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Conferência Consumer Electronics Show foca em TVs gigantescas e esquece inovações práticas

Scott Steinberg | Tradução: Tiago Munhoz Publicado em 08/02/2013, às 16h19 - Atualizado às 16h20

QUEM MANDA? Na confusão organizada da CES, os humanos só dão atenção às máquinas

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O epicentro do mundo mainstream da alta-tecnologia é a feira anual Consumer Electronics Show (CES), que ocorreu em Las Vegas, no mês passado. As dezenas de milhares de participantes vão até lá para serem expostos à visão de futuro dos fabricantes de tecnologia em massa. Mais de 3 mil expositores ocuparam os 174 mil metros quadrados do centro de convenções para mostrar suas inovações, incluindo TVs OLED 4K de ultradefinição e câmeras fotográficas com o sistema operacional Android, e os novos avanços em todos os campos parecem reforçar a importância da conferência.

Porém, observadores astutos que veem além do falatório e do mar de telas cintilantes perceberão que o que não está à mostra ali é igualmente significativo. O tema para os gigantes industriais é “evolução, não revolução”, mas, apesar dos esforços de marketing em torno de novidades como controles via voz ou toque, as grandes mudanças estão fora do radar do consumidor médio. Como as seguintes tendências revelam, há muito mais acontecendo na indústria de alta-tecnologia do que meros óculos com realidade aumentada ou fones de ouvido de celebridades.

Transformação da Computação e dos Hábitos de Consumo

Como o pioneiro da intel Gordon E. Moore observou, o poder de computação dobra a cada 18-24 meses – um aumento do desempenho dos processadores que se traduz em aparelhos cada vez mais potentes e eficientes. Com a expectativa de venda de mais de 1,2 bilhão de smartphones neste ano, o que trará a mudança fundamental na computação e nos hábitos de consumo é o acesso em massa a um alto desempenho proporcionado pelos dispositivos portáteis a preço acessível.

Experiências amigáveis ao usuário, streaming de mídia, aplicativos gratuitos e serviços na nuvem não são mais meros slogans da indústria: há uma previsão de que, pela primeira vez, neste ano, as remessas de tablets serão maiores que as de laptops nos Estados Unidos. Elas representam um presságio do que está por vir em computação pessoal enquanto treinamos a próxima geração para contar com acesso por encomenda, interfaces imediatamente compreensíveis e um aumento de conteúdo enxuto e acessível o tempo todo.

Um recorde de 1,76 bilhão de apps para iOS e Android foi baixado somente na semana final de dezembro, com a estimativa de que 89% do total dos 45,6 bilhões baixados em 2012 foram disponibilizados de graça. Note que todos são acessíveis, virtualmente, a qualquer hora, em qualquer lugar, utilizáveis em uma enorme variedade de aparelhos que cabem no bolso. Que eles vão aonde os usuários forem e possuem, cada vez mais, especificações que rivalizam com as dos computadores tradicionais. Empresas pretendem aumentar essa continuidade expansiva da informática, tanto por meio de ofertas premium quanto por meio de preços populares, enquanto outras procuram conseguir uma maior conectividade via integração com redes sociais.

O resultado: as expectativas e os padrões de uso dos usuários mudam dinamicamente, enquanto o hardware e o software se tornam mercadorias básicas, com a comodidade como diferencial.

A Vez do Crowdfunding

Enquanto a maioria das inovações da tecnologia ainda chega pelos canais tradicionais, as plataformas de crowdfunding (arrecadação de recursos online) continuam a crescer como uma alternativa. Animados pelo financiamento de usuários da internet, queridinhos da mídia como o relógio que roda apps, o Pebble, e o app Zombies, Run! dobraram o investimento nesse campo, que chegou a US$ 2,8 bilhões em 2012. No mundo dos games esse impacto é maior, e projetos de software bancados por desenvolvedores independentes (e financiados por fãs) como Wasteland 2 e Project Eternity estão entre as mais promissoras contribuições da categoria. O prognóstico aponta na direção de um futuro cada vez mais presente no crowdsource: consoles de baixo custo ou arquitetura aberta financiados por fãs, como o Gamestick e o Ouya. Esses exemplos estão prontos para concorrer com plataformas consolidadas, como PlayStation 3, Wii U e Xbox 360.


A futura aprovação da lei JOBS nos Estados Unidos, que permite a empresas levantar até US$ 1 milhão com a venda de participação acionária, promete virar os investimentos de cabeça pra baixo. A mudança está chegando rápido ao mundo dos eletrônicos. Do mesmo jeito que as bandas e os desenvolvedores de apps independentes abalaram os campos de publicação de música e software, espere que fabricantes independentes e inventores desfrutem de uma presença de grande influência futura no mercado.

A Mudança na Direção da Praticidade

Em anos anteriores, a CES representava o principal campo de batalha para os gigantes da indústria como Microsoft, Dell, HP e Nokia, e nenhum deles teve uma participação significativa no evento em 2013, fora as aparições com parceiros. Enquanto os anúncios nesse tipo de conferência ainda oferecem uma das mais poderosas plataformas para estimular o público, a atenção se deslocou para eventos domésticos ou para locais alternativos, como o Mobile World Congress. Permanecendo um evento de demonstração que se espalha pelo Las Vegas Convention Center e hotéis vizinhos, é importante notar que neste ano a CES é menos a respeito dos atores individuais da indústria do que sobre as tendências dominantes – muitas das quais serão ofuscadas pela sua persona de gala descomunal.

Exemplo: entre uma das mais antigas grandes fronteiras em termos de telas, os aparelhos de televisão continuarão sendo um campo no qual tanto startups empreendedoras quanto grupos poderosos se envolverão em 2013. No entanto, a batalha para introduzir o 4K (as chamadas TVs de “ultra-alta-definição” com 4 vezes a resolução dos atuais modelos de 1080p) versus as TVs OLED (com cores vibrantes e alto contraste) é mais uma distração. Isso significa que há demanda pelos aparelhos para os quais há muito pouco conteúdo nativo existente, padrões ainda obscuros e preços proibitivamente altos. Além dos poucos modelos existentes, será mais voltada para fabricantes do que para os consumidores no futuro imediato. Irritados com o aumento dos televisores disponíveis a preços acessíveis e das pequenas margens de lucro das telas planas, os fabricantes precisam criar uma categoria premium para preencher o vazio criado pela inexpressiva demanda por TVs 3D. Ou seja: a indústria está mais preocupada com uma margem de lucro maior do que com o desenvolvimento de uma tecnologia realmente revolucionária.

Enquanto boa parte do barulho feito na CES envolveu esses lançamentos, os desenvolvimentos mais inovadores do campo terão relação com tópicos como experiência de usuário e troca e entrega de conteúdo conectado. Smart TVs, por exemplo, representam um campo maisprático, barato e promissor. Considere que a entrega de mídia via streaming, aplicativos e ferramentas de comunicação bidirecional fornece um maior acesso a conteúdo de alta qualidade e interações diretas entre os aparelhos. Os desafios estão em educar o público, comunicar melhor os benefícios para os consumidores e prepará-los para interagirem ativamente com as TVs.

Avanços promissores em muitos campos como os da saúde, mobilidade e telecomunicações estiveram à mostra na CES. Ironicamente, dada a propensão da feira para o entretenimento, tais soluções práticas são jogadas para escanteio pelos espetáculos que os espectadores exigem do circo de mídia. Mas, se você acredita que o futuro da tecnologia está nas TVs de 110 polegadas que custam mais do que carros, planeje visitar a CES um dia – o maior show de tecnologia do planeta está apenas começando.