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Sai a Ópera Rock, Volta o Punk Básico

Série de três álbuns do Green Day terá tributo a Amy Winehouse e hino ao movimento Occupy

David Fricke/ Tradução: J.M. Trevisan (Frank Ocean) Publicado em 11/08/2012, às 11h44 - Atualizado em 13/08/2012, às 14h29

EM FRENTE Dirnt, Fricke da RS EUA, Armstrong, Cool, Lord-Alge (da esq. para a dir.)
GREG SCHNEIDER

A expressão de Billie Joe Armstrong é confusa enquanto ele observa a partitura aberta em uma cabine no Ocean Way Studios, em Los Angeles. O vocalista e principal compositor do Green Day não sabe ler partituras. “É estranho olhar algo feito para o que eu escrevi e não entender nada”, ele diz, rindo. “É como tentar ler Braille.” É o último dia da gravação da trilogia de novos álbuns da banda: 36 músicas divididas entre ¡Uno!, ¡Dos! e ¡Tré! , que serão lançados pela Warner em 25 de setembro, 13 de novembro e 15 de janeiro, respectivamente. Armstrong, o baixista Mike Dirnt e o baterista Tré Cool trabalham com o coprodutor de longa data (e presidente da gravadora) Rob Cavallo nos últimos overdubs.

Entre as gravações, Armstrong explica a ordem sonora e temática dos novos álbuns: “O primeiro é power pop. O segundo é um rock mais garageiro, meio anos 60. E o terceiro” – ele faz um gesto mostrando a cabine onde as cordas estão sendo gravadas – “é para ser épico.”

“No primeiro álbum, você está entrando no clima da festa”, ele continua a explicar, referindo-se à batida meio The Who e ao tom estilo Cheap Trick de “Stay the Night” e “Carpe Diem”. Em ¡Dos!, diz ele, “você está na festa” – uma boa descrição para a voluptuosidade, loucura e velocidade de “Fuck Time” e “Wow, That’s Loud”. “E no terceiro álbum...” – Armstrong faz uma pausa, procurando a analogia correta. “Você está limpando a bagunça.”

No dia seguinte, o Green Day está em um estúdio em Tarzana, subúrbio de Los Angeles, mixando faixas de ¡Uno! com Cavallo – que coproduziu o multiplatinado Dookie (1994) – e o engenheiro de som Chris Lord-Alge. “Queríamos voltar à simplicidade de Dookie”, diz Cavallo. “Também queríamos resgatar as coisas pré-Dookie, nosso amor pelas músicas dos anos 50 e 60, o rock and roll mais puro. Você não tem um ‘zilhão’ de elementos na música. A maior parte é bateria, baixo, duas guitarras e vocais.”

“Estávamos só a fim de fazer um disco de power pop matador – sujo, básico”, diz Dirnt, referindo-se ao peso sociopolítico dos últimos dois álbuns do Green Day, American Idiot (2004) e 21st Century Breakdown (2009). “Em vez disso”, ele diz, orgulhoso, “engatamos em nossa própria versão de Exile on Main St.”

No lounge do estúdio, Armstrong descreve seu método de composição para os novos álbuns como “atirar para todos os lados. Qualquer verso ou gancho que venha à mente, jogue no papel. E eu estava escrevendo sobre garotas de novo. Mas enquanto homem, era mais sobre tensão sexual – como lidamos com isso, como perder o controle disso”.

Armstrong saiu de sua maratona criativa “com cerca de 70 músicas – algumas eram fragmentos, outras estavam prontas”. O Green Day acabou gravando mais de 40 delas. “Em um plano mais amplo, quando você encara estes álbuns”, sustenta Armstrong, “eles são como uma versão atualizada do que vínhamos fazendo nos últimos dois. É político” – uma referência a “99 Revolutions”, de ¡Tré! , composta na época dos protestos do Occupy Oakland, no ano passado. Há perda também: “Amy” é um réquiem quase despido, no fim de ¡Dos! , em homenagem a Amy Winehouse. A demo original de guitarra e voz gravada em casa por Armstrong foi levemente agraciada com baixo e cordas. “Eu queria que fosse como um suspiro leve”, diz ele sobre o timbre do baixo.

“Amy” é também a ponte para ¡Tré! , que abrirá com “Brutal Love” e inclui outra despedida, “X Kid”, um pop raivoso e distorcido escrito após o suicídio de um amigo. “Ele era uma pessoa linda, que não estava crescendo – e não deu para perceber isso até ser tarde demais”, diz Armstrong com um suspiro profundo. “Não quero admitir que sou uma porra de um adulto, que estou na meia-idade. Mas consigo admitir que não sou mais um moleque.”

Cavallo não viu problema algum, como produtor ou chefe da gravadora, na ideia de três álbuns. “Quando você ouvir as 36 músicas”, ele diz, “garanto que não há uma ruim.” Mas ele admite que encontrou posições mais céticas em sua própria empresa. “Isso nunca foi feito antes, por isso havia muito medo.” Uma das ideias iniciais – a de lançar os álbuns com uma semana de diferença entre eles – foi considerada logisticamente impraticável. Outra – lançá-los a cada seis meses – “não funcionou. Criativamente, estes álbuns precisam estar juntos”. “Essa é a parte engraçada”, diz Armstrong antes de voltar para a sessão de mixagem. “Começamos com algo simples. Mas ainda assim virou uma loucura.” Ele ri alto. “Não sei fazer de outro jeito. O Green Day é assim.”