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Curtindo a Vida Abestado

Artista popular e deputado federal mais votado nas últimas eleições, Tiririca superou críticas em um mandato considerado além da expectativa. A trajetória política, porém, já tem data marcada para se encerrar

Cristiano Bastos Publicado em 12/04/2013, às 12h02 - Atualizado às 12h32

CARA LIMPA Tiririca em Brasília: não mais um peixe fora d’água

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"A gente morava em barracas. Cada novo lugar em que o circo chegava tinha uma preparação: primeiro, limpar o local e capinar o mato. Depois, com a marreta, cravar o torniquete e enfiar os paus para pôr a lona da barraca. Todos os artistas ajudavam. Para dormir, se pegava um estrado ou uma ‘grade véia’ e botava em cima de uns cavaletes. Era a nossa cama. Se tinha colchão, beleza. Se não tinha, forrava com o que tivesse. O pessoal dizia que dormia em ‘cama de pau duro’. Horrível era quando chovia. Tinha de se fazer um rego ao redor da barraca pra chuva não entrar. O peso da água fazia ‘bucho d’água’ em cima da lona e sempre dava goteira.” • Encarnando o debochado palhaço Tiririca e rememorando a rotina dos tempos em que ganhava a vida em picadeiros mambembes, labuta muito diferente da que hoje exerce no bem menos divertido circo da política, o deputado federal Francisco Everardo Oliveira Silva desata a falar. E não há como ficar alheio ao cativante jeito como ele conta histórias e expressa ideias. Em Brasília, Tiririca cumprirá mandato parlamentar pelo Partido da República (PR) até 2014. “Hoje a galera [do circo] mora em trailer. É a casa deles”, ele emenda. Essa nova modalidade de moradia tem a ver, aliás, com o mais recente projeto do parlamentar, apelidado de “Meu Trailer, Minha Vida”. A proposta – cuja ideia é conceder habitações móveis às populações itinerantes (ciganos e circenses, entre outros) –, em tramitação desde março, consiste em acrescentar um dispositivo ao programa “Minha Casa, Minha Vida”, do governo federal.

Ame ou odeie, a verdade é que Tiririca sintetiza a atual política brasileira, ou aquilo que ela se tornou após incontáveis escândalos, descaminhos e “palhaçadas”. Ele retrata comicamente a realidade, muitas vezes trágica, desse cenário. A rotina dele na capital federal, porém, nada tem de dramática. Tiririca (que se veste de modo descontraído: camisa para fora da calça jeans, gravata de bolinhas coloridas e mocassim colorido – possui 20 pares de diferentes tons) adentra o gabinete localizado no 6º andar da Câmara espalhando bom humor. Sai convidando todos os funcionários para a festinha que naquela noite pretende dar na residência em que mora quando está em Brasília. E jamais perde a piada. Dirige-se para a secretária e intima: “Vamos, vamos! Pode levar quem tu quiser, menos o namorado”. Depois, faz questão de explicar o motivo da confraternização, enquanto os olhos algo tristes de passarinho preso na gaiola reviram-se ao derredor da sala. “Isso daqui [a Câmara dos Deputados] me cansa muito”, confessa. “Sou um cara muito elétrico e aqui fico preso pra caramba.”

Artista completo – nascido em Itapipoca, no sertão do Ceará –, Tiririca canta, dança, conta piadas, interpreta e, de quebra, ainda atua na política. No dia 1º de maio, Francisco Everardo completará 48 anos, enquanto o Palhaço Tiririca, a indissociável cria, assoprará 40 velinhas. Ele planeja marcar a data em alto estilo, vestindo-se como o personagem e convidando velhos parceiros circenses. Um deles é o veterano, mas ainda em atividade, Palhaço Pimenta.Os dois humoristas eram disputados a tapa pelos circos locais. “Na época não existiam concorrentes para nós no Ceará inteiro”, lembra Tiririca. Concorrência também não foi o que ele encontrou nas eleições de 2010, das quais saiu sagrado como o deputado mais votado do ano (1,3 milhão de votos) e o segundo maior da história. Ficou atrás apenas do também icônico Enéas Carneiro, que computou 1,5 milhão de votos em 2002.

Perto do meio-dia de uma quinta-feira nublada, Tiririca, que está “morrendo de fome”, interrompe a entrevista e pede açaí, um imenso pote para ele e outro para mim. Almoçamos enquanto ele desfia a história de vida. De sangue mestiço, esse “Chaplin do Ceará” é devoto, no céu, de Nossa Senhora Aparecida e, na terra, dos ídolos máximos Zico (o jogador) e os cantores Fábio Júnior, Zeca Pagodinho e Roberto Carlos. A vida dele, contudo, é o picadeiro. “O circo é a minha família”, diz. Um de seus orgulhos é pertencer à linhagem de comediantes cearenses formada por nomes como Tom Cavalcante, Chico Anysio e Renato Aragão. “Estou no meio dos grandes, com a diferença de que sou o único circense entre eles”, distingue. O apelido “Tiririca” ele ganhou da mãe, Maria Alice, também circense. “Lá no Nordeste, se você tá nervoso, tá ‘tiririca da vida’”, ele explica. O nome pegou. Um dia, em meados dos anos 70, o palhaço oficial da companhia em que Maria Alice dançava e cantava faltou e o dono do circo perguntou se o menino Francisco teria coragem de “entrar de palhaço” no picadeiro. O então aprendiz não desperdiçou a oportunidade e arrancou risadas do respeitável público. “Fiquei com isso na cabeça: ‘Caramba, eu sou engraçado!’”, relembra.

Palhaço por vocação, Tiririca levou uma vida dura. Aos 18, tornou-se dono do próprio picadeiro. O pai, caminhoneiro, engravidou Maria Alice e não assumiu o filho, tampouco quis vê-lo. Ela casou-se então com Fernando Oliveira Silva, o “Palhaço Barata”, cujo sobrenome Tiririca herdou. Racista e beberrão, o padrasto batia nele e na mãe e dizia que o menino ia “dar pra maconheiro ou ladrão”. No dia do aniversário de 15 anos, o adolescente finalmente emancipou-se após “sair na porrada” com Barata. E propôs à mãe: “Se a senhora deixar esse cara, eu a sustento”. Como ela não largou o marido naquele momento, Tiririca foi correr mundo. Ele era nacionalmente famoso quando o padrasto, já separado de Maria Alice, morreu, atropelado por um caminhão. O verdadeiro pai, Tiririca veio a conhecer há cinco anos, mas na hora do encontro ficou indiferente. “Não consegui sentir nada”, diz. Porém, não esconde que a vida toda sofreu muito no Dia dos Pais.


Adolescente, Francisco Everardo foi à luta sozinho. Ingressou em uma companhia circense vinda de Minas Gerais, em que conheceu a filha do dono, a acrobata Márcia Rogéria, com a qual passou a viver e trabalhar. O casal passou por vários picadeiros até que, nos anos 80, fundou um circo que, ao melhor estilo Bye-Bye Brasil (o filme de Cacá Diegues) percorria Ceará, Piauí, Maranhão e Pará. Acrobata, malabarista, trapezista, locutor, mágico, cantor e dançarino, Tiririca foi pau para toda obra. Progrediu até comprar o primeiro animal de circo – um macaco-prego. Mas o bicho trouxe apenas incômodo. Certo dia, no interior do Maranhão, o animal mordeu uma menina, filha de um coronel da cidade. “Os capangas dele botaram fogo no circo e só conseguimos salvar a nós mesmos. Saímos fugidos”, diz Tiririca.

Do Maranhão, o casal circense voltou de carona para Fortaleza. Na capital, passou a trabalhar em praças, ruas, bares e restaurantes. Foi nessa época que Tiririca completou a indumentária com a qual, ainda hoje, é identificado. Passou a usar uma peruca loiro-oxigenada e a exibir um franco sorriso desfalcado do dente frontal – que virou, por muitos anos, uma marca registrada. Quem acabou tirando-o do ostracismo foi o produtor musical Arnaldo Saccomani, que conseguiu o primeiro contrato de Tiririca com uma grande gravadora. Sucesso e dinheiro vieram rápido, e enfim o artista pôde comprar “casa, carro e telefone”, enumera. Com a fama também veio o conturbado litígio com Márcia Rogéria, de quem se separou com estardalhaço. Deixou para a ex-mulher toda a fortuna que havia conquistado a partir do estouro da música “Florentina”. Após o divórcio, começou novamente do zero. (Hoje é casado com a atriz Nana Magalhães, que o ajudou a criar os filhos do primeiro casamento e com a qual tem outros três.)

Mesmo sem dinheiro novamente, o estrondoso sucesso de “Florentina” em 1996 (o “ano de ouro” de Tiririca) lhe garantiu condições para se reerguer. As redes de TV, que antes o rejeitavam, começaram a solicitá-lo. Quem primeiro notou o talento televisivo de Tiririca foi o ator (e hoje também deputado federal) Stepan Nercessian, na época produtor e caça-talentos do Domingão do Faustão. Na Globo, conforme diz Tiririca, inicialmente não lhe deram bola. Então, o primeiro programa nacional que fez foi no SBT. “Fiz o Gugu e metemos o pau na Globo. Engolimos a audiência do Faustão.” No domingo seguinte, Tiririca foi atração no Faustão.

“Fiquei nessas: um domingo na Globo e outro no SBT. E arrebentei”, comemora.

Primeiro palhaço profissional a chegar à Câmara pelo voto popular, o deputado Tiririca não exatamente mostrou ser a “piada sem graça” da qual os detratores riam. Em 2012, foi indicado ao título de Melhor Deputado do Ano no Prêmio Congresso em Foco, indicado por jornalistas que cobrem o Legislativo em Brasília. Venceu como o mais assíduo. Com tamanha popularidade, o parlamentar ainda não discursou no púlpito da Câmara, embora prometa fazer a primeira oratória em breve. Falará sobre si mesmo e para o povo, e não diretamente aos políticos. “O povo se identifica comigo, que vim do nada”, acredita. Tiririca elegeu-se em meio a uma propaganda eleitoral controversa: vestido de palhaço, apareceu entoando bordões provocativos. “O que é que faz um deputado federal? Na realidade, eu não sei. Mas vote em mim, que eu te conto”, foi a frase que mais causou burburinho. Tal marketing foi concebido por ele e pelos comediantes Ivan de Oliveira e José Américo, do grupo Café com Bobagem. Contratados também do programa A Praça É Nossa, do SBT, ambos representam o deputado em compromissos político-culturais em São Paulo. Embora legítima, a contratação dos humoristas, naturalmente, alimentou mais polêmicas.

De gosto duvidoso para alguns, a campanha de Tiririca causou irritação até mesmo entre aliados políticos do PT, partido com o qual o PR coligou-se nas eleições da capital paulista. Então candidata à Presidência, Dilma Rousseff não permitiu que seu nome fosse atrelado ao de Tiririca. O atual ministro da Educação, Aloizio Mercadante, na época concorrendo ao governo de São Paulo, chegou a se queixar publicamente do candidato do partido coligado. E também proibiu a veiculação de sua imagem associada à do palhaço, argumentando que política é “coisa séria”. “Ou o candidato tem discurso sério ou o meu nome sai da tela”, decretou. Hoje, porém, quem se queixa de Mercadante é Tiririca. Desde junho de 2011, o parlamentar aguarda do MEC os dados estatísticos sobre a educação de artistas circenses. Na requisição, Tiririca também quis saber sobre a quantidade de alunos em idade escolar e de professores que acompanha essa população, a frequência escolar e a entrega de material didático para esses estudantes. E ainda questionou se as artes circenses estão contempladas nos Parâmetros Nacionais Curriculares (PCN), as diretrizes orientadoras da educação para os ensinos médio e fundamental (esta reportagem entrou em contato com o Ministério de Educação, mas também não obteve resposta).

O pouco caso do MEC com a educação de circenses de certa forma explica o analfabetismo ou, como prefere o deputado, a “semialfabetização” de Tiririca, uma das razões pelas quais ele foi bombardeado por críticas após eleito. Logo após assumir o mandato, o Ministério Público Eleitoral o apontou como analfabeto e, dessa forma, ele corria o risco de não ser efetivado no cargo. O juiz eleitoral Aloísio Sérgio Rezende Silveira entendeu que não houve evidências que comprovassem que o candidato fosse, realmente, analfabeto. À Justiça Eleitoral, Tiririca disse que não havia concluído nem o primário – sabia, no entanto, ler e escrever. Quando criança, a mãe dele contratou os serviços de uma professora durante certo período. Aula formal mesmo, teve apenas durante um ano, quando ficou sob os cuidados da avó. O restante da educação ele recebeu no circo, onde o professor tinha de dar aula para todos os artistas ao mesmo tempo. “É complicado, amigo, pra caramba”, define. “Eu passei por isso. No circo você quer aprender coisas de circo, vai se interessando por aquilo e o colégio vai ficando para trás. Você começa a se achar artista e vai ‘coisando’ cada vez mais.”


No álbum Direto de Brasília, o sexto da trajetória musical de Tiririca, ele tenta se vingar dos detratores em um dos trechos da música “Estou no Poder!”: “Me criticaram bastante, disseram que eu não sabia ler / Fizeram muitas fofocas, que eu não sabia escrever / Fiz o teste, passei e todo mundo viu / E os que me criticaram vão pra...” Tiririca diz ter ficado feliz quando “aquele apresentador” do Jornal Nacional [William Bonner] teve de dar a notícia de que o deputado eleito não era analfabeto, após dias de repercussão no telejornal. Não pense, entretanto, que o palhaço não sabe rir das piadas que protagoniza. O personagem “Tititica”, do programa Pânico é, para ele, uma das imitações mais divertidas. “Eu rio demais! Não conheço o comediante que faz [Eduardo Sterblitch], mas não vejo como crítica. Demonstra que o cara me assiste, é uma homenagem bacana.”

Uma das propostas do parlamentar Tiririca propõe a criação de uma “bolsa-alfabetização” para adultos que concluírem curso para aprender a ler e escrever. O projeto fixa o valor de um salário mínimo para o benefício, concedido a alunos que tiverem ao menos 85% de frequência e conseguirem escrever e ler em sala de aula uma redação de tema livre. No texto da proposta, ironizado por opositores, Tiririca justificou que o benefício tem a “finalidade de estimular o aprendizado da leitura e da escrita”. Outros dois projetos tratam da criação de um “vale-livro” para alunos da rede pública e de serviços de assistência social para profissionais do circo, o qual vem sendo chamado de “bolsa-palhaço”. É uma alusão clara ao programa Bolsa Família, que Tiririca acha “fantástico por ter dado uma melhorada legal” na situação da população do Norte e Nordeste. Conta que seu irmão, residente em Fortaleza, recebe o benefício. Tiririca tem 27 irmãos (18 por parte de pai e oito pelo lado da mãe), mas apenas ele inclinou-se na vida circense. Conta brincando (mas falando sério) que a profissão dos parentes, hoje sustentados por ele, é “irmãos do Tiririca”. O palhaço repassa dinheiro à mãe, que o redistribuiu aos irmãos, em uma espécie de “bolsa-família-da-família”. “Eu falo pra eles: ‘Vão aprender um trabalho. Quando mamãe morrer, vocês tão mortos!’”, diz.

Outro dos projetos dele visa questionar a mecânica de funcionamento das leis de incentivo à cultura, que não beneficiariam a produção popular por ela encontrar-se fora da mídia. Companhias internacionais de grande porte, como o Cirque du Soleil, obtêm milhões em incentivo – dinheiro que é deduzido de instituições nacionais, como a Petrobras. Já as companhias nacionais (são aproximadamente três mil circos, segundo estimativas da União Brasileira de Circos), em maioria, não conseguem receber recursos provenientes de tais leis. Mas por que os políticos, o governo e, especialmente, as empresas patrocinadoras não se interessam pelo circo brasileiro? Nem mesmo Tiririca, que há 40 anos vive de “malabarismo”, sabe explicar a discrepância. “Não sei, juro pra ti. O circo que vem de fora tem, pelo contrário, uma abertura muito grande”, diz, citando o exemplo do Cirque du Soleil. “Porra, por que não patrocinam o nosso circo?”

A verdade é que nem o Palhaço Tiririca nem Francisco Everardo Oliveira Silva conseguiram se adaptar ao tablado da política nacional. A principal reclamação do deputado em relação ao trabalho no Congresso é que não adianta muito apresentar projetos. “Não vai para canto nenhum”, diz. “É muito complicado, o lance da mecânica: é interesse próprio, de governo, de partido.” A consciência, ele garante, está limpa: “Faço o que um parlamentar deve fazer”. Ou seja, na concepção dele, apresentar projetos de acordo com o que é bom para o povo e não faltar de jeito nenhum às votações. Tiririca diz que não quer ficar igual a certos parlamentares, notórios por passarem a vida no Congresso sem nunca terem aprovado um projeto sequer. E sabe que, se quiser, tem bala na agulha para se reeleger. “Eu tiro 150 mil votos brincando. Posso me aposentar aqui”, brinca. Se deixar a política, tem destino certo: o circo. “Eu saí do circo, mas o circo não saiu de mim. No momento, eu apenas ‘estou político’. Não tem como eu deixar de ser palhaço.” Outro motivo que fala mais alto na decisão de abandonar Brasília é o financeiro: a atividade parlamentar lhe faz perder dinheiro. Em cada apresentação que faz como Tiririca, sempre nos fins de semana, consegue ganhar pelo menos R$ 60 mil por noite. “O que eu ganho no Congresso [por mês] é menos do que em um show”, afirma.

É o começo da tarde de uma terça-feira, primeiro dia de expediente parlamentar, quando os políticos retornam em massa para Brasília. Assim que Tiririca chega à Câmara dos Deputados e desce do carro oficial, começa a ser assediado por todos os flancos. No Salão Verde, um dos pontos de encontro mais disputados do Congresso, Tiririca aproveita para desmentir os boatos que surgiram naquele mesmo dia, de que estaria “conhecendo melhor” a colega de Rede Record Geisy Arruda. Os dois foram vistos – acompanhados de outras pessoas, ele faz questão de frisar – jantando em um restaurante de hotel. Tiririca reclama da imprensa (“extremamente perigosa”) e diz que o rumor ocasionou problemas em casa. “Eu e a Geisy somos apenas amigos. Isso [a falsa notícia] quase acaba com o meu casamento.” A morte de Chorão, vocalista do Charlie Brown Jr, foi outro assunto que abalou Tiririca. Eles se tornaram amigos durante a produção do filme O Magnata, cujo roteiro foi escrito por Chorão e no qual Tiririca interpretou “Elvis Brow”, o dono de um cabaré. “Eu cantava e tinha uma porrada de puta em volta”, brinca, dizendo nunca ter usado drogas. “Sou contra”, afirma. “Gosto de cerveja e de cachaça. Sou bom na cachaça. Meto a ‘chibata’ pra dentro mesmo.”

Circular ao lado de Tiririca pelo Congresso não é tarefa fácil. Todos – anônimos, funcionários, repórteres, políticos – querem pegar um pedacinho dele, fotografar, pedir autógrafos, papear, beijá-lo, tocá-lo. O assédio impressiona e assombra. Nenhum outro político por ali é tão procurado. Muitos enxergam nele uma espécie de “tábua de salvação” para os problemas. O desejo de Tiririca, notório mão aberta e coração mole, era poder ajudar a todos. A possibilidade, no entanto, está fora de seu alcance, seja como político, seja como artista. Ainda assim, ele tenta. “As costas de Tiririca são ‘ardidas’ de tanto ajudar os outros”, cochicha a assessora política dele. Diariamente, recebe os mais diferentes pedidos de auxílio – “qualquer sonho, até mesmo para tornar-se jogador de futebol”, diz o palhaço-deputado. Certas histórias poderiam até virar munição para um arsenal de anedotas, como, por exemplo, a do garoto que há anos tenta convencê-lo a levar uma das composições dele ao cantor espanhol Julio Iglesias. Mas fica evidente, caminhando ao lado do homem, que carinho não é mero combustível para piada. O maior orgulho da vida de Tiririca, ele revela enquanto nos deixamos levar pela escada rolante do Congresso, é ser benquisto por todos.

“Ser um cara querido é tudo!”, ele diz, abrindo o sorriso largo de palhaço.