O Adeus ao Beatle George

George Harrison, que neste mês completaria 70 anos, só fez uma grande turnê em sua carreira solo – em 1974, com resultados polêmicos

Ben Fong-Torres | Tradução: Ana Ban Publicado em 08/02/2013, às 17h10 - Atualizado em 25/02/2013, às 12h54

Reportagem publicada originalmente na edição 176 da RS EUA (Dezembro de 1974)

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Santo Krishna! Que noite de abertura para George Harrison é esta? Ravi Shankar pede silêncio e que ninguém fume enquanto ele toca. Silêncio é importante, diz, porque a música é eterna, e do silêncio sai a música. Mas, em vez disso, o que se ouve do público é um berro estridente, seguido por uma chuva de gritos de guerra. Depois de alguns minutos, as pessoas começam a berrar: “Vê se agita!” e “Rock and roll”!

Harrison está rouco e se esforça. O tecladista Billy Preston anima o show com duas participações na segunda metade, mas a noite se arrasta em direção à conclusão com mais música indiana, mais gritos por “rock and roll” e, no fim, um pedido morno de bis para Harrison. Ele toca “My Sweet Lord” e do silêncio sai o silêncio – um público parado e sentado. Só a fileira da frente acompanha o ritmo com palmas. “Eu detestei”, diz Pat Luce na manhã seguinte. Pat não fazia parte do público pagante. Ela é assessora de imprensa da A&M Records, e acompanha a turnê em nome do selo Dark Horse, de Harrison, distribuído pela A&M. “George precisa descansar”, disse. “Ele está ensaiando todos os dias e gravando durante as noites para poder lançar o single. Na estrutura, é um show fabuloso; todos sabem que a banda é boa. O problema é que é longo demais; para mim, Ravi tem que ser um set só; e o George precisa calar a boca.”

Na última vez em que vi George Harrison ao vivo com os Beatles, ele se destacava. O grupo estava em um palco montado por cima da segunda base no Candlestick Park, estádio de beisebol do San Francisco Giants, na noite de 29 de agosto de 1966. Foi o último show dos Beatles. “Entramos na rotina”, Harrison declarou ao biógrafo Hunter Davies, anos depois. “Ninguém escutava nada. Pioramos como músicos, tocando as mesmas coisas velhas todos os dias. Não havia satisfação.”

No mês seguinte, George e Pattie Boyd, sua esposa na época, partiram para a Índia. Depois de ter pego por acaso um instrumento estranho chamado cítara no set de Help!, ele se interessou em estudar com o compositor e citarista indiano Ravi Shankar.

Passaram-se mais cinco anos até que Harrison retornasse aos palcos, a pedido de Shankar e em benefício do povo do Bangladesh. Harrison produziu o megashow e foi o mestre de cerimônia, reunindo amigos como Billy Preston, Ringo Starr, Eric Clapton, Leon Russell e Bob Dylan. Foi ali, no Madison Square Garden, em Nova York, que ele experimentou o gostinho de querer voltar a fazer turnês.

Ravi Shankar foi a principal razão do retorno aos palcos de Harrison. “Sempre tive vontade de trazer um número assim grande de bons músicos da Índia”, diz o indiano. “George tinha algumas fitas que eu tinha de coisas com grupos e ficou impressionado. Passou quase sete anos me dizendo que eu devia trazer algo assim para cá. Eu disse: ‘Bom, você também vai ter de participar’. Foi só em 1973 que ficamos mais confiantes.”


Em outubro de 1973, Harrison chegou a Los Angeles para começar a ensaiar e finalizar o álbum Dark Horse, iniciado um ano antes, em Londres. Ele quis condensar os dois projetos – mais um single, também chamado “Dark Horse” – em um período de três semanas. Perdeu a voz e, em uma coletiva à imprensa às vésperas da turnê, revelou o fato, especulando que talvez só fizesse apresentações instrumentais nas primeiras datas.

Talvez não tivesse sido má ideia. Harrison de fato iniciou cada show de boca fechada, apresentando-se apenas como um entre os nove integrantes da banda, tocando uma canção bem arranjada, cheia de tensão chamada “Hari’s on Tour (Express)”. Mas na noite de abertura, em Vancouver, Harrison começou a cantar “The Lord Loves the One” fora de tom. A voz já parecia cansada. A performance foi recebida com reação mínima: as pessoas prestavam mais atenção no cabelo dele – com um corte desgrenhado, de comprimento médio – ou no seu macacão jeans e nos seus mocassins Hush Puppies.

Na passagem por Seattle, São Francisco, Oakland, Long Beach e Los Angeles, a voz de Harrison estava igual – as resenhas também. Em São Francisco, Phil Elwood, do jornal Examiner escreveu: “Harrison nunca foi um grande cantor, mas sua voz sempre comoveu. Mas no show estava praticamente sem voz e teve de coaxar para chegar ao fim das canções, até na delicada ‘Something’”. Em Los Angeles, Robert Kemnitz, do Herald, escreveu: “Em ‘While My Guitar Gently Weeps’, a banda estava mandando tão bem que até as falhas vocais de Harrison foram perdoadas. Mas quando entrou em ‘Something’, berrando a letra de sua balada, parecia um Bob Dylan possuído pelo demônio em uma noite ruim”.

Quando chegou a Los Angeles, no primeiro dos três shows no Forum, a voz de Harrison tinha piorado. Depois de uma reação de 8 segundos para uma música nova chamada “Maya Love” – mais bocejos do que aplausos –, Harrison atacou a plateia: “Não sei o que vocês estão achando daí, mas, daqui de cima, vocês parecem meio mortos”. Mais tarde, com a voz rachada, ele deu uma bronca irritada em alguém na plateia que tinha pedido “Bangladesh”. Finalmente, depois de se acalmar, pediu desculpas pelo rumo que as coisas tinham tomado.

Na noite seguinte, Harrison fez dois shows no Forum para plateias bem menos do que lotadas. O gerente do Forum, Jim Appell, estimou a primeira audiência em 9 mil e a segunda em 11 mil. O Forum tem 18 mil lugares. A maior parte das pessoas que gastou US$ 9,50 para ver o beatle George esperava um show dos Beatles, com alusões a hits e um passeio pela memória. Mesmo que tivessem acompanhado Harrison nos últimos anos e soubessem onde estavam se metendo, as pessoas queriam um beatle.

Harrison recusou-se a atender essas expectativas. Nos ensaios, levava duas horas e 18 músicas antes de chegar a uma música dos Beatles – “In My Life”, de Rubber Soul. Ravi Shankar implorou a Harrison para que ele levasse em consideração as expectativas do público “e desse um par de músicas antigas às pessoas; tudo bem fazer isso”.


Para Harrison, o importante era apresentar Shankar e as novas canções. Significava insistir em ser apenas um dos músicos no palco, como um anfitrião humilde. Mas também marcava uma recusa de reconhecer seu passado, e o fato de que, se não tivesse sido um beatle, talvez não estivesse fazendo uma turnê de US$ 4 milhões. O pior é que ele deturpou o passado, mudando a letra dos clássicos.

“George não queria cantar ‘Something’,” diz Billy Preston ao descrever os ensaios. “Eu sabia que ele ia ter que cantar, e começou a se rebelar contra isso apresentando uma visão diferente, reescrevendo a letra. Mas pelo menos ele tocou a canção.”

Havia outros problemas: os shows sofreram com a mixagem sonora. A apresentação em Vancouver incluiu duas participações da orquestra de Ravi Shankar, o que, para boa parte do público, foi um excesso. Ao apresentar “nosso amiguinho” Shankar e sua orquestra para a segunda entrada, Harrison pareceu reparar na falta de entusiasmo no ar. Ele defendeu a música indiana: “Eu morreria por isso”, disse olhando para os músicos de Shankar. Então, dedilhou a guitarra e emendou: “Mas não por isto”. Depois do desastre da noite de abertura, um encontro sem graça no hotel se transformou em uma série de reuniões com Shankar, Harrison e os músicos. O citarista sugeriu uma reestruturação do show.

De Seattle a Los Angeles, os shows correram assim: “Hari’s on Tour (Express)” (a instrumental), “Something”, “While My Guitar Gently Weeps”, a parte de Preston com “Will It Go ‘Round in Circles” e “Sue Me, Sue You Blues”. Depois, com menos de meia hora de show, Harrison apresentava Shankar e orquestra para sete músicas seguidas, com a participação da banda de rock no primeiro, “Zoom Zoom Zoom”, e depois retornava para as últimas duas músicas de Shankar. Até agora, só três faixas de Harrison em uma hora inteira.

Na segunda metade, tudo era apresentado de forma confusa. Harrison dava a partida com “For You Blue” e “Give Me Love”, cuja introdução era reconhecida pela plateia. Então, vinha uma jam sem direção nascida nos ensaios no estúdio da A&M chamada “Sound Stage of Mind”, seguida por “In My Life”. Depois vinha “Maya Love” e o ponto alto mais consistente da apresentação: Billy Preston com os hits “Nothing from Nothing” e “Outta-Space”. Depois de “Dark Horse”, Harrison anunciava o último número, “What Is Life”, e voltava para “My Sweet Lord” acelerada, irreconhecível a não ser pela letra e carregada pela insistência de George para que você escolhesse o deus da sua preferência. Ele alternava Krishna e Cristo, adicionando de vez em quando uma menção a Buda e a Alá.

Antes de cada show havia um clima de expectativa e, em Vancouver, isso por si só foi um espetáculo. A plateia acendeu fósforos e dava para detectar resquícios fracos da beatlemania. Também havia a sinceridade de Harrison, em estado radiante enquanto cometia todo o tipo de erro antishow business – apresentou de forma exagerada Ravi Shankar e Billy Preston, implorando à plateia que tenha um pouco de paciência com a música indiana, pedindo desculpa o tempo todo por sua garganta detonada e cumprimentando Shankar ao estilo indiano, ajoelhando-se e tocando os seus pés e colocando as mãos em sua cabeça, assim demonstrando humildade perante seu amigo e professor.


Alguns críticos chamaram a apresentação de “show de Billy Preston”. Quando Preston, com seu terno elegante de lantejoulas e cabelão afro em forma de nuvem de cogumelo, começava a se movimentar atrás dos instrumentos arranjados a seu redor, um agito contagiante tomava conta do pedaço. Ele entregou às multidões o que elas não conseguiram com Harrison: canções de sucesso, interpretadas com fidelidade, com voz potente. Foi Preston que fez o público ficar de pé. Ele foi o motivo de Bill Graham, de trás de um amplificador no palco, gritar e agitar os braços para que a banda mantivesse o clímax mais um pouco. Harrison, parecendo agradecido, apontava para Preston e gritava seu nome enquanto o tecladista berrava: “George Harrison! Volte para o palco!”.

Em Vancouver, a maior parte do público foi educada com Ravi Shankar e sua trupe de 15 integrantes. Um pouco agitada, talvez, e possivelmente pensando se seria melhor se estivesse saboreando um cachorro-quente ou escutando mais Harrison. Foi em Seattle que Shankar e sua orquestra finalmente ganharam reconhecimento.

“Eu sempre fui... como é mesmo a palavra? ... ‘dilema’? ... para o meu público nos últimos 30 anos”, Shankar observou um dia em São Francisco. Assim como no palco, ele é um homem de fala mansa e obviamente orgulhoso. Na turnê, todas as músicas de Shankar tinham cerca de cinco minutos, coisa que para muita gente foi um alívio em relação aos longos ragas que ele toca em suas apresentações próprias. Ele escreveu (e editou) muitas delas especificamente para o público de Harrison.

Shankar tem evitado festivais de rock por razões que transcendem as dificuldades técnicas. “Depois de eu ter ido a Woodstock e a mais um ou dois festivais, desisti. Mudou tudo em relação à atmosfera de Monterey não só pela não violência, mas também por ter drogas. E eu achei que talvez não adiantasse nada eu ir, não é o meu tipo de música. Também fico magoado de ver gente chapada, fazendo bobagens, coisas que nem sou capaz de imaginar”, avalia. “E a nossa música precisa de respeito, como qualquer música séria – Bach, Mozart –, então, quando vi que isso não era possível, achei melhor ficar longe.”

George Harrison fez o possível para evitar o incômodo das entrevistas durante a turnê. Ele tinha dado uma coletiva em Los Angeles e até ajudou a preparar uma ntrevista oficial para o kit de imprensa. Na coletiva, explicou por que dava tão poucas entrevistas: “Sou músico, não sou de falar”. Mas agora ele queria falar para mim. Pat Luce organizou uma visita ao camarim entre os shows no Forum.

Finalmente, apenas meia hora antes de Harrison voltar ao palco, nos encontramos. Discutimos as críticas. Ele foi direto e assertivo, ficava estralando os dedos de vez em quando, perfurando-me com seus olhos. Atrás dele, Olivia Arias, sua futura esposa, sorria com ar compreensivo a todas as suas observações. Harrison estava pensando nas apresentações e sobre a reação a elas. Ele falou com mais sinceridade do que a raiva e impaciência que suas palavras no papel possam dar a entender.


“Este show não aconteceu por acaso”, começou. “É com essa ideia que algumas pessoas fazem a resenha do show. Nós nos esforçamos e sofremos. Passamos por anos de vida e de experiência para sermos gratos até por termos nos conhecido. Imagine então pelo fato de termos formado uma banda e ainda termos a colocado na estrada.”

“As pessoas precisam pensar um pouco mais”, ele reflete. “O público precisa se sacrificar um pouquinho. Precisa escutar e olhar, assim vai receber algo de bom. Se as pessoas chegam achando que vai ser isto ou aquilo, então isso por si só já é uma barreira que as impede de apreciar. Se você abrir a mente e o coração, há muita alegria para compartilhar.”

Fiquei com a tentação de falar em nome das pessoas que, ao abrirem os ouvidos, escutaram uma voz destruída cantando músicas modificadas. Mas isso podia esperar. Pedi a ele que avaliasse os shows até agora. Harrison disse que, em cada show, algo de bom foi transmitido para a plateia. “Houve momentos ruins em todos os shows, mas eu quero dizer que não faz mal, por causa do espírito de todo o mundo dançando e entrando no clima. E se você pegar 50 bêbados que estão gritando, xingando Ravi ou qualquer coisa assim, vai ter 17 mil pessoas que saíram de lá relativamente satisfeitas, algumas delas em êxtase e algumas delas que por acaso levaram consigo muito mais do que jamais pensaram.”

Ele não teve controle sobre sua agenda de ensaios e gravações, explicou. “Eu não tenho controle sobre nada. Acredito em Deus e ele é o controlador supremo, até do ensaio.” Então a voz dele em “Dark Horse” está rouca “e é mais como eu estou neste exato minuto. Estou falando sobre a ênfase que é colocada em uma coisa. As pessoas têm tanta expectativa... Se você não tiver expectativa nenhuma, a vida é apenas um enorme bônus, mas, quando você fica esperando alguma coisa, então pode se decepcionar. Eu não decepciono ninguém”.

Mas o que dizer sobre as pessoas que pagaram US$ 9,50 a duras penas, esperando pelo menos um gostinho do “beatle George”? Harrison se inclinou:

“Bom, por que elas querem ver se existe um beatle George? Eu não digo que sou o beatle George.”

“Bom, é uma das coisas que você não controla...”

“Eu controlo, sim...”

“Mas é como o público se sente em relação a você. As concepções...”

“Certo, mas eu vou controlar a minha própria concepção. Gandhi dizia para criar e preservar a imagem de sua escolha. A imagem de minha escolha não é o beatle George. Se quiserem algo assim, as pessoas podem ir ver o Wings. Então, por que viver no passado? Esteja aqui agora e agora, goste você de mim ou não, isto é o que eu sou. Eu prefiro tentar defender algo em que eu acredito a destruir algo em que não acredito.”

Insisti. Mas Harrison estava pensando naquele bando de críticos de mente estreita.

“Eles sempre vão existir, mas... foda-se, a minha vida pertence a mim.” Com rapidez, ele se corrige: “Na verdade, não pertence. Pertence a ele. Minha vida pertence a Lorde Krishna e tenho a minha coleira de cachorro para provar. Eu sou só um cachorro, guiado pela coleira por Krishna. Eu sou o servo do servo do servo do servo do servo de Krishna. Sou um grão de pó na criação. Nunca fui tão humilde em toda a minha vida, e me sinto ótimo.”

Então, George Harrison é um grão de pó. Um grão de pó feliz. Eu aceito isso, e fico feliz pela felicidade dele. Mas ele está no show business e isso, do meu ponto de vista, exige pelo menos um pouco de empatia com a plateia. A voz de Harrison se ergue.

“E daí que eu estou no show business? E este é o meu show, certo?” Ele começa a cantarolar mais uma vez: “Aceite-me como eu sou ou me largue”.

“Eu não apontei uma arma e forcei nem você nem ninguém a vir me ver. Não me importo se ninguém vier me ver, se ninguém nunca mais comprar um disco meu. Vou fazer aquilo que sinto.”

No corredor, os músicos se dirigiam ao palco. Atrás das cortinas, no clima de expectativa, o produtor Bill Graham supervisionava detalhes de última hora. “Como foi a entrevista?”, perguntou.

“Foi boa”, eu respondi. “Harrison foi teimoso e disse que está bem contente com os shows.”

“Se ele está feliz, então eu estou feliz”, Graham declarou, dentro do espírito do show business.