“Nós Radicalizamos, mas a História nos Deu Razão”

Em 1992, o movimento dos “caras-pintadas” deu início ao processo de impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello. Testemunha ocular dos fatos, o hoje senador LINDBERGH FARIAS traz à tona as lembranças dos dias de rebeldia

Redação Publicado em 17/09/2012, às 11h56 - Atualizado em 29/09/2012, às 18h06

<b>POR UMA CAUSA</b> Passeata dos caraspintadas em São Paulo: a juventude foi às ruas
EDER CHIODETTO/FOLHAPRESS

Há 20 anos, em 11 de agosto de 1992, participei do início de um movimento que levaria ao impeachment do primeiro presidente eleito no país após a ditadura, Fernando Collor de Mello. O levante dos “caras-pintadas”, como ficou conhecido, começou com uma grande mobilização estudantil e da esquerda, mas ganhou a classe média. Trabalhadores, famílias e jovens tomaram ruas em protesto, levando o Congresso a votar pela saída de Collor menos de dois meses após o início das manifestações.

No começo de 1992, eu não poderia imaginar o que os meses seguintes me reservariam. Era estudante de medicina da Paraíba e me mudei para o Rio de Janeiro em maio para assumir a presidência da UNE (União Nacional dos Estudantes), entidade que estivera na linha de frente da resistência à ditadura militar, depois do movimento das Diretas e à qual caberia organizar as primeiras passeatas do “Fora, Collor!”.

O Brasil daquela época vinha experimentando várias coisas novas: tinha realizado em 1989 sua primeira eleição direta em quase três décadas; a primeira com a participação de um líder operário, Lula, que quase foi eleito; e sediaria o maior encontro de chefes de Estado já realizado até então, o Rio-92. Era natural, nessas circunstâncias, que o presidente eleito fosse o depositário de grandes esperanças e de uma enorme responsabilidade.

Os rumos tomados pelo governo Collor, porém, não fizeram jus a essas esperanças. E uma série de denúncias de corrupção e tráfico de influência contra o presidente Collor começou a aparecer na

imprensa, a partir de uma entrevista de seu irmão, Pedro Collor, à revista Veja. Entidades como a OAB e a CNBB começaram um movimento pela ética na política, com atos pequenos, que reuniam cinco mil pessoas no Rio e em São Paulo. Organizações mais à esquerda começaram ali a pedir a saída do presidente. A UNE, num ato de rebeldia, decidiu abraçar essa bandeira. Fomos criticados pelo radicalismo: diziam que isso ia levar ao isolamento. Mas a história mostrou que nós estávamos certos.

Os jovens, muitos deles estudantes do ensino médio, aderiram rapidamente – muitas vezes desobedecendo a seus pais e pulando o muro da escola para ir às passeatas. Em breve, arrebataram as famílias, que iam às ruas unidas marchar contra o presidente. Imagine a força que tinha em casa um garoto de 14 anos que ia marchar contra o Collor. Hoje sou pai, tenho um filho de 16 anos e sei o quanto isso influencia.

Eu me lembro de ter vindo de Brasília para São Paulo de ônibus para a primeira passeata, que começou no Masp, em 11 de agosto. Cheguei cedo para fazer mobilização na USP, passar em salas de aula. Reunimos 20 mil pessoas, com direito à presença de Lula, convocado às pressas por mim graças a um orelhão na Avenida Paulista e uma ficha telefônica. Foi um estouro, porque não havia no Brasil nenhuma mobilização dessa magnitude. Nem no mundo, na verdade: vivíamos um período de excepcional calmaria política após a queda do Muro de Berlim, em 1989, que alguns chegaram a chamar de “fim da história”. No Brasil, a história estava apenas começando.

Collor respondeu ao nosso ato, convocando a população a sair de verde e amarelo no domingo, dia 16 de agosto. E aí veio a primeira grande surpresa: as pessoas saíram às ruas no domingo, sim, só que de preto – para protestar contra ele. Esse dia ficou conhecido como o “Domingo Negro”. O destino do levante estudantil e do Presidente da República começava a ser selado ali. Os mesmos jovens que enfrentaram seus pais para marchar pelo “Fora, Collor!” também foram responsáveis pelo traço que deu nome ao movimento. Foram alunos de um colégio de São Paulo que começaram a pintar o rosto. A moda pegou.


Ficou claro desde o início que aquele era um movimento político diferente. As pessoas não queriam ir às ruas para ouvir comício: elas queriam falar. Nós, da liderança, tínhamos uma visão de militantes de esquerda. Queríamos tirar Collor do poder pelo projeto que ele estava desenvolvendo no país, pelo modelo neoliberal. Mas a insatisfação dos jovens não era só com isso: eles protestavam contra a corrupção, contra a injustiça social, contra a desigualdade. Encontrava-se com uma insatisfação muito mais ampla, de um país que lutou durante décadas pelo direito do voto, conseguiu exercê-lo e sentiu-se traído pelo seu primeiro eleito. E o jeito de as pessoas se manifestarem era pintando a cara. E cantando. Surgiam marchinhas, coros, como “PC, PC, vai pra cadeia e leva o Collor com você!”, e outras rimas impublicáveis. Isso tudo vinha de baixo, espontaneamente.

O movimento teve, ainda, uma heroína involuntária e pouco reconhecida: a atriz Cláudia Abreu. Na época, a TV Globo estava exibindo uma minissérie chamada Anos Rebeldes, que contava a história da participação dos estudantes na resistência à ditadura militar. Havia uma personagem que a Cláudia Abreu fazia e que todo mundo adorava, uma jovem idealista que acabou virando guerrilheira. Aquilo estimulou muito o romantismo das pessoas e facilitou imensamente o trabalho de mobilização que a UNE fazia. Na primeira passeata levamos um cartaz que dizia: “Anos Rebeldes, próximo capítulo: Fora, Collor”.

Confesso que, no começo, eu não achei que esse fosse um objetivo alcançável. Mas o movimento estudantil é capaz de coisas extraordinárias quando se permite sonhar e captura o sentimento de um país. Foi assim na luta contra a ditadura. Foi assim no movimento pelas diretas. Foi assim em 1992. Em 29 de setembro, voltei a Brasília para testemunhar, juntamente com 100 mil pessoas em frente ao Congresso, a votação histórica do impedimento do presidente – que renunciaria em dezembro para preservar seus direitos políticos. Ao final da votação, lembro-me de que Lula me pegou pelo braço e saímos pelos corredores do Congresso. Voltaríamos a nos encontrar muitas vezes no futuro.

Luiz Lindbergh Farias, 42, foi presidente da UNE (1992-93) e liderou o movimento dos "caras-pintadas". Hoje, é senador pelo PT (RJ).