A Ascensão do Black Keys

Como dois caras exageradamente normais se tornaram uma poderosa e pulsante máquina de rock and roll ao vivo

Brian Hiatt Publicado em 08/02/2013, às 16h34 - Atualizado às 16h50

SETE DISCOS DEPOIS Auerbach (à esq.) e Carney: o sucesso chegou tarde ao Black Keys

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Ninguém nesta movimentada cafeteria orgânica de Hollywood parece que acabou de ter os ingressos de sua banda esgotados no Madison Square Garden – muito menos, talvez, o cara baixinho e barbudo de jaqueta jeans caminhando em direção a uma mesa de canto. A aparência de Dan Auerbach é impressionante: nariz anguloso, olhos azuis, cabelo avermelhado escorrido. Só que seu traje totalmente jeans transmite um ar de “funcionário de estacionamento” tanto quanto de “astro do rock” – e ele se porta com uma falta quase intencional de extravagância.

Sentado tomando café, ele começa a processar algumas notícias que recebeu via e-mail há alguns minutos. “Você está vendo meu cérebro sair pelos ouvidos?”, pergunta Auerbach, 33 anos, vocalista e guitarrista do Black Keys, que em março vem ao Brasil como um dos headliners do festival Lollapalooza, em São Paulo. “Meu Deus! Que diabos está acontecendo?” A empolgação não faz o estilo dele, mas Auerbach tem seus motivos. Depois de sete álbuns e uma década de turnês intensas, a dupla de Akron (Ohio) concluiu uma jornada improvável – de gravações em porões escuros a shows para milhares de pagantes em estádios: nesta manhã, o Black Keys vendeu todos os ingressos para a maior casa de espetáculos de Nova York em meros 15 minutos.

No entanto, ninguém na cafeteria está prestando a menor atenção no líder da banda. “Esse é meu negócio, cara”, diz ele, tirando o cabelo da testa e olhando para os outros clientes distraídos. “Talvez se eu estivesse de terno de veludo, cartola e bengala – algum tipo de produção, entende? Todo mundo que chega a esse nível sempre tem uma produção. Óculos e barba são suficientes? Acho que não... Não é para esse tipo de coisa acontecer com bandas como a nossa. Realmente não. É loucura.”

Mas meio que é. O Black Keys – Auerbach e o baterista de óculos Patrick Carney, 32 anos – lançou o primeiro álbum, The Big Come Up, em 2002: era uma festa de riffs funk, cheia de fuzz e baixa fidelidade altamente calcada no blues excêntrico do Mississippi do herói de Auerbach, o músico de boteco Junior Kimbrough – ao mesmo tempo em que acrescentava toques incongruentes, como batidas de hip-hop e uma cover desleixada de “She Said, She Said”, dos Beatles. Àquela altura, ambos insistem, a dupla não tinha ouvido a música de outra dupla blueseira que chamava muita atenção no mesmo ano, mas isso praticamente não impediu que as pessoas considerassem o Black Keys como um White Stripes genérico. Até mesmo Jack White implicou: “Tenho muito mais a ver com Jay-Z do que com o Black Keys”, ele declarou em 2010, e, embora Auerbach não fale sobre o incidente, White aparentemente o impediu de entrar em seu estúdio, em Nashville, há não muito tempo (White responde: “Qualquer coisa que você ouvir alguém dizer sobre mim é 100% verdade”).

À medida em que a década passou, tendências vieram e sumiram – rock de garagem, rock dance, emo – e o Black Keys permaneceu em um mundo próprio, com seu som evoluindo gradualmente. “Eu nem pensava em composição nos primeiros discos, só na música e no groove”, afirma Auerbach. “Era absolutamente só brincar – pegar riffs de blues antigos, escrever letras na hora e transformar em uma canção. Então, começamos a meio que vasculhar esses discos que amamos e tentar descobrir por que os amamos tanto, além do som.”

Eles colocaram tudo o que aprenderam no álbum Brothers (2010), revelando canções pop totalmente formadas. Com o rock em uma de suas marés comerciais mais baixas, a dupla se tornou uma de pouquíssimas novas bandas de guitarra a chegar às massas, e, diferentemente de, digamos, Kings of Leon, parece que está fazendo isso com dois álbuns de sucesso consecutivos: Brothers ganhou três Grammys e vendeu mais de 1 milhão de cópias, enquanto o mais elegante El Camino (2011) estreou no número 2 da parada norte-americana.


Patrick Carney tem certeza de que sabe o que está matando seu gênero favorito atualmente. “O rock está morrendo, porque as pessoas aceitaram que o Nickelback fosse a maior banda do mundo”, afirma, soprando fumaça de cigarro pela janela de seu loft alugado no East Village, alguns dias antes de a banda ir para Los Angeles. “Assim, aceitaram a ideia de que a maior banda de rock do mundo sempre será uma porcaria – portanto, você nunca deve tentar ser a maior banda de rock do mundo. Foda-se isso! O rock é a música que mais me apaixona e não gosto de vê-lo arruinado e empurrado goela abaixo como esta porcaria horrível, diluída, pós-grunge. Quando as pessoas começam a nos incluir nesse tipo de coisa, sinceramente dá vontade de dizer: ‘Vão se foder, sério’.”

Há uma qualidade ternamente cartunesca em Carney, como se tudo nele fosse levemente fora do normal: ele tem pelo menos 1,90 m de altura; a armação de seus óculos estilo Buddy Holly é deliberadamente um pouco grande demais para seu rosto; ele é um cara sociável que faz amigos facilmente, e um coletor de rancores exagerados que rotineiramente tem rompantes de raiva semicômica. Tem de tirar os óculos no palco para que não voem longe – praticamente cego, detona batidas excitantes e descompassadas como se nunca tivesse visto alguém tocar bateria, em uma postura corcunda e aparentemente dolorosa: “Tenho câimbras bem fortes nas mãos”, conta, “e às vezes meu osso esterno fica todo zoado”.

Enquanto toca, o rosto dele frequentemente fica contorcido no que parece fúria. Na verdade, é medo e autodepreciação. “Sou péssimo na bateria, então é apavorante”, diz. “Vejo muitos comentários no Twitter sobre como sou feio, como toco mal bateria, como pareço esquisito, e concordo com a maioria dessas coisas. Só que o que não posso fazer é procurar cada uma dessas pessoas e repreendê-las pelo que são, simplesmente julgando a foto delas, e sou o tipo de pessoa que realmente faria isso com alguém.”

Carney e a esposa, Emily, se mudaram de um apartamento em um prédio sem elevador no Lower East Side para uma casa com piscina em Nashville em 2010, mas ficaram inquietos ali – então, alugaram um loft totalmente mobiliado em um edifício com vizinhos que incluem o baterista Fabrizio Moretti e o escritor Bret Easton Ellis. O lugar dá uma sensação de quarto de hotel – os únicos sinais de que alguém realmente mora ali são a caixa de pizza integral na cozinha, o sofisticado aparelho de som perto da TV, uma Rolling Stone sobre a mesa de centro e, estranhamente, duas cópias iguais do livro Jogos Vorazes.

O casal se conheceu pouco depois de um divórcio brutal de uma mulher que Carney namorava desde os 20 anos. Em uma matéria da Rolling Stone de 2011, ele reclamou da ex-esposa – e ela respondeu escrevendo um ensaio de cinco mil palavras sobre o tumultuado casamento para o site Salon.com. Agora, Carney está determinado a não falar uma palavra sobre a ex publicamente – e não fala.

Ele esvazia uma lata de lixo, lutando para amarrar os sacos pequenos demais deixados por um inquilino anterior – nunca passou tempo suficiente aqui para comprar a própria lixeira. “Financeiramente, estamos indo bem”, afirma ele, que trabalhou em uma empresa de telemarketing antes de fundar o Black Keys. Depois de falar sobre imóveis por uns minutos, ele faz uma pausa. “Ainda tenho medo de ficar pobre. Não parece que faz tanto tempo. Sei como é estar em uma situação da qual não parece haver saída.”


Se o Keys teve alguma ambivalência sobre buscar o sucesso comercial, ela foi deixada de lado por volta de 2004, quando voltaram para casa depois de um mês de shows na Europa que, de alguma forma, resultaram em um prejuízo de US$ 3 mil. A dupla tinha recusado uma oportunidade de seis dígitos para usar uma música em um comercial de maionese no ano anterior. Houve uma nova proposta da Nissan e, depois de um longo debate, Carney e Auerbach mudaram de posição. Carney conta: “Falamos: ‘Sabe de uma coisa? Foda-se. Vamos aceitar o dinheiro. Ninguém está ouvindo nossa música, não estamos vendendo nenhum disco’”.

Brothers foi uma bonança de licenciamento – o single “Tighten Up” apareceu em uma propaganda da Subaru, um game de futebol, um episódio de Gossip Girl e em pelo menos dois filmes – e chegou ao ponto de algumas marcas até usarem músicas que soavam como o Black Keys. Só que a dupla quis puxar o freio em El Camino. “Quando ninguém está comprando seus discos, é fácil justificar a venda de uma música”, afirma Carney. “Só que, quando você começa a vender, não dá realmente para justificar ter duas músicas em comerciais de Cadillac. Parece ganancioso. E é ganancioso. Essa coisa toda da música deveria dizer respeito à música.”

Com o sucesso do Black Keys, o público deles mudou – há uma inclusão de universitários do tipo cuja presença costumava perturbar Kurt Cobain. Só que a banda está determinada a assumir uma postura acolhedora. “Algumas bandas têm públicos nos quais você sente que está junto a clones de si mesmo – você nunca conhece alguém novo”, comenta o baterista, comendo bolinhos de carne de porco e macarrão japonês, em um restaurante. “Gosto da ideia de que nossos fãs são de um espectro amplo. Sempre que alguém fala de estar desconfortável em um show porque há um tipo de gente diferente ali, é uma tremenda ignorância. Não quero que uma pessoa assim seja nosso fã.”

Na cafeteria, Auerbach recosta em uma parede de tijolos aparentes, tomando seu café e folheando um exemplar do LA Weekly; pareceria um garoto se não fossem as olheiras de insônia, quase chamativas em contraste com sua pele pálida e sardenta. Ele nunca dormiu bem. Independentemente da hora em que vai para a cama, acorda com o sol se levantando: na noite passada, foi dormir por volta de 3h30 e acordou às 7h30 com a luz penetrando o quarto do hotel. Ficou deitado por um tempo, com a cabeça a mil. “Sempre há alguma coisa que quero tentar fazer”, conta. “Sempre há alguma coisa para conferir. Não sou muito bom em não me preocupar.”

Ele também tem uma movimentada segunda carreira de produtor de discos em seu próprio estúdio em Nashville, mais recentemente para Dr. John. Além disso, há sua filha de quatro anos, Sadie, que ele viu mais via Skype por uma boa parte de 2012. “É difícil”, diz Auerbach, casado há mais de cinco anos. “Só que é um negócio tão volúvel. As pessoas que nos amam agora não vão dar a mínima para nós daqui a, digamos, cinco anos. Você tem de aproveitar enquanto está bom.”

Auerbach fica mais feliz quando está gravando músicas novas. “Você grava um disco e, então, tira três meses de folga, e é aí que deve fazer o novo álbum”, diz. “Compomos uma música todo dia. Poderíamos fazer um disco toda semana se não tivéssemos de fazer turnês.”


Carney e Auerbach estavam parados em uma rua de Nova York no meio de uma tempestade de neve quando resolveram cancelar uma turnê australiana e gravar o que se tornou El Camino – embora a falta de seguro significasse que o cancelamento lhes custaria US$ 100 mil. Isso acabou não sendo um problema, considerando o sucesso comercial do disco – o que, obviamente, trouxe muitas mudanças para a rotina da dupla.

Na cabeça deles, porém, ainda são os rapazes que dirigiam a noite inteira, movidos a rebite de caminhoneiro, em uma minivan com cheiro de urina como a que aparece na capa de El Camino, que uma vez dirigiram por 20 horas pelo deserto sem ar-condicionado, com o nariz sangrando devido ao ar seco; que fizeram um show às 6h30 da manhã em um programa de TV chamado Good Morning Salt Lake City, diante de oito idosos e uma lareira falsa.

É claro que houve momentos divertidos ao longo do caminho. “Comemos cogumelos uma vez na van, indo de Amsterdã para Paris”, conta Auerbach. “Abrimos a porta em uma parada de caminhões, totalmente viajando, e foi como aquela cena quando as crianças entram na fábrica do Willy Wonka. Não uso há muito tempo, mas cogumelos são o máximo.”

Auerbach e Carney largaram a faculdade para fazer música e não tinham dinheiro na família para protegê-los. “Não temos outra opção”, afirma Auerbach. “Não temos, nunca tivemos.”

“Ainda posso lavar pratos”, diz Carney, em um encontro no luxuoso hotel Chateau Marmont, em Los Angeles, bebendo a terceira vodca com suco de toranja da noite. “Quando estávamos na 9ª série, éramos muito cientes de que, se quiséssemos ir para uma boa escola, não seria possível – não tínhamos dinheiro. Então, é tipo: o que te sobra? O rock & roll! Sabe de uma coisa, nenhum infeliz que sabia que poderia viver do sonho de fazer rock realmente conseguia tocar rock.”

Carney está esquentando agora; Auerbach só observa, silenciosamente entretido.

“Você é criticado quando não finge ser o máximo, e nós não somos o máximo! Estamos basicamente dando a aula que as pessoas não querem frequentar, que é sobre ‘Como Ganhar a Vida Fazendo o que Você Ama, Nível 1’. E também ‘Como Espancar Quem Te Odeia e Fazer com que Te Chupem’. Esta é Nível 200.”

“Muito poético”, completa Auerbach.


Às vezes, Dan Auerbach e Patrick Carney dão um abraço rápido – um sinal de que duas pessoas que mal se conheciam quando a banda começou chegaram longe. Ainda é esquisito, e não só por causa da diferença de quase 18 cm de altura entre eles (“Nunca sei onde colocar os braços”, diz Auerbach). Apesar de terem ficado próximos, a estratégia deles para sobreviver a um futuro potencialmente infinito juntos pode ser ignorar um ao outro o máximo possível: nos bastidores, esperando para se apresentar na TV, podem passar muito tempo sem qualquer tipo de interação direta.

Os dois homens, nascidos com 11 meses de diferença, cresceram a poucas casas de distância um do outro em Akron, mas, antes de começarem a tocar juntos no porão de Carney no final do ensino médio, mal haviam se falado. Ambos ficaram obcecados por música muito cedo. O pai de Carney, Jim, repórter da editoria geral do Akron Beacon Journal, tocava discos dos Beatles e dos Stones para ele quando era criança (e comprava fitas de Vanilla Ice e Weird Al Yankovic); Carney absorveu o cânone do rock clássico por volta da 7ª série e passou para o rock indie no ensino médio. Montou uma bateria e equipamentos de gravação no porão na esperança de que isso o ajudasse a formar uma banda – embora estivesse mais interessado em tocar guitarra.

O pai de Auerbach é comerciante de antiguidades e arte folclórica, com uma barba ao estilo ZZ Top, que compôs letras para Dan (incluindo a balada “Whispered Words”). “A única forma de me rebelar era arranjando emprego em um escritório e usando terno todo dia”, conta Dan. Seu pai lhe deu uma educação eclética em música americana de raiz: Billie Holiday, Robert Johnson, Hank Williams, Grateful Dead. Ele se lembra do filho cantando uma música do Little Anthony and the Imperials aos 5 anos, e levou Dan para um show do Dead quando ele tinha 15 (“Perguntei: ‘Pai, o que está acontecendo? O que são esses quadradinhos de papel?’”).

No ensino médio, Auerbach era capitão do time de futebol e fumava muita maconha, o que deixa algumas de suas lembranças confusas. “Lembro que meu professor sentiu meu bafo de álcool uma vez e me mandou para a diretoria”, conta. “Não lembro o que aconteceu, acho que fui suspenso... Nunca fazia lição de casa, e sempre estava nas classes dos melhores alunos. O que isso diz sobre o sistema educacional?”

Carney, que parece um nerd bonzinho nas fotos de colégio, tinha sido atormentado por ser muito alto. No ensino médio, havia aceitado seu status de rejeitado, usando óculos enormes e fazendo de tudo para ser o mais esquisito e incômodo possível.

Auerbach e Carney tiveram uma conexão instantânea e única na primeira vez em que tocaram juntos. “Foi imediato, conseguimos fazer algo na hora”, relembra o vocalista. Mas estabelecer uma relação além dos negócios levou tempo. “Nunca saíamos juntos, só éramos realmente bons em fazer música juntos”, conta Auerbach. “Só que ficamos amigos e nos tornamos pessoas que realmente gostam e se importam uma com a outra.”


A maior tensão no relacionamento aconteceu nos meses antes do divórcio de Carney. Auerbach e a ex-mulher de Carney não se davam bem (“Eu a odiei desde o começo”) e ele achava cada vez mais impossível conversar com Carney enquanto este era casado – o que pode ser um motivo para ter lançado um álbum solo, Keep It Hid, em 2009.

Carney fez terapia “para lidar com outros problemas dos quais não posso falar, basicamente. Tive de desfazer um nó mental”. Ele se divorciou e logo o Black Keys voltou ao estúdio.

No final das contas, diz Auerbach, tudo se resume a isto: “Eu peguei o homem dela. Você entende o que eu quero dizer? Ele ficou do meu lado e não do dela, e ela me odeia por isso”.

O Black Keys – Auerbach e Carney, mais o baixista Gus Seyffert e o tecladista/guitarrista John Wood – está no palco em um anfiteatro de Los Angeles e milhares de fãs cantam em uníssono. O que seria ótimo, se não estivessem cantando uma música do Mumford & Sons. O show, organizado pela rádio KROQ, usa um palco giratório e o Black Keys está no escuro, esperando os Mumfords terminarem e o palco girar. “Vamos parecer o Slayer comparado a isso”, diz Carney, durante uma balada.

Enquanto o Mumford & Sons termina com “The Cave”, o Black Keys se prepara, Carney esfregando as baquetas na caixa, e Auerbach saltando sem sair do lugar. Dan me vê na escuridão. “Alguma pergunta final?”, diz.

“Você está pronto?”, questiono.

Ele pensa seriamente na pergunta, enquanto o público aplaude ruidosamente o Mumford. “Espero que sim”, responde, dedilhando a guitarra. “Mais pronto, impossível”. Ele respira fundo e sorri. O palco começa a girar, levando o Black Keys em direção às luzes e à multidão.