Os 9 Enganos Olímpicos

O que o Brasil deverá fazer para cumprir suas metas de medalhas nos Jogos do Rio de Janeiro em 2016? Edgardo Martolio enumera os principais desafi os e os eternos equívocos propagados pelas Olimpíadas

Redação Publicado em 10/09/2012, às 11h32 - Atualizado em 13/09/2012, às 15h51

REPETIÇÕES Londres já sediou três edições dos Jogos enquanto a grande maioria dos participantes nenhuma vez

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O Brasil, do século passado para este, melhorou consideravelmente sua média de medalhas: a cada Olimpíada, obtém mais 2,04 ouros, mais 3,49 pratas e mais 4,8 bronzes. Ou seja, o Conselho Olímpico Brasileiro (COB) se supera em 10,32 medalhas por edição se comparado com ele mesmo secularmente. Mas será que é assim que deve se medir a performance de um país? As dúvidas surgem porque, por exemplo, Michael Phelps ganhou sozinho – em apenas três Olimpíadas – mais do que o dobro do que a Índia, com seu um bilhão de habitantes. Com nove ouros, o nadador norte-americano contribuiu com quase 2% de todas as medalhas douradas que os Estados Unidos já ganharam. Sozinho, ele conquistou 9% de todos os ouros da natação americana em 116 anos de Jogos Olímpicos, e apenas duas a menos do que o Brasil desde a primeira participação, em 1920. Algo não funciona bem.

Os enganos olímpicos não são poucos. É difícil saber se realmente um país foi bem ou mal, se está melhorando ou piorando, se acompanha ou não os investimentos e os programas específicos. Há muita (des)informação cruzada poluindo verdades e mentiras e acaba gerando juízo – pelo menos para o grande público – com referência ao quadro de medalhas tradicional, que é a maior das anomalias indicativas do grau de crescimento ou retrocesso de uma nação. Realmente, nem tudo o que brilha é ouro.

Aliás, os Jogos modernos começaram sem ouros: em Atenas-1896 e Paris-1900 o vencedor levava medalha de prata, o segundo bronze e o terceiro um “bem, obrigado”. Somente em St. Louis-1904 foi estabelecido o sistema que reina até hoje. Mas não foi apenas o que mudou. Para desvendar essa realidade e chegar a alguma conclusão, é preciso esquartejar as Olimpíadas e dissecar cada parte para ver o que pode ser aproveitado.

1º Engano

O QUADRO HISTÓRICO ACUMULA MEDALHAS DESDE 1896

Esse quadro já não serve mais. Após Atlanta-1996, fim do primeiro século olímpico, ele deveria ter sido encerrado de forma definitiva, pelo menos para as comparações. Aquele mundo também não existe mais. Há outro mapa, com outras fronteiras e nomes. Duas Guerras Mundiais traçaram divisões que inibiram países de participar em meia dúzia de Jogos, nações que voltaram a ser o que foram 50 anos antes, outras repúblicas que nunca mais recuperaram o status perdido, dominações que se extinguiram e mais de 50 independências declaradas nesse tempo. O que significa estar atrás da falida Alemanha Oriental ou do que adianta estar na frente da sumida Boêmia no ranking geral?

Outra distorção enorme é o fato de algumas cidades, como a própria Londres, terem sido sede de até três edições dos Jogos, sendo que os países-sede chegam a dobrar sua coleta de medalhas, até porque têm direito a participar de todas as disciplinas (a Grécia ganhou 16 medalhas em 2004, incluindo seis ouros, quando sediou os Jogos; em Londres, só levou dois bronzes). Essa “melhoria anfitriã” pode ficar inercialmente nas duas ou três Olimpíadas seguintes, como no caso da Austrália: com 58 medalhas em Sydney-2000, depois 50 em Atenas-2004, 46 em Pequim-2008 e 35 em Londres-2012 (a média do país no século passado havia sido 30 medalhas por Olimpíada).

O Brasil não só ainda não organizou nenhuma Olimpíada, como nem participou das seis primeiras edições. E quando o fez, tomou parte de poucas modalidades, porque os Jogos sempre aconteceram em latitudes bem distantes.

Mesmo com isso tudo, pode ser feita uma equação simples para encontrar um número médio que represente esse passado com certa validade e justiça, dividindo todas as medalhas conquistadas por cada país pela quantidade de participações (tabela A1). Isso representaria com alguma fidelidade o século XX, e serve para comparar passado com presente (considerando como “presente” somente as Olimpíadas realizadas no século XXI).

Assim, também, há esportes que foram olímpicos uma vez ou duas, como o cabo de guerra ou o críquete; outros foram agregados ao calendário recentemente, como o boxe feminino, ou foram suprimidos, como foi o caso do beisebol. Essas mudanças desequilibram as possibilidades de certas nações e aumentam as de outras. Imaginemos o que aconteceria com as performances de Quênia e Etiópia se fossem suprimidas as corridas atléticas, por exemplo.

Já houve edições com apenas nove esportes e 43 provas (Atenas-1896), enquanto atualmente há 30 esportes e quase 300 provas. Em Roma-1960, foram 150 provas, a metade das dos Jogos atuais. Em Saint Louis-1904, apenas 12 países participaram; em Londres-2012, foram 204. Em 1896, competiram 249 atletas do mundo todo, o que hoje representa apenas o tamanho da delegação brasileira. Nos primeiros Jogos não participaram mulheres. Em Paris-1900, as competições começaram em maio e terminaram em outubro; hoje, o evento acontece em pouco mais de duas semanas. Tudo mudou. Por essas e outras, não se pode misturar o século passado com o atual.

Vale esclarecer que o Comitê Olímpico Internacional oficialmente não faz um ranking nem publica tabelas. Mas, se contadas as medalhas de ouro no século XX, o Brasil seria a 38ª nação do ranking (tabela A1). Já se for avaliado pelo total de medalhas (não só por ouros), o país avança três posições: é 35º. Nenhuma maravilha, mas bastante lógico se considerada a atenção que o país tem dado para o esporte, para os próprios Jogos e para as dificuldades que a geografia e os transportes acarretavam.

2º ENGANO

A CLASSIFICAÇÃO POR MEDALHAS DE OURO

Tanto no passado o quanto no presente, a imprensa monta o ranking a partir das medalhas de ouro. Assim, um país com uma única medalha dourada – e nenhuma de outros metais – pode aparecer na frente de outro sem ouros, mas com 50 pratas e 60 bronzes. Este único exemplo já jogaria por terra o critério “tradicional”. Ou alguém acha que foi melhor quem levou para casa apenas uma medalha de ouro de uma única disciplina que outro que conquistou mais de 100 (entre pratas e bronzes) em 30 modalidades?

Este segundo engano é ainda maior porque todas as medalhas têm o mesmo valor. E é isso que leva os jornalistas a se decidir pelos ouros em detrimento às outras medalhas, criando a ideia de que só o primeiro lugar é válido e alimentando a máxima do piloto Nelson Piquet de que “o segundo é o primeiro perdedor”. Está claro que não é assim, até porque entre uma medalha e outra há um fio de cabelo de diferença. Às vezes, é preciso muita tecnologia para saber quem foi primeiro e quem foi segundo.

Seria mais justo conceder valor diferenciado a cada tipo de medalha, somá-las, dividi-las pela quantidade de participações (isto é fundamental e não se faz) e classificar pela pontuação final. Qual é o valor que corresponde a cada metal? Sem dúvidas os ouros devem se distanciar da prata mais do que ela do bronze. Por tanto, daremos valor 4 para os ouros, 2 para as pratas e 1 para os bronzes (tabela B, página 106). Assim, o Brasil cairia nove posições e ficaria em 47º lugar no ranking do século passado. Isso ocorre principalmente porque o país é ultrapassado por nações com menor quantidade de participações. Mas é algo mais justo do que o método tradicional.

Se fizermos a mesma matemática (atribuindo os valores descritos para cada tipo de medalhas) com as quatro Olimpíadas recentes, que segundo o critério tradicional da mídia apareceriam como mostra a tabela C (página 108), com o Brasil na 24ª colocação, veremos que o país sobe para a 19ª posição, ultrapassando Polônia, Cazaquistão, Jamaica, Noruega e Nova Zelândia. Se comparada a tabela tradicional que ranqueia pelos ouros com a que classifica pelo total de medalhas, pode se observar que a Rússia roubaria a segunda posição da China. Entre os países que mais lugares avançariam na tabela estariam a Armênia (da 83ª para a 58ª posição) e o Canadá (da 25ª para a 16ª). Os mais prejudicados seriam a Grã-Bretanha, que cairia do 4º para o 6º lugar, e a Coreia do Sul, do 7º para o 10º. Casos assim, em que se avança ou retrocede mais de dez posições, demonstram que o critério dos ouros é discutível até com o de total de medalhas.

Assim, são 27 as nações beneficiadas com mais de duas posições e 20 as desfavorecidas por, também, pelo menos dois lugares. Quem mais avançaria é a Armênia: 13 posições. Do mesmo modo, quem mais posições perde é a República Dominicana: nove. Entre os 13 lugares que se adiantaria a Armênia e os nove que recuaria a República Dominicana, há 22 posições: isso é mais do que separa o Brasil do líder, os Estados Unidos. Isto significa que se alguém for medir os países somente pela tabela de medalhas, é preciso ter cuidado em como se faz isso.

3º ENGANO

A INJUSTA E DESEQUILIBRADA DISTRIBUIÇÃO DE MEDALHAS SEGUNDO CADA ESPORTE

Quando a China decidiu ser uma potência olímpica, não se preocupou com o futebol, que precisa de uma delegação de 25 pessoas e entrega apenas uma medalha para o masculino e outra para o feminino. O país apostou na natação, no atletismo e em todos os esportes que distribuem muitas medalhas, especialmente uma para cada atleta.

O atletismo olímpico abriga 46 provas e distribui 143 medalhas. Poderia ocorrer que uma Jamaica ou um Quênia, por exemplo, com 143 representantes, levassem 143 medalhas nas modalidades atléticas. Isso é tão teoricamente factível como o que sucedeu em Londres, na corrida dos 200m quando três jamaicanos – Bolt, Blake e Weir – subiram ao pódio. E a China faturou todos os ouros do tênis de mesa, mais duas pratas. Como também pode acontecer que o Brasil utilize 36 atletas e conquiste o máximo possível no futebol masculino e feminino e... ganhe só duas medalhas.

Depois do atletismo, a natação é a modalidade que mais premia: 102 medalhas. A luta, 72, o judô, 56, o ciclismo, 55, e as ginásticas, 54. O boxe concede 52, a canoagem, 48, e tiro e levantamento de peso, 45 cada um, e o remo, mais de 40. Com o taekwondo (32), a esgrima e a vela (30 cada), são 12 as disciplinas que chegam a três dezenas de medalhas.

Também é absurdo que um país possa colocar meia dúzia de atletas em uma prova só, competindo entre eles mesmos e ocupar todo o pódio, enquanto esportes como o vôlei, o futebol ou o basquete apenas consigam pôr uma única equipe em quadra e ganhar uma mísera medalha.

Países como o Brasil nunca encararam os Jogos Olímpicos como uma vitrine para se mostrar ao mundo; sempre apostaram em aquelas especialidades que “são naturais ao cotidiano do brasileiro”, sem marketing. Está na hora de mudar e investir, além do atletismo, nas modalidades que entregam muitas medalhas e nas quais cada atleta/representante possa subir ao pódio premiado individualmente, talvez mais de uma vez nos mesmos Jogos. Essas medalhas são dez vezes mais baratas do que as obtidas coletivamente.

Uma maneira de equiparar isto seria entregar 11 medalhas de ouro, 11 de prata e 11 de bronze no futebol (ou por que não 18, se contados os reservas?), cinco no basquete, seis no vôlei, sete no handebol, onze no hóquei na grama e sete no pólo aquático.

A rentabilidade, ou seja, os valores investidos por atleta para se conseguir uma medalha, deve ser um dos focos. Imagine o valor econômico – olimpicamente falando – de um Cesar Cielo em relação à seleção de futebol. Um Cielo pode conseguir sozinho, assim como Phelps, sete ou oito medalhas, sendo que toda a equipe de Mano Menezes apenas poderia trazer uma.

Há esportes que são menos “rentáveis” do que outros, inclusive entre os individuais. Em Sydney-2000, por exemplo, o menos lucrativo foi o ciclismo de estrada, com uma medalha para cada 52 participantes. Este é outro ponto a se ter em conta – a quantidade de concorrentes que um atleta terá que superar.

O COI, por mais que persista em não levar uma conta própria de medalhas, deveria corrigir essas defasagens. A essa altura, é consciente de que o mundo todo utiliza o quadro de medalhas e, em função dele, elogia ou critica atletas, países e comitês nacionais. E isso ocorre mais e mais, considerando que a cada quatro anos são mais os atletas que participam. Em Melbourne-1956 e Roma-1960, havia 6,5 atletas para cada medalha; agora, são em média entre nove e treze atletas por medalha. Ou seja, a dificuldade para voltar triunfante é dobrada.

Isto tudo se traduz em dinheiro. Na já mencionada Olimpíada da virada do século, por cada medalha que conseguiu, o Canadá investiu US$ 4,24 milhões; a Austrália, US$ 4,82 milhões; e os Estados Unidos, US$ 3,09 milhões. Não importa que os norte-americanos ao todo investissem mais, e sim que quando esse investimento se divide por medalhas, eles foram mais rentáveis. Se o Brasil quer lucrar com seus atletas, terá então que – sem abandonar seus esportes tradicionais – ir atrás de modalidades que hoje quase ignora. Em Londres, o Brasil investiu R$ 1,7 bilhão por medalha. Em Pequim, havia sido três vezes menos: R$ 654 milhões.

Se juntarmos os esportes olímpicos 100% coletivos e que dão um só ouro, uma prata e um bronze por género e que só permitem a participação de um time por nação, teremos 156 atletas para disputar no máximo nove medalhas entre homens e mulheres. Isso contra mais de uma centena de medalhas oferecidas pela natação, sendo que, nessa modalidade, um mesmo atleta poderia ganhar até oito medalhas diferentes.

4º ENGANO

O ACÚMULO DE MEDALHAS EM UMA ÚNICA DISCIPLINA

Como consequência do quesito anterior, surge outra distorção: a de países que ganham medalhas em uma só modalidade. Em Londres-2012, o Brasil conquistou 17 medalhas em nove categorias (1,8 pódios por cada modalidade). A Etiópia, por sua vez, ganhou sete medalhas, todas no atletismo. O Quênia ganhou suas 11 medalhas também só no atletismo.

Se preenchermos uma tabela com a quantidade de esportes em que cada país recebeu medalhas em Londres, o Brasil se classifica em décimo-terceiro lugar, entre os 85 países que subiram ao pódio.

O Brasil já participou de 21 edições das Olimpíadas, o que não é pouca coisa. Apenas 23 nações das mais de 200 que estiveram em Londres têm melhor comparecimento do que o Brasil. Somente quatro podem se gabar de ter participado de todos os Jogos (Grã-Bretanha, Grécia, Suíça e França). Os Estados Unidos – pelo boicote a Moscou-1980 – registraram presença igual a Itália, Suécia, Dinamarca e Áustria. Vários dos países com mais participações e com Índice de Desenvolvimento Humano mais alto, como Canadá, Noruega e Bélgica, já estão atrás do Brasil em se tratando de conquistas olímpicas.

Se for criada uma tabela de medalhas entre os 20 países importantes que somam maior experiência olímpica e um alto grau de evolução nos Jogos do século atual, observa-se que o Brasil é o décimo quinto, investindo possivelmente bem menos do que quase todas as outras nações. Portanto, há um caminho para se percorrer.

5º ENGANO

A MISTURA DE GÊNEROS EM UMA MESMA TABELA

A tabela G (página 112) mostra que, em Londres, o Brasil no masculino foi muito melhor do que no feminino. Com seus 11 pódios, compartilhou a 12ª colocação com Cuba e Hungria, superando nações como Holanda, Espanha e Nova Zelândia entre outras de bom retrospecto olímpico. Já as mulheres foram bem, mas não tanto quanto os homens: isolando apenas os pódios femininos, o Brasil dividiu o 16º lugar com Hungria, Cazaquistão e Romênia. Os Estados Unidos lideraram tanto no masculino quanto no feminino. Isso indica que o país, no quesito esportivo, é democrático, plural e tem bons programas para todos, sem discriminar. É exatamente o que necessita o Brasil. Só com uma política que aponte nessa direção se poderá atingir esse objetivo, que também já cumprem de maneira equilibrada a França (19 e 17 medalhas para homens e mulheres respectivamente), Ucrânia (10 e 10) e Canadá (9 e 9).

Juntos apenas devem ser observados os esportes mistos, que entregam poucas medalhas (15). Neles, o anfitrião Reino Unido arrasou: levou quase 25% delas. China, Alemanha e Holanda, com duas cada um, superaram os Estados Unidos, que conquistaram apenas uma medalha.

6º ENGANO

SÓ DINHEIRO NÃO GANHA MEDALHAS

Se a questão nas Olimpíadas fosse o dinheiro, os países petrolíferos se destacariam muito mais. No próprio Brasil, há demonstrações claras de que é necessário primeiro descobrir os talentos e depois aplicar dinheiro neles. E em ambos os casos faltam, previamente, uma política educacional/esportiva que crie musculatura atlética, mentes vencedoras e espírito olímpico.

Em 2012, o esporte no qual o Brasil melhor se classificou – com suas três medalhas – foi o boxe: quarto lugar. Superou os Estados Unidos, a China e o país-sede, que tem longa tradição na especialidade. Isto mostra que com pouco dinheiro o Brasil fez muito. Pelo contrário, o maior fracasso esteve no futebol, que é onde existe o maior investimento, mais tradição, a participação de profissionais melhor preparados. Ou seja, o talento vem em primeiro lugar, o esforço em segundo e o investimento em terceiro. Além de coletivo, o grande fracasso individual esteve no hipismo, no qual um dos representantes foi mais uma vez Afonso de Miranda Neto, possivelmente o atleta olímpico mundial com mais recursos para vencer. Não só porque sua fortuna pessoal (ele é casado com Athina Onassis) o elitiza, e sim porque nas atividades equestres o dinheiro é fator crucial para a manutenção de cavalos, treinos, viagens e seguros. Afonso vive exclusivamente do hipismo, está instalado na Bélgica (não sofreu com o fuso horário), têm os assistentes mais experientes. E também nada ganhou, ao contrário do boxe e do judô, que renderam sete medalhas. Dinheiro não garante vitória em Olimpíada, até porque as medalhas olímpicas não se vendem – se merecem.

Para Londres-2012, Portugal investiu mais de € 15 milhões (R$ 37,7 milhões) e apenas conquistou uma medalha de prata, na canoagem de velocidade. Os portugueses já dizem que é a medalha mais cara da história. Exageram, porque para canoagem o país só investiu € 615 mil; o restante se distribuiu em outras modalidades que voltaram com as mãos vazias. O Reino Unido, nos quatro anos anteriores aos Jogos em Londres, investiu € 640 milhões para ter 542 atletas nas disputas – foi a maior delegação. Ou seja, aplicou pouco mais de um milhão por atleta, mas como conquistou 65 medalhas, cada uma custou € 10 milhões, ou R$ 25 milhões. Ainda que mais barato que a prata portuguesa, também foi um investimento caro demais (três vezes o investimento norte-americano para cada ouro).

O dinheiro suficiente, mais um atleta talentoso, em uma infraestrutura de acordo e dentro de um programa pertinente é o que fará do Brasil uma potência olímpica em duas décadas. Nunca antes do que isso. Não será levando bilionários metidos a atletas, ainda que por força de seu autofinanciamento possam alguma vez ganhar alguma medalha, nem levando meninos que só querem deixar a pobreza. Não é esse o mapa da mina.

Para 2016, o Brasil pode investir muitos bilhões porque vai recuperá-los com os Jogos. Londres lucrou mais de € 16 bilhões (R$ 40 bilhões) com as suas Olimpíadas. É um negócio como qualquer outro. A imprensa deve fazer sua parte e não criticar antes de enxergar os resultados, porque desse modo coíbe qualquer ato de ousadia sempre necessário. É preciso controlar, mas não censurar.

7º ENGANO

ATLETAS PROFISSIONAIS E AMADORES MISTURADOS

Os Jogos Olímpicos nasceram em um mundo praticamente amador, esportivamente (desde o ponto de vista legal ao regulamentar). O espírito era mais de convivência e intercâmbio do que uma demonstração de superioridade. Bem famosa é a frase do criador das Olimpíadas, o barão Pierre de Coubertin, que diz que “o importante é competir”. Mas com os anos, o dinheiro foi se infiltrando e algumas modalidades hoje são inteiramente profissionais, como o basquete e o tênis. Em outras, como o ciclismo, convivem os competidores pagos e ainda alguns amadores. E por fim, há esportes que se conservam profissionalmente virgens nos Jogos, como o boxe. Mesmo com o fato de que no Rio-2016 talvez sejam aceitos pugilistas profissionais – com menos de 15 combates –, ainda parece ridículo que os astros da liga de basquete norte-americana NBA possam participar das Olimpíadas e boxeadores africanos que ganham US$ 100 cada vez que sobem ao ringue estejam proibidos de lutar. É difícil compreender essa arbitrariedade regulamentar, que separa disciplinas, beneficia umas e prejudica outras.

Assim como é difícil de entender por que os rankings não estabelecem diferenças entre as categorias, as que ganham fortunas e podem ter o que há de melhor para se preparar, e outras em que os atletas não têm nem uma mínima ajuda de seus governos. Isto também suja o mapa olímpico, invalida o ranking e dificulta a interpretação dos resultados e sua avaliação como um todo. É por causa dessas questões que o COI não divulga uma tabela ou um quadro de medalhas, nem mesmo elaborou um ranking. Quando há medalhas ganhas antes mesmo que se comecem as disputas, alguma coisa está errada (no basquete, o mundo inteiro sabia que os Estados Unidos levariam o ouro).

8º ENGANO

O DESCONHECIMENTO DOS DIPLOMAS

Em países que desejam o ouro, como o Brasil, quase ninguém sabe que, além das três medalhas, existe uma segunda premiação do COI, muito valiosa para os atletas e também para se formar o conceito de quanto uma nação foi melhor do que a outra: são os “diplomas”, que premiam do quarto ao oitavo atleta, ou equipe, classificados em todas as modalidades.

Nos países onde raras são as medalhas conseguidas, na Venezuela, por exemplo, os diplomas são muito bem-vindos, pois seu desempenho é medido apenas através deles. Mas, o correto seria estimar por medalhas e diplomas. Juntos, somados. Porque, por exemplo, na corrida de 800m rasos em Londres, o oitavo colocado na final teria sido medalha de ouro com esse mesmo tempo em Pequim-2008. Não estamos falando de registros pouco transcendentes: estamos falando de décimos de segundo. É isso o que reconhecem os diplomas.

Uma mínima diferença estabelece a glória ou o fracasso, que muda as manchetes dos jornais e o brilho no peito dos atletas, que faz nascer um sorriso ou cair uma lágrima. Em um contrato publicitário, essa diferença muda tudo. Assim é o mundo capitalista, mas não significa que quem perdeu por um nariz ou uma unha seja ruim. Até porque, se houvesse outra Olimpíada em novembro, com os mesmos atletas, 75% dos resultados mudariam.

Os diplomas corrigem essa ausência de revanche imediata. Atletas ou conjuntos que não são medalhistas, mas são diplomados, podem estar seguros de que são bons. Aliás, é difícil entender como um tenista é considerado “acima da média” por entrar no top 10 do ranking mundial e o maratonista brasileiro Marilson dos Santos não é valorizado por ter chegado em... quinto lugar na maratona. Injusto. A imprensa esportiva deveria cobrir os diplomas com mais atenção. O COI concede pontos da 4ª à 6 ª posição desde que existem os Jogos Olímpicos Modernos: três pontos ao quarto, dois pontos ao quinto e um ponto ao sexto. Alem dos pontos, desde Londres-1948 esses atletas recebem diplomas. Já os classificados em sétimo e oitavo possuem essa distinção ao mérito só desde Los Angeles-1984. A sempre crescente quantidade de países e, em consequência, de atletas participantes, fez com que se ampliasse a quantidade de premiados ao longo do tempo.

Já no início do século passado, o regulamento olímpico diz sobre os diplomas: “aos atletas que alcançaram um alto padrão de excelência sem ter sido primeiros, segundos ou terceiros em sua competição”. Vale esclarecer que os medalhistas também recebem diploma, tanto quanto as comissões técnicas vitoriosas. José Roberto Guimarães, o treinador do vôlei feminino, único brasileiro três vezes campeão olímpico, não possui medalhas, mas tem três diplomas, o que significa que é um documento de excelência que não pode mais ser ignorado.

Se computarmos só os “premiados sem medalha”, ou seja, do quarto ao oitavo de cada modalidade, o Brasil se classificou em um honroso 13º lugar em Londres, exibindo alguma qualidade em 25 disciplinas diferentes (tabela H, página 113). O país foi o 14º entre todos os quartos colocados; 10º entre os quintos; 23º entre os sextos; 19º entre os sétimos e 13º entre os oitavos. Nada mal.

Pergunta: não é aqui onde está o verdadeiro potencial de um país? Pois os ganhadores de medalhas de ouro (ou das outras medalhas) são os “Pelés” de suas especialidades. Por outro lado, entre os quartos e os oitavos estaria o melhor reflexo do da realidade. Sendo assim, essas tabelas revelam, por exemplo, que a China não foi tão bem quanto os Estados Unidos. Isto demonstra claramente que os americanos preparam sua população como um todo; os chineses, somente seus atletas de elite. Neste mesmo foco, Alemanha, Austrália e Rússia funcionaram muito bem, mas Japão e Coreia nem tanto – ambos estariam mais alinhados com o conceito chinês. Em 2016, o Brasil terá de escolher: esporte para todos desde a base, ou grande investimento nos atletas de ponta? Ou seja: copiar Washington ou imitar Pequim?

9º ENGANO

COMPARAR-SE COM OS FENÔMENOS, E NÃO COM O TODO

Quando se deseja medir o desempenho do Brasil (ou de qualquer país), jamais se deve comparar o “normal próprio” com o “melhor e especial dos outros”. E claro, também nem com os últimos, com os piores.

Estados Unidos, China, Rússia não são o horizonte brasileiro imediato. Alemanha, França, Itália, Austrália e Grã-Bretanha também não por enquanto, nem Japão e a Coreia do Sul – alguns deles podem ser metas daqui a duas ou três Olimpíadas. Hoje, o Brasil deve se focar no décimo primeiro lugar. Avançar, aproveitando o fato de ser sede, entre oito e doze posições. Isso é bem possível. O top 10 chegará por própria gravitação e em seu devido momento.

Os países a superar em 2016 são Hungria, Holanda e principalmente Ucrânia, que é o maior destaque entre os ex-integrantes da antiga União Soviética. Se o Brasil ultrapassar essas nações, também haverá deixado para atrás aqueles que hoje aparecem melhor colocados por méritos em um ou máximo dois esportes, casos de Jamaica e Cazaquistão. A Jamaica em toda sua história ganhou 61 medalhas, sendo que 60 só no Atletismo. O mesmo acontece nas comparações individuais. Claro que causa arrepios pensar em Cesar Cielo derrotando Michael Phelps, mas não se deve pensar nesses fenômenos. Eles não são a medida certa, porque quando nasceram, quebraram-se os moldes. Há muito o que melhorar no atletismo sem pensar em Usain Bolt. Deve-se buscar tempos possíveis, marcas lógicas, recordes coerentes. É nessa procura que apareceram os fora-de-série.

Dos jogos anteriores em relação a Londres, o Brasil cresceu pouco – mas não retrocedeu, o que já ajuda. Mas o que fazer para melhorar em 2016? Dinheiro há; tanto público quanto privado. Atletas não sobram, mas também não faltam. Para os Jogos do Rio é necessário fazer as duas coisas mais óbvias: investir nas bases e também na elite. Para o longo prazo não há dúvida, o investimento maior deve ser nas bases, pois delas nasceram, em partos naturais, os atletas de elite, os craques que formarão as grandes equipes. Sediar uma edição dos Jogos é uma grande oportunidade para criar cultura esportiva nacional, e não para fabricar mais cimento para estádios. Assim, o governo deveria começar um grande planejamento de longo prazo.

No entanto, a iniciativa privada também deve “adotar” os atletas de ponta e investir dinheiro neles. Uma lei especial poderia ser sancionada para “obrigar” as cem empresas mais lucrativas do país a destinar parte de seus ganhos a patrocínios de atletas que tenham chance de competir e vencer em 2016. Não só os Neymar ou os Cesar Cielo devem ser apoiados. Se cada uma dessas empresas incluir um atleta (ou equipe) de enorme potencial em sua folha de pagamento, com a obrigação de que ele melhore o rendimento, sem dúvidas será um grande avanço. Como um executivo, a cada vez que o atleta supera suas marcas, receberia um bônus. Ainda seguindo a lista de lucratividade das empresas, as cem seguintes adotariam “meio atleta” cada; as subsequentes, “um terço” de atleta; e assim por diante. Assim, ninguém que hoje já estivesse em destaque no universo olímpico deveria se preocupar com outra coisa que não sejam seus resultados no próximo quatriênio. Estamos falando de 400 empresas líderes que, em todos os casos, teriam retornos fiscais e publicitários. Não seria um favor, elas apenas cumpririam uma obrigação com o mercado que as fez crescer e que continua engrandecendo-as.

E esse não precisaria ser o único critério: cada empresa gigante poderia adotar um atleta a cada mil funcionários. Não modificaria seu balanço anual, até porque poderia descontar fiscalmente essa iniciativa. Com vontade, dezenas de planos para a iniciativa privada poderiam ser criados, ajudando assim o crescimento do esporte e a imagem do país.

O governo, por sua vez, poderia ir pelos caminhos federal e estadual. O federal precisa estimular, em todos os sentidos, o universo educacional. Essa é a chave para abrir a grande porta dos recordes futuros. Os Estados Unidos são o que são olimpicamente não pelos seus clubes, e sim pelas escolas, os ginásios, as universidades. Lá ser bom no basquete é tanto mérito quanto se destacar em história ou literatura.

Estimular. Ensinar. Acompanhar. Aperfeiçoar. Premiar. É isso que as universidades norte-americanas fazem ao publicar rankings atléticos e ao dar bolsas de estudo aos melhores deles. A Universidade da Califórnia, de Los Angeles, orgulha-se em ser a que tem mais ex-alunos medalhistas, tanto quanto Harvard se louva por ser a faculdade que deu ao país mais Secretários do Tesouro (o equivalente local do nosso ministro da Fazenda). Por aqui, a Colômbia fez algo parecido nos últimos 16 anos e coletou os primeiros frutos em Londres, onde ganhou tantas medalhas, 11, quanto tinha obtido em toda sua história olímpica.

É obrigação do governo prover equipamentos para os colégios e, com melhores resultados esportivos, mais recursos deveriam ser entregues. Uma “Bolsa Esporte” unificada poderia ser criada com a justificativa olímpica, mas que sobrevivesse aos Jogos de 2016 para poder transformar cada criança em um sonhador, em uma esperança do esporte. No Azerbaijão, que apostou no vôlei, o governo criou um time para cada empresa estadual. Um para os correios, outro para a companhia de telefonia, outro para a de energia. E, no atual período de aprendizado e crescimento, liberou a quantidade de estrangeiros por time. Importa craques do mundo todo, para que eles deixem um legado, e muitos treinadores, para que façam escola. Os resultados começaram a aparecer.

Já os estados brasileiros poderiam adotar um esporte cada. Chega da ideia de que uma ou duas regiões sejam as principais fornecedoras de participantes olímpicos. Com essa distribuição, haveria foco, perícia e esperteza. E se ganharia em experiência específica, nasceriam modelos a serem espelhados. Exemplos: o Rio Grande do Sul colocaria foco no hipismo; a Bahia no vôlei de praia; o Rio de Janeiro no remo; a esgrima seria em Brasília; a ginástica no Paraná; o ciclismo no Mato Grosso do Sul. E assim por diante. Isso não significaria, obviamente, que esses esportes não seriam praticados em outros lugares. Mas o estado “eleito” teria uma infra-estrutura suficiente para desenvolver campeões, com estádios específicos para cada modalidade; centros médicos de alto rendimento; concentrações de atletas para intercâmbio de conhecimento.

O Brasil equivale a muitas nações somadas, só que apenas um quarto do país tem boa infra-estrutura. É hora de acabar com isso.

Segundo todas as tabelas de medalhas, o Brasil oscila, neste século, entre as posições 13ª e 24ª. Está mais perto de ser o décimo sexto do que o vigésimo. Não vai aparecer entre os dez mais nem por engano, assim como também nunca deve cair abaixo do 25º lugar. Para os próximos Jogos, a crise no mundo afetará alguns rendimentos, mas o Brasil – pelo momento económico que vive –, poderá melhorar seus registros.

Que já poderiam ter sido melhores em Londres. Se Cesar Cielo tivesse levada o ouro em vez do bronze, o Brasil terminaria em 17º. Só uma medalha dourada a mais adiantaria o país em cinco posições. Se, além de Cielo, Maurren Maggi tivesse repetido o feito de Pequim, o Brasil pularia para 16º. Junto a eles, bem se poderia somar Fabiana Murer com outro ouro, bastando, para isso que saltasse a marca dela em 2010, a de 4,85m. Nesse caso, o país se classificaria em 14º. Contemos também um ouro de Leandro Guilheiro no judô e o Brasil teria sido 12º. E um quinto ouro no vôlei masculino, ou do boxeador Esquiva Falcão, e isso faria entrar o país no top 10, em nono. E se o vôlei de praia tivesse faturado ouro em vez de outra prata, estaria se comemorando o 8º lugar. Sonho? Sim, mas nenhum desses nomes está longe da vitória. Difícil? Nem tanto, porque todos os citados estiveram abaixo de suas possibilidades. Ou seja, sobram chances, há oportunidades. O caminho é acirrado, mas não é impossível. Por que não acreditar?

Fora isso, o Brasil deve contar com a natural inflação de vitórias gerada por se ser anfitrião. A própria Grã-Bretanha aumentou em dez seus ouros. A consultora mundial Goldman Sachs prevê que as medalhas do Brasil em 2016 serão 32. Se fossem oito ouros, 10 pratas e 14 bronzes, iria classificar-se na 8ª posição (se o quadro de medalhas de Londres se repetisse).

O produto interno bruto de um país dividido por medalhas entrega um número que alguns gostam de usar para comparar rendimentos. O Brasil conseguiu em Londres uma medalha a cada US$ 145 bilhões de seu PIB. O Reino Unido, com igual PIB brasileiro, ganhou uma medalha a cada US$ 36,9 bilhões. Outro índice é por população: o Brasil ganhou uma medalha em Londres a cada 11,4 milhões de habitantes, enquanto o Paquistão, com a população mais parecida (187 milhões), não levou medalhas. São índices que servem de nada.

Não é por PIB que se ganham Olimpíadas, nem por população ou território, nem sequer por simples investimento. É por isso tudo, junto, mais ou menos sincronizado, com planos que criem cultura esportiva permanente e bem organizado. Se cada menino de rua ou simplesmente cada cidadão economicamente carente tivesse pelo menos uma oportunidade firme de se especializar num esporte, em duas décadas o país estará brigando pelo top 5 olímpico. O país será a nova China. O Brasil tem todas as condições para crescer um pouco a mais a cada Olimpíada. E muito mais no ano de 2016. Seria bom começar agora.