O “Nós” de Marina

Anunciando um novo partido e ganhando forças como uma das peças-chave da sucessão presidencial de 2014, Marina Silva retoma o papel de protagonista no jogo político brasileiro

Cristiano Bastos Publicado em 15/03/2013, às 14h05 - Atualizado às 14h07

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Segundo Marina Silva, ex-senadora e ministra do Meio Ambiente, é apenas uma “boa coincidência” o fato de seu QG político localizar-se em frente ao Parque Olhos D’Água, um pequeno oásis fincado no meio da Asa Norte, em Brasília. O espaço, uma das mais importantes áreas de conservação do Centro-Oeste, é cercado de trilhas, animais e vegetação nativa do cerrado. No local, porém, onde há muitas nascentes, quer se construir um portentoso shopping center. O impasse, fruto da gananciosa exploração imobiliária que assola Brasília, mobiliza o movimento ambientalista da Capital Federal.

Marina diz que, por enquanto, o envolvimento dela com a questão do Parque Olhos D’Água é “indireta”. As questões ambientais, contudo, estão na linha de frente das proposições políticas do novo partido que ela lançou em fevereiro, após mais de dois anos de gestação: o Rede Sustentabilidade, ou apenas “Rede”. “É uma proposta sincera”, ela explica. “Não é só pela ‘questão eleitoral’ ou para ganhar simpatia da população.”

Naquela manhã solar de sexta-feira, Marina não falou somente sobre o novo partido, meio ambiente e sustentabilidade, temas que domina, mas discorreu sobre uma gama de assuntos pontuais – direitos da mulher, liberdade de expressão, governo Dilma Rousseff, além de questões espinhosas, como o estado laico e o casamento gay. “O estado laico é para os que creem e para os que não creem, os que têm um posicionamento religioso e os que não têm. A defesa dos direitos das minorias é uma questão de direitos civis das pessoas”, ela diz. “O que importa para mim são as bandeiras, os valores e os princípios éticos.”

Por formação, a senhora é professora de história. Acha que a revolução feminista do século 20 também trouxe armadilhas?

Há uma coisa muito boa nisso. Durante milhares de anos a humanidade manquejava, andando apenas apoiada na perna do masculino, e as mulheres eram tratadas como incapazes. E em apenas um século elas foram capazes de aprender tudo o que os homens fazem e adquiriram as mesmas competências, sem medo de serem intuitivas, de mostrar inseguranças, sentimentos e sensibilidade. Tudo graças a uma série de fatores, econômicos, sociais, culturais. Até porque somos 7 bilhões de pessoas. O que seria da metade disso? 3,5 bilhões de mulheres sendo tratadas como incapazes. Não havia a menor possibilidade de o mundo continuar de pé se não fosse colocada em ação a inteligência, a competência e a capacidade criativa e intuitiva da mulher, para alavancar este novo momento da civilização. Foi uma aprendizagem silenciosa, conquistada em milhares de anos. E, se aprendemos em um século tudo o que os homens aprenderam ao longo de milhares de anos, um dos grandes desafios de hoje é o de que os homens devem começar a aprender muito rápido com as mulheres tudo aquilo que elas sabiam. Até mesmo aquilo que elas faziam sendo ocultadas e desqualificadas durante tanto tempo.

As políticas brasileiras têm uma agenda voltada para as mulheres? O que o Rede Sustentabilidade defende nesse sentido?

Existe um avanço grande nas políticas públicas brasileiras nos últimos 15 anos, como Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, voltado para o atendimento público do feminino. É um avanço, assim como o esforço que vem sendo realizado pelo Congresso e, também, pelas parlamentares femininas. Cito, por exemplo, o estabelecimento de uma cota de 30% para que as mulheres tenham uma força política acolhedora dentro dos partidos e a presença feminina dentro do Supremo Tribunal Federal – ainda não na quantidade desejada, mas que ficaram configuradas em grandes conquistas. Na prática, ainda temos um enorme terreno a percorrer. E o Rede Sustentabilidade vai lutar por isso, como já vem lutando. O Rede não inventará bandeiras; vai usar as boas políticas que vêm sendo produzidas e implementadas em políticas públicas. Nosso esforço será corrigir o que ainda é inadequado, completar o que é faltoso e procurar, com o debate, o que pode ser criado de forma produtiva, criativa e livre.

O que carece ser melhorado nas políticas para as mulheres?

O atendimento de saúde para as mulheres – principalmente se considerarmos que recai sobre elas a responsabilidade de cuidar dos filhos e que há uma grande quantidade que é chefe de família. Hoje, muitas mulheres fazem curso superior, mas realizando um esforço enorme para pagar uma universidade particular. Sobretudo as mulheres pobres, e uma boa parte dessas instituições, não possuem a qualidade que faça com que tenham uma educação integral. Há uma demanda grande por educação instrumental, para se conseguir um emprego e um melhor salário. A gente pode requalificar essa demanda de educação instrumental para uma educação integral e, até mesmo, cultural. E, dessa forma, ter um olhar melhor para a cultura e para tudo que cerca o ser humano em sua condição integral.


Sobre a visita da blogueira cubana Yoani Sánchez: as manifestações contra demonstram imaturidade política ou uma democracia plena?

Talvez um uso inadequado da democracia. Se as pessoas têm o direito de se manifestar, ela [Yoani] também deveria ter o direito de se expressar. E, se as manifestações a impedem de apresentar opiniões, a democracia, então, está sendo utilizada para diminuir a si própria. A gente pode discordar radicalmente uns dos outros, mas com acolhimento e respeito. Nessas horas, precisamos lembrar que o Brasil viveu a falta de liberdade de expressão e de opinião, com a ditadura militar, um período traumático da nossa história. Não temos o direito de usar a democracia para fazer o mesmo, para censurá-la. Quando se parte de formas autoritárias, constrangedoras e inibidoras do debate, não é mais democracia.

“Marina Silva e Eduardo Campos são costelas do projeto petista”, disse Aécio Neves, possível candidato do PSDB à presidência. E a senhora, como o enxerga?

Eu prefiro brincar com as palavras do senador Aécio: será que o PSDB não é uma costela do PMDB? Esse tipo de declaração dele é um reducionismo. Na verdade, eu tenho muito orgulho de minha origem petista. Fiquei 30 anos no PT e apenas saí porque o partido não foi capaz de ressignificar suas bandeiras, sua utopia e a sua militância. Durante muitos anos, eu disse que este século seria travessado por novas utopias. E o grande tema deste século é a questão da defesa da vida, do planeta, da sustentabilidade em todas as suas dimensões: ambiental, social, cultural, política e, até mesmo, estética. Nesse sentido, eu diria que o PT, o PSDB, o PMDB sequer podem ser, digamos, uma “fabricação a partir de costelas”. São exatamente a mesma coisa, porque nenhum [desses partidos] foi capaz de compreender as novas bandeiras destes tempos. É esse o esforço que pretendemos com a criação do Rede. Gostaria muito que a presidente Dilma tivesse olhado para o compromisso por ela assinado em relação ao Código Florestal. Porque o que temos de fazer é de tamanha magnitude que não tem como ser por intermédio de um partido ou de uma pessoa. É como diz a música dos Titãs: “Tudo ao mesmo tempo agora”. A Terra não aguenta mais a velha política que acha que pode se desenvolver indefinidamente, sem olhar os limites do planeta.

A questão do Código Florestal ainda está mal resolvida?

É, na realidade, uma questão “não resolvida”. O Brasil tem 60% de florestas em seu território e a maior floresta do mundo. Mas, infelizmente, a política atual é de desconstruir todos os avanços que já alcançamos no segmento ambiental.

Você implantou uma importante ação de preservação quando ministra: o Plano de Combate ao Desmatamento da Floresta Amazônica. Com a aprovação do Código Florestal, houve descontinuidade do plano?

Nos últimos dez anos, o plano conseguiu diminuir o desmatamento em 80%. Não tiveram como revogá-lo, porque foi muito bem construído e articulado com a sociedade, com transparência e visibilidade. Só agora que deram um “tiro de misericórdia” nele: mudaram a lei e, ao mudá-la, anistiaram os desmatadores. Agora é só uma questão de tempo para que as coisas voltem a ser como antes. Aliás, já houve significativo aumento do desmatamento em comparação a 2011 e 2012. Mudaram o Código Florestal e aprovaram, inclusive, uma medida provisória em que a presidente Dilma pode diminuir a atividade de conservação já criada por decreto.

Você tornou-se uma figura homenageada fora do Brasil por causa da defesa da Amazônia. Desconfia desse tipo de coisa?

As pessoas me tratam com muito respeito e alguns, graças a Deus, até mesmo divergem. Mas eu tenho a consciência de que o que está acontecendo no que diz respeito a essa agenda ambiental não é ação de uma pessoa só. É como diz o [escritor] Victor Hugo: “É o momento da ideia cujo tempo chegou”. E todos os homens e mulheres que se dispuserem à realização dessa ideia serão pioneiros e acabarão tendo reconhecimento. O esforço atual, no entanto, é para que o pioneirismo de alguns seja substituído pelo compromisso, pelo investimento e pela ação. E tenho dito que está surgindo um novo ativismo no mundo, e não é mais o ativismo dirigido pelo partido, pelo sindicato, pela ONG, pela União Nacional dos Estudantes ou pela liderança carismática: é o ativismo autoral, em que existe um ator, mobilizador, protagonista. Esse novo ativismo é a única forma de transformarmos o mundo que está ameaçado por esse núcleo estagnado do poder pelo poder, do dinheiro pelo dinheiro, que já não consegue mais ter porosidade para novas ideias e novos ideais, que se desdobram em novos projetos identificatórios.

Casamento gay e direitos civis dos homossexuais – sendo evangélica, qual sua posição a respeito?

As liberdades que vivem as pessoas, elas são de direito. O Brasil é um estado laico, e eu defendo o estado laico. As igrejas não reivindicam que as leis da igreja sejam impostas, porque as leis de Deus são para “aqueles que creem”. Não somos um estado teocrático. Eu respeito o estado laico e nunca promovi qualquer tipo de discriminação a quem quer que seja. Acredito que, na realidade do Brasil, as pessoas estão indo para uma exacerbação entre os temas das minorias e os que têm uma escolha religiosa. E eu diria isso dos dois lados, o que não é bom. Os direitos civis das pessoas gays devem ter o respeito de todas as pessoas. Mas também a liberdade religiosa deve ser respeitada. E o fato de se ter um posicionamento religioso, em relação a determinados temas, são as minhas “questões de consciência”. O estado laico é uma das grandes conquistas da nossa Constituição e do nosso sistema político, não só para os que não creem [em Deus] mas também para os que creem. O estado laico beneficia mais, e cada vez mais, as pessoas que creem, para que elas também tenham os mesmos direitos, porque, muitas vezes, faz-se a confusão de que estado laico é só para os que não creem. O estado laico é para os que creem e para os que não creem, para os que têm um posicionamento religioso e para os que não têm. Então, a defesa dos direitos das minorias é, na realidade, uma questão de direitos civis das pessoas. Nunca fiz nenhum tipo de demagogia, nem com as pessoas gays, nem com aqueles que defendem a questão do aborto e as que defendem a questão da maconha. Eu acho engraçado que as pessoas dizem que sou conservadora por ter uma religião e por ter uma posição divergente em alguns aspectos em relação a esses temas. E que, por outro lado, eu sou progressista em relação aos temas da sustentabilidade.


Quando concorreu à presidência em 2010, um dos pontos de sua campanha dizia respeito à cultura: se fosse eleita, colocaria em prática o Fundo Nacional de Cultura. O orçamento do MinC é, notoriamente, um dos menores. Como mover esse moinho?

Os ministérios da Cultura, do Meio Ambiente, do Esporte, da Ciência e Tecnologia, enfim, são tratados como aqueles que não são “do investimento” – são do “custeio”. Eu lembro, dos meus tempos de ministra, que quando vinha a orientação pelo Ministério da Fazenda e do Planejamento para que houvesse cortes nos orçamentos, a discussão sempre era a mesma: “Não vai se cortar investimento, mas vai se cortar no custeio”. Ou seja, meio ambiente, cultura, educação e saúde. E eu, o Celso Amorim [atual ministro da Defesa] e o Gilberto Gil [ex-ministro da Cultura] sempre batíamos de frente, dizendo que enquanto educação, cultura, meio ambiente e ciência e tecnologia fossem tratados como “custeio”, estaríamos perdendo uma grande oportunidade de fazer o verdadeiro investimento. Porque o grande investimento que se pode fazer em um país das dimensões do Brasil – que tem ainda 20% de sua força de trabalho nos jovens – é, principalmente, em cultura e educação. As escolas precisam ser portas de entrada com muitas portas de saída. Se não for assim, estaremos levando nossos jovens não na direção de uma saída, mas para abismos e mais abismos.

O julgamento do mensalão teve a devida parcialidade que se esperava do Supremo Tribunal Federal?

A Justiça teve acesso aos autos do processo muito mais do que eu. Gostaria muito de que isso [o mensalão] não tivesse acontecido no Brasil. Mas, já que aconteceu, que sirva de lição para todos. E, já que temos instituições que estão procurando nos corrigir quando falharmos, que tenhamos as condições de seguir nos aperfeiçoando.

Qual avaliação faz do governo Dilma?

Assim como qualquer governo no Brasil, eu acho que o governo Dilma poderia – neste momento de crise social, econômica, ambiental e cultural na qual os países emergentes encontram-se – estar fazendo uma agenda séria da sustentabilidade. Essa agenda tem muito mais chance de prosperar em um país emergente do que nos países desenvolvidos, os quais estão vivendo a crise de sua radicalidade. E nós estamos vivendo as consequências dessa crise que eles estão vivendo. E, se estamos vivendo tais consequências, é porque ainda estamos no “ponto de viragem”. Eu não sei se eles [países desenvolvidos] ainda têm um ponto de viragem. E só existe uma chance para eles, que é quando nós fizermos essa viragem. Quando digo que a presidente Dilma não conseguiu compreender que o Brasil pode ser a grande referência da quebra de paradigmas para uma nova economia, eu vejo que desperdiçamos uma grande quantidade de tempo. Se a presidente estiver fazendo um bom trabalho, porém, eu vou apoiá-la. Mas se ela continuar, como até agora, patrocinando o pior retrocesso do país na agenda do meio ambiente, eu vou, claro, me colocar contra. Eu não preciso, de maneira alguma, ser oposição por oposição ou situação por situação.