Do Começo ao Fim

Vivendo no limite e buscando incessantemente respostas, Chorão alcançou o sucesso, colecionou fãs e propagou mensagens. Mas nada foi suficiente para que ele conseguisse salvar a si próprio

Maurício Monteiro Filho Publicado em 30/04/2013, às 16h57 - Atualizado às 17h10

<b>MEU NOVO MUNDO</b> Chorão, morto aos 42 anos: a tragédia revelou as fraquezas do cantor, mas deverá reforçar o mito para futuras gerações de fãs

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As condições em que Alexandre Magno Abrão, o Chorão, foi encontrado sem vida, na madrugada de 6 de março, em um apartamento de alto padrão, na zona oeste de São Paulo, aproximaram a crônica roqueira do jornalismo policial. • Comprimidos, bebidas e uma substância branca em pó em abundância pareciam um parque de diversões da mente, elementos que poderiam explicar tudo o que os ávidos por explicações esperavam. Um cenário trágico e decadente, capaz de reduzir 20 anos de carreira, dez álbuns, milhões de cópias vendidas, dois prêmios Grammy Latino, um longa-metragem de ficção, uma legião de fãs e outra, menor, de adversários, à desolação de um apartamento revirado, com pouca mobília e um corpo estirado na cozinha. Somava-se então mais um rótulo à extensa coleção de Chorão. Caso encerrado, opinião pública satisfeita.

Mas é o próprio artista quem pode apontar a armadilha desse raciocínio precário. Na desconcertante profecia que é “Meu Novo Mundo”, última música com a voz de Chorão que veio a público, lançada no dia em que o corpo foi encontrado, um dos versos diz: “Não sei como termina, mas sei como começa”.

O público, ao contrário, sabe como termina. Os laudos periciais tornaram definitivo aquilo que antes era apenas especulação: as substâncias espalhadas pelo apartamento foram a causa da morte do vocalista e principal letrista da banda Charlie Brown Jr, aos 42 anos. Segundo o IML, o músico tinha 4,714 microgramas de cocaína por mililitro de sangue, o que levou a uma overdose. Termina com uma torrente que carrega uma infância dura, iniciada em São Paulo e encerrada em Santos, um histórico de comportamento tão explosivo quanto reservado, separações controversas (de integrantes da banda e de duas esposas) e atritos públicos com afetos e desafetos, e aflui para o isolamento. Primeiro, ainda em Santos, quando, há cerca de um ano, Chorão intensificou o mergulho na cocaína e em medicamentos controlados. E, seis meses antes da morte, na mudança para São Paulo, quando passou a ficar quase inacessível, encontrando os parceiros de grupo apenas para ensaiar – quando não faltava aos ensaios – ou instantes antes dos shows.

Exclusivo: veja fotos de Chorão ainda criança, com a família e amigos.

Segundo Itagiba Franco, delegado do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, que comanda as investigações, os depoimentos coletados indicam que Chorão vivenciava um processo autodestrutivo. “Algo em seu interior não estava bem. Ele estava manifestando um descaso pela vida”, diz. De acordo com Franco, dias antes de ser encontrado morto, Chorão passou por vários hotéis. No último, se desentendeu com funcionários por achar que estava sendo perseguido ou fotografado. Por isso, na segunda-feira, 4 de março, voltou ao apartamento do qual era proprietário, no bairro de Pinheiros.

A perícia indicou que Chorão morreu um dia e meio antes de o corpo ter sido encontrado pelo motorista Kleber Atalla, às 4h30 da manhã da quarta-feira. Vizinhos chegaram a ouvir muito barulho vindo do apartamento. Móveis e um ar-condicionado foram depredados.

O delegado Franco havia tido noites turbulentas anteriormente por causa de Chorão. “Levei minha filha a muitos shows do Charlie Brown Jr.”, declarou. E então o artista lhe tirou o sono uma última vez. É assim que termina.

"E aí, como é que tá esta entrevista? Como é que começa? Como é que termina? Qual é o meio? Qual que é a parada?”, questiona o guitarrista Thiago Castanho. Ele acaba de chegar ao estúdio localizado em Santos, onde já estão os outros integrantes do Charlie Brown Jr.: o também guitarrista Marcão, o baixista Champignon e o baterista Bruno Graveto.

Apenas três semanas após a tragédia, esta é a primeira entrevista para um veículo jornalístico impresso daqueles que mais conviveram com Chorão. Exceto por Graveto, que se juntou ao grupo em 2008, Marcão, Thiago e Champignon são o que resta da formação original do Charlie Brown Jr.

O clima no ambiente era ameno, apesar de defensivo. “Tem dias bons e dias ruins”, define Castanho, 38 anos. “E hoje é um dia ruim.”


Diante da caça às bruxas promovida pela mídia em torno do caso, os músicos haviam optado pelo silêncio. Durante a semana que antecedeu esta conversa, eles discutiram como seria o futuro da banda sem Chorão. Quando finalmente se decidiram a falar, foi somente com a intenção de preservar o passado.

Começou mais de 20 anos antes, em 1991, com o encontro de Chorão e Champignon, que tinha apenas 12 anos na época. Depois, vieram as guitarras de Thiago e Marcão e a bateria de Renato Pelado. Os primeiros sons da banda eram em inglês, pesados, com influências de Biohazard e Suicidal Tendencies. Decidiram gravar uma fita demo, mas estavam sem dinheiro. Champignon já tinha vendido um baixo para ajudar a pagar a conta. Para inteirar o valor, Chorão decidiu se arriscar. Ele morava com o pai, seu Geraldo, e teve a ideia de vender a única TV que a família tinha, sem o consentimento paterno. Ele e Thiago pegaram o modelo de 29 polegadas e a levaram ao dono de uma loja. Na hora de tirá-la do carro, Thiago não aguentou o peso e deixou o equipamento cair. Por sorte, o comprador não viu a queda – nem o estrago feito no vidro do aparelho. Os dois pegaram o dinheiro e fugiram o mais rápido que puderam.

Além da propensão a episódios desastrados, a cena evoca uma característica sempre citada de Chorão: o altruísmo. As pessoas mais próximas ao músico o descrevem como alguém que se importava com o próximo. Fosse por meio de doações ou pela própria entrega e dedicação, Chorão dava um jeito de ajudar quem precisava. Os companheiros de banda relatam que uma das principais inspirações para a composição da música “Só os Loucos Sabem” foi o fato de o vocalista ter sido avisado de que um jovem havia morrido em um acidente de moto quando ia a um show do Charlie Brown Jr., que era o grande sonho dele.

Graveto recorda outro caso: antes de certo show em Salvador, a van que levava a banda passou por um morador de rua. Chorão se mostrou incomodado. Alguns metros adiante, pediu que o veículo parasse. Como não era possível fazer um retorno, ele mesmo desceu do carro e correu até o mendigo para dar a ele todo o dinheiro que tinha no bolso.

Após o segundo disco, Preço Curto... Prazo Longo (1999), a banda começou de fato a ganhar algum dinheiro. Foi quando Castanho percebeu que a benevolência podia atentar contra o próprio Chorão. “Ele deu tudo pra todo mundo. E esqueceu um pouco dele”, diz.

Apesar de se incomodar com a fama de bad boy espalhada na mídia, angariada principalmente em casos notórios – como a briga com Marcelo Camelo em 2004 ou mesmo o atrito público recente com Champignon –, Chorão não explorava a caridade para se redimir. Depois da morte do pai em 2007, poucos ficaram sabendo que o músico havia feito uma doação ao Hospital de Câncer de Barretos, referência nacional no tratamento da doença. Chorão optou por um setor mais humilde da instituição para homenagear com o nome do pai – o alojamento dos motoristas, que agora leva o nome de Geraldo Abrão de Jesus. Essa dimensão da personalidade do artista não se manifestava somente em doações em espécie. Funcionava, também, como uma entrega pessoal, que se apresentava aos outros integrantes da banda na forma de motivação e estímulo.

Champignon recorda que Chorão alternava, no toca-fitas, a demo gravada com o dinheiro da TV vendida e um álbum do Sepultura. Dizia, pilhado: “A gente é grande igual a esses caras!”

Marcão, ou Marco Antônio Valentim Britto Júnior, 42 anos, concorda. Nos cerca de seis anos que passou afastado da banda, o guitarrista percebeu ainda mais nitidamente a importância de Chorão para a manutenção e a longevidade do Charlie Brown Jr. “Eu vi que ele acreditava no potencial de cada um de nós”, diz. “Às vezes mais do que a gente mesmo.”

A famigerada demo financiada pela TV roubada de seu Geraldo foi a grande responsável pelos primeiros shows do Charlie Brown Jr. A fita foi entregue a Cecília Mãe, da revista Tribo Skate, figura ativa na cena do esporte, e que organizou para a banda apresentações em eventos de skate.


Mas foi o contato com o produtor Tadeu Patolla, que Castanho reputa como o descobridor da banda, que os conduziu ao rumo do estrelato. Foi ele quem sugeriu as letras em português. No processo de renovação do idioma, o som também se transformou. O peso das guitarras deu lugar à mistura de gêneros – hip-hop, reggae, ska e hardcore – que se tornaria a marca do grupo. O caminho teve forte influência do baterista Pelado, que embutiu conceitos desses estilos diversos. “Ele foi o nosso Brian Jones”, brinca Castanho. Já o hip-hop surgiu por influência de Marcelo D2: Chorão sabia de cor as letras do primeiro álbum do Planet Hemp, Usuário (1995). “Na época, a gente já tinha uns 200, 300 fãs”, o guitarrista continua, “e a galera que ouvia o som novo, mais acessível, dizia que a gente tinha se vendido”.

Com o novo estilo tomando forma, mas sem dinheiro para investir em novas gravações profissionais, a banda apelou para um porta-estúdio, um modelo Tascan de quatro canais em fita. O aparelho recebeu até um apelido, autoexplicativo: “Alonsonteste”. Nele, foram gravadas as principais faixas da demo que mudou em definitivo a história do Charlie Brown Jr. e trouxe Chorão para mais perto do sonho do sucesso – e, consequentemente, de todo um novo mundo.

Foram 42 músicas gravadas, incluindo todas que estariam no primeiro álbum, além de algumas do segundo. Por intermédio de Patolla, as canções foram parar nas mãos de Rick Bonadio, que viria a produzir vários álbuns do grupo.

Transpiração Contínua Prolongada, primeiro álbum do Charlie Brown Jr., foi lançado em 1997. Vendeu 500 mil cópias. E o Charlie Brown Jr. estourou.

Com o sucesso, veio o desafio de vencer a “síndrome do segundo disco”. Chorão, por sua vez, só pensava que era a hora de mostrar serviço. “A gente tem que provar todo dia quem a gente é”, ele gostava de afirmar. E lutou para fazer um novo álbum com 25 músicas.

“Ele tinha muito carinho pelo trabalho e brigava por cada coisa. Era um cara visionário. Parecia que sempre estava um pouco à frente”, exalta Castanho. Se acreditava em uma ideia, o vocalista teimava com ela até o fim. Marcão lembra que Chorão decidiu bancar do próprio bolso uma parte da produção do clipe de “Não Deixe o Mar Te Engolir”, já que a gravadora, Virgin Records, não quis arcar com todos os custos.

No terceiro disco, Nadando com os Tubarões (2000), o sucesso nacional já era uma realidade para o Charlie Brown Jr. – e, com ele, vinha toda uma gama de distrações. Segundo os companheiros, Chorão nunca se deixou deslumbrar pelo estrelato. “Ele manteve o jeito largadão, a vida simples”, define Marcão. “Ele sempre teve um temperamento forte e você ouvia as pessoas dizerem: ‘O sucesso subiu à cabeça dele’. Mas não era isso. Ele sempre foi assim, desde que a gente o conheceu.”

Não fazia assim tanto tempo que, por dificuldades financeiras, Chorão vivenciou um despejo, que o acabou levando a dormir por dois meses em uma sala de ensaio que o grupo havia alugado. A experiência rendeu uma letra, “Confisco”. Antes disso, morou em um flat, que os parceiros de Charlie Brown Jr. recordam como completamente caótico, tamanha a baderna. “Depois de um show do Dog Eat Dog, estava tarde e eu acabei dormindo lá”, lembra Champignon, ou Luiz Carlos Leão Duarte Junior, 34 anos. “Ele afastou umas roupas e mostrou onde era pra eu dormir. Não tinha luz, era tudo na base da vela. E eu ouvia o barulho das baratas enquanto tentava pegar no sono.”

Explosivo, humilde e baderneiro como sempre foi, Chorão passou então a dominar as paradas de sucesso nacionais. “A gente teve de aprender a lidar com a fama, com os amigos, com os interesseiros e com a gente mesmo”, reflete Castanho. “Mas com o Chorão a coisa era pior, porque ele não podia mais sair na rua.”

Naquele momento, a banda ensaiava em uma mansão alugada no Jardim Acapulco, bairro nobre do Guarujá. Foi quando o líder do Charlie Brown Jr. teve de encarar a maior perda da vida dele. “O baque maior pra ele”, diz Castanho, “foi ver que nem o sucesso foi capaz de salvar o pai”.

É assim que começa.


E é assim que começa o fim. Porque ter se tornado justamente a pessoa que sonhava ser quando ganhou o apelido nas pistas de skate, antes mesmo de se tornar um skatista habilidoso e depois um artista bem-sucedido, também não foi o suficiente para que Chorão salvasse a si próprio.

“Tu sabe qual é o papo reto?”, Thiago Castanho exclama. “Dinheiro e sucesso não trazem felicidade pra ninguém. Se trouxessem, esse cara estaria vivo. Felicidade tem que vir de dentro. Eu cheguei à conclusão, aqui, hoje, trocando essa ideia com você, de que o cara não era feliz.”

“Quando ele estava bem, podia animar o mundo inteiro”, relembra Marcão. Foi assim em certa turnê em que o Charlie Brown Jr. usava um ônibus frequentemente locado para outros grupos. Chorão descobriu a bordo os letreiros, com os nomes dos outros artistas, e decidiu que a banda viajaria com a placa “Chitãozinho e Xororó” pendurada no veículo. Não demorou para que, a cada parada, fãs dos sertanejos batessem à porta, querendo falar com Chitão. Mas quem os recebia era Chorão, sorridente, esparramado nos últimos bancos do ônibus.

Mas, assim como os bons momentos eram intensamente bons, os baixos eram intensamente baixos. Aos poucos, os colegas notavam o afastamento progressivo de Chorão da realidade. “Por esse lance que aconteceu entre ele e o Champignon, a gente viu que ele não estava bem”, fala Castanho, se referindo ao show em Apucarana (PR) em setembro de 2012, quando o vocalista criticou o baixista por longos minutos ao microfone, diante da plateia perplexa.

Fotógrafo que acompanhou a banda na estrada desde 2005, Jerri Rossato relata que uma das músicas que Chorão mais escutava nos últimos tempos era “Hurt”, do Nine Inch Nails (que ficou famosa também na interpretação de Johnny Cash), cuja letra começa assim: “Hoje eu me machuquei/ Pra ver se eu ainda sinto/ Eu foco na dor/ A única coisa real”.

“Ele estava querendo dizer coisas. Escrevia letras chorando por horas”, diz Castanho.

Essa atmosfera sombria se alternava com momentos de clarividência e criatividade. A banda revela que o próximo álbum do Charlie Brown Jr., que Chorão deixou inacabado, trará algumas das composições mais pessoais do músico, além de elucidar muito do que ele vivenciava solitariamente nos últimos tempos.

Uma dessas músicas, “Meu Novo Mundo”, tocada em rádio pela primeira vez dias antes da morte de Chorão, carrega uma incômoda aura premonitória. “Foi uma noite muito legal, no Recife”, Castanho recorda a data em que escreveu a faixa ao lado do amigo. “A gente pediu todos os rangos do hotel e ficou das 8h da noite até as 8h da manhã comendo e tocando. Eu achava que ‘novo mundo’ era um lugar onde ele queria estar, mas não nesse sentido. Um novo mundo, uma nova vida. Aí o cara morre, velho? E fica a música? Eu não consigo ouvir essa canção. Eu fico deletado, cara.”

Todos os integrantes do Charlie Brown Jr. oscilam entre expressões endurecidas e atordoadas. Mas o rosto de Champignon é o único de onde escorrem lágrimas, uma única e contida vez – não por acaso, quando o tema da conversa é o fim ou quando eles tentam explicar os motivos desse fim. Pela proximidade de mais de 20 anos de amizade, e também pela briga vexaminosa de seis meses antes (eternizada em vídeos no YouTube), a morte parece reverberar mais sentida no baixista. E, graças ao papel formador que o amigo teve na vida dele, Champignon afirma que soube relevar e superar o conflito. Após isso, por um breve momento, pareceu que o arrependimento até contribuiu para que Chorão se reaproximasse da banda.


“Eu aproveitei isso pra tentar trazer ele pra gente. Pra que ele visse o quanto era legal tudo que a gente construiu junto”, diz Champignon. “Mas então ele começou de novo em um processo de isolamento. Até que tiramos essas férias. E aconteceu que nunca mais tocaremos juntos.”

Três meses antes de morrer, Chorão deu um bilhete a Champignon, sem explicação. “Se o tempo é rei, não te impõe limites. CH.” O baixista guarda até hoje a nota na carteira.

A verdade é que o tempo já não era mais tão rei na vida de Chorão. Há muito a trajetória dele era guiada por outros óbvios parâmetros. Durante horas de conversa, o assunto foi polidamente desviado por todos: a banda evitando ao máximo a menção às drogas; eu evitando ao máximo a menção irresponsável às drogas. Mas era preciso falar sobre elas. Afinal, parece estupidez continuar a perder jovens talentos porque não sabemos lidar de forma racional com o abuso de drogas.

Restou a Champignon escancarar a ferida. “É difícil alguém que tenha esse problema assumir, porque é julgado e malvisto. Às vezes, não há saída para uma pessoa que tem o problema e precisa de ajuda”, diz. “Expor é impossível, porque a sociedade julga e culpa. Já tive meus erros. Sou um cara do rock. Sou um cara que vivo a vida. Tive de me superar.”

“Um cara que vive essa realidade precisa querer se ajudar primeiro”, diz Castanho. “Alguém como o Chorão você não amarra e leva pra algum lugar.” Até porque, no entender dos amigos, ele tinha forças de sobra para sair dessa sozinho. Chorão não cabia em um só rótulo – era alguém, como define Rossato, “persistente e talentoso, que conseguia transformar as piores situações em experiências inspiradoras e de muita positividade”. “O lema dele era dar a volta por cima”, concorda Castanho.

Chorão pensava e falava sobre o futuro, e sabia que, para vivê-lo, teria de mudar. “Falamos sobre os novos shows da agenda, e ele comentou que estava buscando forças pra seguir em frente, fazendo os shows da melhor forma possível”, recorda Rossato.

Além do álbum, Chorão se dedicava a projetos: um livro de fotos, um documentário e o roteiro de um filme cujo título já estava definido: O Cobrador.

A linha que separa o auge da ascensão e a vertigem da queda livre é muito tênue, oscilando conforme a perspectiva. Nos depoimentos das pessoas próximas a Chorão, em especial os integrantes da banda e a ex-mulher dele, Graziela Gonçalves, dois sentimentos transparecem mais: um sofrimento incomensurável e uma sensação de culpa. Talvez o tempo seja rei no que diz respeito ao sofrimento, mas nada justificaria a culpa, de parte a parte. Essa é uma das raras situações em que todos os envolvidos são vítimas. E Chorão é a maior delas.

Não será mais o artista, na forma explosiva que lhe era característica, quem seguirá inspirando fãs, mas sim a memória dele. A tarefa para tanto está nas mãos dos companheiros de 20 anos de estrada. Dos escombros da tragédia, Champignon, Graveto, Marcão e Thiago já definiram: sem Chorão, não há como continuar com o Charlie Brown Jr. Mas o quarteto formará uma nova banda, não sem antes prestar as homenagens ao amigo. “A gente decidiu montar um grupo”, conta Champignon, “que vai se chamar A Banca. Para eternizar o Charlie Brown Jr. do jeito que ele foi: animando a galera, botando o bagulho pra baixo, fazendo tremer mesmo os shows.”

Para este ano, os planos do quarteto são fazer uma turnê em tributo a Chorão e ao Charlie Brown Jr. Já para 2014, a promessa é o lançamento de um álbum do novo grupo, só com músicas inéditas.

“A gente podia se afundar de vez ou transformar a tragédia em aprendizado”, diz Thiago Castanho. Ele e os parceiros de A Banca optaram pela segunda alternativa.

Chorão, por sua vez, deve ter iludido o cobrador, saltado a catraca de skate e saudado Johnny Cash com os versos finais de “Hurt”: “Se eu pudesse começar de novo / a um milhão de milhas de distância / Eu me preservaria / Eu encontraria um caminho”.