Voz da Alma

Art Garfunkel tem um dos melhores instrumentos do rock – a voz. O que ele faria se a perdesse?

David Fricke Publicado em 12/11/2012, às 14h15 - Atualizado às 14h17

RECUPERACÃO Há mais de 50 anos na estrada, Garfunkel agora se preocupa com as cordas vocais

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Art Garfunkel inclina a cabeça levemente para trás e inspira rapidamente. Então, canta o refrão de sua gravação mais famosa e bem-sucedida, o single número 1 da dupla Simon and Garfunkel, “Bridge Over Troubled Water”. A voz é inconfundível: quente e elegante em sua fluidez lenta, etérea, assim como as pequenas e notáveis imperfeições – bordas ásperas, um tom momentaneamente oscilante –, enquanto Garfunkel pronuncia a palavra “bridge” e rola pela queda suave de “troubled water”. “Ouviu esses estalos?”, ele pergunta, sentado no minúsculo escritório na cobertura de seu apartamento no Upper East Side, Nova York. “A extensão média perdeu a finesse, e não consigo segurar meus tons de forma tão verdadeira e habilidosa.” Os altos e baixos do alcance vocal de Garfunkel – um contratenor, agudo e brilhante, com um alcance de barítono anormalmente rico – não importam, ele acrescenta, e promete: “Com muito aquecimento, posso ter essa finesse de volta, mas não é fácil”.

Garfunkel, que completou 71 anos neste mês, fala francamente sobre o estado de recuperação atual e o futuro incerto de seu canto. Em janeiro de 2010, depois de voltar de uma apresentação na Nicarágua, ele comia uma lagosta em um restaurante quando “um fiapo ficou preso na minha garganta”, lembra. “Não conseguia engolir, engasguei e fiquei assustado.” Raios X revelaram que ele sofria de paresia das cordas vocais, uma forma de paralisia. Uma de suas duas cordas tinha inchado e endurecido, sem causa aparente nem advertência. A condição forçou ele e Paul Simon a cancelar uma turnê norte-americana em 2010, e Garfunkel a contemplar a possível perda total de, como define, “meu melhor amigo desde os 5 anos. Paul Simon é um amigo bem íntimo”, ele diz sobre o companheiro de infância e a metade cantora-compositora da dupla. “Mas eu e o canto somos ainda mais próximos.”

“Nunca tive problema algum”, Garfunkel conta. “Minha voz é confiável. Sabe as inseguranças que você tem quando entra em uma sala cheia de desconhecidos? Nesse momento, eu canto.” No entanto, com a paresia, pela primeira vez na vida ele foi forçado a confrontar “aquela praga de ideia – ‘será que ela desapareceu para sempre?’”

Cinco dias depois desta entrevista, Garfunkel faria seu primeiro show completo em dois anos e meio em Williamstown, Massachusetts – o prelúdio para uma nova turnê solo. Em agosto, lançou The Singer, uma antologia com dois CDs que combina alguns momentos de sua história com Simon and Garfunkel e seu melhor material solo das últimas quatro décadas. The Singer também inclui as primeiras gravações de Garfunkel em estúdio desde seu diagnóstico – as baladas românticas “Lena” e “Long Way Home”, gravadas este ano em Los Angeles. “Ele claramente tinha um ar de gratidão, de que sua voz realmente estava voltando”, conta a cantora e compositora Maia Sharp, que produziu as novas faixas. “Sua extensão média definitivamente é a parte mais lenta a voltar. Se a melodia ficasse nessa região, ele precisava de mais tentativas.” Maia observa que Garfunkel ficou “agradavelmente surpreso” enquanto ouvia seu desempenho em uma das músicas, “porque se lembrava de como a experiência tinha sido difícil”.

“Quero que ele fique totalmente funcional, porque amo a voz dele”, diz David Crosby, um amigo próximo que frequentemente fez harmonias com Garfunkel no palco e em gravações. “Sua escolha de notas é sofisticada. Não tem como não se apaixonar por essa incrível sensação de flutuação quando ele canta suavemente – e liricamente.” Crosby ouviu Garfunkel cantar pela última vez há um ano “em um túnel no Central Park – ele cantou para me mostrar o eco lá”, conta. “Soava como se estivesse lutando, mas ele começou com o melhor instrumento do mundo. Tenho certeza de que continuará tentando mantê-lo assim.”

O regime de recuperação de Garfunkel é, na maior parte do tempo, bom senso. “Ficar longe de problemas vocalmente”, diz. “Cuidado com o telefone. Dormir bem à noite.” Para seu exercício vocal diário, ele canta junto com discos de James Taylor, Everly Brothers e Chet Baker em seu iPod. “Vou descobrir muito neste final de semana”, diz sobre o show em Williamstown, que planeja abrir com uma música que é uma caminhada em corda bamba: “For Emily, Whenever I May Find Her”, do álbum Parsley, Sage, Rosemary and Thyme (1966), de Simon and Garfunkel. “Ficarei de ouvidos bem atentos, como o público. [A voz] está lá? Se não estiver, então realmente o problema é sério.”


Na manhã depois do show, Garfunkel está contente, até certo ponto. “Foi bom”, diz, ligando do carro na viagem de Williamstown para Manhattan. “Estava frágil em ‘For Emily’, mas ela se sustentou em um nível, digamos, possível. Sem quebras.” Houve concessões à sua extensão média problemática. Ele diz que subiu o tom em “Bright Eyes”, do álbum solo Fate for Breakfast (1979), e “reescrevi o final” de “Bridge Over Troubled Water”. “Encontrei algo que me dá arrepios, mas decola em notas mais graves.” Garfunkel, então, relembra um comentário que Paul Simon fez durante a gravação dessa canção: “Paul disse: ‘Artie, por que você está atingindo essas notas grandes, tão triunfantes, quando as palavras que está cantando são I will ease your mind [Vou te acalmar]?’ Então, eu a reescrevi a linha vocal para atender um pouco à letra – e essa calma no coração.”

Do lado de fora da cobertura – um triplex a poucos passos do Central Park que Garfunkel comprou em meados dos anos 70 – há um pátio com vista panorâmica de Manhattan em todas as direções. No andar superior, a pequena sala quadrada é um museu de sua vida e mente, cheio de artefatos e suvenires de carreira: um piano elétrico Fender Rhodes grande demais para o cômodo e fotos – muitas com a segunda esposa, Kim, e seus filhos James, 21 anos, e Beau, 6. Em uma parede está uma cópia emoldurada de um disco de 78 rotações do primeiro single de Simon and Garfunkel, “Hey Schoolgirl”, uma fatia arquetípica do queijo do rock das antigas creditada a Tom e Jerry e lançada em 1957. Ele chegou ao número 49 da parada, mas foi o suficiente para levar os amigos de escola, ainda adolescentes, para o programa American Bandstand. Perto desse disco, pregada em uma cortiça, há uma foto de Garfunkel em 1953, com sua classe da 6ª série. Ele aponta para o garoto no canto superior esquerdo, sorrindo com uma coroa alta e espessa de cabelo loiro angelical. “Que bonzinho”, diz, rindo de si mesmo. “Deve ter sido uma época difícil na escola, sendo tão doce.”

Por todo o lugar há livros: enfileirados nas estantes até o teto, na ordem em que Garfunkel os leu, com fichas para marcar o ano. Um bibliófilo de longa data, ele mantém uma lista numerada em seu website, embora o número atualmente ali, 1.160, precise ser atualizado. “Eis o 1.171, o mais recente”, diz, mostrando The Man of Fifty, de Goethe. Ao lado dele está O Investidor Inteligente, publicado em 1949 – “É o que Warren Buffett usa” – e, no número 1.165, o atual sucesso erótico Cinquenta Tons de Cinza. “Você tem de ler”, diz Garfunkel, rindo. “É quente.”

“Poderia conversar com Artie durante dias e nunca ficar sem assunto”, conta Crosby. “Ele ainda, a esta altura da vida, quer aprender mais, o que é um sinal de inteligência real.” Na verdade, no início de nossa entrevista na cobertura, Garfunkel propõe: “Para cada duas perguntas suas, farei uma. Começaremos com você. Socioeconomicamente: foi um garoto rico? Pobre? Classe média? Jogou bola na rua?” Quando digo que sou da Filadélfia, ele faz uma rapsódia sobre o time de beisebol da cidade, o Phillies, seu preferido, listando nomes de seus astros nos anos 50.

“Se ‘The Sound of Silence’ não tivesse chegado ao número 1, minha vida não teria sido musical”, afirma, referindo-se ao single de 1965 que fez de Simon e Garfunkel astros do folk rock de um dia para outro. “Era uma pessoa acadêmica. Provavelmente teria sido professor, em algum lugar no campus.” Durante os dois primeiros anos de sucessos e turnês da dupla, ele – já com um diploma em História da Arte e mestrado em Educação Matemática – também fazia doutorado no Teachers College da Universidade de Columbia. Parou pouco antes de fazer sua dissertação porque, diz, “o estilo de vida do rock superou tudo”.

Nascido em 5 de novembro de 1941, Art Garfunkel cresceu cantando. Ele se lembra dos pais, Jack e Rose, harmonizando pela casa (“nunca desafinaram”). No entanto, aos 9 anos, ele, o segundo dos três filhos, já era um artista – um cantor em sua sinagoga, “colocando um leve grito na minha voz, para um pseudodrama”, conta. A inspiração negra secular veio de Sam Cooke e Chuck Berry e de gravações como “Earth Angel”, do The Penguins. “Sou um cara branco, sensato, pensador, de classe média, mas amo Little Richard”, insiste. Quando peço para mostrar o rhythm & blues em sua maneira de cantar, ele entoa outro verso de “Bridge Over Troubled Water”: “Sail on, silver bird / Sail on bah.” “Não é ‘Sail on by’”, observa. “A dicção negra – não se dá o devido valor a ela. É muito natural.”


“Sempre foi difícil para mim”, ele assume, “porque entrei na consciência como uma espécie de parceiro silencioso” – aquele que não compunha as músicas durante a fase de aclamação criativa e sucesso comercial de Simon and Garfunkel no final dos anos 60. The Singer contesta essa noção, destacando a presença emotiva e silenciosamente insistente de Garfunkel em “April Come She Will”, do álbum Sounds of Silence (1965), e na versão de 1966 da tradicional cantiga britânica “Scarborough Fair”, que chegou ao Top 20. Ele também reflete sobre a peculiar durabilidade de Simon and Garfunkel desde que a dupla se desfez por causa de tensões pessoais e diferenças artísticas, em 1970. Não foi possível falar com Simon para comentar sobre esta matéria. Em uma entrevista para a Rolling Stone em 1972, com a separação recente, ele descreveu a relação com Garfunkel como “cautelosa. Nós nos damos bem se obedecemos a algumas regras”. Também disse: “Eu via Simon and Garfunkel como uma parceria a três”, incluindo o engenheiro Roy Halee. “Cada um tem uma participação relativamente igual.”

O amigo Graham Nash viu essa dinâmica em primeira mão em 1966, durante sua primeira viagem a Nova York com o Hollies, quando Simon e Garfunkel o convidaram para uma sessão para o disco Parsley, Sage, Rosemary and Thyme. “Aquele não era o show de Paul Simon”, Nash afirma hoje. “Art tinha ideias definidas sobre aonde ir como cantor, com a música e quando.” Mais tarde, Nash e Crosby contribuíram com harmonias para o sucesso de Garfunkel, “Break Away”, de 1975, faixa também incluída em The Singer. “Ele tinha uma opinião sobre como deveria soar, o que deveríamos mudar”, diz Nash sobre Garfunkel. “E estava absolutamente certo.” Garfunkel responde à inevitável pergunta sobre o futuro de Simon and Garfunkel com uma cautela esperançosa. “O tango se dança em par”, diz. “Temos que nos sentir no clima, nós dois.” No entanto, mais tarde, a afeição aparece. “Está na natureza do ser humano que as coisas se movam. Isso vai levar a separações, mas chega ao ponto de ‘quem é mais engraçado do que Paul Simon? Quem me conhece melhor? Que ótimo guitarrista ele é. Onde está o telefone dele?’ Tudo sempre se resume à mesma coisa.”

Por enquanto, Art Garfunkel é, como diz honestamente, “um cantor em recuperação”. Ele descreve um dia típico: “Levanto às 6 da manhã, horário de roça. Tenho um filho pequeno. Vou ao café, leio o jornal e sempre tenho um livro comigo. Atualmente, estou lendo dois – Early Medieval History, 300–1000 e Eu Sou Charlotte Simmons, de Tom Wolfe”. Mais tarde, Garfunkel caminha pelo bairro, cantando junto com seu iPod. Há negócios a resolver, exercícios e, recentemente, ensaios para seus shows solo.

“Será que o canto pode se tornar meu amigo confiável novamente?”, ele pergunta, ao telefone, após aquele primeiro show. “Ainda não posso dar uma resposta positiva. Estou de dedos cruzados. Eu me sinto bem, mas você precisa cavar fundo, ter minha experiência e confiar que tudo ficará bem. Há uma pedra, depois a escultura, e aí se chega ao mármore.”

Por enquanto, ele afirma, “há a pedra, há o contorno”. Faz uma pausa. “O resto ficará bom.”

Infelizmente, mesmo com o sucesso do show em Williamstown, Garfunkel novamente se sentiu inseguro quanto ao seu poderio vocal e teve de adiar o restante da turnê, que incluía até apresentações na Suécia. “Eu tinha esperanças de finalmente poder cantar novamente. É doloroso tentar e não conseguir”, ele declarou em seu site.