Terra em Transe

Em meio à maior crise econômica e política da história da Espanha, a problemática separação da Catalunha do restante do país está mais próxima do que nunca

Gustavo Silva Publicado em 15/03/2013, às 12h00 - Atualizado às 13h50

NO LIMITE Separatistas queimam a bandeira da espanha na Diada (dia nacional da Catalunha) em Barcelona, em 11 de setembro de 2008

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Caminhar pelo calçadão de Las Ramblas, uma das principais ruas de Barcelona, é vivenciar uma Babel linguística. A mistura de sons culmina na explosão de cores, aromas e sabores das barracas do mercado central de Boqueria. Turistas se movimentam de ponto a ponto em ônibus de passeio de dois andares, tipo de serviço comum em toda grande cidade europeia. Invariavelmente, fotos das perólas arquitetônicas art nouveau de Antoni Gaudí, como a expressiva (e inacabada) Catedral da Sagrada Família, irão pipocar em breve nas redes sociais. Capital da Catalunha, a Barcelona de climas mediterrâneos, sol abundante e animada atmosfera latina é o paraíso das férias de verão, uma das várias joias cravadas na Espanha.

Qualquer turista nota uma característica bem particular ao redor, seja nas placas indicando o nome de alguma “carrer”, “passeig” ou “avinguda”, ou seja nos pedidos em bares terminados em “si us plau” e que, posteriormente, serão emendados em papos de sons abruptos, similares ao do espanhol, francês e italiano, embalados em um sotaque estranhamente próximo ao português de Portugal. O idioma catalão não é exatamente como o espanhol – sugerir que o primeiro é um dialeto do segundo é quase uma ofensa grave. Assim como a Catalunha não é exatamente a Espanha.

Atualmente, o país vive em um estado de constante turbulência. Economicamente, a Espanha passa pela maior crise de sua história e é símbolo, ao lado da Grécia, de uma União Europeia que necessita de reformas. Mas, quando o assunto é política, o problema ganha ares mais densos na Catalunha, uma das 17 Comunidades Autônomas (estados) espanholas. E, se os rápidos ventos da mudança acompanharem as atuais turbulências, o resultado poderá ser o surgimento de mais uma nova nação independente na Europa.

Uma empresa turística em Barcelona oferece pacotes cuja temática é batizada de “300 Anos de Ocupação Espanhola”. A descrição é incisiva: “Desde a perda do Estado Catalão em 1714 até sua prestes recuperação em 2014, houve três momentos críticos para a sobrevivência da Nação Catalã”. Os serviços são prestados ao longo do ano, mas um dos pacotes, nomeado “A derrota de 1714”, pôde ser inteiramente compreendido em 11 de setembro de 2012. Nessa data é tradicionalmente celebrada a Diada, o dia nacional da Catalunha. O que tornou o feriado marcante no ano passado foi a magnitude: cerca de 1,5 milhão de pessoas tomaram as ruas de Barcelona para relembrar o cerco de um ano e a posterior tomada da capital catalã por tropas espanholas como resultado da Guerra de Sucessão Espanhola, em 1714 – evento em que, como outros na história de pouco mais de cinco séculos da Espanha, a Catalunha esteve do lado dos derrotados e pagou por isso, tendo suas instituições autônomas banidas pelo poder central em Madri.

Há um óbvio exercício de futurologia na menção a 2014 do pacote turístico. Mas trata-se de captar o espírito do tempo em território catalão. A Diada de 2012 reuniu aproximadamente um quinto de toda a população da Catalunha. As manifestações nacionalistas fazem parte da paisagem local – por todas as províncias, bandeiras locais decoram sacadas e janelas. Mas o último 11 de setembro, tal como aconteceu nos Estados Unidos em 2001, teve o impacto de redefinir passos posteriores. Naquela data, os norte-americanos iniciaram a chamada “Guerra ao Terror”; já os catalães tiveram novas eleições, convocadas por Artur Mas, presidente da Generalitat (nome dado ao órgão executivo da Catalunha). Apesar do cenário de crise econômica e desemprego em massa, a campanha foi focada em discutir a presente e futura relação entre a Catalunha e a Espanha. Os slogans dos partidos locais sintetizam as plataformas em outdoors e pôsteres espalhados por Barcelona. “A vontade do povo”, apresenta a coligação CiU (Convergència i Unió), de Artur Mas; “Federalismo”, sugere o candidato do PSC (Partido Socialista Catalão); “Catalunha sim, Espanha também”, pondera o PPC, o braço catalão do Partido Popular (PP), o mesmo do presidente conservador espanhol, Mariano Rajoy. Isso sem contar a ERC, partido que provoca arrepios em Madri por causas explícitas em seu nome: Esquerra Republicana de Catalunya.

“Por toda minha vida, fui a favor do reconhecimento da Catalunha, da nação, das instituições, da língua, da cultura, mas dentro do conjunto espanhol”, reflete Jordi Pujol de uma das salas da fundação que carrega seu próprio nome, incrustada em Passeig de Gracia, espécie de “Champs-Élysées” de Barcelona. Pujol foi o primeiro presidente da Generalitat nos anos pós-Francisco Franco, função que exerceu por 23 anos, de 1978 a 2001. “Nunca fui a favor da independência”, diz o “pensionista” (nas palavras do próprio) de 83 anos, preso por manifestações nacionalistas durante os anos da ditadura franquista e que hoje briga contra a perda de audição e o piscar constante dos olhos, escondidos por sobrancelhas de neve. “Mas hoje, no caso de um referendo, eu votaria a favor.”


Referendo tornou-se palavra-chave na Catalunha pós-eleições, e seu significado é referente a apenas um direito, o da escolha entre a independência da Espanha ou não pelos cidadãos catalães. “O sentimento é similar ao de um casal prestes a se separar”, explica Oriol Pujol, deputado no parlamento catalão e secretário-geral da Convergència Democràtica de Catalunya - o “C’ da coligação CiU. “Ela vai estar na porta da frente, com as malas arrumadas, pronta para dizer adeus, e no último momento você quer fazer as pazes, promete se comportar melhor, tampar a pasta de dente, e por aí vai. Mas essa não é a questão.” A metáfora de Pujol, um dos sete filhos de Jordi, é concluída em termos pessimistas – ou otimistas, na visão de um independentista. “A questão é que algo passou dos limites, e isso chama-se dignidade. Não é algo impossível de resolver, mas é algo que não se resolve apenas com dinheiro”, diz.

Em janeiro o governo reeleito de Artur Mas criou o Conselho de Transição Nacional, órgão que visa estabelecer as bases da consulta de autodeterminação (um eufemismo para “referendo de independência”) da Catalunha para 2014. No mesmo mês, o parlamento catalão aprovou, por ampla maioria, uma declaração na qual proclama a nação catalã como sujeito político e jurídico soberano. Para ficar na comparação de Oriol Pujol, é como se uma das partes do casal estivesse prestes a começar uma vida nova – ou assim ela espera, pois assim como em todos os relacionamentos, outras partes estão envolvidas e as consequências de um divórcio forçado podem desestruturar todas elas. E nesta ruptura, quem carrega o contrato do futuro é uma nação chamada Espanha.

No centro de Madri, as calçadas, assim como algumas paredes, estão manchadas de tinta vermelha. A escolha da cor não é em vão. “Asesinos”, lê-se nas portas de vidro de praticamente todos os bancos da Gran Via, uma das principais ruas da capital espanhola. A mensagem vai além da retórica anticapitalista: para a Espanha, 2012 foi um ano marcado por suicídios relacionados a ordens de despejo de cidadãos cujas hipotecas não foram pagas. Desde 2007, quando o país mergulhou na pior crise financeira da história econômica recente, cerca de 400 mil casos de execução hipotecárias foram cumpridos. Ironicamente, moradores de rua hoje se protegem do frio invernal dormindo no recinto de caixas eletrônicos dessas mesmas agências bancárias.

A manhã é atípica para uma quarta-feira de outubro. Sol, calor e lojas com portas fechadas. É dia de greve geral no país, a segunda convocada no primeiro ano do mandato do presidente do governo Mariano Rajoy. Com uma taxa recorde de mais de 26% da população economicamente ativa desempregada – proporção que vai além dos 50%, levando-se em conta apenas os jovens espanhóis – e prognósticos que declaram 2013 como um ano perdido em termos de crescimento, passeatas e protestos tornaram-se lugar-comum na atual conjuntura espanhola. De lixeiros a servidores de saúde, de estudantes a motoristas de táxi, toda semana um grupo em particular declara greve em algum lugar da Espanha.

Pesquisas apontam que o desemprego e a economia são os problemas que mais incomodam os espanhóis no momento; em segundo lugar, vêm os políticos e os partidos. O noticiário é tão recheado de escândalos de corrupção e desdobramentos diários que desafia o chavão “só no Brasil”. O roteiro de um dos últimos casos, inclusive, soa estranhamente familiar: financiamento partidário ilegal, evasão de divisas, pagamento de extras com dinheiro sujo a membros do alto escalão do partido. A corrupção é um fenômeno que atinge toda a Espanha, inclusive aqueles que não querem estar associados ao governo central. Na Catalunha, casos distintos envolvem escutas ilegais, envolvimento da máfia russa, desvio de verbas, evasão de divisas e enriquecimento ilícito. O envolvimento de nomes fortes da política catalã leva os críticos a apontarem que uma das causas do furor independentista é desviar a atenção da má conduta da Generalitat.

A ideia de uma Catalunha independente também encontra resistência interna e causa fricções entre aqueles contra e a favor. Jordi Pujol acusa o PP, inclusive o braço catalão do partido, de ser “anti-Catalunha”. “Sou tão catalão quanto Pujol, e posso ter uma visão de futuro diferente da dele”, replica Santi Rodríguez, membro do Parlamento catalão pelo Partido Popular. Em termos históricos, a falta de unanimidade política entre os catalães é marcante. Barcelona foi um dos berços do anarquismo europeu no início do século passado, quando incendiar igrejas tornou-se quase um passatempo local. Nos anos 30, durante a sangrenta Guerra Civil Espanhola, facções diferentes de catalães combatiam Franco e também batalhavam ferrenhamente entre si próprios – o que levou um inglês chamado Eric Blair, voluntário no front de batalha, a lançar um livro (Homenagem à Catalunha) e a desenvolver futuramente sua desilusão com a esquerda política sob o pseudônimo de George Orwell.


Não deixa de ser irônico que a Constituição Democrática de 1978, resultado da morte de Francisco Franco três anos antes e que fortalece o caráter plurinacional da Espanha (Catalunha, País Basco e Galícia são considerados “nacionalidades históricas” no estado espanhol), seja hoje uma das principais barreiras para uma Catalunha livre – no sentido independentista do termo. “Somos contra a independência por motivos estritamente legais”, aponta Santi Rodríguez, baseando-se na carta magna espanhola que expressa a indivisibilidade do Estado. Qualquer ato nesse sentido indicaria uma alteração na Constituição, que precisaria ser aprovada por todos os espanhóis. Em última instância, no caso de decisões unilatetrais, cabe às Forças Armadas proteger a integridade do país. Pedro Perenés, ministro da Defesa espanhol, falou no último Dia de Reis (6 de janeiro) que “os militares se mantêm firmes e calmos, sem atender às provocações absurdas”, sem exatamente nomear quais provocações são essas. Menos sutil foi a declaração do (agora afastado) coronel Francisco Alamán meses antes: “Independência da Catalunha? Só por cima do meu cadáver”.

“Então de quem é a culpa, Madri ou Barcelona?”, pergunto a todos os espanhóis e catalães com quem conversei. Santi Rodríguez, burocrático como a camisa azul-escritório que veste e unido pelas duas nacionalidades que representa, esboça um sorriso, pensa em silêncio e oferece uma reflexão diplomática: “Mais que de Madri e de Barcelona, [a culpa é] de algumas vozes da Catalunha e com certeza de outras vozes no resto da Espanha. Não quero centrar o debate entre Barcelona e Madri, que poderia ser um bom debate futebolístico, mas não político”.

A beleza do chamado “El Clássico”, contudo, vai além dos gramados, e oferece algumas lições valiosas para entender melhor o funcionamento da atual Espanha.

O Estádio Santiago Bernabeu está cheio, mas não completamente tomado. A execução do hino do Real Madrid que ressoa pelos alto-falantes na versão do tenor Plácido Domingo é de uma breguice incrível, capaz de ruborizar mais do que os aquecedores instalados no anel superior do estádio. Mas quem tem motivos para sentir vergonha é o Athletic Bilbao, que leva uma goleada de 5 a 1 naquela partida do Campeonato Espanhol. Só que mais do que o resultado, é a torcida do clube da casa que chama a atenção pelas minúcias. Em dados momentos, milhares de bandeiras da Espanha, ou versões apenas com o vermelho e amarelo decoradas com um touro (um símbolo nacional), são erguidas por torcedores madrilenhos. Tentar imaginar a situação em qualquer outro estádio do mundo pode se mostrar um exercício curioso: se corintianos exibissem com orgulho a bandeira brasileira em um clássico contra o Flamengo, o que isso exatamente significaria?

As manifestações nacionalistas no Santiago Bernabeu carregam uma mensagem implícita. O Athletic Bilbao, como o nome denuncia, vem de outra parte da Espanha: Bilbao é a capital da província de Vizcaya, uma das três que formam a Euskadi, nome original do País Basco. O nacionalismo basco é latente em território espanhol e também conhecido mundialmente por sua manifestação mais violenta, por meio do grupo terrorista ETA. Por sua vez, o catalanismo nunca apostou no uso das armas para concretizar o sonho de um estado próprio – a organização Terra Lluria, que nasceu nos primeiros anos pós-ditadura, foi o que mais se aproximou de um grupo terrorista catalão, mas suas atividades, já encerradas, resultaram em cinco vítimas fatais, das quais quatro eram membros do próprio grupo. A força catalã sempre esteve mais concentrada em atos políticos. Pode-se dizer que os gritos de “Puta Barça, puta Barça eh, eh” da torcida do Real Madrid são apenas uma provocação esportiva, tendo-se em vista que o time catalão ocupa a liderança do campeonato. O recente banimento das touradas na Catalunha foi uma decisão tomada apenas pelo direito dos animais, pode-se argumentar. Nas atuais circunstâncias, porém, outras interpretações são possíveis.

A partir daí, é compreensível que a assessora de imprensa do Real Madrid responda negativamente ao pedido de entrevista com algum representante da diretoria do time, alegando que o clube não participa de reportagens de teor político. O Real Madrid é o maior clube da Espanha em número de torcedores, e, justamente por isso, representa todo um país. Mas ser um símbolo da Espanha, o que inclui falar por todos os espanhóis – catalães e bascos inclusos – é uma tarefa complexa e inglória: não é por acaso que o hino nacional é instrumental. O Barcelona, por outro lado, é um time que não só simboliza os catalães como também é intrinsecamente ligado à história moderna da Catalunha. O famoso mosaico “Mès que un Club” formado pelos assentos do Camp Nou, o maior estádio da Europa, transmite uma mensagem literal. Durante os anos de franquismo, em que a bandeira e a língua catalã foram banidas de espaços públicos, jogos do Barça tornaram-se verdadeiros polos de resistência, tolerados por Madri muito por causa do fator “pão e circo” que o futebol exerceu sobre a população durante o período ditatorial.


“O Barça é a maior instituição... esportiva do nosso país”, dispara Sandro Laporta da sala de pronunciamentos do partido político que fundou, o Democràcia Catalana. Laporta foi presidente do time de 2003 a 2010, e suas sentenças afiadas são frutos da mistura de suas ocupações – advogado, ex-boleiro, ex-membro do parlamento catalão e independentista ferrenho. “País”, para ele, é a Catalunha; a Espanha, quando mencionada, é sempre tratada pelo nome próprio ou por “o outro”.

As declarações de Laporta são provocações em potencial, algumas beirando o nonsense (como a ideia de uma liga catalã de futebol competitiva no caso de uma Catalunha independente), mas certas propostas oferecem espaço para debates interessantes. “O Barcelona é um clube global, e qualquer liga gostaria de tê-lo”, ele diz, citando o caso do Monaco, do principado independente de mesmo nome, que participa do campeonato francês, “mas, se o Barça deixar La Liga, seria ela competitiva?”

Laporta prossegue, alegando que o processo de referendo popular em 2014 “não é contra a Constituição espanhola, mas em favor do direito internacional. A constituição espanhola não é universal, mas sim a Carta das Nações Unidas”, argumenta. “Se eles [o restante da Espanha] dizem que a constituição não permite o referendo, teremos que apelar a cortes e leis internacionais.” A ideia de Laporta encontra respaldo em lideranças políticas. Oriol Junqueiras, líder da Esquerra Republicana de Catalunya, a segunda força política do atual parlamento, condicionou o apoio de seu partido à atual legislatura de Artur Mas ao processo de independência. Em entrevista, o parlamentar deixou claro: “Faremos a consulta [sobre a soberania da Catalunha] independentemente de o Estado ou de o Tribunal Constitucional tentar bloqueá-la”.

De acordo com a maioria dos analistas, 2013 é um ano perdido para a Espanha em termos econômicos. Já na política, o período serve de preparação para algo maior que está por vir em 2014, quando, em meio a uma ebulição social ainda maior devido ao desemprego e a recessão, a Catalunha irá comemorar os 300 anos da Diada. É sabido que qualquer movimento mais ousado pode abrir precedentes para outras manifestações de nacionalismo dentro do território espanhol – o caso basco sendo o mais evidente. Mas, pelo menos quando o assunto é futebol, a seleção espanhola (cujo elenco é metade catalão) prossegue como a grande favorita para levantar a Copa do Mundo do Brasil. E, como tal, talvez pela última vez na história.