deixar – eu mesmo vou fazer antes”. Esse é o retrato de um cara que precisa dar um tempo.


Conte sobre o dia em que a entrevista para a Playboy saiu.

Foi uma quarta, em fevereiro. Eu estava no meu quarto de hotel em Nashville. Havia um restaurante chinês que dava para ver pela janela, e o telefone tocou, e lembro de ficar encarando a placa do restaurante enquanto alguém dizia: “Isso é bem sério”. É como em um filme, quando a explosão acontece, mas você não ouve – só fica tudo preto. É totalmente o inverso de ouvir: “Você foi indicado para cinco Grammys”.

Você ainda pensava: “Ah, você está exagerando, não é tão mal assim”?

Sim. Tudo o que você consegue fazer é tentar não implodir. Você espera conseguir sair da situação na conversa. Escapar de as pessoas ficarem – não sei se ofendidas, mas...

Eu acho que as pessoas ficaram ofendidas.

Não quero dizer às pessoas como elas deveriam ter se sentido. Mas por cinco minutos achei que seria capaz de desarmar a situação.

As entrevistas saíram. E aí o que aconteceu?

Fui massacrado. Fui meio que repudiado. Mas a queda subsequente – que eu às vezes chamo de “a correção de mercado” – meio que me arrancou de uma cultura que eu não havia tido força suficiente para largar sozinho. É quase uma síndrome de Estocolmo. E eu nunca teria me dado conta se nada disso tivesse acontecido.

O que passava pela sua cabeça na época?

Lembro de achar que todo mundo estava louco da vida comigo. Como se eu estivesse em uma festa e ninguém viesse apertar minha mão.

Houve um momento em que achou que estava tudo acabado?

Sim. Eu estava me tornando irrelevante – e eu precisava me tornar irrelevante. Disse a mim mesmo: “Você não vai reclamar do que quer que sobre depois disso tudo. Sua vida vai continuar – mas a festa acabou”.

Com quem você falava?

Bem pouca gente. Por mais que doa – e dói bastante –, não acho que alguém tinha vontade de livrar minha cara. Mas no fim foi uma das melhores coisas que já me aconteceram. Você chega no fim dos seus 20 e poucos anos e começa a se tornar adulto, e precisa desligar o computador para instalar um novo software. Eu não ia ser capaz de consertar o barco em pleno alto-mar, durante uma tempestade, entende o que eu quero dizer?

Sim. E foi preciso isso para torná-lo adulto...

Eu já poderia ter me convertido com metade do que houve [risos]. As pessoas não entendem – quando você faz bobagem, e é capaz de sentir aquela onda de energia de um milhão de pessoas dizendo “Que vergonha” – 20 minutos naquela fogueira são suficientes para mudar sua vida. O corpo não está preparado para lidar com a energia negativa de tanta gente.

E os negros que você conhece de verdade, como seu amigo Buddy Guy ou seu baterista Steve Jordan? Como se sentiram com suas declarações?

Hum... não quero entrar nesse assunto. Vou viver com isso para o resto da minha vida. Mas sim, eu magoei as pessoas. Lembro de ter encontrado uma garota negra linda que ama minha música e quer que eu me desculpe para que possa continuar adorando o que eu faço. Não esqueci. Aprendi toda a lição.


Você pediu alguma desculpa pessoal?

Sim. Também não quero falar disso, mas pedi. E gostaria de deixar esse assunto para lá, se possível.

Fale sobre Born and Raised, o novo disco.

Esperei desde 2010 para reiniciar tudo. Em algum lugar no meio do último ciclo de gravações, eu soube que não tinha feito um disco duradouro. Tinha parado de botar a mão na massa. Quando entrei no estúdio [em Nova York] em outubro, disse “Vou compor umas músicas ruins. Não vou me editar”. Algumas eram mesmo ruins – mas comecei a entrar em forma de novo.

Ouvi falar que foi uma época pesada: muitas baladas, compondo de ressaca...

Eu não ia para baladas. Mas estava bebendo. Havia algo de terapêutico em acordar com uma parte da minha cabeça que não estava me criticando.

Para onde você ia? Bebia sozinho?

Ia para bares com amigos, ou bebia no estúdio. E aí eu acordava, pegava o violão, deitava no sofá e compunha. Não me lembro de estar deprimido. A ideia era conseguir escrever sem criticar a mim mesmo. Eu estava em lugar estranho, bonito, onde a química no seu cérebro é como... seu inimigo não está em casa. Não faria isso de novo, porque meu corpo não aguentaria. Antes, à 1 da tarde eu já estava bem; agora levo dois dias. Mas sinto como se tivesse vivido esse clima musical nova-iorquino realmente autêntico. Ia para um bar, tomava uma cerveja, uma dose de Jameson, e descia a MacDougal Street no Village, acenando para os moleques da [universidade] NYU.

E a frase em “Speak for Me”, na qual você diz: “Agora a capa da ‘Rolling Stone’ não é a capa de uma ‘Rolling Stone’”?

Eu estava no estúdio, lendo uma edição da Rolling Stone com a Snooki na capa – uma em que ela está montada em um foguete. Para ser honesto, não era nem por causa dela, porque se você analisar as capas da revista desde o começo, vai ver que sempre houve o equivalente à Snooki no foguete. Mas eu folheei a revista e me senti meio perdido – tipo, “Em quem da minha idade eu posso me espelhar? Quem há em atividade que eu possa dizer ‘Gostaria de ser mais como esse cara’?” Digo isso mais como fã do que como cara que já esteve na capa da Rolling Stone.

No que você mudou como artista?

Acho que agora quero ser tudo o que evitei ser no meu começo de carreira. Sincero. Sensível. Um compositor e cantor. Adoraria ser o Jack White – ou talvez eu queira que as pessoas que gostam do Jack White gostem de mim também. Mas eu sou o cara que escreve músicas bonitas a 85 bpm.

Você costumava dizer que tinha medo de encontrar sua alma gêmea e ela não querer nada com você.

Discordo disso hoje em dia. Meu comportamento não é mais uma desvantagem. E há mulheres excepcionais de sobra. Me lembro de falar com uma garota em um restaurante, e ela foi realmente rude comigo. Saiu andando. Então ela voltou e disse “Me desculpe. Vamos começar de novo”. E eu respeitei tanto essa atitude, sabe? Não sei calcular o quanto incomodo as pessoas. Mas vou arrumar alguém que vai entender.

Acha que isso pode acontecer aqui em Montana?

Talvez. Mas não tenho namorada há muito tempo, e me sinto Ok com isso. Estou bem indefeso no momento. Não sou um homem armado. Nos meus 20 anos, eu tinha um charme quase bélico. Agora sinto que estou extremamente sensível e aberto ao amor. Não posso fazer nada se aquela coisa machista ainda está no ar. Quer dizer, como você pode ser chamado de mulherengo se a última vez que esteve com alguém foi em 2009? Não acho que se pode qualificar de machista e mulherengo um homem que não sai com uma mulher há três anos.

E a Taylor Swift? Em “Dear John”, música de 2010 que deu a entender que era sobre você, ela canta sobre ser “manipulada pelos seus jogos obscuros, distorcidos”.

Isso faz referência a que exatamente?

Ao fato de você ser aproveitador.

Isso é algo sobre o qual não tenho opinião nenhuma.

Opinião, tudo bem. Mas como se sentiu quando ouviu?

Me senti terrível. Porque eu não merecia. Hoje sou muito bom em assumir meus erros, e nunca fiz nada para merecer aquilo. Foi algo bem maldoso da parte dela fazer isso.


Você diz o sentimento ou o meio que ela encontrou para descrevê-lo?

Ambos. Nunca recebi um e-mail ou telefonema. Fui pego verdadeiramente de surpresa e fui realmente humilhado em um momento em que eu já estava na pior. Quero dizer, como você se sentiria se no momento mais baixo da sua vida, alguém o empurrasse ainda mais para o fundo?

O que mudou na sua vida?

Passei a achar que eu não deveria estar na cara das pessoas o tempo todo. Não fico procurando notícias sobre mim mesmo no Google. Os paparazzi não estavam escondidos no jardim porque sou “o cantor-compositor John Mayer”. Era a situação...

Tipo Jessica Simpson, Jennifer Aniston...

É. Transformei isso tudo em algo a meu respeito. De repente eles eram meus paparazzi. E as pessoas reagiam como: “Cara – não. Gosto de algumas das suas músicas. Mas saia do holofote”. As pessoas ficaram irritadas porque eu me considerava uma das dez maiores celebridades masculinas ou algo assim. E era: “Não, você é o cara que eu ouço quando estou fazendo omeletes”.

Qual o plano para ocupar seus dias?

Acordar de manhã. Tomar o café. Ir para a academia. Dirigir para o estúdio, botar o carro para trabalhar. Quero gravar discos de outras pessoas aqui, também. Todo mundo quer trabalhar com a Adele, e eu também. Disse a ela: “Se algum dia você quiser compor comigo, saiba que faço uma ótima faixa seis”.

E se virmos você no TMZ em um mês, saindo de alguma balada...

É simplificar demais dizer que ou você vive em Montana ou na balada. Sim, talvez eu saia algumas noites em L.A. Me divirta com meus amigos. Mas depois pego o avião e volto para cá. E aí vou ao mercado, encho minha geladeira, ligo a luz, varro o chão e pronto, estou aqui.

E você não se preocupa com o risco de ser sugado de volta àquele mundo?

Tive essa mesma discussão com meu terapeuta. Digamos que eu esteja no Grammy, e haja uma festa depois. Uma garota me dá atenção e ela é demais. Mas há um avião para Montana me esperando. O que eu faço? O que estou aprendendo é que vou ficar bem independentemente do que escolher, sou uma pessoa diferente. Estou pensando sobre quem vou colocar dentro desta casa. Tenho duas camas de solteiro em um quarto, com livros infantis entre elas.

Agora você construiu seu lar...

Estou pronto, cara. Passei dois anos sem que ninguém pensasse em mim, e agora estou tendo dificuldades para querer que pensem em mim de novo. Eu não ia ligar se fosse esquecido agora mesmo. E para ser sincero… acho que é até legal. Até que é bem legal não estar mais por aí.