Roqueiros sem Pudor

Steve Appleford Publicado em 12/11/2012, às 16h39 - Atualizado em 13/12/2012, às 16h41

CELEBRAÇÃO
Paul Stanley não descuida do lado musical do Kiss
Divulgação
Liderado pelo baixista Gene Simmons e pelo guitarrista Paul Stanley, o Kiss, que também tem em sua formação o guitarrista Tommy Thayer e o baterista Eric Singer, lança o CD Monster, desembarca este mês no Brasil e se prepara para celebrar quatro décadas de existência

O vocalista e guitarrista Paul Stanley tomou as rédeas do estúdio e produziu Monster, criando um som trovejante. Isso significa material novo para a extensa turnê que está começando. “Somos melhores no palco”, Stanley conta. A maquiagem não mudou muito desde os anos 70, nem a atitude. “É a representação de tudo o que sou, alimentei e criei. Olho no espelho e penso: Ei, é o Paul Stanley – ele é muito foda!”

Você assumiu o papel de produtor a partir do álbum anterior, Sonic Boom. O que isso significou para o Kiss?

A democracia em estúdio é algo superestimado. O que acontece é que cada um acaba abrindo mão de algo, ninguém fica satisfeito e ninguém ganha com isso, nem os fãs. Achei que isso era realmente importante, e, na minha cabeça, algo imprescindível: se eu não produzisse os álbuns, não iríamos gravar. Alguém tinha de estabelecer os parâmetros e limites e determinar as expectativas. Para garantir que todo mundo assumiria o compromisso, algumas coisas tinham de ser ditas. Não mudou nada. Todas as cartas estavam na mesa e todo mundo sabia qual era o plano. Ficamos mais produtivos. Nunca vi o papel de produtor como algo ditatorial. Significa ser o diretor e o técnico. É um meio de manter todos focados no objetivo, e ter a palavra final. Todo mundo pode estar dentro do mesmo carro, mas alguém tem de dirigir.

Você achava que faltava algo nos álbuns?

É importante se certificar de que o Kiss é o foco principal de todos. Um meio de garantir isso era dizer: “Nada de compositores de fora”. Gravamos um olhando para a cara do outro, em uma mesma sala. Nada substitui a colaboração dentro da banda. Gostamos, adoramos ter a companhia um do outro, e respeitamos o que cada um de nós é capaz de fazer. Não assumi o papel de produtor do nada. Li comentários de Gene de que ele não tinha mais paciência para isso, então me propus. A verdade é que de outro modo não haveria outros álbuns.

Qual era seu plano para Monster?

Eu queria fazer um álbum que realmente trouxesse de volta o motivo de eu ter entrado nessa. Fui sortudo o suficiente quando garoto por passar boa parte dos meus fins de semana no Fillmore East [lendária casa de shows nova-iorquina]. Em uma noite boa, era como uma igreja evangélica. Quando o rock é feito com fervor, chega muito perto do gospel. Era o que eu queria com este novo álbum – paixão em vez de perfeição. James Brown não era perfeito. A Motown, os Beatles, os Stones, o Zeppelin, o Elvis no começo de carreira – queria manter a essência disso, conseguindo uma primeira, uma segunda, e, se realmente fosse necessário uma terceira tomada, e gravar em fita, analogicamente, capturando a intensidade do que estávamos fazendo.

Houve algum show em particular no Fillmore East que mudou sua vida?

É incrível pensar em quantas bandas incríveis se apresentavam lá. Os ingressos eram baratos e eram sempre umas três bandas tocando. Lembro-me de Traffic, Iron Butterfly e Blue Cheer. Derek and the Dominos, ou The Who com abertura do Buddy Guy, ou talvez Jimi Hendrix com abertura de Sly and the Family Stone. Era incrível, não havia monotonia. Você podia assistir ao Led Zeppelin com abertura da orquestra de Woody Herman, por exemplo. Era muito legal!

O último álbum do Foo Fighters também foi gravado em fita. Você espera que outros artistas façam o mesmo?

Sim, quando fica claro que as pessoas se distanciaram da essência do que estão fazendo. Por coincidência, eu conversei com o Dave Grohl hoje de manhã quando levamos nossos filhos para a escola. Ele está fazendo um documentário [a respeito do estúdio Sound City], sobre a história do lugar. A música e as pessoas que o estúdio inspirou foram gravadas em fita. Eles não tinham pedaleiras em que você aperta um botão e sai um cappuccino. Nossos heróis não tocavam em equipamentos que pareciam saídos de um episódio de Jornada nas Estrelas. Se você não consegue tirar um som incrível com sua guitarra plugada em um amplificador, precisa de uma nova guitarra ou de um novo amplificador.

O processo de composição mudou?

Nos últimos dois álbuns, compusemos juntos, e isso não acontecia com este mesmo espírito, deixando os egos de lado, há muito tempo. Além disso, Tommy [Thayer] agora faz oficialmente parte da banda, e isso é algo que não deve ser subestimado. Há uma ideia de que o Kiss teve tudo o que quis ou foi tudo que teve intenção de ser. Estamos conscientes do que fizemos no passado, e celebramos isso todas as noites. E estamos também vivendo o presente e olhando para o futuro.

Você mantém contato com (os ex-integrantes) Peter Criss ou Ace Frehley?

Não. Mas não por qualquer tipo de desavença. Só não faz sentido na minha vida hoje. Não há dúvida, a banda não estaria aqui se não fosse pelos dois. Mas a banda também não estaria aqui se eles ainda estivessem nela. Respeito e amo tudo o que criamos juntos, mas isso foi há muito tempo.

Os fãs continuam irritados porque o Kiss não entrou para o Hall da Fama do Rock and Roll ainda. Isso incomoda você?

Não, porque eu acho que é tudo muito descarado. Você tem a máfia musical da Costa Leste – eles são claramente mais motivados uns pelos outros do que pela realidade. Os critérios deles nos momento têm deixado bem poucas escolhas. Se nós aceitaríamos? Claro, porque nossos fãs se importam. Por isso eu seria educado. Mas, honestamente, para mim não significa nada. Já consegui muito mais na vida do que eu esperava e vai continuar sendo assim – mesmo que eu não receba algo que eu possa usar como peso para segurar a porta de casa.