Extras - Marcelo Tas

Leia as respostas que não entraram na edição impressa da Rolling Stone Brasil 73, nas quais o apresentador do CQC fala sobre a relação com as crianças, seu ponto de vista sobre o jornalismo atual e a relação com a política

Stella Rodrigues Publicado em 17/10/2012, às 13h34 - Atualizado às 13h43

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RAFAEL KENT

Leia abaixo algumas perguntas que não entraram no P&R com Marcelo Tas, publicado na edição 73 (outubro de 2012) da Rolling Stone Brasil.

Clique aqui para ler um trecho da matéria impressa.

Quando sentiu que quebrou a cara?

Milhares de vezes, o tempo inteiro. Todas as vezes que foi criado um fato significativo quando fiz jornalismo, sofri muito. Desde a primeira entrevista com o [Paulo] Maluf, por exemplo, que tem aquela famosa pergunta “é verdade que o senhor é ladrão?”. Eu sofri muito depois, fiquei achando que talvez tivesse exagerado, sido desleal. Olha a preocupação que tive. É igual quando acontece algo no programa. Aconteceu algo esta semana e senti de novo esse friozinho na barriga. Fui convidado para ir ao Palácio do Planalto. Nunca antes na história deste país [risos] eu tinha recebido esse convite. Geralmente é o contrário, recebo telefonemas de problemas que os CQCs causaram. E o fato de eu ir, ser recebido… e depois fiquei quase uma hora conversando com a presidente. Isso é delicado, porque a gente não é a favor do governo, não somos simpáticos à instituição governo. O humor é sempre do contra, não existe humor a favor, até falei isso para ela, que estava muito preocupado. E estou. Porque é curioso quando um poder da República convida um programa de humor para apoiar uma causa, é um negócio muito louco. Eles estão com uma campanha de redução de acidentes na estrada e a pesquisa mostrou que o CQC conversa com o público que eles querem atingir. Topamos segundo algumas condições.

Quando a gente apoia uma iniciativa do estado, representamos muita gente que acredita na gente. E o projeto inicial de um programa de humor não é ser sério, apoiar causas sérias. Mas talvez por o país não ser sério, acabou ficando para a gente fazer esse papel. Cai uma ficha que três tsunamis de pessoas morrem todo ano de acidente de trânsito, é um absurdo. Dentro do gabinete da presidente fiquei pensando nisso, que país maluco esse em que a gente vive, eu aqui representando um programa de humor, apoiando um causa seríssima.

Está com medo de se arrepender de ter se misturado ao governo?

[Risos] Estou! Porque eu nunca me alinhei, não me converto, é impossível. Principalmente em questões partidárias. Nunca me converti, nunca aceitei fazer campanha, nunca apoiei candidato algum. Não é essa a visão do programa e da minha carreira. Deixei isso claríssimo para ela e penso que nos entendemos muito bem.

Existe há algum tempo essa discussão, se o humor deve pedir desculpa. O que acha? E o jornalismo?

O jornalismo deve reconhecer erros (factuais). E a gente também faz isso. Acho que reconhecer erros é algo da natureza humana. Para mim não tem nenhum problema nas duas frentes. No caso do humor, não é simplesmente o reconhecimento de um erro. Creio que o humorista, por ser um artista, lida com uma coisa que não é palpável, objetiva, ele tem a chance de, inclusive, pedir desculpa de um jeito engraçado, está em vantagem em relação ao jornalismo.

Pediu desculpa ao Maluf pela sua pergunta?

Não. Eu fiquei em dúvida, veja bem. Logo depois percebi que ele merecia muito essa pergunta, aliás, ele ainda merece. Até hoje nos deixa em dúvida. A justiça também tem essa dúvida, por isso ele está sendo procurado pela Interpol [risos]. A polícia internacional não tem mais essa dúvida, só a brasileira. Cabe fazer essa pergunta para o Maluf. A questão para mim é sempre essa. O humor, principalmente no Brasil, não precisa roubar ou exagerar para ser engraçado, porque o país infelizmente é muito bizarro. Discuto isso muito com a equipe do CQC. A gente não precisa inventar para fazer uma pergunta, a gente simplesmente lê a ficha do cara e ele já está enrolado. E quando a gente faz isso, a nossa força é muito maior, a verdade está do nosso lado. Você não precisa roubar no jogo, só cuida de acertar bem o direto no queixo.

Você sempre arruma tempo para fazer algo voltado ao público infantil. Do que sente falta quando não está trabalhando com crianças?

Inteligência [risos]. Qualidade, sinceridade. São características naturais das crianças.

Já se acostumou a ser colocado na parede por elas?

Não, mas me faz bem. Me sinto saudável. Contato com sinceridade, principalmente hoje em dia, é uma coisa preciosa. Eles vêm e me falam coisas horríveis e questionam. Isso me deixa muito vivo e feliz. Eu não escolhi fazer tantos programas com criança. Me sinto como um escolhido. Me comporto muito como eles, criança não trabalha se não estiver gostando. Até isso tem a ver comigo. Se eu pudesse, só faria televisão para criança.

E por que não pode?

Não sei. Talvez eu possa. Tenho dois projetos atuais com criança. Quem sabe eu consiga fazer isso daqui a pouco.

O site do CQC diz que você é praticante de windsurfe, se entregou aos esportes aquáticos?

Está errado (no site do CQC). Eles são obrigados a produzir uma notinha por semana. Ele quis falar de esporte comigo e não sei como surgiu esse assunto. Isso é uma das doenças atuais do jornalismo. Veja bem, não estou criticando uma equipe nossa, da Band. O cara sai de casa com um título, uma matéria pronta. E quer te encaixar naquela matéria. Não sei como surgiu.

O fato é: eu já pratiquei, mas pratico muito raramente. Pratico boxe, estou amando, entendo cada vez mais porque gostava tanto das lutas de Mohammed Ali, tenho vários livros. É a mistura da ioga, que faço há muitos anos, com essa coisa explosiva. Acho essa combinação ideal para os dias de hoje. Foi o que recomendei para a presidente, ela me pediu essa indicação, veja só.

Você está acompanhando a série The Newsroom, que trata dessas questões do jornalismo?

Estou e gosto muito. The Newsroom mostra uma coisa: jornalistas são seres humanos. Eles enfiam o dedo no nariz, traem as esposas. Eles não são perfeitos como eles dizem na hora que eles vão falar da realidade. E para mim essa é a falha trágica do jornalista que ainda não fez a conversão. O mundo que a gente vive hoje é o mundo da transparência. Acabou o mundo broadcast, que era o mundo do jornalista, em que ele era o porta-voz de Deus. Ele falava o que acontecia no Brasil e no mundo sob o ponto de vista de alguém imparcial. Quem é imparcial? Deus! Por isso eram o porta-voz de Deus. Sendo que alguns se achavam o próprio Deus.

O que estamos vivendo nessa era digital é que a transparência chegou para ficar e só vai acelerar daqui para frente. Então, todo mundo é portador de notícia, todo mundo pode veicular notícia. Acabou o jornalismo? Não, para mim começou o jornalismo. Agora é que a gente vai ver quem é jornalista, porque é a hora do discernimento, que é outra palavra que eu amo. Discernimento é você entender o que é relevante e o que não é. E é o jornalista que tem que fazer isso, o editor que tem que separar o que é importante ou não.

Essa é a grande novidade e eu amo essa novidade porque nunca me senti como um jornalista daquela era, “eu estou aqui para trazer as notícias do Brasil e do mundo”, como eles falavam. Nunca. Eu estava ali para justamente fazer uma confusão com as notícias do Brasil e do mundo, para levar um discernimento, para a gente poder discutir e tentar entender, afinal, o que estamos fazendo aqui nesse lugar. É a única pergunta que vale a pena um jornalista tentar responder. O que estamos fazendo neste país, com 200 milhões de pessoas, ao sul do Equador, com tanta injustiça? E nós aqui brincando de sermos o pior ou o melhor país do mundo. Estamos sempre nesses extremos, ou somos o pior país do mundo ou temos que ser o melhor. Não. Somos um país que tem alguma chance de ser decente. Por enquanto não é.