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Garotas do Ano

Com apenas 26 anos, Lena Dunham criou Girls, o seriado mais comentado de 2012

Vanessa Grigoriadis Publicado em 10/08/2012, às 12h39 - Atualizado em 14/01/2013, às 12h53

REALISMO NA TV Lena (à esq.) com as companheiras de Girls, Zosia Manet e Allison Williams

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Na noite passada, às 2h da madrugada, Lena Dunham, roteirista, diretora e estrela do seriado Girls, que estreou recentemente na HBO brasileira, estava dormindo no apartamento dos pais dela, no centro de Manhattan, Nova York, quando o fox terrier de 11 anos da família a acordou para fazer xixi. Ela diligentemente saiu com o cão, mas percebeu que não tinha levado a chave da porta, e os pais estavam viajando, e o vizinho não tinha uma cópia porque, quando isso aconteceu da outra vez, Lena não devolveu as cópias a ele. Dois chaveiros israelenses vieram ajudá-la, um parecendo meio drogado e outro com um rabo de cavalo. “Achava que havia uma ciência em ser chaveiro, mas eles só desparafusaram e bateram na porta o máximo que conseguiam”, ela conta. “Um deles, enquanto desparafusava, olhava nos meus olhos, e fiquei muito apavorada. Então o telefone tocou, e o toque era ‘Black Betty’, do Ram Jam, e por algum motivo o medo passou.”

Esse é um comentário clássico de Lena – uma mistura de autodepreciação, um medo de estranhos típico de Woody Allen e uma introdução espirituosa ao fato de que até recentemente ela morava com os pais. Não que ela ficasse lá o tempo todo. No ano passado, morou boa parte do tempo sozinha em Los Angeles, mas houve um problema: ela não sabe dirigir. “Estava fazendo aulas de direção com um cara chamado Leo, ele fala muito, mas minha curva de aprendizado não é clara”, afirma. “Não consigo dirigir sob nenhuma condição adversa, como quando tenho coisas demais na cabeça ou estou com fome.”

São coisas engraçadas de se ouvir dela, uma pessoa criativa que, como muitos artistas distraídos, não é exatamente o ser humano mais equilibrado. No momento, ela está sendo aclamada como um gênio, recebendo uma onda imensa de elogios da crítica, que chamou o seriado de “uma pedra preciosa”, “loucamente inteligente”, simplesmente genial na forma como resume os problemas que pessoas de 20 e poucos anos enfrentam quando não têm emprego. O programa é um ímã para os blogueiros norte-americanos, que buscam freneticamente algo para atacar: assim surgiu a ideia de que o programa era insensível a questões raciais (nenhum negro está nos papéis principais) e levemente classista, já que as quatro atrizes principais são representadas por mulheres privilegiadas: “Um programa de TV sobre filhos de gente famosa e rica... e quão difícil é saber quem você é”; em termos de ser a voz de uma geração, uma “tremenda decepção”; e um exemplo da máquina de marketing da TV enfiando coisas em nossa goela abaixo. “Você entrou no Twitter ontem à noite?”, escreveu o blog Gawker. “Estava como uma maldita música do Duran Duran – ‘GIRLS, GIRLS, GIRLS’.”

Então, é um bom seriado, com tramas totalmente desenvolvidas e arcos dramáticos envolventes, mas também há uma questão maior aqui: como os personagens são tão autoconscientes e como fazem sexo de uma forma nova para as mulheres da televisão (mas não para as da vida real), Girls é um programa feminista importante em um mar de ofertas da cultura pop que raramente ressoa na vida interna das mulheres de forma honesta. Ou pelo menos na vida interna de um certo tipo de garota – uma hipster sociável que recebeu dos pais tudo na vida (amor, dinheiro, formação universitária), mas ainda não consegue ser totalmente independente.

Lena cuidou dos personagens femininos complexos, garantindo que saíssem da dicotomia desgastada de garotas boas e más, virgens e vadias, puritanas e bruxas – as coisas são estranhas demais na vida delas para isso. Ela revira o diálogo sobre uma lista enorme de questões femininas, incluindo assédio sexual (estranhamente normal para algumas mulheres), DST (não é tão ruim quanto se pensa) e amizade colorida (não é legal, mesmo que se finja que é). Até o aborto é examinado, com Lena focando na gangorra de emoções de uma mulher prestes a fazer um: primeiro, ela fala o quanto quer ser mãe (“Quero ter filhos com homens de muitas raças diferentes”), depois vai para bares, dando amassos em um cara qualquer no banheiro só para tentar sentir se ainda é sexy.

Ao retratar a vida de mulheres com tanta honestidade (e ironia, às vezes), Girls é o antídoto perfeito para a discussão sobre questões femininas. Lena afirma que queria abordar a complexidade da vida das mulheres na série, embora “não como naquele episódio de Uma Galera do Barulho no qual alguém é vítima de abuso sexual”, diz. “Não decidi fazer uma declaração – só queria elaborar personagens interessantes, mas, se por acaso o pessoal é político, então Girls é político.”

Mas é uma surpresa descobrir que Lena é extraordinariamente equilibrada ao vivo, com a confiança comum às pessoas criadas em Manhattan.


Já tínhamos nos encontrado, em um jantar com amigos em comum em Los Angeles; como acompanhante, ela levou um chef mal-humorado do Brooklyn que não lhe deu muita atenção. “Aquela relação foi muito importante na minha vida, mas acho que, se você perguntar a ele, a resposta seria: ‘É, dormi com essa menina algumas vezes’”, afirma Lena, com o canto da boca levemente para cima. “Tinha acabado de receber meu primeiro pagamento, US$ 1.300, e gastei no Chateau Marmont tentando impressionar quem não gostava de mim há dois anos. Meu pai até me disse para não levá-lo para Los Angeles, mas retruquei: ‘Pai, você não entende relações complexas e pós-modernas’, só que cheguei lá e chorei durante dias.” Ela ri um pouco. “Você só tem de perceber: ‘Ok, isto me dá vergonha, mas faz parte da minha mitologia pessoal’.”

Nesta tarde, depois de uma noite de insônia, Lena chega a um restaurante no Soho de camisa listrada e cardigã rosa. Ela é mais bonita do que no seriado, com um brilho rosado e olhos castanhos que parecem estar completamente desprovidos de malícia; o cabelo é bem penteado, diferentemente de em Girls, e ela usa vestidos antigos estranhos que ressaltam suas gordurinhas. “Gosto da ideia de uma personagem com essa aparência”, diz, explicando suas escolhas de figurino. Ela também parece ser mais velha, o que aparentemente é o caso desde que era pequena. Mesmo no ensino fundamental, na Friends Seminary, uma escola particular no centro de Manhattan, Lena era solitária. “Não tive amigos na escola, o que foi majoritariamente minha culpa”, afirma, “embora ache que crianças não sejam inteligentes o suficiente para traduzir a ideologia Quaker de ‘Todos somos um, ninguém é melhor do que ninguém’, então o que entendem é ‘Somos todos iguais, e, se você é diferente, é ruim’.”

Lena preferia ficar com os pais, artistas visuais que trabalham com temas psicossexuais (a mãe fotografa casas de boneca na maior parte do tempo, e o pai faz pinturas figurativas de homens com pênis no lugar do nariz). Com eles, podia ser tão esquisita quanto quisesse. “Achei a infância assustadora, e meu lar era desafiador, mas seguro”, ela conta. “Entendi que meus pais me amariam para sempre independentemente de meu comportamento, enquanto com meus colegas havia um teste constante. Também era uma criança muito ansiosa. Tinha todos esses medos, tipo: ‘Será que tenho leucemia?’. Era difícil para mim, e às vezes ainda é, estar em meu grupo social e simplesmente aproveitar minha experiência.”

A puberdade também não foi fácil. Lena foi uma criança magra, mas acordou um dia e descobriu que tinha engordado 13 kg. Criou uma nova identidade em torno desse novo corpo: uma baladeira atrevida e pesada, com botas plataforma, franja curtíssima e piercing na língua (“não que eu estivesse fazendo alguma coisa com aquela língua furada”, diz). Virou vegana – “não do tipo saudável; uma do tipo ketchup com batata frita” – o que, explicava a todos, fazia parte de sua entidade política, uma postura contra fazendas industrializadas. Escrever sozinha, em casa, tornou-se um refúgio, ainda mais quando ela finalmente começou a fazer amigos na escola. Era uma forma de entender as outras garotas, de se colocar no lugar delas. Na Saint Anne’s, uma escola liberal de ensino médio no Brooklyn, ficou amiga de Jemima Kirke, que faz o papel de Jessa no programa. “Todos eram obcecados com Jemima – ela era uma pessoa muito legal – e um dia ela veio até mim e disse: ‘Você é engraçada’. E pensei: ‘Sou?’”, diz Lena. “Qualquer experiência legal que tive no ensino médio foi seguindo a Jemima. Até minha mãe dizia: ‘Não acredito que essa garota é sua amiga’.”

É verdade que o elenco de Girls é incrivelmente privilegiado: Jemima, 27 anos, é filha de Simon Kirke, baterista do Free e do Bad Company; Zosia Mamet, 24, é filha do dramaturgo David Mamet; Allison Williams, 24, é filha do jornalista Brian Williams. Embora, como Jemima já disse, o fato de todas terem pais famosos “pareça nojento” para quem é de fora, Lena afirma que é uma coincidência de escalação, ainda que também possa ter sido resultado do mundo de onde ela vem. Nem Zosia (um espírito livre e tranquilo de Los Angeles que passa a maior parte do dia cavalgando, tocando em uma banda de bluegrass com a irmã e lendo roteiros) ou Allison (uma linda garota formada em Yale que praticou diversos esportes quando era mais nova, mas gostava muito mais de atuar) eram amigas de Lena antes de serem escaladas. Quanto a ser insensível por não incluir diversas etnias no elenco, ela diz que pede “desculpas, embora não me arrependa do seriado que fiz... Nunca tentei iluminar o evangelho secretamente difundido de uma cultura totalmente branca. Sou de Nova York, interajo com pessoas de raças diferentes o tempo inteiro”.

As quatro garotas têm pelo menos uma semelhança – são caseiras (Jemima tem uma filha recém-nascida e recusou uma entrevista para ficar em casa com os filhos, de acordo com Lena). “Nenhuma de nós vive a vida das garotas do seriado”, diz Zosia. “Um jantar conosco não será maluco. Todas vamos para casa à noite. Tomamos chá.” Lena não está namorando, embora admita que “há algumas mensagens de texto dizendo: ‘Seu rosto me segue por onde vá, penso em você o tempo todo’. E penso: ‘Isso não pode ser verdade’”. Ela sorri. “Diria, sem revelar nada específico sobre mim, que o conhecimento que consegui compartilhar no programa provavelmente vem de um grupo de parceiros menor do que o que se espera, considerando que escrevo sobre sexo o tempo todo. Não saio muito, para ser totalmente sincera.”


Provavelmente, essas atrizes são iguais de outra forma: o sucesso era importante para os pais delas, como era para os de Lena, e elas começaram cedo. Lena começou a fazer filmes na faculdade, em Oberlin, e dirigiu Tiny Furniture, um filme semiautobiográfico, aos 21 anos. Foi assim que Jenni Konner, produtora de Hollywood que trabalha com Judd Apatow desde o extinto seriado Freaks and Geeks, conheceu o trabalho de Lena; elas levaram Girls para a HBO juntas. Isso não quer dizer que o elenco seja adulto. Allison, que se mudou para Los Angeles depois de se formar em Yale, voltou para Nova York para filmar Girls, mas não tem um lar. “Durmo no sofá-cama dos meus pais”, conta, tomando um chá em uma tarde recente, usando jeans rosa-choque e escarpins altíssimos Madison Harding. “Fica em um edifício lindo, mas é engraçado, dá muita humildade”, ela diz, sorrindo ironicamente.

Depois do almoço, quando Lena sai do restaurante, abre um guarda-chuva com o logotipo de Girls que ganhou na estreia. “Exagero?”, pergunta. Caminhamos algumas quadras até uma pet shop para comprar uma nova cama para o terrier dela. “Amo esta loja – vinha aqui para comprar coisas para meu gato sem pelos”, conta. “Meus pais diziam: ‘É como ter um macaco’.” Pega algumas balas para cachorro e escolhe uma cama pequena, branca e fofa. É um prazer estar com Lena, uma presença tão genuína e atenciosa que quase se esquece que sua personagem deixa algumas pessoas desconfortáveis, especialmente nas cenas de sexo. Há mais gente que não gosta de Girls além de blogueiros e aspirantes a diretores – alguns rapazes, em particular. Como ela não tem um corpo de modelo quando está nua, eles se sentem como se fossem forçados a assisti-la. Não gostam dela porque simplesmente não a acham atraente. É bem misógino, quando se pensa a respeito: ninguém diria o mesmo sobre as formas arredondadas de Seth Rogen e Jonah Hill na época de Ligeiramente Grávidos e Superbad. Não é uma coincidência que Judd Apatow, diretor desses filmes, seja produtor executivo de Girls. Lena é a versão feminina de seus anti-heróis, presa no espaço liminar entre a infância e a vida adulta, uma mistura de características dessas duas fases da vida.

Enquanto andamos, conversamos sobre o novo apartamento que ela comprou no Brooklyn. É um imóvel de um dormitório com banheiro de azulejos rosa e pretos, e ela começa a falar dele com um misto de empolgação e trepidação. Não é na parte do bairro onde o programa é ambientado – e aonde Lena diz que vai ocasionalmente, “porque é onde os meninos da minha idade estão” –, e sim na parte verde mais perto de Manhattan. “Acho que estou pronta para me mudar – pensava que, no minuto em que saísse, acabaria tudo”, ela afirma, referindo-se, talvez, à sua meninice. Expressar tanto de si mesma no seriado tem funcionado como um exorcismo, deixando-a com menos medo de encarar as realidades da vida adulta. “Acho que agora entendo que, se tiver uma emergência, sempre posso procurar meus pais ou passar a noite com eles, e estou empolgada em ter uma fase da vida na qual posso chegar em casa e não ter de explicar a ninguém como estou me sentindo sobre meu dia.” Ela sorri. “Entendo os tons de cinza.”