P&R - Nando Reis

Lançando um novo disco, ele explica os desafios da carreira fora do Titãs

José Julio do Espírito Santo Publicado em 12/11/2012, às 16h24 - Atualizado em 13/11/2012, às 14h59

TÍMIDO
Reis passou por momentos ruins até superar a inibição
ANA BEATRIZ ELORZA E THIEGO MONTIEL/DIVULGAÇÃO

O 30º ano da carreira de Nando Reis é marcado por retornos: ele voltou a compor músicas para um álbum e, em setembro, lançou Sei. Após dez anos, ele subiu ao palco com os companheiros de sua antiga banda no show em que o Titãs celebrou 30 anos. E, após 28 anos dentro de uma grande gravadora, o músico e compositor vira dono do seu próprio nariz – um artista independente, mas em um cenário bem diferente de quando fazia um turno duplo no circuito paulistano com duas bandas, Titãs e Sossega Leão.

O Titãs comemorou os 25 anos de carreira em 2007, na época em que Charles Gavin ainda estava no grupo. Arnaldo Antunes chegou a participar da comemoração. Por que você não?

Eu não fui convidado. Na época, ainda devia rolar um estranhamento entre nós.

Sua saída do Titãs parece ter sido a mais difícil de todas.

A saída de Arnaldo foi mais asperamente tratada como uma rejeição por parte da gente, mas foi em uma fase em que a banda não estava tão no centro da atenção da mídia. Minha saída foi tão dolorosa quanto. Assim como a de Charles deve ter sido.

Além da reunião da formação clássica do Titãs, você reatou a conexão com Jack Endino. Como foi ter Sei produzido por ele em Seattle?

Quando eu gravo um disco, é uma espécie de viagem a um Plutão interno, um mergulho. Adoro gravar discos. É a coisa que mais me estimula e me alegra. Enfim, [Nando Reis e os Infernais] é uma banda já com seus 12 anos de vida que tende a ter seus vícios e maneirismos, e preciso combater isso. Fui para lá porque eu adoro o jeito como ele grava, eu queria tirar todo mundo do Brasil, queria que eles conhecessem Jack. Eu precisava de um produtor para gravar bem a gente, para entender como funciona nosso som. A sonoridade dos Infernais é totalmente seventies. Isso está imbuído no gosto de cada um pela própria timbragem e pela própria formação.

Houve um bloqueio criativo antes de gravar Sei?

2009 e 2010 foram anos cruéis do ponto de vista da criatividade. Eu havia escrito todas as músicas de Drês em 2007. O grande combustível que sempre me instigou para escrever tem a ver com a paixão, despertada por uma determinada pessoa. Não sou um escritor de inventar situações. Não sou um Chico [Buarque], um Bob Dylan, que têm a capacidade de criar personagens. Nesse sentido, minha mente é um pouco pobre, pouco fértil. Só escrevo sobre mim, a partir daquilo que sinto. Isso não significa que eu esteja querendo que os outros dêem atenção para mim. Escrevo sobre mim para eu prestar atenção em mim mesmo. Já há atenção suficiente só de eu subir ao palco. Não preciso de mais nada [risos]. O curioso é que é mais pessoal e se torna mais universal porque, quando escrevo sobre mim e há uma identificação por quem ouve, é como escrever sobre quem a ouve. Esse bloqueio criativo me angustia. Não gosto de viver assim. As pessoas falam: “Mas você é um hitmaker”.

Então você não se considera um hitmaker?

Não sou, pelo amor de Deus. Nunca quis ser. Claro que é uma alegria quando uma música vira um hit. Facilita a vida pra caralho [risos]. Mas não faço música por isso.

Dentre as parcerias, a com Cássia Eller foi a mais forte?

São várias as formas de parcerias e cada uma delas é para tentar ver como eu poderia me expressar. A relação que tive com Cássia é a mais completa. Ela envolve mais aspectos daquilo que, no meu entender, é maior. Vira quase que você ser parte de uma banda – uma parceria total – que seria o caso dos Titãs ou a parceria que eu tenho com os próprios Infernais. Cássia era uma loucura. Antes de nos identificarmos na questão do gosto musical, nós nos identificamos como personalidades muito semelhantes. Esse ridículo que rege a ideia que as pessoas têm que é um mundo de nobreza e grandes genialidades. Nada. Isso é patético. Lidar com isso tudo, tendo essa personalidade, sendo esse patinho feio – não sou gato, não tenho outra voz, ninguém reparou em mim até eu sair dos Titãs e começar a fazer as parcerias. Nossa aproximação aconteceu no instante em que a parceria era meio libertária para nós dois. Isso só se deu por acaso.

Como é ter uma personalidade introvertida e ter a música como ofício?

Parece que estou fazendo gênero, mas não gosto de entrar em lugares que tenha gente que não conheço. Há certas pessoas que me inibem, tenho poucos amigos. Gosto de ficar com a minha turma e, se puder, fico em casa. Saio para jantar e ir ao cinema. Só. Quando saí dos Titãs, foi um custo perder minha dificuldade e desconfiança de subir ao palco e falar com milhares de pessoas. Fiz shows horrorosos, bêbado demais por achar que bebendo eu quebraria meu nervosismo ou estar tão aflito que passei da conta. Não sou aquele sujeito: “E aí, galera!”. Não sei fazer isso. Não preciso. Eu tinha essa dificuldade, mas aprendi a me comunicar da minha forma. São 30 anos de aprendizado.