Pulse

Graça Encantada

Fã da Pequena Sereia a ponto de achar Marcelo Adnet parecido com o príncipe, Dani Calabresa emerge do fundo do mar televisivo para a delícia e os perigos da TV em rede nacional

Carina Martins Publicado em 15/03/2013, às 14h01 - Atualizado às 17h30

DELICADA “Eu sou muito sensível. Parece que comediante é louco e não se emociona... eu me emociono muito”

Ver Galeria
(9 imagens)

Dani calabresa tem 31 anos. Casou há dois e meio, antes dos 30, com Marcelo Adnet, o primeiro namorado. Foi uma noiva de maio, chorou na cerimônia, usou tercinho na mão, adotou sobrenome de casada. Entrou na igreja ao som do tema de A Pequena Sereia, a princesa Disney favorita dela. Aliás, Dani acha que o marido se parece muito com o Príncipe Eric, par romântico de Ariel, a personagem que decora até hoje as paredes do quarto de solteira dela na casa dos pais, em Santo André (SP). E por falar em Disney, Dani já foi cinco vezes aos parques temáticos de Orlando com a família; na verdade, gostaria de voltar todos os anos. Ela se emociona e abre os braços para descrever o lugar: “Mágico!”.

Dani Calabresa é tão tradicional quanto o ingrediente principal da pizza que a batiza. Mulherzinha mesmo. “Eu sou muito sensível. Parece que comediante é louco e ácido e não se emociona... eu me emociono muito”, ela diz. Acidez não faz mesmo parte do estilo dela. Apesar de acreditar que ninguém deveria se ofender com piada, Dani não anda pelo caminho explosivo trilhado por alguns dos colegas de profissão. “Faço um humor muito mais debochado”, acredita. Até hoje, não passou por nenhuma grande polêmica nesse sentido – ela não estava na equipe do apedrejado “Casa dos Autistas”, apesar de ter sofrido pelo marido e colegas. O máximo de desconforto que sofreu diretamente foi ficar sabendo que uma atriz se ofendeu com algumas piadas que ela fez na televisão. “Fico chateada com isso. Se eu encontrar, não tenho problema nenhum, vou pedir desculpa.”

Vídeo: assista ao making of da sessão de fotos com Dani Calabresa.

O caminho dela não é ferino. Não é nem mesmo gaiato. Dani Calabresa faz humor olhando de frente, não de cima. Sua fonte de recursos está em si mesma, tanto nas referências de seu universo “gente como a gente” – do tipo que encontra inspiração em reality shows e programas da RedeTV! – quanto na mais completa ausência do medo do ridículo, um dos grandes entraves culturais à comédia feminina. Uma pessoa com mais de 9 anos de idade que voluntariamente diz a um jornalista que “a Disney é a coisa que mais amo na vida” definitivamente não é uma pessoa preocupada em fazer tipo.

E ser Dani Calabresa é parte grande do charme e da graça dela. Quando a encontrei pela primeira vez, ela se preparava para a sessão de fotos que ilustra esta matéria e, no camarim, contava para a equipe que tinha acabado de gravar um programa “parecendo o Nerso da Capitinga”, graças a uma comédia de erros estrelada por um cabeleireiro trapalhão, com direito a frasco de pó abrindo na cabeça e maquiagem borrada na hora de entrar. Se alguém dissesse “gravando!”, a cena seria um bloco pronto do programa Furo MTV. Quando fala sobre a própria vida, a humorista cita Wanessa Camargo, Hebe e Roberto Carlos (que chama a sério de “rei”) com a mesma frequência que as referências de celebridades aparecem nos improvisos que faz para viver. A diferença é só a perspectiva.

Culpa dos pais amorosos, que davam carona e ainda assistiam a todas as peças da atriz iniciante, muitas vezes com só mais duas outras pessoas na plateia. No fim, ainda comentavam como aquela apresentação tinha sido melhor do que a anterior. “Quando eu desanimava, eles falavam: ‘Não, hoje tinha mais gente do que na semana passada! Vem, vem! Capricha!’. Não é mimar, eu tive muito amor, muita ajuda, muito incentivo. Se eu precisar, até hoje meu pai sai de Santo André para me dar uma carona”, ela garante. O resultado foi uma filha sem a menor vergonha de acreditar em si mesma (mas que ainda não dirige automóveis).

Quando entrou na MTV, em 2008, Daniella Giusti tinha acabado de começar a fazer participações na TV. Alguns quadros no Pânico, um trabalho no Programa do Ratinho e no extinto (ainda bem) Sem Controle, do SBT. Nada muito sólido, apenas o suficiente para criar oportunidades. “Eu estava com várias propostas. Poderia ter tentado continuar no SBT, criar um novo quadro pro Pânico, entrar no Zorra [Total]... estava com várias arminhas na manga”, ela relembra. “Quando fui chamada pro piloto do Quinta Categoria, falei: ‘Tenho que ir pra MTV’. Porque eu estava fazendo stand-up com meu texto próprio, criando minhas personagens em um outro show de humor... Tava com muita liberdade – ainda valorizo muito isso. Pensei: ‘Caramba, é na MTV que mais eu vou poder ser louca’. Aí fui fazer o piloto e amei.”


A entrada na emissora que de fato a revelou foi uma combinação tanto do fruto do trabalho de Dani como da decisão de escolher um lugar onde se sentisse à vontade. Mas uma ponta de sorte colaborou para que, assim como aconteceu no início da carreira, ela pudesse se desenvolver contando com um ambiente de apoio e incentivo como o que tinha em casa. “Entrei [na MTV] no mesmo ano em que o Adnet. A gente já estava apaixonado e tudo. Isso também pesou muito”, conta. “Tínhamos nos conhecido no fim de 2007, ficado, e meio que ficado separados em janeiro, sabe? Eu viajei pro Rio, vi ele, ele veio uma vez pra São Paulo, mas pensei, caramba, isso não vai dar certo. Fiz o piloto em fevereiro, foram várias fases, uns cinco ou seis pilotos. E, quando eu fiquei, fiquei tão feliz. E aí ele ficou também!”, ela exclama. “A gente entrou junto, foi demais, unimos forças.” A partir de então, sempre que Dani fala da própria carreira, diz “a gente”.

A união de forças entre os dois serve para testar material e ganhar a confiança necessária onde falta – foi ele quem a incentivou a fazer imitações ao vê-la dando uma interpretação especialmente caprichada a seu relato do Superpop, por exemplo. Mas não só isso. O romance foi fundamental também para que eles conseguissem atingir o tempo de maturação que consideram ideal dentro da MTV, apesar de há cinco anos os dois terem propostas de outras emissoras. “[Chamavam] desde 2008, mas a gente pensava: ‘Não, quero ficar mais, aqui a gente pode pôr a mão na massa, sabe, aproveitar e aprender e arriscar’. E, de verdade, não é só o dinheiro. Pro ator, a gente quer ter uma carreira sólida. De repente você vai, faz uma novela, dura seis meses, acabou, e você fala: ‘O que eu vou fazer?’”, explica. “Tanto eu quanto o Marcelo ficamos por muito carinho a essa sensação de trabalhar na MTV, e também porque a gente estava junto e queria trabalhar junto. Não era só uma questão de: ‘Ah, eu vou pra Globo porque é melhor pra mim. Mas eu não vou trabalhar com você! E aqui a gente faz o que a gente quiser!’. Foi esse conjunto de coisas.”

Mas o que fez com que agora fosse a hora certa de mudar? Além, é claro, da instabilidade da emissora musical? No caso de Dani, uma mistura da oportunidade de dar mais exposição ao trabalho sem abrir mão de um ambiente amigável e protetor. Em suma: Dani Calabresa quer mais ibope, só que prefere buscá-lo ao lado de amigos que já estão na Band. Ela sabe que estará mais exposta, mas esse ainda não é o ápice que planeja para a carreira. Não existe motivo para se jogar de cara nua aos tubarões.

“Vou te falar, eu sabia que quando eu saísse da MTV, ia pra Band”, ela conta. “Eu queria ir pra Band. Eu gosto da Globo e acho que um dia vou pra Globo, tenho a sensação de ir para a Globo e ficar, sabe? Mas acho que a Band é parecida com a MTV. Acho que os comediantes têm muita liberdade. Preciso trabalhar na Band antes de, de repente, fazer um seriado, uma novela mais tradicional na Globo um dia.” Além disso, explica, “todos meus amigos do stand-up fizeram”. Amiga de Danilo Gentili desde a época de Santo André, Marco Luque e outros, Dani buscou um espaço maior, mas com cara de casa.

No humorístico, que volta ao ar em 18 de março, ela não estará na bancada nem será repórter como os outros. Dani irá estrelar um quadro só dela, cuja estrutura, a apenas duas semanas da estreia, ela ainda não tinha conseguido emplacar. O acordo também prevê a negociação de um programa solo mais adiante. A mudança de canal foi justamente para buscar ainda mais. “Quando me chamaram de verdade pro CQC, eu pensei: ‘Que vontade de ir’. Já fiz coisas muito legais na MTV que o ibope foi 0,2. Eu trabalhava todos os dias, de segunda a sexta. E quando eu via que bombava uma imitação, que saía uma nota 10 no jornal elogiando, eu tinha feito duas semanas antes. Caramba, não estavam assistindo! A MTV tem uma força na internet, é um canal muito querido, mas é diferente da TV aberta. Tem gente que vem falar comigo porque me viu no Jô [Soares], no comercial da Bombril. Perguntam: ‘Onde você tá?’ Na TV! Desde 2008, socorro!”

Dani Calabresa é naturalmente empolgada e expansiva. No final da sessão fotográfica, lamentou que tudo tivesse sido tão rápido, queria provar mais roupas, brincar mais. Disse que foi “o ensaio mais legal que já fez, geralmente é só um fundo branco!”. Abraçou todo mundo, pediu cópias das fotos “maravilhosas”. Na volta, já tinha assunto para colocar em dia com o motorista que conhecera horas antes. Ainda assim, foi notável a diferença quando nos encontramos no dia seguinte, na Band, onde ela foi gravar spots do CQC. A animação e a ansiedade na nova casa estavam dois tons acima do já alto normal. De short jeans e camiseta – ela adora mostrar as pernas, e com razão –, o operador chegou a ter que afastar o microfone para dar conta do volume da animação matinal de Dani.


A conquista por mais espaço vem com custos exatamente à estrutura que tanto deu apoio para a humorista. “Porra, a gente tá se cagando. Dá medo”, ela confessa. Agora, Calabresa e Adnet moram em cidades separadas (ele no Rio, ela em São Paulo). “Hoje, nossa prioridade é ficar junto. Ficar marcando no calendário quando vai se encontrar, juntando milha, chorando, minha filha, nós tamo desesperado. A gente faz de tudo, ele vem em voo das 3h da manhã...” Além disso, o casal estará mais exposto e cobrado em todos os aspectos – como o estético, por exemplo.

Mesmo sendo alta, loira e magra, Dani sente essa cobrança, embora diga que não se abala. Comento que todas as entrevistas que já li dela ressaltam o fato de que um dia Dani pesou 12 quilos a mais. “As pessoas falam comigo como se eu tivesse expelido um boi. Parece que eu fui serrada no meio, que não conseguia me locomover. Essa sempre é uma pauta. Eu era tão feliz e tinha uma confiança... Hoje, olho foto e falo: ‘Caramba, que vergonha’. Mas eu não era uma bolsa de água quente, esse javali que nasceu de novo que as pessoas falam”, ela diz. “É uma cobrança da sociedade, das pessoas. Fica lá uma véia em casa com a teta no chão e sem dente falando: ‘Ela tá velha pra fazer a Gabriela. Essa não é tão gostosa, não sei por que que tá na capa’”, continua, rindo. “Sinto [a cobrança], mas bate ali. Não penso em malhar e me ‘lipar’ pra garantir um emprego, isso nunca passou pela minha cabeça. É uma virtude para o comediante não ser tão vaidoso. Porque fazer comédia é se expor ao ridículo.”

E de se expor ela não tem medo. Porque, se tem uma coisa que Dani Calabresa aprendeu com os amados desenhos da Disney, é que vale a pena ser você mesma. Quem diz isso é ela própria, sem vergonha do que ela chama de “meio cafona”. “Você tem que se amar do jeito que você é. Embora as princesas sejam perfeitas, é sempre uma história de alguém sonhando, sempre lutando, sempre acreditando. Acho que eu também sempre fui muito assim”, ela afirma, destemida na sinceridade.