Por Cima de Tudo

Como Lena Dunham transformou uma vida de ansiedade, sexo ruim e inúmeros remédios psiquiátricos no programa mais engraçado da TV

Brian Hiatt | Tradução: Ligia Fonseca Publicado em 15/03/2013, às 12h26 - Atualizado às 13h48

-

Ver Galeria
(2 imagens)

"Encerre”, a grande placa ficava piscando, mas, depois de cambalear até o palco no tipo de salto alto que sempre presumiu ser reservado a prostitutas, ela não conseguia prestar atenção ao sinal. As mãos tremiam, mas ela continuou falando, segurando seu Globo de Ouro como um filhotinho. Finalmente, Lena Dunham estava agindo como se tivesse muito tempo. Foi divertido ganhar alguns prêmios – exceto pela parte em que ela entrou correndo no banheiro para que uma amiga tirasse o corpete que a espremia e estava causando “um verdadeiro ataque de pânico”. Ela roubou raviólis de todos os pratos compartilhados, pirou ao ver Adele e Bill Clinton, ficou paralisada ao ver Jennifer Lawrence comendo um saco de batatas fritas nos bastidores (“Pensei: ‘Você é do mal’ – quase a derrubei e dei um beijo de língua”).

Depois da cerimônia, Lena foi à festa da HBO, mas não bebeu, como sempre (“Fico tonta e fora de controle de um jeito que não gosto”). Ela e Jack Antonoff, guitarrista da banda fun. e namorado há dez meses, voltaram ao hotel onde estavam hospedados na Sunset Strip às 23h15. Comeu um cookie para comemorar e foi dormir.

Com dois prêmios no criado-mudo e Antonoff ao lado, Lena dormiu bem, livre de seus rotineiros “sonhos vergonhosamente clássicos sobre ansiedade”, como o improvável no qual ela é despedida de Girls – o seriado que ela criou, estrela, escreve, produz e frequentemente dirige. Ou aquele em que acorda e “Meu namorado não se lembra de quem sou e também está namorando a Lana Del Rey”.

Ela surge no hall dos elevadores no hotel Sunset Tower naquela tarde, caminhando com uma cadência humana normal. Parece estar superarrumada hoje, embora de um jeito quase de meia-idade: blazer azul-brilhante, blusa branca com golas pontudas, calça preta stretch. Especialmente com o novo cabelo curto e fofo, ela mal se parece com Hannah, a personagem um tanto desleixada em Girls – uma discrepância que pode ser desconcertante. Um maître no restaurante nova-iorquino Babbo, por exemplo, não parava de falar isso. “Ele dizia: ‘Você parece muito mais gorda na TV’. Tipo ‘Por quê? Por quê? Por quê?’ Estava obcecado com aquilo. Respondi: ‘Não sei o que te dizer, simplesmente não sei’.”

Lena, 26 anos, pode ser a força criativa por trás do seriado jovem que mais capturou o espírito de seu tempo de, digamos, todos os tempos, mas também é “a pessoa mais idosa presa naquele corpo”, diz Jenni Konner, produtora executiva e a outra mandachuva do programa. Ela é obcecada e conduzida por um medo da morte. Tem uma lista longa de problemas de saúde, começando com uma garganta que constantemente falha (“Tenho voz ruim do jeito que as pessoas têm costas ruins”), pele ultrassensível (“Posso ficar com urticária só de pensar nisso”) e o fato de que está “vagamente enjoada” há seis meses (mas isso, admite, pode ser porque lê em seu iPhone no carro).

Sabe-se que toma vitaminas por via intravenosa. Não gosta de ficar alterada (sua última tentativa envolveu uma balinha cheia de THC durante uma viagem a Joshua Tree, em 2011, mas ela não conseguiu ficar acordada – “Nunca tive uma relação intensa com qualquer substância que não fosse açúcar”, afirma). Divide o tempo em diversas listas detalhadas de pendências: objetivos de vida (um filho), sazonais (organizar as estantes em categorias “já lidos” e “para ler”), metas para Girls. “Para mim, é engraçado escrever um seriado que as pessoas consideram ser a voz da geração de 20 e poucos anos”, afirma, “porque nem sempre me sinto conectada a isso.” Às vezes, ela tem de relembrar que ainda é jovem, com poucos anos a mais do que as personagens irresponsáveis do programa. “Se durmo até tarde, digo: ‘Que horror, sou uma mulher adulta’. Mas depois percebo que muita gente de 26 anos sai e fica de ressaca depois.”

Lena tem uma ideia reveladoramente autobiográfica para um filme: uma mulher de 25 anos estressada, hipocondríaca e assombrada pela mortalidade acorda e descobre que envelheceu durante a noite. “O resto do filme é ela, aos 85 anos, finalmente vivendo a vida de uma jovem”, conta. “Daí, o filme acaba com a morte dela.”

É difícil imaginar esse projeto em particular sendo realizado, mas os itens na lista de pendências costumam ser executados. Ela tem dois filmes, o premiado seriado (mais um acordo recém-anunciado para o piloto de outro), alguns textos na revista New Yorker e um contrato de, diz-se, US$ 3,7 milhões para escrever um livro. Embora Girls tenha metade da audiência de Game of Thrones nos Estados Unidos, parece que a estrela do programa é o ser humano mais discutido da internet e que logo a matéria “Estudos de Girls” substituirá “Estudos Femininos” em faculdades de artes.

Lena se senta no banco de trás de uma SUV preta com motorista, seguida por uma espécie de minicomitiva: a assistente e uma das produtoras de Girls, Ilene Landress, uma nova-iorquina sarcástica que trabalhou com David Chase na série Família Soprano. Estamos a caminho de um estúdio em Santa Monica para aprovar as mixagens de som dos dois últimos episódios da segunda temporada de Girls, e Lena e os colaboradores dela já estão escrevendo a terceira.

Enquanto passamos por Beverly Hills, com as ruas mais bonitas e arborizadas, ela consegue extrair a maior parte do meu currículo. Ao saber que cobri o julgamento de Sean Combs e seu protegido da época, Shyne, Lena pondera sobre a conversão de Shyne ao judaísmo na cadeia. “Sei que não devo dizer isso”, afirma, “por causa das críticas que já recebi, mas, quando negros se convertem ao judaísmo, fico passada. Por que alguém escolheria ser judeu? Não seria judia se não tivesse nascido uma. Não dá pra fugir disso agora!” Lena tem solidariedade tribal suficiente para sentir desprezo total por Mel Gibson, que foi uma presença notável na mesa de Jodie Foster no Globo de Ouro. “Um louco esquisito antissemita e antigay é o melhor amigo dela?”, questiona. “Teria sido muito engraçado se ontem à noite ele falasse para ela: ‘Você é gay? Meu Deus, eu não fazia a mínima ideia’.”

Dentro da sala de mixagem, imagens imensas e às vezes nada lisonjeiras de Hannah em HD são projetadas na tela mais distante, enquanto Lena fica sentada nos fundos, silenciosamente no comando. Ela é a pessoa mais nova do recinto. Enquanto os episódios passam, ela digita agilmente no iPhone – está tentando mandar uma resposta individual a cada mensagem e e-mail de parabéns que recebeu pelas vitórias no Globo de Ouro. No total, há 138 mensagens de texto não respondidas.

Lena desenvolveu um pavor intenso do sexo assim que soube o que era. Pelas pistas apresentadas em Girls, não está claro se ela superou isso totalmente. “Criei uma teoria que achei que fazia muito sentido”, conta, “que consistia em deitar ao lado de alguém que você ama, desejar um bebê e o espermatozoide e o óvulo se encontravam através dos poros da pele. Minha amiga Amanda falou: ‘Não, um homem coloca o pênis na sua vagina’. E pensei: ‘Essa é a pior coisa que já ouvi, a pior coisa que já me aconteceu’. Contei para a minha irmã mais nova quando ela tinha 5 anos, para não ter de ficar sozinha nessa. E agora ela é lésbica. Portanto, ganhamos na loteria! Isso e o fato de que eu a fazia me beijar através da máscara de diálise da minha avó. Não, não é por isso que ela é gay, mas é uma teoria engraçada.”


“A Lena era meio esquisita”, afirma a mãe dela, a artista plástica Laurie Simmons, “mas eu estava acostumada a gente esquisita. Eu era e todos os artistas que conheço provavelmente eram assim na infância também. O engraçado é quando dois artistas esperam ter uma filha superconvencional.” Lena só transou pela primeira vez na faculdade, embora tivesse beijado um total de quatro garotos no ensino médio. Na época, tinha controlado os sintomas de um transtorno obsessivo-compulsivo, mas estava “drogada como um cavalo grande” por causa das grandes doses de antidepressivos. “Estava exausta o tempo todo, tinha suores noturnos”, conta. “Era bem gorda na escola porque isso desacelera seu metabolismo. Minha mãe sempre dizia: ‘Acho que você está sofrendo muitos efeitos colaterais’. Eu retrucava: ‘Você é tão ruim, só quer que eu seja magra!’ E minha mãe respondia: ‘Não, você está dormindo o tempo todo e pingando de suor’” (também houve alguns problemas com comida – até recentemente, Lena pedia aos hotéis que tirassem o frigobar do quarto para não comer tudo o que estivesse nele).

Lena parou a medicação aos poucos no final da faculdade e vem produzindo freneticamente desde então. No entanto, em março, começou a tomar uma pequena dose do antidepressivo Lexapro, para diminuir a ansiedade. Guarda Klonopin na bolsa, mas tem medo desse antiansiolítico. “Nunca procure um remédio no Google”, afirma, “porque só dá gente louca dizendo ‘Isso me deixou cega, matou meu marido’.”

Alguns dias depois do Globo de Ouro, Lena chega pelo menos meia hora atrasada para um almoço na cafeteria Brooklyn Heights, dando uma metadesculpa: “Fiquei ensaiando o que iria te dizer”, explica, “mas fiquei com vergonha demais de falar: ‘Meu atraso é uma coisa de vida inteira, não é nada novo’. Tenho um problema com pontualidade desde a infância.” Faz frio e ela usa um cachecol emprestado pela dona do hotelzinho onde acabou de deixar Lamby, o cachorro recém-adotado dela, para poder “ter um dia produtivo”, que já incluiu uma conferência de 40 minutos sobre histórias com o produtor executivo de Girls, Judd Apatow.

Os olhos ainda estão com a maquiagem – agora borrada – de uma aparição no Daily Show no dia anterior (“Adoro quando ela fica toda bagunçada”). Ela pede salmão com legumes: a nutricionista do pai vem pedindo a ela que coma mais peixe. Lena mora em um apartamento de um quarto nas proximidades – o jornal New York Post divulgou a localização do prédio e um perseguidor apareceu rapidamente. Faz pouco tempo que deixou o loft dos pais em Tribeca, que serviu de cenário para Tiny Furniture, o sombriamente hilário filme de 2010 sobre uma universitária sem objetivos, que deu origem direta a Girls.

Lena conseguiu a maior parte da verba de US$ 50 mil para Tiny Furniture com os pais (a mãe de uma amiga também contribuiu). Inicialmente, ela tentou esconder esse fato, conseguindo até despistar com habilidade os checadores da revista The New Yorker: disse a eles que o filme foi financiado por três investidores do mundo das artes de Nova York, o que tecnicamente não era mentira (desde então, Lena já devolveu o dinheiro a todos). Um crítico chamou o filme de “cinema do privilégio não examinado”, o que antecipou críticas posteriores a Girls. “Muita gente acha que mostrar uma versão do privilégio é, de certa maneira, algo não examinado”, diz Lena. “O filme não é um veículo para informar ao mundo que princesinhas judias americanas não deveriam ter empregos, não sou eu quem diz ‘deixe essas pobres meninas em paz!”

O privilégio mais significativo de Lena não foi econômico: foi crescer em um ambiente que a ensinou que ser criativa e fazer coisas diferentes era parte da vida cotidiana. Estranhamente, ela realmente gosta do processo de escrever: descansa de um projeto escrevendo outro. O fato de que as outras atrizes de Girls são filhas de gente famosa (o pai de Zosia Mamet é o dramaturgo David Mamet; Jemima Kirke é filha do baterista do Bad Company; o pai de Allison Williams é o jornalista Brian Williams, da NBC) levou a debates incessantes sobre nepotismo. “Você tinha de ver quantos filhos de famosos recusamos”, diz a produtora executiva Jenni. As críticas se estenderam à própria Lena, o que pareceu um exagero. “Não consigo um programa na HBO para ninguém”, afirma a mãe dela, Laurie. “Mal consigo uma exibição em uma galeria!”


Lena esperava por essa linha de críticas, e também pela discussão sobre a frequente exibição de sexo esquisito e degradante. Entretanto, um olhar mais apurado sugere que Hannah claramente gosta de ser degradada (embora não a ponto de aceitar que façam xixi nela) – e que a relação com o agora ex-namorado Adam funcionava porque ele gosta de fazer coisas degradantes. “Existe algo carnal e não dito acontecendo nessas cenas”, diz Adam Driver, o ator que o interpreta. “Ela consegue deixar Adam fazer aquilo sem pensar que ele é extremamente perturbado”, acrescenta Lena. “Também acho que sempre tive uma atração em mostrar alguma degradação que ainda não trabalhei.” E na vida real? “Tive de prestar mais atenção nisso quando era mais jovem. Comportamento ruim me excita muito menos atualmente.”

Ela não esperava a indignação com o fato de o seriado só ter personagens brancos – e considera um problema o fato de ter ficado surpresa com isso. “Não vi mesmo o grande buraco no programa. Tenho de ser sincera e dizer que isso me fez examinar como vejo essas coisas.” Duas fãs jovens e empolgadas – uma delas tão loira que beira o albinismo – param ao lado da mesa e pedem uma foto. “Elas eram muito brancas”, comenta Lena, rindo, depois que as garotas vão embora. “Eis uma boa frase: ‘Seu comentário sobre raça foi interrompido para que pudesse conversar com as duas pessoas mais brancas que já viu’.”

No ano passado, depois de encerrar a primeira temporada de um programa cujo foco é em “problemas de primeiro mundo”, Lena teve um gostinho do terceiro mundo ao viajar para a Índia com a mãe. Elas visitaram Nova Déli, Mumbai, Jaipur e Narlai. “Eu tinha uma ideia ocidental idiota de ‘Vou para a Índia e vai ser tão transcendental que não vou mais ter medo da morte, vou abandonar muitas das minhas ansiedades ocidentais, adotar um novo tipo de conhecimento e o trazer de volta para os Estados Unidos’”, ela diz.

Aos 9 anos, Lena começou a seguir a prática de meditação transcendental da mãe, parou por muitos anos, mas retomou com o apoio de um professor que Apatow conhecia. Isso a ajuda com o medo da morte, que ela descreve como “um sentimento muito primitivo, tipo ‘Vou ficar sozinha e isolada e todos estarão juntos em outro lugar’”. De alguma forma, Lena achava que uma viagem para o local de origem do budismo completaria sua jornada. Em vez disso, foi avassalador em todos os níveis, uma “avalanche de humanidade pura” que foi um grande desafio para seu medo de germes aumentado pelo TOC. Ela acabou voltando para casa mais cedo.

“É a cultura mais linda”, Lena prossegue. “Cheguei lá e minha primeira reação foi: ‘Tem tanta coisa de que eu não sei’.” Ela se viu simpatizando mais com os cachorros abandonados que viu do que com as pessoas miseráveis – talvez porque o sofrimento humano fosse esmagador demais. “Às vezes, acho que se, em um determinado momento, tivéssemos de realmente compreender o tamanho do sofrimento humano que acontece no mundo, morreríamos”, afirma, com os olhos castanhos brilhando. Lena soa mais do que nunca com um personagem de J.D. Salinger, talvez uma irmã Glass perdida.

Ela ainda está processando a Índia. Há muita coisa por escrever e o tempo está passando. “Algumas das minhas ansiedades podem ser resolvidas por uma conscientização melhor do que realmente está acontecendo no planeta e o que faz tudo funcionar e o que vem antes de nós”, diz. “Só que isso me sobrecarrega demais. Fico com vontade de dar um cochilo”. Respira fundo. “E, nesse sentido, realmente me identifico com as pessoas da minha geração.”