Pulse

Tom Zé e o Tropicalismo

Antônio do Amaral Rocha Publicado em 22/08/2012, às 20h00 - Atualizado às 20h07

DE OLHO EM TUDO - Tom Zé continua animado e tenso com os shows
DIVULGAÇÃO

Depois de "ressuscitado" na década de 90 com a ajuda de David Byrne, Tom Zé já estudou o samba, o pagode, a bossa nova e agora parece disposto a compreender o Tropicalismo que ele mesmo ajudou a criar. Nesta entrevista, complemento da conversa publicada na edição 71 da Rolling Stone Brasil (leia aqui), o cantor e compositor fala não só sobre o novo disco, Tropicália Lixo Lógico, como divaga sobre o passado, além de exaltar a representatividade de "Atoladinha", funk do MC Bola de Fogo.

Como foi a sua educação na primeira infância em Irará (Bahia)? Estava presente o medo de Deus, do castigo?

Perfeitamente... e teve um fato histórico que transformou completamente certos detalhes dessa educação. Vou divagar: houve uma corrente de troca na Europa toda. Deixa eu falar dessa coisa exterior que tem a ver com a gente. Não se incomode que isso é verdade absoluta, pelo menos está registrado nos livros que eu li. A península ibérica, invadida pelos árabes, passou a ser educada pelo zero, digo eu, brincando – o povo mais inteligente daquele momento tinha acabado de inventar o zero. Você pode imaginar todas aquelas civilizações anteriores sem o zero? Além disso, eles tinham uma ciência desenvolvida, uma arquitetura maravilhosa, que é o que até hoje se vê em Barcelona, Madri, e que se orgulham de mostrar. Ciência, matemática, náutica, e esse povo, os árabes, ficou lá na Europa desde o século 7 até o século 15. Quando eles saíram da Europa em 1492, tempos depois, esse povo altamente influenciado e injetado de cultura e de tecnologia fizeram os navios e saíram para os descobrimentos.

O que isso tem a ver com a Bahia e Irará especificamente?

As bandeiras que foram para a minha região em 1576 nunca mais voltaram de lá, ao contrário das que foram para o Mato Grosso, Goiás, Brasil Central. Daí temos quatro séculos de miscigenação, ficaram pobres e miseráveis, mas amavam a cultura dos avós e mantiveram isso nas danças e na música. Agora quem endossa o meu cheque é o escritor Euclides da Cunha, eu não sou autoridade: o sertanejo vive como um cientista, presta atenção a tudo, é um analfabeto apaixonado pela cultura dos avós, e além disso, seus antepassados foram influenciados pelos árabes que eram aglutinadores de tudo de cultura que tinha no mundo.

E como isso deu?

Os portugueses trouxeram para cá os provençais e até os poetas concretos se dizem influenciados pelos provençais e, eles, a toda hora acusam a presença da poesia provençal no Nordeste. Então, todos os tropicalistas na sua região tinham os mesmos gestos e hábitos culturais e tudo o que circulava entre nós era na linguagem provençal.

Você pode citar exemplos?

Por exemplo, lá tem uma dança dramática, a chegança, que trata da construção de navios, de coisas da Escola de Sagres, falando da canção celta que influenciou a canção brasileira, da canção árabe que influenciou a canção brasileira, enfim, tudo isso estava lá na nossa vida e se tornou uma coisa básica. E aí a gente chega na escola primária, que é regida pela palavra escrita. Nesse ponto a educação da gente recebe um choque maravilhoso, uma interpretação do universo! Essa coisa que vai provocar o lixo lógico. Comigo aconteceu assim, e eu acho que com a sensibilidade dos poetas e dos artistas do tropicalismo foi a mesma coisa. A escola falava coisas, você ia pra casa e, puxa... No princípio eu ficava alumbrado. Será que é assim mesmo? Aquela coisa escrita... eu olhava e dizia: todo mundo está entendendo exatamente a mesma coisa! Não é possível!

E esse tipo de impressão aconteceu com você nessa idade ou você formulou depois?

Nessa idade, e depois me lembrei, claro, porque isso foi muito radical. E eu passei tardes pensando: será que o mundo é assim mesmo? Demorei muito pra acreditar que o mundo era assim, que as pessoas do mundo podiam ler. Eu comparava com a minha vida, o saber, a vida organizada, e era quase igual. Acho que isso de comparar era normal em pessoas inteligentes, em pessoas sensíveis. E aí no Ginásio foi fatal a chegada de mais coisas, mais conhecimentos. O hipotálamo guarda, pois guarda até o homem das cavernas, a pré-história em nós.

Fica claro que você tem uma percepção diferenciada da realidade que te cerca.

Espera aí... se eu tenho uma percepção diferenciada, imagine gênios como Caetano e Gil!


Você dá bastante importância à descoberta das coisas, como aquela história que você conta sobre a lâmpada. Você se assusta!

Os sustos que eu levo e levei, eu os trago para pensar neles. Todo mundo leva sustos quando vê uma lâmpada elétrica pela primeira vez. O camarada da modernidade, que eu quero lembrar o nome, ele descreve a lâmpada como sendo a informação sem conteúdo, a informação por si própria. Vou me socorrer da Neusa [a esposa dele] ... "a coisa é a mensagem..."

"O meio é a mensagem", expressão do Marshall McLuhan.

Ele mesmo, é isso aí, não sou eu não. Eu fiz essa observação sem a capacidade até de descrever, mas a modernidade já fez grandes descrições e observações sobre a luz elétrica. Aliás, todo mundo toma esse choque.

Tendo sete anos de idade e dotado dessas percepções, como você passa a viver nesse meio que você descreveu? Existia um estranhamento entre você, seu pai, mãe e irmãos?

Estou entendendo. Estranhamento não, tinha tentativas de racionalização das coisas, do aprendizado. Minha irmã ganhou uma velocípede e eu queria descrever para ela em palavras que enquanto o pedal estava na parte de cima, ela devia empurrar e deixar o outro pé folgado e quando o pedal chegava embaixo, o outro pé fazia força e esse ficava folgado. Eu queria explicar isso em palavras... É claro que eu expliquei relativamente mal, e dali a pouco os outros irmãos disseram "que nada" e saíram empurrando e ela andando de velocípede por um método não racional. Esses estranhamentos eu tive e tenho a vida toda.

Quando você começou a compor?

Em 1950 eu já fazia canções, e um incidente me tirou a consciência quando um rapaz me mostrou uma música, que é um contraponto do primeiro grau, nota contra nota, algo que me tirou do chão. Esse amigo que tocava flauta me disse: "Agora não toco mais flauta, toco violão". E tocou... [neste momento, Tom Zé pega o violão e toca "De Papo pro Ar", de Joubert de Carvalho, mostrando o quanto essa música o emocionou]. Esse contraponto de nota contra nota, com movimento contrário, me tirou do lugar, o dia virou noite. E daí eu comprei um violão no outro dia, com método e tudo, e comecei a luta. Uma vez tentei estudar na banda de música, tocando sax tenor, mas não cheguei a aprender, porque o dono da banda, veja que coisa curiosa, disse que eu estava "empatando" o instrumento e que eu era filho de rico e por isso não ia tocar na rua. E me botou pra fora da escola! [gargalha]

Quando acontece essa aproximação com os músicos jovens, como você fez agora no álbum Tropicália Lixo Lógico, quem lucra mais?

Eu lucrei muito, não sei se eles lucram. O Emicida trabalha com coisas que eu nunca pensei em encontrar num compositor teoricamente sem informação sofisticada, mas só teoricamente. Fiquei assustado de como uma pessoa por intuição pode achar essas coisas! Mallu Magalhães foi outro tipo de admiração. Uma menina, que, por acaso, fazia música e que começou a ter que responder por isso quando assumiu que era isso mesmo. E aí ela se transformou, se metamorfoseou, muito precocemente. Um casamento, uma ligação séria, uma profissão onde as pessoas tentam procurar intimidades e que ela sai driblando, fazendo disco e se modificando o tempo todo. E assim com cada um dos outros. Consegui descobrir coisas maravilhosas no Pélico, no Washington e no Rodrigo Amarante.

Em Tropicália Lixo Logico existem invenções no nível da linguagem, trocadilhos com letras e temas do tropicalismo e mesmo palavras adaptadas conforme a necessidade, como Arsitote, por exemplo.

É isso sim, eu venho de um mundo em que meu pai chamado Seu Everton e o nome dele se transformava no balcão da loja em Se Evo, Seu Évito, um mundo onde a palavra é modificada para o conforto do falante. E hipotálamo eu botei hipotalo, mas a licença poética é uma coisa com que todo mundo brinca. Aristóteles vira Aristote, Aristotis ou seu Ari. O cancioneiro popular tem essas coisas. Acho ótimo descobrir que peste é uma rima perfeita para best e isso foi uma coisa que eu fiquei feliz de ter achado.

E diferente dos anteriores, agora você só tem uma parceria. São 16 canções, sendo cinco de manifesto tropicalista.

Tem uma, a "NYC Subway Poetry Department", que eu tive ajuda de meu professor de inglês por causa da letra, mas as outras eu fiz sozinho porque algumas eram sobre a Tropicália e eu não podia pedir a ninguém. Soube que a Mallu falava de mim com entusiasmo. Ela ficou de vir aqui e só o fato de ela aparecer me entusiasmou de tal maneira que eu fiz três ou quatro músicas daquelas, e uma delas ela canta, "O Motoqueiro e Maria Clara".


E tem até uma canção provençal. A "Navegador de Canções" é uma cantiga...

É uma boa ideia. Olha, é uma boa interpretação, eu não havia pensado nisso. A Neuza que é apaixonada por essa música... muito bem. É uma boa maneira de falar dela.

Você se preocupa com minúcias e acaba por se diferenciar de outros criadores da música popular.

Desculpe-me, mas daí você fala de uma especialização que eu dou corda, mas quando a gente está falando de Gil e Caetano, a gente está falando de gênios, não estamos falando de uma tendência. Gênio da percepção de que o mundo todo é compreendido em forma de faíscas, e isso é outra coisa. Está bem, eu tenho esse lado, mas não se esqueça de que o cara que tem a capacidade de percepção superaguçada, ele não pode nem teorizar, não há tempo, senão ele vira escritor.

Como é que acontece para você o lance da composição? Você fica buscando ou a música vem pronta?

Os compositores têm o hábito de uma hora pegar o violão e desenvolver uma ideia. No meu caso, eu tenho a ideia, penso como vou fazer, tomo nota. Às vezes, aparece a ideia pela melodia, é natural isso, daí eu tento colocá-la num contexto, vejo se posso aproveitar no contexto que estou buscando. Daí começo a carpir, a palavra é ralar. Eu sou assim, luto muito, sou um péssimo compositor. O que eu tenho é capacidade de seleção.

Você acredita em alguma entidade religiosa? Tem alguma utopia?

Existe o deus do holandês Baruch Spinoza, aquele que fala que deus é a natureza, o universo, e isso pode ser alguma coisa que eu poderia pensar. Sobre a utopia, a gente sente falta, precisamos de uma utopia. Depois que o comunismo acabou ficou uma vida muito sem chão. Claro que o comunismo era uma facilitação também. Não precisava nada, bastava ser comunista, que era o contrário do que Sartre dizia: bastava ser cristão pra não se preocupar com porra nenhuma, podia sair matando a vontade que estava tudo bem. Mas agora eu passo a concordar com o Caetano, quando ele diz que qualquer coisa "ideológica" atrapalha a arte. Alguém já afirmou que os artistas políticos com sua arte didática pensam que o mundo estaria certo se tivesse um governo certo, e eles não sabem que estão destruindo o mundo com ideias totalmente irresponsáveis, porque a natureza humana não é assim.

Entre a escala tonal e a escala atonal, qual você prefere?

Sobre isso eu gostaria de falar. A atonalidade se tornou uma espécie de obrigação que desencadeou o dodecafonismo e a música serial. E parece a mim agora, nestes dias, que foi uma infelicidade para essas pessoas que passaram a ter essa obrigação nesse mundo musical onde não se podia mais fazer outra coisa se não isso, por que em caso de não se fazer, estavam completamente por fora. Isso parece um castigo. E em toda música atonal, dodecafônica, serial etc., uma das maiores características é que para ter interesse naquilo é preciso ter uma decisão bastante forte e manter essa decisão mesmo que o coração e a mente estejam dizendo "eu não aguento mais". Entretanto, eu só posso dizer isso depois de Philip Glass, que conseguiu criar interesse do acontecimento sonoro, que nem precisa voltar à harmonia funcional, e que conseguiu criar outra coisa que não as tensões. Então é o caso de se dizer: perdeu-se muito tempo com essa bobagem, Agora eu tenho o Glass para argumentar contra a música serial, dodecafônica e também a música tirada de máquinas de Stockhausen e todos os seus seguidores, que são um grupo de músicos interessantes em São Paulo, por exemplo, mas eu me perdoo por não ter interesse e não quero ter.

Mas em algum momento isso já apareceu em sua música?

Desculpe, mas os meninos do rap também criam entonações que são justificadas por uma letra que passa a ter importância e que representa hoje uma face da sociedade. Então, essa é uma bela música, cuja fonte foi o mundo da atonalidade, e de forma intuitiva. Teve um garoto que compôs, no universo inesperado da música funk, o "tô ficando atoladinha" [MC Bola de Fogo], que da primeira vez que se canta até a última, a música sobe em comas, mas se começa em dó, nunca chega a ré. E, entretanto, cria um significado excepcionalmente bem achado que é o do aumento da excitação sexual, traduzido nessa música. Veja bem, eu não estou dando uma penadinha, eu estou falando de uma coisa exata. E aí tem o meu estudo, que eu quero dizer: é um metarrefrão, plurissemiótico e microtonal. Essa música é uma maneira de falar da excitação sexual de um jeito absolutamente genial.