De um Jeito Diferente

Girls está de volta, levando a série a novos níveis de graça constrangedora

Rob Sheffield Publicado em 13/02/2013, às 16h53 - Atualizado às 17h07

GAROTAS COMUNS Allison Williams, Jemima Burke, Lena Dunham e Zosia Mamet, de Girls

Cada grande série de nossos tempos tem uma frase que resume bem sua mentalidade particular. Em Breaking Bad, é Walter White dizendo à esposa: “Sou eu quem bate na porta”. Em Mad Men, é Don Draper gritando: “É para isso que o dinheiro serve!” Em Girls, da HBO, a epifania surge no primeiro episódio da nova temporada: “Como é que eu posso ficar de pau duro com você virando os olhos com desprezo?” De certo modo, essas palavras resumem cada perdedor deprimente de 20 e poucos anos na brutalmente hilária sitcom de Lena Dunham. Nenhum desses garotos é capaz de ficar de pau duro, emocionalmente ou intelectualmente – assim como nenhuma delas consegue parar de revirar os olhos.

Lena fez uma primeira temporada incrível, transformando a vida sem graça dela, o sofrimento medíocre e a compaixão excêntrica em Girls. Por ainda não ter passado dos 30 – e porque ela não faz esforço algum para esconder as pretensões e inseguranças – muita gente vai torcer para que ela dê com os burros n’água na segunda tentativa. Para esses, minhas condolências, porque a nova temporada de Girls é ainda melhor que a estreia fantástica. É tão melhor quanto Paul’s Boutique, do Beastie Boys, é melhor do que Licensed to Ill.

A autora e atriz atraiu a atenção com Girls ao fazer piada de suas aspirações, anunciando logo de cara que queria ser a voz de sua geração (“Ou pelo menos uma voz, de uma geração”). Mas ela transformou o esbanjamento urbano neurótico em personagens genuínos. As quatro heroínas hipsters, e seus “falsos lenhadores”, não são diferentes de qualquer artista mimado de 24 anos de qualquer geração. Como Janeane Garofalo costumava dizer na época do grunge, época em que Lena Dunham estava na escola, as garotas de Girls têm uma visão de vida bem “eu consigo, se você me der um empurrãozinho”.

Mas uma das coisas mais particulares sobre a genialidade de Lena – e uma das coisas mais fáceis de ignorar sem querer em Girls – é como os personagens passam por mudanças estranhas de personalidade, abruptas e embasbacantes. Isso está de acordo com o que realmente acontece quando você tem 20 e poucos anos, mas é algo raramente mostrado na TV. A personagem de Lena Dunham, Hannah, e as amigas dela não evoluem no ritmo gradual normal de uma sitcom; elas cambaleiam por espasmos de maturidade e decisões horríveis tomadas às pressas.

O “quase namorado” de Hannah, Adam, começou como um cabeça-dura sem profundidade e que tratava o coração dela como carne de segunda. Mas aí se transformou em uma das pessoas mais sãs da vida dela. Naturalmente, quando Adam começou a agir como um adulto, Hannah se assustou. Na última vez que o vimos, ele estava berrando: “Você me persegue como se eu fosse a porra de um beatle por seis meses e aí, quando finalmente me sinto confortável, você dá de ombros? O que porra há de errado com você?” Quando ele diz “você é a minha titular” esperando provocar alguma reação maior e ela mal percebe, é um momento de partir o coração.

Parece que Lena Dunham passou o período entre as duas temporadas avaliando os pontos fortes e fracos da equipe dela. Assim, redistribuiu algumas funções, dando mais partes engraçadas à Shoshanna de Zosia Mamet e ao Elijah de Andrew Rannells, enquanto a Jessa de Jemima Kirke esquenta o banco um pouco.

Lena obviamente percebeu que a coisa mais engraçada a fazer com a Marnie de Allison Williams é mantê-la em cenários humilhantes, em que todo mundo tira sarro dela. E veja só – funciona. Há só uma cena de sexo em que Allison está nua, mas ela usa apliques de cabelo presos com fita adesiva para cobrir os mamilos. Talvez o efeito desejado fosse o de uma pintura de Botticelli, mas acaba sendo tão tosco e bobo, que só aumenta o clima emocionalmente disfuncional e constrangedor. E é seguro dizer que Lena Dunham sabe o quão engraçado isso é. Em Girls, não há nada mais engraçado, ou triste, do que o modo como cada ereção vai para o espaço ao dar de cara com uma garota que revira os olhos com desprezo.