Autora do livro Devil’s Knot fala sobre o que a inspirou a investigar o caso dos West Memphis Three

"Sou contra a pena de morte. Para mim é arrogante, cara e bárbara", afirma Mara Leveritt; obra está sendo adaptada para o cinema

Mayra Dias Gomes Publicado em 15/01/2013, às 12h28 - Atualizado às 12h46

West Memphis Three
Reprodução

A premiada jornalista norte-americana Mara Leveritt tomou conhecimento do caso conhecido como West Memphis Three em 1993. Quando três adolescentes do Arkansas, Damien Echols, Jason Baldwin e Jessie Misskelley, foram presos pelo assassinato brutal de três crianças de oito anos, e acusados de satanismo, Mara começou a investigar o caso. Em 2002, ela lançou o aclamado livro Devil’s Knot, explicando os procedimentos legais que resultaram na condenação dos adolescentes. Hoje, Devil’s Knot está a caminho do cinema, e trará Reese Witherspoon e Colin Firth no elenco. No Brasil, o livro será lançado este ano. Leia abaixo entrevista com a autora.

Memórias do Corredor da Morte: condenado à injeção letal em 1994 por um crime que afirma não ter cometido, Damien Echols reaprende a viver em sociedade, agora na pele de uma celebridade multimídia.

Na época, o que levou você a escrever o livro?

Eu estava intrigada com a crença de que os assassinatos tinham motivação satânica. Em 1993, eu sabia que o FBI havia investigado supostos assassinatos satânicos, mas não encontrei nada que indicasse que eram satânicos. Então, se os assassinatos dos meninos tivesse de fato esse tipo de motivação, seriam uma anormalidade. Também estava perturbada pela ideia de que três adolescentes sem longo histórico criminal poderiam de repente cometer um massacre. Mas esperei para ver o que aconteceria nos julgamentos. Depois li os documentos disponíveis. Fiquei mais curiosa quando li a suposta confissão de Jessie Misskelley, e comecei a achar que não havia provas convincentes de que os três adolescentes eram culpados.

Você escreveu o livro baseando-se na pesquisa que fez dos autos do processo e em entrevistas que conduziu. Como se sentiu ao se aprofundar no caso?

Eu tinha e tenho muitos sentimentos. O principal é meu sentimento de tristeza pelas crianças que foram assassinadas. Imagino seus últimos momentos de vida e a enorme traição que sofreram. Como mãe, acredito que entendo o tamanho da perda dos pais. Por outro lado, tenho grandes suspeitas sobre dois dos parentes das crianças. E penso nos adolescentes que foram acusados. Sinto que eles foram horrivelmente traídos pela polícia e seus parentes também. Tristeza e raiva.

Você tinha a intenção de ajudar a libertar os adolescentes?

Não. Minha meta era explorar e descrever, para mim e para os meus leitores, os procedimentos legais que resultaram em condenações que eu não conseguia entender.

Eles foram basicamente condenados por causa de suas aparências e gostos pessoais. Você conhece outros casos em que este tipo de preconceito ocorreu?

Na verdade, eu acredito que eles foram condenados porque eram pobres e alvos fáceis. Isso acontece muito.

Você trabalha com homens que foram condenados à morte. O que pensa sobre a pena de morte?

Sou contra a pena de morte. Para mim é arrogante, cara e bárbara.

Você já leu o livro do Damien Echols, Life After Death? O que achou?

Eu achei que o livro é forte nos momentos em que Damien fala sobre como lidou com a situação. O livro é fraco quando critica outras pessoas, especialmente Jason Baldwin.

Você está envolvida no filme de Devil’s Knot?

Eu fui convidada para ser consultora no roteiro e estou muito orgulhosa das pessoas envolvidas. Devil’s Knot será o primeiro filme feito sobre o caso que não será um documentário. Todos os envolvidos, incluindo Baldwin, que é coprodutor, trabalharam para assegurar a autenticidade da história. Como o diretor Atom Egoyan disse, esse caso é parte da mitologia americana. Todos querem ter certeza de que a história contada é a história verdadeira.

No que você está trabalhando agora?

Devil’s Knot terminou com a condenação dos meninos em 1994. Junto a Baldwin, estou escrevendo Justice Knot, sobre sobreviver à prisão e sobre a tremenda batalha pública para libertar os garotos. Quando eu terminar este livro, espero passar muito tempo falando sobre o que as pessoas podem fazer para ajudar a abolir a pena de morte nos Estados Unidos, e trazer mais transparência e responsabilidade para o sistema judicial.