Deu a Louca nas Garotas da Disney

Drogas, crimes e biquínis: por dentro de Spring Breakers, o filme mais debochado do ano

Josh Eells | Tradução: Ana Ban Publicado em 12/04/2013, às 12h41 - Atualizado às 12h44

FESTEIROS James Franco, Ashley Benton (à esq.) e Vanessa Hudgens vão aos extremos em Spring Breakers

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Quando as primeiras notícias sobre Spring Breakers (sem previsão de estreia no Brasil) começaram a sair, parecia que seria um caso clássico de exploração sexual mútua na indústria do cinema. O filme sobre quatro universitárias que dão início a uma onda violenta de crimes tem as participações das estrelas teen Selena Gomez e Vanessa Hudgens, dirigidas pelo cineasta provocador Harmony Korine. As mocinhas ingênuas teriam um “momento adulto”, enquanto Korine teria a oportunidade de filmar musas fofinhas da Disney balançando os peitos na praia. “Quanto biquíni e quanta bunda, pessoal!”, como diz James Franco na pele de seu personagem, um rapper chamado Alien. “Isso é que é vida!”

Acontece que Spring Breakers é muito mais do que isso: é uma interpretação subversivamente conservadora da cultura das “girls gone wild”, um olhar nos efeitos que os reality shows e a internet surtem nas crianças. “Trata-se de um mash-up e de uma ‘refiltragem’ de tudo isso”, diz Korine. Como não é muito de dar respostas diretas, ele diz que a intenção era fazer com que o filme “parecesse mais uma experiência com drogas do que uma narrativa tradicional”, e o chama de “ambíguo” e “pós-articulado”. Mas talvez o melhor resumo seja a descrição que ele faz da música “Everytime”, de Britney Spears, trilha para o clímax emocional do filme: “Sempre pensei nela como pegajosa e bem pop, mas, por baixo, sempre houve um certo tipo de ameaça”.

Esta é uma manhã de sol em Nashville, e Korine está acomodado em uma mesa de piquenique no pátio do apartamento que usa como escritório. Ele acabou de voltar de uma semana de estreias na Europa – Paris, Berlim, Roma (“Havia 7 mil garotos berrando na rua. Foi o mais perto que eu já cheguei de ter um momento Justin Bieber”) – e parece um pouco cansado, com olhos pesados e fios grisalhos na barba. A certa altura, ele corre para trás de uma árvore para fazer xixi – um gesto clássico de Korine, que ele incluiu no roteiro do inovador e polêmico Kids (1995). Quando volta, manca um pouco, uma sequela de uma fratura no tornozelo que sofreu há mais de uma década, enquanto filmava um título que nunca foi finalizado, Fight Harm, em que puxava briga com desconhecidos grandes e nervosos enquanto um amigo filmava do outro lado da rua. “Eu só queria fazer a maior comédia de todos os tempos”, ele diz com um sorriso torto. “Há muitas razões para justificar que essa seja uma ideia equivocada.”

Korine construiu uma vida em cima de ideias equivocadas – de seus clássicos cult do indie, incluindo Trash Humpers e Gummo, até questões mais pessoais, como a afiliação dele com a turminha mal-afamada de Leonardo DiCaprio no final da década de 90, a “Pussy Posse”; o uso constante e notório de crack; um período de refúgio na floresta do Panamá; e dois incêndios acidentais em casa. (Para falar a verdade, ele não estava em casa em nenhum deles, e está completamente livre de drogas há mais de uma década.)

Apesar de não faltar deboche a Spring Breakers – incluindo uma bomba de maconha feita com uma boneca, uma ménage-à-trois na piscina, um roubo violento em uma barraca de frango frito e uma felação longa e homoerótica de uma pistola carregada com um silenciador –, o longa também consegue ser suave, até doce, com uma espécie de camaradagem de girl-power que poderia quase ser chamada de feminista. “As pessoas sempre dizem: ‘Falta moralidade aos seus filmes’”, Korine afirma. “Mas sei que o meu coração é puro. Era importante para mim que as meninas também sentissem isso. Que, no fim, o filme ficasse mais para o lado do que é correto.”

Korine, 40 anos, foi criado perto das praias da Flórida, mas nunca foi muito apreciador dos spring breaks [as férias de primavera em que os universitários norte-americanos costumam enfiar o pé na jaca]. “Passei os meus verões em São Francisco andando de skate e dormindo em telhados”, diz. Ele teve a ideia para o filme, passou vários meses pesquisando o imaginário das fraternidades e de sites pornôs de universitárias e escreveu o roteiro em dez dias movidos a Diet Coke em Panama City Beach – por coincidência, durante o spring break.


“Fiz o check-in no hotel, e parecia que tinha caído uma bomba”, ele diz. “Garotos trepando pelos corredores, todo mundo vomitando em cima de você, tocando Taylor Swift no volume máximo – era insuportável. Fui para outro hotel e a mesma coisa aconteceu, então peguei o carro, dirigi 20 minutos até um Marriott em um campo de golfe. Entrei e vi um monte de anões. Pensei: ‘Ok, isto vai dar certo’.”

Foi após assistir aos filmes da Disney com a filha de 4 anos, Lefty, que Korine teve a ideia de convidar Selena e Vanessa. Mas a arma secreta acabou sendo a mulher dele, Rachel, que também é uma das protagonistas e passou segurança para o resto das meninas. “Eu precisava de alguém que pudesse ser ousada e destemida”, diz. “Não havia nada que eu pedisse e ela se recusasse a fazer” – incluindo tirar a parte de cima do biquíni e atiçar garotos bêbados com uma musiquinha sobre partes íntimas. “Na verdade, isso saiu dela”, ele exclama.

O filme foi rodado em St. Petersburg, na Flórida, durante o spring break, quase sempre fugindo de paparazzi e milhares de bêbados maconheiros. “O clima era furioso e frenético”, Korine diz. “Tinha um caos naquilo. Um tom sinistramente intenso.” Uma das cenas fundamentais se passa em uma piscina de aparência tosca. “Era supernojento”, ele diz. Misture a isso uma trilha sonora meio trance, meio dubstep, de Skrillex e o compositor de Drive, Cliff Martinez, e músicas de gente como Rick Ross e Gucci Mane, e o resultado é um filme que parece, como define Korine, “como se tivesse sido iluminado por balas coloridas”.

Apesar de fazer filmes esquisitos desde quando tinha a idade de Selena Gomez (20 anos), Korine espera que Spring Breakers seja um ponto de mudança. “É chato só fazer filmes para o mesmo público uma vez após a outra”, ele diz. “Quero fazer o trabalho mais radical possível, mas lançar do modo mais comercial possível.” Ele diz que já começou a pesquisar o próximo projeto: “Quero entrar com tudo. Do ponto de vista criativo, do ponto de vista do estilo, vou entrar de cabeça. Meu sonho sempre foi me infiltrar no mainstream. Sempre achei que essa era a maneira certa de causar danos sérios”.