P&R - Alanis Morissette

Casada e mãe, ela mergulha de cabeça no ativismo social para extravasar a raiva

Bruna Veloso Publicado em 17/09/2012, às 16h17 - Atualizado às 16h19

AMADURECIDA Alanis diz não se apegar mais à dor do amor
WILLIAMS AND HIRAKAWA/DIVULGAÇÃO

A maternidade é o centro das atenções de Alanis Morissette no momento, mas, mesmo assim, ela voltou ao batente. As faixas do recém-lançado Havoc and Bright Lights começaram a ser escritas quando o filho dela, Ever Imre, tinha cinco meses – agora, com 1 ano e meio, ele excursiona ao lado da mãe, inclusive com uma passagem pelo Brasil este mês. “Ele está comigo no ônibus de turnê, nos backstages dos shows”, Alanis conta. “Meu marido está comigo, há sempre tios e tias por perto. É uma comunidade muito bonita.”

Como foi fazer um disco tendo um filho pequeno?

Construímos um estúdio em casa, e ainda bem que o processo de escrever músicas é bem rápido. Levo entre 30 e 40 minutos para escrever uma canção, e sempre que alguém batia à porta – o que acontecia bastante – eu fazia uma pausa e passava um tempo com meu filho e meu marido. O entendimento geral era que se meu filho precisasse de mim, eu estaria disponível, ponto. E funcionou bem.

Como a maternidade afetou sua visão de mundo?

Acho que há uma tendência a querer me tornar mais ligada a mim mesma e de estar mais disponível para as pessoas. Como mãe, é muito apropriado cuidar do meu filho – mas ao mesmo tempo a maternidade jogou uma luz sobre quando eu queria cuidar das pessoas e era inapropriado.

E planeja ter mais filhos?

A intenção é ter pelo menos mais um, vamos ver o que acontece. Talvez até dois, mas ainda não temos ideia.

Antigamente, você pensava em ter uma família como a que tem agora?

Eu tinha uma visão de ter uma família e um relacionamento, e acho que isso é o que me manteve seguindo em frente. Me casei no meio do caminho, e não deu certo, não tínhamos os mesmos valores em comum. Então, foi o fato de a minha visão ter se mantido viva que faz do meu casamento hoje ser o que é.

Neste disco, as letras falam sobre muitos assuntos diferentes. Você buscou essa diversidade?

Foi bem natural. Faço isso com todos os discos, continuo escrevendo até sentir que toquei em todos os assuntos sobre os quais mais me importo naquele momento. Neste eu queria falar do comprometimento com meu casamento. Queria escrever uma música de amor para meu marido, que foi “‘Til You”. Queria escrever sobre as mulheres no contexto de que a sociedade patriarcal e a misoginia não estão mudando, queria falar sobre evolução, coragem, relacionamentos.

Você ainda se vê na mulher que cantou as músicas de Jagged Little Pill?

Sim, ainda vejo a paixão, a raiva, a ânsia. Mas agora tomo muito mais responsabilidade para mim, então há um pouco menos de reatividade. Não esmago tanto a minha raiva a ponto de ela ter que explodir. Muito da minha raiva tem ido para o ativismo social, problemas das mulheres, ativismo em geral, em vez do microcosmo de um relacionamento amoroso disfuncional.

Como você lida com a vida de celebridade hoje? Com os paparazzi?

Tudo que isso significa é que tenho que tomar banho com mais frequência [risos]. Tenho consciência de que se saio, há uma chance de 90% de alguém ou um monte de carros me seguir. E isso é parte de ser uma pessoa pública.

Mas quando você era mais jovem, se sentiu “sugada” pela fama em algum momento?

Sim, foi muito intenso, porque eu sou uma observadora de pessoas. Meio que vivo para me conectar com os outros. E pensei que a fama iria me conectar com todo mundo, mas na verdade criou uma

separação, e isso foi muito doloroso. Eu não podia mais observar as pessoas, elas é que me observavam. Foi difícil me ajustar, para dizer o mínimo.

Quão importantes foram os períodos sombrios da sua vida para a mulher que você é hoje?

Foram tempos de muita autodefinição, mas não acredito que você tem que se demorar nesses momentos por muito tempo para aprender a lição. O quanto antes eu pegar a mensagem, melhor vai ser, porque o sofrimento vai ser menor. O sofrimento não é mandatório, mas a dor é parte de ser humano. Permanecer no sofrimento é um tipo de autotortura, mas não tem como fugir da dor.

Você mostra hoje a imagem de uma pessoa muito espiritualizada. Lembra-se de como era antes de ser assim?

Sempre fui conectada ao espírito. Acho que existem três tipos de conexão na vida: você com você mesmo, o que você precisa, quer, a sua missão; você com o outro, seus amigos, a natureza, seus filhos, seus animais de estimação [risos]. E há a relação com seu espírito. Acho que as três sempre existiram para mim. E há diversos jeitos de se conectar com o divino, pode ser qualquer coisa: acender uma vela e ficar em silêncio, andar pela natureza, dançar, fazer música. Para mim, há muitas maneiras diferentes de sentir Deus.