Lutador de Família

Encarando as incertezas de uma nova fase na carreira, Mauricio “Shogun” Rua trabalha sem descanso para retornar ao topo do UFC

Murilo Basso Publicado em 13/12/2012, às 16h24 - Atualizado às 16h26

PAIZÃO No octógono particular, com a filha Duda

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Sentado no córner direito de seu octógono particular, Maurício Rua está ofegante. Ele enxuga o rosto e ouve as instruções de um dos sparrings. Sorrindo, o olhar se perde e ele se dá conta de que mais uma manhã de treinos chegou ao fim. Aos 30 anos, “Shogun”, como é conhecido no universo da milionária liga Ultimate Fighting Championship, consegue impor respeito naturalmente graças ao porte físico avantajado e olhar de poucos amigos. Observado mais de perto, o ex-campeão dos meio pesados, único brasileiro a ganhar cinturões dos maiores torneios de artes marciais mistas já existentes (o Pride e o UFC), até parece e se comporta como um cara normal.

Naquele dia, Rua chegou cedo à academia do irmão, Murilo “Ninja”, no Juvevê, bairro nobre de Curitiba. “Dudinha, mostra para o tio como o papai faz?”, ele diz ao se sentar ao lado do tatame, com a filha de 3 anos no colo. Enquanto a garotinha soca o ar para imitar o trabalho do pai, um jovem lutador se aproxima e diz: “Poxa, não rolou o TUF com o Lyoto”.

Apesar de Shogun e Lyoto Machida terem sido os mais cotados, os nomes de Fabrício Werdum e Rodrigo Minotauro foram confirmados como treinadores da segunda edição do The Ultimate Fighter Brasil, reality show que busca novos lutadores para o UFC. “Sem problemas, cara. Não é uma obsessão, uma hora vai rolar”, Shogun responde, denotando frustração, mas se esforçando para exibir tranquilidade.

A criança rouba as atenções em um ambiente quase exclusivamente masculino. Sorrindo, Duda brinca com as bochechas do pai. “É só eu falar que vou à academia, que ela quer vir junto”, Shogun conta, orgulhoso. “Ela sabe o que eu faço, mas não a deixamos assistir às lutas. É até engraçado, porque quando viajo, normalmente volto com o olho roxo. Mas tem vezes que viajamos apenas para eventos de divulgação e quando chego ela logo pergunta: ‘Cadê dodói, papai?’”

“Acho que conforme ela for crescendo vai compreender melhor que é apenas o trabalho do pai dela”, ele continua. “Após a luta contra o Dan Henderson, minha mãe e minha esposa pediram que eu parasse, porque realmente foi um combate desgastante. Mas acho que ainda tenho lenha para queimar. E quando sentir que meus reflexos não são mais os mesmos, vou parar sem problemas.” Por sinal, o embate contra o californiano, em Novembro de 2011, foi considerado pela crítica especializada um dos melhores da história do UFC (Shogun perdeu por pontos). Desde 2009, aliás, o curitibano alterna derrotas e vitórias na liga. Em março último, perdeu por nocaute o cinturão dos meio-pesados, na primeira vez em que o defendeu, para o norte-americano Jon Jones. O próximo confronto, em 8 de dezembro, contra o sueco Alexander Gustafsson, seria a chance de mais uma volta por cima.

“Comecei aos 15, 16 anos, praticando muay thai. Quem me incentivou foi o Ninja, meu irmão, que na época já lutava profissionalmente”, Rua relembra, sentado no meio do octógono, localizado na parte posterior da academia. “Na época do Royce Gracie, o cara era bom em apenas um estilo. Já nos tempos do Pride, era necessário ser eclético e nós treinávamos todos os estilos. Agora acredito que é preciso se moldar de acordo com o adversário. Por exemplo, quando lutei contra o Lyoto, que é um especialista em caratê, contratei sete caratecas para a preparação.”


Seja espirrando sangue alheio, seja batendo papo furado, é dentro das oito grades que Maurício Rua se mostra à vontade. “Minha maior dificuldade foi em termos de adaptação”, ele aponta para os lados. “No Pride, o ringue era quadrado, então era mais fácil encurralar o oponente. Agora, aqui, é impossível. Veja: não há canto. E você tem que caminhar mais, se movimentar mais.”

O octógono em questão é um motivo de orgulho especial para Rua. Após um dos duelos contra Forrest Griffin, o brasileiro solicitou ao presidente do UFC, Dana White, a autorização para construir uma arena própria com medidas oficiais. “Ele inclusive nos deu uma lona porque elas não são revendidas”, relembra, completando que, dessa forma, é possível ter uma noção real de onde se posicionar durante as lutas. “Tirando os próprios eventos do UFC, nunca vi um octógono igual a este”, comenta o atual empresário, Julio Heller.

“Ao menos”, Shogun ri, “agora não tenho desculpa para apanhar tanto.”

Três dias depois, pontualmente às 7h da manhã, Rua chega à academia de chinelo e bermuda para mais um dia de trabalho. Duda, dessa vez, preferiu continuar dormindo e não acompanhou o pai. “Muito cedo, não é?”, ele brinca. Em pé sobre o tatame, Shogun e o treinador reorganizam a agenda da semana em conjunto – naquele momento, o foco estava no confronto contra Gustafsson, marcado para menos de dois meses. “Cada atleta sabe o que passa no seu treinamento”, diz. “É igual a um relacionamento entre marido e mulher: os amigos podem até ter uma noção, mas não sabem o que realmente ocorre.”

Se o MMA atravessa sua melhor fase em termos financeiros e de popularidade, Maurício Rua segue em uma calculada contramão. Ao contrário de Anderson Silva, amigo e antigo companheiro de treinos – ambos se iniciaram no esporte na academia Chute Boxe, reduto de lutadores da capital paranaense – que aproveita ao máximo a fama e as possibilidades trazidas com a superexposição, Shogun optou por se afastar dos holofotes. E eventualmente escuta comentários sobre certo comodismo de sua parte por optar pela permanência em Curitiba.

“Claro, eu amo minha cidade, mas já treinei em São Paulo, em Los Angeles... E se em determinado momento eu perceber que preciso ir para a China, vou para lá e como pedra! Porque sou atleta e preciso pensar no melhor para a minha carreira”, ele se defende. “Mas, em termos de estrutura, tenho tudo que preciso aqui. Claro que também há o conforto proporcionado pela presença da minha família, mas, se fosse preciso buscar algo fora, eu buscaria.”

Heller interrompe. “O Lyoto foi campeão treinando no Pará. O [Júnior] Cigano, na Bahia. E o Shogun, em Curitiba”, diz. “Antigamente todos queriam ir para fora, mas hoje a situação é oposta. Os Estados Unidos continuarão sendo o carro-chefe do wrestling. E a Tailândia continuará sendo o do muay thai. Mas atualmente muitos lutadores procuram o Brasil para se aperfeiçoar no esporte.”


De qualquer forma, Rua deixa transparecer as incertezas que perseguem atletas quando chegam ao momento em que o passado já não basta e o futuro ainda não chegou. Hoje, enfrenta um período de entressafra. Há menos de dois anos era considerado imbatível, mas agora as críticas ganharam força. Para alguns, seu auge já passou – a perda do cinturão para Jones, em um combate em que não conseguiu sobressair em momento algum, além do recente embate em que sofreu para vencer o norte-americano Brandon Vera, apontam para este cenário. Turbulências pessoais também ocorrem, como a recente troca de empresário e as críticas sobre seu método de treinamento, mas Rua afirma enfrentá-las da mesma forma que encara os golpes. Há quatro meses, o irmão Murilo discordou de seu método de treinamento e abandonou a equipe. “Cara, eu amo o Murilo! Mas ele sempre teve conflitos com meus treinadores. Conversamos e achei melhor parar, porque o estresse era grande”, diz. “Queria ele ao meu lado. Mas se não está rolando preciso me adaptar.”

“O importante é que é só uma questão profissional”, Shogun emenda, rindo. “E o almoço em família no domingo ainda é o mesmo.”

Os treinos são intensos – sete dias por semana, em três períodos –, então Shogun usa as atividades cotidianas como válvula de escape para a rotina de golpes. Se por um lado os treinos se tornam mais puxados à medida em que a próxima luta se aproxima, ao menos é possível encontrar distração ao buscar Duda na escola. Mas o que ele gosta mesmo é de futebol. Fã do recém-repatriado meia Alex, e de jogadores das antigas, como Pachequinho, a paixão pelo Coritiba veio do berço. O fato de o pai, Antonio, levar os irmãos Rua ao estádio desde cedo contribuiu. É ele mesmo quem faz o convite: “Domingo tem Coxa e Atlético-MG, bora lá?”

No estádio Couto Pereira, o lutador parece tão em casa como quando sobe no octógono. Há uma bandeira em sua homenagem na torcida organizada do clube. “Massa, né?”, diz, apontando para a arquibancada. Fanatismo à parte, Rua mantém a cautela para não misturar as paixões. “No Brasil há muita rivalidade no futebol. As pessoas levam muito a sério torcer para um time ou para outro. Então prefiro não me envolver a esse ponto para não perder o carinho das pessoas”, explica. “Torço para o Coxa e isso não é segredo para ninguém. Mas não misturo as coisas, não coloco meu time no meu trabalho.”

Leva nove minutos para Deivid converter o pênalti que daria a vitória ao time da casa e Shogun comemorar abraçado com o pai. Mais tarde, ele questiona e relembra. “Tu vem sempre ao estádio? Qual o seu grande jogo? O meu foi um Coritiba e Paraná, que ganhamos por 4 a 0. Tinha 10 anos e vim com meu pai. O Pachequinho fez um gol olímpico.” Durante os 15 minutos de intervalo entre o primeiro e o segundo tempo, Shogun é abordado 23 vezes. Entre pedidos de fotos e autógrafos, pede que o amigo Alexandre “Sangue” traga pizza e bebidas para todos. Tira R$ 40 da carteira e brinca: “Traz o troco, maluco!”

Mais tarde, caminhando pela cidade, Shogun demonstra aceitar de bom grado o reconhecimento, fruto da efêmera popularização do MMA no país. É óbvio que tudo mudou, mesmo que ele próprio não perceba dessa forma. Se no estádio não teve descanso com os fãs, na rua não é diferente. Autógrafos e fotos são pedidos constantes, que encara com sorrisos e paciência. A postura, ele atribui à educação, tanto familiar quanto a de atleta que desde sempre cresceu sob o rígido código de conduta das academias de artes marciais. “Eu já peguei o MMA mais evoluído, com regras e uma organização mais sólida. O Wanderlei [Silva] e o Anderson, e até meu irmão, passaram por aquela fase mais pesada”, conta. “Pelo menos, nunca briguei na rua.”

Já na segunda semana de novembro, o treinamento ganhava peso com foco nos objetivos mais próximos. Ao todo, cada luta exige cerca de três meses de trabalho, sendo o primeiro dedicado à preparação física. No segundo, a intenção é levantar o máximo de informações sobre o adversário para que seja possível simular situações próximas às do combate. “Hoje eu não tomo nenhuma decisão sozinho”, Shogun reflete. “Tudo é pensado em conjunto com meus treinadores e com meu empresário.”

De volta à academia, ele caminha lentamente para o octógono, portando a mesma expressão serena e indecifrável. O roteiro do dia será focado em muay thai, e Dida, um dos atuais treinadores, orienta os movimentos de esquiva. Neste instante, Shogun é apenas mais um aluno aplicado que ouve atentamente as instruções do mestre.

“Tenho muito orgulho da minha carreira e do que conquistei”, ele diz. “Mas ainda quero esse cinturão e vou atrás dele. Tento encarar cada luta como se fosse a última oportunidade.” Enquanto isso, observando tudo no colo da mãe, Duda soca o ar. Mais um dia de treinos recomeça.