O Dia em Que Deus Olhou para o Outro Lado

Edgardo Martolio Publicado em 08/02/2013, às 17h14 - Atualizado às 17h17

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Há 75 anos, em um território chuvoso do sudoeste da China, o exército japonês executou 300 mil inocentes. A dignidade humana foi aviltada como se o demônio tivesse se erguido das profundezas. A história chama esse episódio de O Massacre de Nanquim, e ele é lembrado com um moderno memorial. Uma visita ao local comove e leva à reflexão sobre esse genocídio

Os olhos de Yong têm um tom cinza. Seu olhar é a melhor descrição de tristeza que já conheci sem que nenhuma palavra fosse dita. As pupilas fixaram-se – há pelo menos dez minutos – em uma imagem aterradora, uma foto que o transporta para um tempo que ele não pode esquecer. Ou, por razões que meu entendimento não alcança, ele precisa voltar, seja para reviver, seja para soterrar o passado. Na imagem pendurada, sem cores, em preto e branco, um corpo de mulher aparece atravessado por um sabre no púbis. Não se vê o rosto da mulher, só se percebe que era jovem e que estava grávida naquele momento em que Deus olhou para o outro lado. Até o Diabo hesitaria em autorizar tamanha crueldade.

Nanquim – ou Nanjing –, hoje com mais de 10 milhões de moradores, é a capital da quinta maior província chinesa, Jiangsu. Já foi, em três oportunidades, capital do país (do século 3 ao 6, também entre 1368 e 1421 e, finalmente, no século passado, de 1928 a 1937). A palavra Nanjing significa “capital do sul”: nan é sul e jing capital. Muitas pessoas sabem de sua existência porque nela se inventou a “tinta da china”, também conhecida como tinta nanquim. E os mineiros, porque Belo Horizonte é uma de suas 20 cidades-irmãs. Em duas horas, um dos vários trens-bala chineses me trouxe de Xangai. A cidade ressuscitou após o impiedoso massacre do exército japonês, que a invadiu há 75 anos. A ocupação nipônica se estendeu de 1937 a 1945.

Este homem idoso, cujo olhar me comove, carrega uma história atormentada desde o dia em que nasceu. A mãe dele morreu mais ou menos como a mulher da foto, na ação perversa dos invasores; morreu quando ele estava nas águas mornas do ventre dela. Yong ainda hoje não sabe como sobreviveu. O ato mais comum no massacre era matar as jovens grávidas após violentá-las, abrir sua barriga e jogar o feto para o alto para atingi-lo no ar com as baionetas. Os ocupantes competiam para ver quem caçava mais bebês e os golpeava com mais exatidão. Yong sabe que nasceu no meio dessa orgia de sangue e que foi poupado, resgatado e adotado, indo viver longe dali. Mas ele está no Museu do Holocausto de Nanquim porque deseja saber mais: nem tanto dele, mas sim da mãe. Talvez do pai, possivelmente um dos 300 mil civis que morreram naquelas seis semanas em que o inferno se instalou com raiva e loucura.

A China e o Japão nunca se entenderam. Sempre houve desconfiança. O histórico entre as duas principais nações do Extremo Oriente está semeado de conflitos, antigos e recentes. A Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894/95) não trouxe a paz definitiva. Longe disso: o triunfo do Japão, que marcaria a fogo a decadência do império chinês, deixou vontade de quero mais no vizinho ilhado, territorialmente menor e guerreiramente vencedor. O Incidente de Mukden (atual Shenyang, no norte chinês) reabriu as feridas entre as duas nações em 18 de setembro de 1931. A infame sabotagem, em que militares japoneses explodiram uma seção da ferrovia de sua propriedade para justificar uma nova invasão – que anexaria a Manchúria ao Império do Sol Nascente –, foi o estopim do que viria a ser um dos horrores mais absurdos do século passado.

Foi fácil para os japoneses, que tinham um exército moderno. Já a China estava enterrada em uma guerra civil que dividia o país entre comunistas e capitalistas e tinha um exército mal equipado. Era formado, em sua maioria, por criminosos ou camponeses pouco preparados. Assim, em 7 de julho de 1937, sucedeu um segundo incidente, o da Ponte Marco Polo (ou Ponte Lugou, a 15 km de Pequim, famosa desde a Idade Média). Foi um incidente menor, mas é considerado pelos historiadores como o início da Segunda Guerra Sino-Japonesa. Tudo acabaria oito anos mais tarde, curiosamente com a derrota do Império Japonês pelos aliados.

Em mandarim, Yong quer dizer corajoso. Ele foi assim batizado por aqueles que o resgataram e o criaram porque “só alguém muito corajoso poderia continuar vivendo depois de chegar ao mundo e ver esse horror”. Sua expressão e os olhos cinzentos me fizeram reparar particularmente nele. Mas a maioria das pessoas que está aqui, como as que estiveram ontem e as que chegarão amanhã, como acontece todos os dias, de algum modo se parecem com Yong. Na tristeza, na coragem e na história trágica que marcou a vida das vítimas.


Na Avenida Shuiximen, esquina com a Jiangdong, levanta-se o Memorial Hall das Vítimas do Massacre de Nanquim pelos Invasores Japoneses. Ele é deslumbrante. Foi construído em 1985 em cima de túmulos e cadáveres rigorosamente preservados – para relembrar o que os chineses chamam de O Estupro de Nanquim, porque se sabe com bastante certeza que aproximadamente 100 mil mulheres foram violentadas. O moderno Memorial foi ampliado em 2007, mas em 2009 ganhou status internacional com o lançamento de livros e filmes (entre os quais se destaca o premiado Nanjing! Nanjing!, do diretor Chuan Lu) que ajudaram a sua divulgação no resto do mundo.

Em agosto de 1937, o Japão usou o novo incidente e declarou formalmente a guerra: bombardeou Xangai, que caiu quatro meses mais tarde. Os moradores fugiram por 300 quilômetros em direção à então capital do país, Nanquim, com a tática da terra arrasada, ou seja, destruindo tudo o que encontravam no caminho e que poderia ajudar o inimigo, como os campos de arroz. O mal treinado exército chinês já estava dividido defendendo três frontes, e, portanto, debilitado. O Japão avançou, e em 5 de dezembro entrou na cidade. O horror tomou forma humana. Mesmo com a rendição em 13 de dezembro, milhares de chineses foram massacrados em seis semanas. De nada valeu o recrutamento de 100 mil novos soldados em Nanquim. Sob o comando do príncipe tenente-general Asaka Yasuhiko, os japoneses receberam a ordem de eliminar todos os prisioneiros de guerra, fossem eles homens, mulheres ou crianças. Essa ordem desatou uma das piores tempestades de maldade exposta que a história do mundo possa lembrar.

A ensolarada manhã deste outono de 2012 vai embora. As pessoas, não. Neste Memorial, ninguém está de passagem. Pelo contrário, aqui começa a se desenterrar a história oculta de muitos chineses que formam a maioria dos visitantes: não há ocidentais. Nanquim não está na rota turística clássica. Apesar de sua esplêndida reconstrução e de sua invejável modernização, ela pouco interessa ao mundo ocidental. Como também não interessou quando o horror veio fixar residência nela, destruindo tudo, especialmente os direitos e a dignidade humana, os princípios de um mundo que orgulhosamente se autoproclamava civilizado.

Naquele 13 de dezembro, o dia da rendição, as ruas da capital tinham mais civis do que soldados. Mas, seguindo ordens, os japoneses assassinaram indiscriminadamente alguns deles. Outros foram mortos para exterminar qualquer sinal de vida inimiga. Os soldados primeiro foram torturados em busca de informação e depois fuzilados em uma velha pedreira que se transformaria em cova final e coletiva (onde foi erguido o Memorial). Os que ostentavam hierarquias militares mais elevadas foram enforcados. Já muitos civis, separados por sexo, foram decapitados e quase todas as mulheres sofreram estupros antes do rito final. Há relatos de casos ocorridos no interior de templos. Os carrascos também obrigaram pais a abusar de suas filhas e garotos de suas próprias mães, na presença das famílias.

Yong está sozinho, mas muitos chegam com filhos e netos. As raízes que um dia se perderam em jazigos sem nome, em túmulos coletivos, em cemitérios sem paz, voltam a germinar agora entre documentos que, com paciência chinesa, os sobreviventes de Nanquim foram resgatando, compilando e arquivando, às vezes de modo incompleto, aguardando que os muitos Yongs, na procura de si mesmos, terminem de preencher as lacunas. Há meninos muito pequenos, tão pequenos como eram seus parentes quando morreram sem saber a razão. Mas, um dia, eles vão olhar as fotos que hoje tiram deles aqui e, então, conhecerão o motivo dessa peculiar visita à antiga capital chinesa. Poucos são de Nanquim – a maioria viajou longas distâncias para sentir a história, recuperar o passado, acomodar a memória e matar pesadelos que os perseguiram até hoje. Ah-lai, uma mulher que encontro no térreo, vive em Nanquim e me disse que vem todos os dias, todos mesmo, desde que o Memorial foi inaugurado. Mas não deseja relatar nada. Entendo seu silêncio, que chega a aturdir.

Sob o comando do polêmico general Iwane Matsui, a brutalidade japonesa deixou uma marca impregnada em várias fotos. Custaria a acreditar se não existisse esse testemunho gráfico: os soldados competiam entre eles em quesitos como quem decapitava mais prisioneiros. Penduravam as cabeças para não perder a conta e davam os corpos a cães vira-latas, mais famintos do que nunca naquele momento. De todo modo, quem mais sofreu foram as mulheres, submetidas a brutalidades, primeiro por oficiais e depois pelos soldados rasos. Muitas delas, que eles chamavam “mulheres de conforto”, foram exportadas como escravas sexuais para os 2 mil bordéis militares que o Japão havia espalhado pelo continente asiático. Isso acontecia com as mulheres mais jovens e atraentes; as que eles consideravam feias ou velhas eram obrigadas a atos asquerosos com os próprios familiares. Também queimavam homens e mulheres e os jogavam no rio Yang Tsé, que atravessa a cidade e o país. Esses fatos são os que invalidam a defesa do Japão – que nunca reconheceu tais acontecimentos e os nega em seus livros de história, alegando que os mortos “não eram civis e sim soldados disfarçados”. Para os japoneses, essa foi uma guerra como todas as outras e eles a chamam de Kanji; nada de massacre ou coisa parecida.


Quando peço para falar com esses anciãos que rodeiam a minha curiosidade ninguém se recusa, mas é com poucos que consigo dialogar. Afinal, muitos deles nem sequer falam mandarim. Mas todos sorriem. Inclusive as mulheres, que carregam a mochila da humilhação mais pesada. É o sorriso do perdão. O povo chinês não é beligerante, sombrio, ressentido ou revanchista. Prefere olhar para o futuro, ainda quando legitimamente pretenda desentranhar o passado. Essa procura não aspira encontrar inimigos e vingança. Eles só desejam ver o caminho que os trouxe até o presente e, possivelmente, pretendem homenagear os muitos mártires que foram imolados para que uns poucos sobrevivessem. Yong é quem mais fala, mas me pede para não retratá-lo. Sente que esse momento pertence só a ele. Respeito sua vontade.

Há documentação comprobatória de que a caçada japonesa se prolongou até o início de fevereiro de 1938. O número de vítimas é mais discutível. O Memorial estampa a cifra de 300 mil chineses executados em piores condições do que se fossem animais, incluindo crianças que chegaram a ser enterradas vivas. O genocídio de Nanquim foi o único crime de guerra a ser tratado em separado pelo Tribunal de Tóquio, que hipocritamente – e para salvar seu príncipe – condenou à morte o general Iwane Matsui “por não ter impedido a carnificina”.

Toda a família imperial do Japão (que não foi alheia à guerra, como é o caso do imperador Showa) foi absolvida de acusações criminais pelo general norte-americano Douglas MacArthur. Omitiu-se o fato de que o imperador Hiroito foi quem deu a ordem de interromper os tratados internacionais e eliminar o termo “prisioneiro de guerra”, liberando a matança indiscriminada. O Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente, em seu relatório, reconhece um terço a menos de mortes: “estimativas feitas em uma data posterior indicam que o número total de civis e prisioneiros de guerra assassinados em Nanquim e em suas proximidades durante as primeiras seis semanas de ocupação japonesa foi de mais de 200 mil”, diz. Para o governo norte-americano, entretanto, poderia ser até de 500 mil. Não faz diferença. O inferno não se mede apenas pela quantidade de vítimas.

O Memorial é de um desenho de beleza ímpar, começando pelas estátuas que o rodeiam externamente, com representações do horror, mostrando famílias destruídas, mães sendo mortas, pais resgatando os filhos, rostos cheios de medo e cenas que transportam o pensamento do visitante àquelas jornadas fatais e estarrecedoras. O arquivo interior, no 1º andar, está ao alcance da mão de qualquer visitante. Há salas de absoluto silêncio com uma iluminação apropriada para a reflexão, se é que cabe, embora não existam pensamentos que ajudem a entender o calvário.

O Memorial tem armamentos utilizados, uniformes resgatados, bandeiras em exibição, recortes de jornais, fotos chocantes, reconstrução de barricadas no mesmo solo onde estiveram quando tudo aconteceu, sob uma iluminação acolhedora – quase sacra. Tudo isso e a presença de Yong me exigem alta concentração para que minha curiosidade não se transforme em um sentimento que distorça o olhar objetivo. Nada deve perturbar a minha capacidade de análise e meu julgamento equânime, por mais superficial que ele seja. Mas, confesso, é uma missão difícil encontrar um equilíbrio emocional. Quando vejo recortes dos jornais japoneses, o Osaka Mainichi Shimbun e o Tokyo Nichi Nichi Shimbun, que na época cobriam as decapitações entre seus soldados como se fossem um esporte olímpico, fico estarrecido.

Sigo os passos de Yong. Ele se detém, como todos, em algumas esculturas, bustos e imagens dos poucos não chineses que o museu mostra, as dos ocidentais que usaram seus cargos diplomáticos ou comerciais e os passaportes como salvo-conduto para eles e outros poucos afortunados que escaparam com vida. Esses nomes que a história não esquecerá são os de John H. D. Rabe, o reverendo James McAllum, os missionários Ralph L. Phillips, Minnie Vautrin e John Magge. A escritora Iris Chang, que contou a história no livro O Estupro de Nanquim, e outros personagens também merecem destaque especial. Minhas pernas tremulam tanto quanto as de Yong. Aperto sua mão pela última vez e inclino meu corpo para frente para cumprimentá-lo, respeitosamente, no estilo oriental. Esse gesto retira meus olhos dos de Yong pela primeira vez. É como se uma chave desligasse a conexão entre nós dois.

John Rabe, um industrial alemão filiado ao partido nazista, foi o personagem mais importante na operação de salvamento de outros 300 mil chineses. Rabe foi chamado postumamente de “Schindler de Nanquim”. Mas seu nome não foi o único na fileira de heróis e heroínas que arriscaram as vidas para salvar outras. Todos eles têm seu espaço, figura e reconhecimento neste Memorial. O local mostra o que o homem pode fazer com outros homens. Só precisa de uma justificativa que pode chamar de causa, interesse, ambição ou revanche. Por isso, todo cuidado é pouco: vivemos rodeados de homens que não são tão diferentes daqueles carrascos sob ordem do governo do Japão de 1937. Nanquim está ali para nos lembrar disso. Como os olhos cinza de Yong que eu jamais poderei esquecer.